Ehrlichiose Felina - Primeiro Relato de Caso no MS

Ehrlichiose Felina - Primeiro Relato de Caso no MS

I Congresso de Medicina Veterinária no Mato

Grosso do Sul e suas Fronteiras I COMVET

Campo Grande – MS 9 a 12 de setembro de 2007

Organização: Sociedade Sul-Mato-Grossense dos Médicos Veterinários

Co-Organizador: Conselho Regional de Medicina Veterinária e Zootecnia

Erlichiose Felina – Primeiro Relato de Caso no Mato Grosso do Sul Feline Ehrlichiosis – First case report in Mato Grosso do Sul, Brazil

Tatiana Mieko Ono; Thatianna Camillo Pedroso

Clínica Veterinária Vetclínicas, Rua Ceará, 1400 e UFMS – Universidade Federal de Mato Grosso do Sul – tationo@hotmail.com

Introdução

O primeiro relato de erlichiose felina foi descrito na França por CHARPENTIER &

GROULADE (1986) que observaram mórulas em células mononucleares de gatos. O primeiro relato da América Latina ocorreu no Brasil e foi relatado em 1998 no Estado do Rio de Janeiro em um gato febril, com sintomas inespecíficos e mórulas (ALMOSNY et al., 1998). O modo de transmissão nos casos naturais permanece desconhecido, mas supõe-se que ocorra através de vetores artrópodes (BEAUFILS et al., 1999; LAPPIN, 2001). Os sinais clínicos mais comuns na erlichiose felina são anorexia, letargia, perda de peso, febre, hiperestesia, dispnéia, esplenomegalia, linfadenopatia e mucosas pálidas (BEAUFILS et al., 1999; LAPPIN, 2001; BREITSCHWERDT et al., 2002). O quadro hematológico é muito semelhante ao da erlichiose canina. As alterações mais comuns são anemia, trombocitopenia, leucopenia, leucocitose, neutrofilia, neutropenia, linfocitose e monocitose (LAPPIN, 2001; BREITSCHWERDT et al., 2002; NEER et al., 2002). A partir de infecções experimentais com Ehrlichia canis, observou-se que os gatos são sensíveis e apresentaram mórulas em monócitos, linfócitos, neutrófilos e plaquetas (ALMOSNY, 1998). A observação das inclusões nas células sanguíneas dos esfregaços sanguíneos é o método mais prático e barato de diagnóstico (BEAUFILS et al., 1999; LAPPIN, 2001). Métodos indiretos podem ser usados, contudo não concluem o diagnóstico; já a PCR é bastante sensível e específica (BEAUFILS et al., 1999; NEER et al., 2002). Outra forma de diagnóstico é combinar testes, sinais clínicos, exclusão de diagnósticos diferenciais e resposta à terapia (LAPPIN, 2001). Para o tratamento, assim como em cães, o consenso é que se use doxiciclina, 10 mg/kg VO S.I.D. durante 28 dias (NEER et al., 2002). O objetivo do presente trabalho é relatar o primeiro caso de erlichiose felina diagnosticado em Campo Grande, Mato Grosso do Sul (MS).

Relato de Caso

Foi encaminhado à clínica veterinária VetClínicas, localizada em Campo Grande/MS, um gato SRD, de 1 ano e 6 meses de idade apresentando perda de peso e diarréia. Na anamnese, o proprietário relatou que o animal apresentava redução de apetite há cerca de um mês, tornou-se quieto e por vezes aparentava estar febril. Foram relatadas diarréias periódicas de coloração amarelada. O animal havia sido desverminado há duas semanas e nunca havia sido vacinado. Questionado sobre a presença de ectoparasitos, o proprietário disse ter observado carrapatos há cerca de dois meses. Este felino convive com outros três gatos e um cão da raça Pastor Alemão, todos aparentemente saudáveis. Ao exame físico, observou-se mucosas hipocoradas, letargia, sensibilidade abdominal à palpação, diarréia e mucosa anal edemaciada. O animal não apresentava febre. Foi coleta amostra de sangue com anticoagulante para realização de hemograma e pesquisa de hemoparasitas.

O hemograma revelou presença de eritrograma próximo aos valores mínimos de referência, leucopenia, neutropenia, hemácias em rouleaux (+), macroplaquetas, alterações tóxicas em neutrófilos e hiperproteinemia (Tab. 1). No esfregaço sanguíneo foi observada inclusão intracitoplasmática em plaqueta compatível com E. canis (Fig. 1). Com o intuito de confirmar esta

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Organização: Sociedade Sul-Mato-Grossense dos Médicos Veterinários

Co-Organizador: Conselho Regional de Medicina Veterinária e Zootecnia suspeita foi coletada nova amostra de sangue com anticoagulante e encaminhada para PCR, a qual ainda não está concluída.

