Manual de Psicologia Aplicada

Manual de Psicologia Aplicada

(Parte 1 de 5)

Pierre Weil

De PSICOLOGIA APLICADA

1a. Série — CIÊNCIAS SOCIAIS

1. ANTROPOLOGIA — Um Espelho para o Homem – CLYDE KLUCKHOHN.

2/3. PERSONALIDADE NA NATUREZA, NA SOCIEDADE E NA CULTURA —

ORGANIZADO POR CLYDE KLUCKHOHN., HENRY A. MURRAY DAVID M. SCHNEIDER. 4. DINÂMICA DE GRUPO E DESENVOLVIMENTO EM RELAÇÕES HUMANAS

2ª Série — PEDAGOGIA

1. PSICOLOGIA DA CRIANÇA — ARTHUR T. JERSILD 2. MANUAL DE PSICOLOGIA APLICADA — PIERRE WEIL

Próximo volume:

De PSICOLOGIA APLICADA

(Para professores, médicos, diretores e chefes, estudantes de Institutos de Educação, Escolas de Serviço Social, Cursos de Psicologia, de Orientação Educacional e Profissional, Pedagogia, etc.)

2ª edição texto da contra capa

O Professor e Psicólogo Pierre Weil nasceram em Estrasburgo na França, onde fez os seus estudos em Psicologia, Pedagogia e Orientação Profissional nas Universidade e Institutos de Paris, Lião, Estrasburgo e Genebra.

Foi aluno de eminentes psicólogos como Wallon, Piéron, Piaget, Rey e Leon Walther do qual Pierre Weil foi assistente e com o qual veio para o Brasil em 1948, a convite do Departamento Nacional do SENAC, onde lançou uma rede nacional de Serviços de Orientação Educacional e Profissional.

A obra do Prof. Pierre Weil é conhecida na França através do seu teste “afetivodiagnóstico” publicado nas Presses Universitaires de France e dos seus trabalhos sobre o desenho na criança em colaboração com R. Zazzo, P. Naville e cuja publicação mereceu um Prefácio do Prof. Wallon do Colégio da França.

No Brasil realizou inúmeras pesquisas sobre testes de aptidão e de personalidade. O seu “Teste de inteligência Não Verbal” (INV) serviu de instrumento da Pesquisa Nacional sobre o Nível Mental da População Brasileira que Pierre WeIl coordenou com a colaboração dos Prof. Lourenço Filho, Otávio Martins e Eva Nick e que figura como sendo uma das maiores pesquisas realizadas no mundo sobre o assunto; o teste é utilizado atualmente em grande escala no Brasil, na França, Bélgica e Holanda.

Organizou o Consultório Psico-Pedagógico da Sociedade Pestalozzi do Brasil, no Rio de Janeiro, onde colaborou com a profa Helena Antipoff no diagnóstico e aconselhamento de mais de duas mil crianças excepcionais.

A pedido do Banco da Lavoura de Minas Gerais montou um Departamento de Orientação e Treinamento e uma Escola de Administradores que pode ser considerada como sendo uma das maiores do mundo, segundo depoimento do Serviço Francês de Aumento da Produtividade.

Apresentou trabalhos e comunicações em vários Congressos Internacionais na França, Suécia, Itália, Espanha e realizou inúmeras conferências e cursos no Brasil, França, Portugal e Uruguai a convite de Universidades e entidades públicas e particulares.

Foi convidado em 1964 para ocupar o posto de perito da Organização Internacional do Trabalho das Nações Unidas, na Colômbia.

Lançou no Brasil as técnicas de Psicodrama após ter realizado vários estágios sobre o assunto na França com Anne Ancelin Schutzenberger, Andoineau, Fauchou, R. Levy e na Itália com Moreno, o conhecido criador da Sociometria, do Psicodrama e Psicoterapia de Grupo, o qual prefaciou o seu último livro, sobre Psicodrama.

Autor de mais de cinqüenta publicações científicas e de livros em francês, inglês, alemão, espanhol, português e holandês, se tornou bastante conhecido do público brasileiro, através de um «Best-Seller sobre Relações Humanas na Família e no Trabalho, do qual existem mais de vinte edições.

