Síndrome de raynaud e o cirurgião dentista

Síndrome de raynaud e o cirurgião dentista

(Parte 1 de 2)

UNIVERSIDADE VALE DO RIO DOCE

FACULDADE DE CIÊNCIAS DA SAÚDE - FACS

CURSO DE ODONTOLOGIA

JULIANA MENEZES MEIRELES

MARIZA ANGÉLICA SALOMÃO

PEDRO RAMOS DE MATTOS

SARA VERÔNICA FREITAS XAVIER

SÍNDROME DE RAYNAUD

A relação entre a Síndrome de Raynaud e o Cirurgião-Dentista

Governador Valadares/MG

2009

JULIANA MENEZES MEIRELES

MARIZA ANGÉLICA SALOMÃO

PEDRO RAMOS DE MATTOS

SARA VERÔNICA FREITAS XAVIER

SÍNDROME DE RAYNAUD

A relação entre a Síndrome de Raynaud e o Cirurgião-Dentista

Trabalho apresentado à professora Andrea B. do Valle, da disciplina Fisiologia II como requisito para avaliação.

Governador Valadares/MG

2009

RESUMO

Síndrome de Raynaud é uma perturbação da circulação sanguínea principalmente das mãos, nariz, orelhas, e língua. Trata-se de uma reação exagerada de vasoconstrição dos pequenos vasos sanguíneos perante estímulos como o frio, ou estímulos emocionais, ocorrendo uma sucessão de alterações repentinas e consecutivas da coloração dos dedos, às vezes acompanhados por formigamentos e sensações incomodas; primeiro ficam pálidos, ao fim de certo tempo ficam azulados, depois ficam vermelhos e, por fim, voltam a adquirir a sua tonalidade normal. A Síndrome de Raynaud pode se apresentar em sua forma Primária, quando é um evento isolado, ou Secundária, quando tal está associada à outra doença. O diagnóstico é imprescindível, pois o tratamento odontológico deverá ser diferenciado e direcionado de acordo com quaisquer agravantes. Tomaram-se por base o artigo “O que o Cirurgião-Dentista deveria saber sobre a síndrome de Raynaud”, conceitos reunidos na literatura e artigos acadêmicos, para a afirmação das relações entre o Profissional em Odontologia e tal síndrome.

Palavras-Chave: Síndrome de Raynaud, Odontologia, vasoconstrição, diagnóstico.

SUMÁRIO

1. INTRODUÇÃO ....................................................................................................... 4

2. SÍNDROME DE RAYNAUD ................................................................................... 5

3. A SÍNDROME DE RAYNAUD E O CIRURGIÃO-DENTISTA ................................ 8

4. RELATO DO CASO CLÍNICO ............................................................................. 11

5. CONCLUSÃO ...................................................................................................... 12

6. BIBLIOGRAFIA .................................................................................................... 13

7. ANEXO ................................................................................................................. 14

1 INTRODUÇÃO

Trabalho realizado a partir do artigo “O que o Cirurgião-Dentista deveria saber sobre a síndrome de Raynaud” com o objetivo de aprofundar e estabelecer de forma concreta as relações entre o profissional em Odontologia e a síndrome de Raynaud.

Desenvolvemos uma revisão de literatura ilustrada por um caso clínico compilando informações para apresentar mais uma referencia de conteúdo.

A síndrome de Raynaud é de etiologia desconhecida e caracteriza-se pela isquemia, mais freqüente nos dedos, também aparecendo no nariz, orelha, queixo e língua, induzida pelo frio ou estímulo emocional, e aliviado pelo calor, podendo evoluir para estágios mais graves, associados com outras doenças, ou sujeita a agravantes, como a utilização de substâncias vasoconstritoras.

A sua variação secundária deve ser observada pelo dentista, pois, por estar associada a outras doenças o tratamento odontológico deverá ser diferenciado de acordo com este agravante.