Devido à suspeita de erlichiose, optou-se por tratar o animal com doxiciclina na dosagem de 10 mg/kg, por via oral, uma vez ao dia, por 28 dias. Foram realizados hemogramas semanais até o fim da terapia para controle laboratorial do caso. A contagem global de leucócitos se normalizou a partir da segunda semana de tratamento. Durante todo o período foi constatada hiperproteinemia. Na última avaliação, o animal alimentava-se normalmente, havia recuperado peso e apresentava-se clinicamente saudável. No último hemograma (pós-tratamento) foram observadas apenas alterações morfológicas indicadoras de anemia regenerativa, metarrubrócitos e corpúsculos de Howell-Jolly. Todas as contagens de células estavam dentro dos limites de referência (Tab. 1).

Discussão

No presente relato, os sintomas clínicos observados no animal avaliado são bastante semelhantes aos descritos na literatura, tais como anorexia, perda de peso, letargia, manifestações de dor e mucosas pálidas. Apesar de o proprietário relatar que o felino havia manifestado febre em situações anteriores, esta não foi observada no ato do exame físico, citada como um sinal comum de erlichiose felina (ALMOSNY et al., 1998: BEAUFILS et al., 1999; LAPPIN, 2001; BREITSCHWERDT et al., 2002). Assim como na erlichiose canina suspeita-se que vetores estejam envolvidos na transmissão da erlichiose felina (BEAUFILS et al., 1999; LAPPIN, 2001). No exame clínico não foram observados ectoparasitos, porém havia histórico de infestação por carrapatos cerca de dois meses antes.

por ALMOSNY (1998) em infecções experimentais de gatos com E. canis

O resultado do primeiro hemograma revelou leucopenia e neutrofilia, alterações citadas na erlichiose felina (LAPPIN, 2001; BREITSCHWERDT et al., 2002; NEER et al., 2002). Apesar de não haver anemia pronunciada, a contagem de eritrócitos do animal encontrava-se no limite inferior do intervalo de referência para a espécie. O achado mais interessante e conclusivo foi observado no esfregaço sanguíneo, a presença de inclusão intracitoplasmática no interior de plaqueta, citada

Para o tratamento seguiu-se a orientação de NEER et al. (2002), que indicam doxiciclina 10 mg/kg, por via oral, uma vez ao dia durante 28 dias. Assim que se iniciou a terapia foi observada proeminente recuperação clínica e hematológica, com conseqüente ganho de peso, desaparecimento da sintomatologia e recuperação dos valores sanguíneos considerados normais para felinos.

Considerações Finais

O presente relato aliado à alta prevalência da erlichiose canina e a presença maciça de vetores no estado de Mato Grosso do Sul reforçam a importância da inclusão da erlichiose felina entre os diagnósticos diferenciais de gatos febris e com citopenias optando-se por tratá-los com drogas específicas para bactérias intracelulares, como a doxiciclina.

Referências bibliográficas

ALMOSNY, N. R. P.; ALMEIDA, L. E.; MOREIRA N. S.; MASSARD, C. L. Erlichiose clínica em gato (Felis catus). Revista Brasileira de Ciências Veterinárias, v.2, n.5, p.82-83, 1998.

ALMOSNY, N. R. P. Ehrlichia canis (DONATIEN & LESTOQUARD, 1935): avaliação parasitológica, hematológica e bioquímica sérica da fase aguda de cães e gatos experimentalmente infectados. 1998. 200p. Tese (Doutorado) – U.F.R.R.J.

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Organização: Sociedade Sul-Mato-Grossense dos Médicos Veterinários

Co-Organizador: Conselho Regional de Medicina Veterinária e Zootecnia

BEAUFILS, J. P.; MARTIN-GRANEL, J.; JUMELLE, P.; BARBAULT-JUMELLE, M. Ehrlichiose probable chez le chat: étude rétrospective sur 21 cas. Pratique Médicine Chir Animal

Compagnie, n.34, p.587-596, 1999. BREITSCHWERDT, E. B.; ABRAMS-OGG, A. C. G.; LAPPIN, M. R.; BIENZLE, D.; HANCOCK, S. I.; COWAN, S. M.; CLOOTEN, J. K.; HEGARTY, B. C., HAWKINS, E. C. Molecular evidence supporting Ehrlichia canis–like infection in cats. Journal of Veterinary Internal Medicine, v.16, p.642-649, 2002. CHARPENTIER, F.; GROULADE, P. Probable case of Ehrlichiosis in a cat. Bulletin de l’a Academie Veterinaire de France, v.3, n.59, p.287-290, 1986. LAPPIN, M. R. Feline ehrlichiosis and hemobartonellosis. In: World Small Animal Veterinary Association World Congress. Anais. Vancouver, 2001.

NEER, T. M.; BREITSCHWERDT, E. B.; GREENE, R. T.; LAPPIN, M. R. Consensus statement on ehrlichial disease of small animals from the infectious disease study group of the ACVIM. Journal of Veterinary Internal Medicine, v.16, p.309-315, 2002.

Palavras-chave: doxiciclina, erlichiose, gatos. Keywords: doxycycline, ehrlichiosis, cats.

Figura 1 – Inclusão observada em uma das plaquetas do felino. Panótico, 100x.

Tabela 1 – Valores hematológicos do felino com erlichiose antes e depois do tratamento. Valores Pré-tratamento Pós-tratamento

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