(Parte 2 de 3)

cada gênero. Também podem ser feitas atividades de inferências sobre o que o autor quis dizer com tal sentença etc. É nessa fase que serão explorados os exercícios sobre os mecanismos de textualização e os mecanismos enunciativos, podendo ser trabalhada também a infra-estrutura geral do texto.

A fase de pós-leitura, embora não trabalhe com nenhum extrato do folhado textual específico, tem por objetivo avaliar a compreensão dos alunos sobre o texto, continuar a construir a compreensão deles sobre o texto, saber a opinião dos mesmos sobre o assunto, trabalhar produção textual e trabalhar aspectos interculturais, isto é, discutir as diferenças de culturas e costumes entre o país do aluno e o Brasil. Os exercícios 1 a 5, no Anexo, são apenas exemplos ilustrativos.

4 Análise e discussão dos dados

Esta seção está dividida em duas subseções. A primeira comporta uma análise global das entrevistas na revista Veja; enquanto a segunda, subdividida em três partes, é uma análise detalhada da entrevista do dia 1/02/06 de acordo com o folhado textual de Bronckart (1999).

4.1 As entrevistas na revista Veja

As entrevistas extraídas da revista Veja são pertencentes ao gênero jornalístico. O principal objetivo é expor informações ao leitor sobre um determinado assunto, podendo ainda servir à pluralização de vozes, visto que os entrevistados sempre são estudiosos do assunto central do texto. Pode-se citar como exemplo a entrevista do dia 8 de fevereiro, na qual o entrevistado é um demógrafo brasileiro convidado a falar sobre o crescimento populacional desordenado no planeta.

Essas entrevistas, embora sejam originalmente orais, não possuem traços da oralidade e do contexto situacional, pois, além de serem transcritas, são também editadas de modo tal que toda marca oral é eliminada. Porém, o contexto interacionista ainda prevalece, pois o par pergunta/resposta, indispensável para a formação da estrutura desse gênero, representado por um entrevistador e um entrevistado, é mantido, a fim de marcar a troca de turnos entre os participantes.

As entrevistas da revista Veja possuem um lugar de destaque, já que o texto é editado em três páginas com cor diferenciada dos demais textos que compõem a revista – as páginas amarelas. O formato dos textos nesse espaço não varia, fato este que demonstra a regularidade em que o texto é exposto dentro do veículo. Dessa forma, as entrevistas são compostas por:

1º)Seção da revista com o título “Entrevista” conjuntamente com o nome do entrevistado: como exemplo, pode-se citar a do dia 15 de fevereiro – Entrevista: Tariq Ramadan.

2º)Título: remete ao assunto da entrevista: (os exemplos sempre serão do dia 15 de fevereiro) Chega de destruição.

3º)Frase de abertura: em todas as entrevistas da Veja aparece uma frase que abre o assunto sobre o qual se irá tratar. Caracterizada por ser escrita no discurso indireto, deixa transparecer a opinião do entrevistado sobre o assunto que será abordado. O exemplo é: “O filósofo muçulmano diz que a ponte entre o Ocidente e o Islã é possível e desejável”.

4º)Contextualização da entrevista: espaço destinado à apresentação do entrevistado, visto que este, geralmente, é desconhecido do público em geral. Além de dados biográficos do entrevistado, esse espaço destina-se à razão para a realização da entrevista, como também o assunto dela enriquecido por detalhes.

5º)Fotografia do convidado: em destaque, aparece a fotografia do entrevistado, seguida de uma citação – “Se o Islã e o Ocidente partirem para o choque de civilizações, os dois lados sairão derrotados”.