Atualmente é Professor de Psicologia Social na Universidade Federal de Minas Gerais e de Dinâmica de Grupo e Psicodrama na Universidade Católica de Belo Horizonte.

O Professor Pierre WeiIl continua realizando pesquisa sobre análise e redução de tensões individuais, interindividuais e coletivas, em correlação com as pesquisas sobre a paz e a guerra, de várias Universidade do mundo.

INTRODUÇÃO: A unidade da Psicologia e seus fundamentos científicos

§1. Definição de Psicologia §2. As Ciências Experimentais e a Psicologia

§3. Definição da Psicologia Aplicada

§4. Objetivos da Psicologia Aplicada

Métodos e Processos da Psicologia Aplicada CAPÍTULO 1: O Método Estatístico

§1. Estatística e Psicologia Aplicada §2. Apresentação das Observações

§3. Características das Observações

§4. Erros de Amostra

§5. Correlações

§6. Provas de Significação da Diferença Entre Duas Medidas

CAPÍTULO 2: A Psicometria

§1. Psicometria e Psicologia Aplicada §2. Que É Um “Teste”?

§3. Condições Para Aplicação e Elaboração de Um Teste

§4. Classificação dos Testes

§5. Apresentação e Interpretação dos Resultados

CAPÍTULO 3: Estado Atual dos Conhecimentos Sobre Algumas Variáveis, Objeto de Estudo da Psicometria

§1. Estudo do Pensamento e da Sua Evolução §2. A Medida da Inteligência

§3. As Habilidades Mentais Primárias

§4. O Estudo da Memória §5. A atenção

CAPÍTULO 4: Os Métodos de Estudo da Personalidade

§1. Que É “Personalidade”? §2. Classificação dos Métodos de Estudo da Personalidade

§3. Descrição dos Métodos, Processos e Técnicas de Estudo da Personalidade

CAPÍTULO 5: Dimensões e Variáveis da Personalidade

§1. A Psicotropia §2. As Variáveis da Personalidade

§3. Estudo das Emoções e da Emotividade

Os Campos de Aplicação da Psicologia

CAPÍTULO 1: O Trabalho Humano

§1. A Adaptação do Homem ao Trabalho pela Orientação e Seleção Profissional §2. A Adaptação do Trabalho ao Homem

§3. Relações Humanas no Trabalho e Diagnóstico da Personalidade

§4. O Estudo das Profissões

Objetivos do estudo das profissões Conceituação das atividades profissionais Análise da atividade profissional Metodologia da análise profissional

CAPÍTULO 2: A Educação Psicologia Aplicada e Educação

§1. O Controle da Eficiência da Escolaridade §2. O Estudo da Leitura

§3. Técnicas de Síntese e Aconselhamento em Orientação Educacional

Objetivos da síntese e do aconselhamento §4. Resolução de Problemas de Educação para os Pais e Professores

§5. Homogeneização de Turmas

§6. A Aprendizagem

CAPÍTULO 3: A Medicina Psiquiátrica e Neurológica Psicologia Aplicada e Medicina

CAPÍTULO 4: Outros Campos de Aplicação da Psicologia

§1. O Matrimônio §2. A Justiça e a Polícia

§3. O Exército

§4. A Propaganda

§5. A Sondagem da Opinião Pública

§6. A Tipografia

TERCEIRA PARTE O psicólogo

§1. Os Especialistas em Psicologia Aplicada §2. A Formação dos Psicólogos

§3. A Ética Profissional em Psicologia Aplicada

A Psicologia Aplicada Frente ao Mundo Moderno Bibliografia

INTRODUÇÃO: A Unidade da Psicologia e seus fundamentos científicos

§ 1. Definição de Psicologia

A Psicologia, etimologicamente, seria a ciência da alma; o termo provém de duas raízes gregas: PSIKE = alma e LOGOS = Descrição ou ciência.

Assim, desde o século XVI, ciência e alma foram combinadas numa só palavra, deixando perceber e entrever a possibilidade de um estudo científico da alma.

Com a evolução das ciências experimentais e sob a influência de Fechner,

Weber, Watson, Binet, Piéron, James, Claparède e outros, o termo alma, por ser impregnado de noções de Filosofia metafísica, foi substituído pelas palavras comportamento ou conduta, mais adequadas a Aplicação dos processos de investigação científica.