“Cabe, portanto, ao cirurgião-dentista, estar atento no estabelecimento da anamnese, às queixas de seu paciente e expandir sua visão do sistêmico, o que sem dúvidas trará maior benefício à saúde deste e da profissão.” (BORTOLUZZI, Marcelo Carlos et al. 2005. p. 175.)

2 SÍNDROME DE RAYNAUD

A Síndrome de Raynaud é uma alteração da coloração da pele que ocorre em crises, sendo caracterizada por palidez, cianose e rubor de aparecimento seqüencial. Na maioria das vezes acomete as mãos e os dedos, porém também pode envolver os pés, língua, nariz e orelha. Costuma ser simétrico, mas pode acometer um dedo isoladamente.

Foi relatado pela primeira vez em 1862, por um médico francês chamado Maurice Raynaud que escreveu uma tese intitulada “Asfixia local e gangrena simétrica das extremidades”, representando a primeira descrição deste fenômeno.

Cianose é a coloração azulada da pele, das membranas mucosas ou leito das unhas, causada por uma falta de oxigênio no sangue. A sintomatologia da Síndrome de Raynaud é seguida pela rubosidade, apresentando tons do vermelho escuro ao roxo.

Habitualmente, seu início é gradual com crises apenas no inverno. Os episódios podem ser raros ou ocorrer várias vezes ao dia; podem durar alguns minutos nos casos moderados ou até duas horas ou mais nos casos graves. Estresse e fortes emoções também podem desencadear o fenômeno.

Segundo o Dr. Marlos Coelho,

O fenômeno de Raynaud habitualmente segue o seguinte cronograma: na primeira fase ocorre vasoespasmo com conseqüente diminuição do fluxo sanguíneo para a rede capilar das extremidades causando a palidez. Na segunda fase, desaparecendo o espasmo das arteríolas e dos capilares arteriais, surge espasmo dos capilares venosos e vênulas, com estase sanguínea levando a maior extração de oxigênio com aumento de hemoglobina reduzida, resultando na cianose. Na terceira fase, desaparece o vasoespasmo e ocorre vasodilatação com a rede capilar preenchida por sangue arterializada e portanto causando o rubor. A hiperidrose pode estar associada.

Seguindo este raciocínio: a ocorrência de vasoespasmos pode estar relacionada com uma resposta fisiológica ao frio ou decorrente de uma ação de nervos simpáticos, que com a liberação de substâncias (noradrenalina) acarretará em vasoconstrição sistêmica ou localizada (das artérias digitais, pré-capilares e plexo artério-venoso subcutâneo), visando que o Sistema Nervoso Simpático tem efeito vasoconstritor para a maioria das regiões do corpo. Esta falta de irrigação sanguínea gerará palidez principalmente nas extremidades (dedos dos pés e mãos, nariz, orelha). Na segunda fase também há a constrição de vênulas e capilares venosos, elevando a taxa de extração de oxigênio da célula hemoglobina; quando o O2 está ausente na hemoglobina designa-se desoxi-hemoglobina ou hemoglobina reduzida. Segue-se então uma vasodilatação repentina da rede capilar – aumenta-se a circulação do sangue rico em oxigênio, dando uma coloração avermelhada aos dedos anteriormente isquêmicos – hiperemia.

A sudorese é também regulada pelo Sistema Nervoso Autônomo Simpático, e quando há a hiperatividade das glândulas sudoríparas este quadro pode levar à perspiração excessiva, condição conhecida como Hiperidrose. Consequentemente a elevada atuação deste sistema pode ocasionar a existência simultânea destas duas doenças.

A Síndrome de Raynaud classifica-se, quanto à severidade, em quatro estágios, partindo do primeiro, leve, com ataques ocasionais, afetando um ou mais dedos e raramente outras extremidades do corpo, ao mais severo (quarto estágio) onde o fluxo sangüíneo na área pode se tornar permanentemente menor, fazendo com que os dedos das mãos tornem-se finos e estreitos, com unhas lisas, brilhantes e de crescimento lento. Se uma artéria for completamente bloqueada, pode haver gangrena ou ulceração da pele.