6º)Entrevista em si: na seqüência do layout das entrevistas têm-se, então, as perguntas e respostas. É importante ressaltar que, embora apareça o nome do entrevistador abaixo do lead (no caso, Antonio Ribeiro), ele não é usado na apresentação da entrevista, cabendo ao nome Veja esse papel. Esse fato nos mostra que é a revista Veja, a instituição, que interage com o entrevistador. Nesse sentido, “a responsabilidade das perguntas e a condução da entrevista como um todo é da revista, e não do entrevistador. Ao mesmo tempo, este estilo personaliza a instituição, já que é ela que aparentemente está interagindo diretamente com o entrevistado” (Hoffnagel, 2003: 185). Como exemplo disso, pode-se citar:

Veja – O mundo seria melhor se os conflitos entre povos e nações fossem resolvidos por meio de guerras de caricaturas? Ramadan – Caricaturas e humor dependem da realidade de cada um [...].

No corpo do texto, aparece outra característica constante em todas as entrevistas analisadas: citações. Como a entrevista é composta por três páginas, na primeira, há a fotografia do entrevistado com uma citação; na segunda, no centro, há outra citação; e, na terceira, também outra citação. O exemplo é: “A reação muçulmana às caricaturas não foi apenas exagerada, foi insana. Acho errado ameaçar governos e a imprensa, promover boicotes econômicos, queimar embaixadas e bandeiras. Não é o que devemos fazer”. O fechamento das entrevistas é marcado pelo recurso gráfico ¦.

As entrevistas foram analisadas de acordo com suas características gerais.

Passo, então, a analisar a parte verbal de uma entrevista (dia 1º de fevereiro de 2006), seguindo os preceitos de Bronckart (1999).

4.2 Análise da entrevista

Esta seção está dividida em três subseções: a infra-estrutura geral do texto, os mecanismos de textualização e os mecanismos enunciativos.

4.2.1 A infra-estrutura geral do texto

A entrevista (1º/01/06), com o especialista em assuntos latinoamericanos Norman Gall, tem por objetivo discutir os trabalhos realizados pelo estudioso no Brasil, já que criou o Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial, com sede em São Paulo. Desde 1977, quando se radicou no nosso país, vem desenvolvendo estudos como, por exemplo, a violência e a escola pública no Brasil, sendo este último o tema mais presente no seu trabalho. O texto é organizado da seguinte maneira:

1.Título – “Educação ou morte”.

2.Frase de abertura – “O americano estudioso do Brasil diz que o país é melhor do que pensa, mas que tem desafios cruciais a superar.”

3.Contextualização da entrevista – parte introdutória escrita pelo entrevistador Roberto Pompeu de Toledo, que apresenta o entrevistado com alguns dados biográficos de sua vida de estudioso: “O americano Norman Gall especializou-se, como jornalista, desde 1961, em assuntos latino-americanos [...] Acaba de publicar o livro Lula e Mefistófoles [...]”.

4.Entrevista em si – a estrutura da entrevista em si pode ser exemplificada pela primeira tomada de pergunta e resposta do texto:

Veja – Por que o senhor decidiu ser brasileiro? Gall – O Brasil me acolheu com generosidade e me deu muitas oportunidades. Hoje me sinto parte dessa comunidade [...].

O tipo de discurso apresentado nessa entrevista é o interativo. Esse tipo (de discurso direto) comporta a fase da entrevista em si, pois, apesar de o texto estar transcrito, o leitor nota claramente as distinções entre os dois papéis envolvidos na interação de perguntar e responder. A seqüência textual predominante nesse texto é a explicativa, já que o entrevistador tem o papel de explicar o que lhe é perguntado, expondo, assim, sua opinião sobre os fatos. Ressalta-se também que a seqüência argumentativa é utilizada para dar sustentação retórica às respostas. Inclusive, a seqüência narrativa aparece na parte de contextualização do texto, visto que há narração sobre a vida profissional do entrevistado no Brasil.

Entre o discurso do entrevistador e o do entrevistado há articulações que objetivam explicitar a relação de dependência de um segmento em relação ao outro, isso significa que quem pergunta tem o poder de conduzir a entrevista, e cabe ao entrevistado somente responder ao que se está perguntando. Textualmente podem-se notar essas articulações na mudança de ‘fala’, pois ora é a fala da revista Veja ora é a fala de Norman Gall.