São esses processos que iremos descrever, mostrando, com exemplos concretos, a possibilidade da sua Aplicação em Psicologia.

§ 2. As Ciências Experimentais e a Psicologia O objetivo das ciências experimentais é estabelecer fatos e descobrir leis.

A Psicologia Experimental determinou fatos e descobriu leis no domínio, por exemplo, da percepção ou da aprendizagem. É um fato que a figura sobrepõe-se ao fundo na percepção das formas ou que o adulto é capaz de memorizar, por repetição imediata, 6 a 7 algarismos, em média.

No processo experimental distinguem-se as seguintes fases:

1a) Observação simples ou provocada. 2a) Formação de uma hipótese. 3a) Verificação da hipótese. 4a) Elaboração da lei ou CONCLUSÃO quanto ao fato.

Em Psicologia Experimental costuma-se passar por todas essas etapas.

A criação do teste ABC por Lourenço Filho constitui um exemplo bem ilustrativo:

1 ETAPA: Observação. – O prof. Lourenço Filho observou que algumas crianças com nível mental elevado não conseguiam aprender a ler e a escrever, enquanto que outras com nível mental baixo eram facilmente alfabetizadas. Observou também que os testes de nível mental não classificavam bem os alunos do primeiro ano.

2. ETAPA: Hipótese. Surgiu então a seguinte hipótese: a Aprendizagem da leitura e da escrita constitui um ou vários fatores específicos da maturidade, relativamente independentes do nível mental.

3. ETAPA: Verificação da hipótese. Começou então a pesquisa propriamente dita: com a colaboração de vários estudiosos aplicou o que é hoje chamado de teste ABC a milhares de analfabetos e crianças de todas as idades.

4a ETAPA: Elaboração da lei ou conclusão quanto ao fato. Mostrou, por vários processos, que havia relativa independência entre nível mental e maturidade para alfabetização, além de firmar o valor diagnóstico e prognóstico do referido teste.

Além do processo comum a todas as ciências experimentais, convém lembrar certas regras a serem seguidas nas observações durante as experiências.

Erros devem ser evitados, podendo provir:

1) Do observador. Os erros provenientes dos observadores são muito freqüentes em Psicologia Experimental; por isso, o psicólogo deve ser submetido a treinamento demorado e rigoroso; quando o coeficiente pessoal do erro é muito grande, convém colocar vários observadores.

A presença física do observador às vezes prejudica (caso de animais e crianças); neste caso, são recomendáveis sistemas de isolamento ou postos de Observação (Gesell).

2) Dos instrumentos. A construção dos instrumentos requer, em Psicologia Experimental, cuidado especial.

Por exemplo um teste foi construído por Piéron para medir a atenção consistia em riscar determinados sinais numa folha onde era impressa uma centena delas. Após algum tempo, foi necessário aumentar o tamanho dos sinais, pois se verificou que, em muitos casos, se estava medindo a acuidade visual e não atenção.

3) Da complexidade dos fatos. Um exemplo tomado na Psicologia comparativa das raças ilustrará este parágrafo.

Em numerosos estudos, os pesquisadores encontraram médias Inferiores nos testes de inteligência aplicados aos pretos, e alguns concluíram pela inferioridade intelectual dos pretos; há, porém, muitos fatores que podem explicar a inferioridade dos resultados; entre este s, podemos citar: a natureza verbal dos testes utilizados, a qual beneficia os brancos, cujo nível cultural é maior; ou então o nível econômico, em conseqüência do qual há alimentação pior entre os grupos de pretos.

As ciências experimentais puderam desenvolver-se graças à crença em vários princípios fundamentais, os quais iremos enunciar a seguir:

1º) O PRINCÍPIO DA CAUSALIDADE

Tudo tem uma causa e, nas mesmas condições, a mesma causa produz o mesmo efeito.