O Dr. Marlos Coelho classifica a Síndrome de Raynaud em Fenômeno de Reynaud Secundário, ou Doença de Reynaud, quando tal está associada à outra doença, e Fenômeno de Reynaud Primário, ou apenas Fenômeno de Reynaud, quando é um evento isolado. Já Marcelo Carlos BORTOLUZZI (et al. 2005), co-autor do Artigo em discussão, defende a classificação do Fenômeno de Raynaud apenas em Primária e Secundária, tratando Síndrome, Doença e Fenômeno de Raynaud como sinônimos.

As doenças subjacentes ao Fenômeno de Reynaud Secundário, listam-se entre: síndrome de Sjögren; hipotireoidismo, diabetes mellitus; compressão neurovascular: síndrome do desfiladeiro torácico, síndrome do túnel carpiano; doenças do tecido conjuntivo: lupus eritematoso sistêmico, esclerodermia, artrite reumatóide, polimiosite; doenças arteriais: trombangeite obliterante, arterites, artereoesclerose obliterante; dentre outras.

A etiologia ainda é incerta, mas consideram-se causas prováveis de sua origem indivíduos submetidos à vibração excessiva (como operadores de britadeiras), tabagismo, histórico de congelamento de extremidades, contato com solventes orgânicos (como o cloreto de polivinil), pacientes que usam medicamentos como os beta-bloqueadores (usados no tratamento da hipertensão arterial), ou derivados do ergotamina (usados no tratamento de enxaquecas).

“Mulheres são mais afetadas em uma variação de proporção de 2:1 à 4:1, com idade média dos pacientes diagnosticados de 42 (± 5,8) anos.” (SPENCER-GREEN, 1998; ROMAN, Ivorra et al., 2001 apud BORTOLUZZI, Marcelo Carlos et al., 2005. p. 173)

Recomenda-se avaliação com exames para o diagnóstico diferencial entre os pacientes com as variações Primária e Secundária da doença. Indica-se: avaliação da circulação digital por Doppler e eventualmente a arteriografia nos pacientes refratários ao tratamento ou suspeitos de terem lesões proximais; hemograma completo; capilaroscopia periungueal. (COELHO, Marlos. 2007)

3 A SÍNDROME DE RAYNAUD E O CIRURGIÃO-DENTISTA

Qualquer alteração do diâmetro das pequenas arteríolas periféricas, quer seja uma contração (vasoconstrição) ou uma dilatação (vasodilatação), provoca alterações na pressão arterial, visto que o coração responde bombeando o sangue, respectivamente, com maior ou menor força nas suas contrações.

É sabido que a principal característica da síndrome de Raynaud é a vasoconstrição de arteríolas e vênulas periféricas, esta condição pode alterar a pressão arterial, principalmente quando a doença se apresenta em seu estágio severo, chegando até ao bloqueamento local de uma artéria.

Afirmando este pensamento temos o relato do caso clínico de um paciente do sexo masculino, branco, com 67 anos, tendo como antecedentes pessoais: hipertensão arterial sistêmica, acidente vascular cerebral há 18 meses e trombose venosa profunda há quatro anos (tratada cirurgicamente):