Para uma aula de PLE, os exemplos de atividades propostos são: todos os exercícios da fase de pré-leitura, já que requerem o entendimento da estrutura global da entrevista; os exercícios 1 e 2 da fase de leitura, pois estes têm por finalidade fazer com que o aluno perceba o propósito, o assunto e o objetivo da parte introdutória da entrevista; a atividade número 5, que trabalha com o tipo de discurso que o texto comporta; e, por fim, o exercício 6, visto que explora as seqüências textuais.

4.2.2 Os mecanismos de textualização

Os mecanismos de textualização são três, como já explicitados no quadro: a conexão, a coesão nominal e a coesão verbal. Na entrevista analisada, podemos ressaltar como exemplos de conexão os advérbios ou locuções adverbiais de tempo e os operadores argumentativos. Esses organizadores textuais estão sendo usados no texto com o intuito de localizar o leitor no tempo e no espaço, bem como de expor argumentos sobre o assunto da entrevista. Os organizadores com valor temporal (“Em 1977 radicou-se no Brasil.”; “Gall hoje se sente tão envolvido com o país...”) aparecem nos discursos da ordem do narrar, visto que na contextualização da entrevista há apenas a narração sobre os feitos do entrevistado. Já os organizadores com valor lógico (“Há muito mais escolas, ainda que de má qualidade.”; “...é comum o professor ficar de costas para a classe, escrevendo no quadronegro, enquanto os alunos copiam mecanicamente...”) aparecem nos discursos da ordem do expor, já que o entrevistado está expondo seu ponto de vista sobre assuntos relacionados ao Brasil.

A coesão nominal presente no texto também está relacionada com o tipo de discurso em que essas unidades aparecem. Na contextualização da entrevista, a coesão está sendo marcada pelo uso de anáforas que se referem ao próprio entrevistador. Assim, podemos citar como exemplo: o americano estudioso, o americano Norman Gall, Gall, nova-iorquino do Brooklyn, ele. Na entrevista em si, cadeias anafóricas se sobrepõem, pois, apesar de o assunto central ser educação, outros assuntos são mencionados no decorrer da entrevista, como: democracia, violência nas periferias, legislação trabalhista, aposentadoria, corrupção. Como exemplo, pode-se citar o campo semântico que compõe a cadeia anafórica de educação: instituições públicas, escolas públicas, sistema, escolaridade, instrução.

A coesão verbal contribui para a explicitação das relações de continuidade do texto. Como a entrevista é constituída por um discurso interativo, as locuções verbais estão predominantemente no tempo presente, não excluindo locuções verbais no passado, posto que em alguns momentos de sua fala, o entrevistado remete a fatos que ocorreram no passado. Como exemplo, pode-se citar: “Eu vivi em três países latino-americanos, Porto rico, Venezuela e Brasil, e, ao longo de uma carreira de 4 anos voltada para a América Latina, trabalhei em quase todos os outros. O Brasil tem uma largueza que possibilita a muita gente se realizar.”.

Os mecanismos de textualização serão explorados nas tarefas 7 e 8, já que possuem como meta analisar um organizador textual – os operadores argumentativos.

4.2.3 Os mecanismos enunciativos

Os mecanismos enunciativos contribuem para o estabelecimento da coerência pragmática do texto, explorando as vozes e as modalizações do texto. No gênero entrevista, ficam evidentemente claras as duas vozes enunciativas, já que vêm antecipadas do nome de quem as fala (Veja para entrevistador e Gall para entrevistado).