Exemplo: procurando conhecer o nível mental médio dos adolescentes comerciários, em várias regiões do país, encontramos 05 seguintes resultados:

Porto Alegre35,94
São Paulo34,48
Rio de Janeiro34,51

Como se pode constatar, os resultados são praticamente os mesmos, isso porque as mesmas causas, em condições idênticas (natureza do teste, instruções, técnicas de correção, treinamento dos pesquisadores e tipo de população), provocaram os mesmos efeitos.

O princípio da causalidade tem como correlato o princípio do determinismo, que diz:

Não há exceções nas leis. Não há fatos que não sejam regidos por leis.

Quando há uma mistura muito grande de causas e as leis não podem mais ser encontradas pelos métodos científicos clássicos, estabelecem-se leis estatísticas, baseadas em grande número de observações, e fundamentadas em médias e correlações entre variáveis.

As leis estatísticas estão baseadas na crença da continuidade dos fenômenos naturais e estabelecidas graças ao cálculo das probabilidades.

2º) A PSICOLOGIA EXPERIMENTAL

A Evolução da Psicologia demonstrou que é possível aplicar-lhe todos os processos das ciências físicas, embora o seu objeto seja diferente, pois a Psicologia Experimental estuda a conduta animal e humana.

Iniciada em torno de 1860, pelo estudo das sensações e da percepção, ela se estende hoje a todo o domínio da personalidade.

Existem dois conceitos da Psicologia Experimental: Um conceito restrito, utilizado por motivos predominantemente didáticos, por R.

S. Woodworth; para esse autor, a Psicologia é experimental unicamente no caso de o experimentador exercer um controle da situação experimental, com as seguintes condições:

1º) Poder-se repetir as experiências por outra pessoa.

2º) Utilizar-se de uma ou várias variáveis independentes ou fatores de experimentação para observar a sua ação sobre a variável dependente. Por exemplo: ação do barulho (variável independente) sobre o trabalho mental (variável dependente).

Experimentar consiste, sobretudo, em manter fixas todas as variáveis independentes, menos uma, procurando conhecer os efeitos da mudança da variável independente sobre a variável dependente.

A Psicologia Experimental se diferencia assim, como mostra Andrews e também Woodworth:

1º) Da Psicologia Diferencial, cujo objetivo é estudar, para cada variável, as diferenças individuais, utilizando para isso o método estatístico e o cálculo das probabilidades.

2º) Da Psicologia Clínica, cujo objetivo é estudar o indivíduo e procurar explicar a conduta de cada um em função da sua história pessoal (Psicanálise) e pela observação da sua reação global a determinadas situações reais ou provocadas.

Enquanto que a Psicologia Experimental e a Psicologia Diferencial visam a fins teóricos e gerais, a Psicologia Clínica é caracterizada antes de tudo pela investigação tão completa quanto possível de casos individuais e concretos.

Como mostra Lagache, a objetividade e a subjetividade, o rigor e a flexibilidade, o espírito científico e o literário, o naturalismo e o humanismo, São oposições apenas aparentes entre a Psicologia Experimental e a Psicologia Clínica, e na realidade já superadas, em beneficio de uma Psicologia unificada eminentemente científica e impregnada de espírito Experimental, no sentido tão bem descrito e analisado por Claude Bernard, e que definimos mais acima.

§ 3. Definição da Psicologia Aplicada

A designação “Psicologia Aplicada” foi adotada pelo XI Congresso Internacional de Psicotécnica, em Paris, para substituir a palavra Psicotécnica, de sentido controvertido.

Com efeito, a “Psicotécnica” não é nada mais que a Aplicação dos métodos, processos e técnicas da Psicologia científica à resolução dos problemas humanos.

A Psicologia Aplicada utiliza-se dos seguintes ramos da Psicologia científica:

a) A Psicologia Diferencial ou o estudo das diferenças entre os indivíduos e entre os grupos.

b) A Psicologia Experimental ou o estudo em laboratório dos fenômenos psíquicos, com utilização dos métodos de controle rigoroso, tal como se faz nas ciências físicas.

c) A Psicologia Fisiológica ou o estudo das relações entre o comportamento e as características somáticas e nervosas.

d) A Psicometria ou o estudo das funções mentais por meio de testes.

e) A Psicologia Social ou o estudo das interações e relações psicológicas entre os indivíduos e os grupos, assim como dos indivíduos entre si.

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