Após raquianestesia com bupivacaína 0,5% hiperbárica, e período de latência de três minutos, ocorreu hipotensão arterial. Tentou-se o tratamento com efedrina (10 mg) em bolus. Após a segunda dose ainda não se obteve sucesso. Optou-se, então, por etilefrina (1 mg) por via venosa, tendo sido feitas duas doses com intervalo de aproximadamente cinco minutos. Após a segunda dose houve melhora da pressão arterial, mas o paciente apresentou cianose intensa nas mãos, na face e nas orelhas, queixando-se também de parestesia e frialdade das mesmas. Embora a pressão arterial tenha se mantido estável após a segunda dose de etilefrina, o pulso radial apresentava-se filiforme e a cianose era tão intensa que se temia a evolução para necrose das extremidades. Foi feito o diagnóstico de Síndrome de Raynaud e instituído tratamento com droperidol (5 mg), por via venosa, e compressas quentes nos locais afetados. Após trinta minutos houve melhora da vasoconstrição com regressão da cianose e ausência da queixa de parestesia. (ABRÃO, João; RODRIGUES, Renato de Oliveira. 2000. p. 450-451.)

Desenvolvendo: na tentativa de normalização da pressão arterial, que havia caído decorrente a utilização da raquianestesia (anestesia causadora de uma vasodilatação) foi ministrado uma dose de efedrina, não obtendo sucesso. Optou-se, então, a utilização da etilefrina causando vasocontrição, estabilizando a pressão arterial após a aplicação intravenosa da segunda dose desta.

A vasoconstrição resultante da utilização da etilefrina, agravou o quadro de cianose, o que caracterizou o paciente como portador da síndrome de Raynaud, havendo um risco eminente de necrose das extremidades (estágio quatro da síndrome).

Traçando um paralelo é importante a observância do profissional em odontologia a respeito dos fatores causais e agravantes da doença de Raynaud, já que este faz uso constante de anestésicos vasoconstritores. Em seu consultório, pacientes portadores de tal síndrome podem evoluir para um quadro clínico semelhante ao relatado acima.

A anamnese deve ser vista como um instrumento preventivo de grande valor com resultados extremamente positivos, principalmente se feita minuciosamente e encarada de forma sistêmica (vendo o corpo como um circuito interdependente, onde qualquer patologia irá afetar o aparelho estomatognático, direto ou indiretamente; a curto, médio ou longo prazo).

É um meio de salvaguardar tanto a integridade física do paciente quanto a profissional do cirurgião-dentista.

Em vista a síndrome de Raynaud, por apresentar-se também em sua forma secundária – onde está associada à outra doença, que por sua vez, com grande probabilidade, é mais prejudicial ao organismo – pode ser o meio pelo qual o dentista estará detectando e prevenindo seu paciente de alguma patologia subjacente que nem mesmo este tenha ainda o conhecimento de possuir. Cabe também ao profissional o encaminhamento deste paciente a algum médico especializado a fim de eximirem qualquer dúvida, iniciando o mais cedo possível algum tratamento, caso o seja necessário.

Seria interessante e importante que só após uma anamnese detalhada o odontólogo definisse que tipo de tratamento deveria ser ministrado a determinado paciente.

Ilustrando o pensamento anterior podemos tomar por base a Diabetes Mellitus, doença já relatada de surgimento relacionado à síndrome de Raynaud. Em um caso de exodontia, por exemplo, onde uma pessoa necessitará passar por um tempo de reabilitação, até que ocorra a total cicatrização da estrutura ofendida, é por certo que o procedimento deverá ganhar nota de maior seriedade, pois se sabe que a decorrente deficiência de glicose circulante, alterará o processo de cicatrização, sendo que é da glicose, que o tecido retira energia.

O relato por parte do paciente de sintomas característicos da síndrome de Raynaud, levou a detecção desta síndrome e a partir dela a também detecção da Diabete.

4 RELATO DO CASO CLÍNICO

O caso clínico explanado pelo artigo “O que o Cirurgião-Dentista deveria saber sobre a síndrome de Raynaud” relata uma paciente atendida na clínica de odontologia da Universidade do Oeste de Santa Catarina – UNOESC, do sexo feminino, 32 anos de idade.

Esta indicava condição de saúde bucal comprometida: falta de higiene oral, utilização de prótese parcial removível provisória desadaptada e com instabilidade de função, levando a um quadro de candidiase crônica do palato associado a áreas de papilomatose.

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