Os mecanismos enunciativos comportam também as modalizações, que têm por finalidade traduzir os diversos comentários ou avaliações formuladas pelas vozes enunciativas. O entrevistador não faz em nenhum momento juízo de valor sobre determinado assunto, apesar de tecer alguns comentários antes de fazer a pergunta propriamente dita, como se pode notar no exemplo: “ A dificuldade de enfrentar essas questões evidentemente tem a ver com o sistema político e a corrupção. Dá para esperar uma mudança, nesse aspecto, a curto prazo?”. Já o entrevistado, em todas as suas recorrências de fala, opina sobre os assuntos tratados na entrevista. Os modalizadores, então, aparecem tanto no eixo do saber quanto no do crer, como podemos ver nos dois exemplos a seguir: “A educação é o desafio que ou o Brasil resolve ou terá seus problemas eternizados” (verbo ser no eixo do saber); “Eu acho que a elite brasileira é cordial, para retomar uma idéia de Sérgio Buarque de Holanda...” (verbo achar no eixo no crer).

Os exemplos referentes aos mecanismos enunciativos são os exercícios 3 e 4, que têm por intenção trabalhar com os sujeitos envolvidos na entrevista e seus respectivos papéis; e os exercícios 9 e 10, que trabalham com as modalizações recorrentes no discurso do entrevistado. Dessa forma, o aluno deverá ser capaz de verificar se o mesmo tem certeza ou não do que está enunciando.

5 Considerações finais

Uma abordagem voltada para o ensino dos gêneros textuais possibilita a abertura de oportunidades para os alunos refletirem sobre o modo como os gêneros se organizam. Além disso, aprender sobre a organização dos gêneros possibilita uma compreensão dos eventos que se realizam no contexto social, pois uma idéia clara das características de um determinado gênero facilita a realização de atividades comunicativas com sucesso. Para alunos estrangeiros aprendizes de português, a prática de compreensão baseada em gêneros pode inclusive facilitar a reflexão sobre as variações culturais entre o país do aluno e o Brasil. Devido a isso, os exemplos de atividades foram elaborados para trabalhar com o gênero textual entrevista.

O objetivo principal dos três extratos do folhado textual de Bronckart (1999) é analisar os processos em ação em toda produção textual, no caso deste artigo, na produção textual do gênero entrevista. A teoria, dessa forma, serve como base para a produção de um material didático voltado ao ensino de português para estrangeiros. As atividades propostas segundo o interacionismo sociodiscursivo propiciam ao aluno uma visão das três camadas do texto, facilitando a compreensão “dos fatos da linguagem como traços de condutas humanas socialmente contextualizadas” (Bronckart, 1999: 23). O papel do professor é possibilitar essa visão da linguagem como uma produção interativa associada às atividades sociais cotidianas e que remetem ao contexto situacional do aluno. Aguiar (2005: 39), citando Brandão (2003), resume a idéia central do ISD:

o que se deseja de um professor é que possua uma concepção interacionista da linguagem, em que o texto seja visto como uma unidade de comunicação-ação. Nesse sentido, a língua será utilizada para desenvolver a competência comunicativa dos alunos, utilizando os mais variados gêneros textuais como forma de identificar e detalhar dadas práticas sociais.

Espera-se que este artigo tenha contribuído para dar uma visão geral de como os preceitos de Bronckart são aplicados na prática, contribuindo assim para fazer um elo entre o método de análise de gêneros textuais – folhado textual – com o ensino de português para estrangeiros.

Notas

*Trabalho desenvolvido para a disciplina Gêneros Textuais, ministrada pela

Professora Doutora Désirée Motta-Roth, do curso de Pós-Graduação em Letras, Nível Mestrado, da Universidade Federal de Santa Maria – RS.

**Mestranda em Letras – Estudos Lingüísticos pelo Programa de Pós-Graduação da Universidade Federal de Santa Maria – RS, sob orientação do Professor Doutor Marcos Gustavo Richter.

Referências

ADAM, J-M. Les textes: types et prototypes. Paris: Nathan, 1992.

(Parte 2 de 3)

Comentários