Livro - Psicologia Cognitiva

Livro - Psicologia Cognitiva

(Parte 3 de 10)

consciência fenômeno complexo de avaliar o ambiente e depois filtrar essa informação através da mente, com conhecimento de fazer isso; pode ser considerada como a realidade mental criada a fim de adaptar-se ao mundo

desabituação — fenômeno no qual uma mudança (às vezes apenas uma leve variação) em um estímulo conhecido leva a pessoa a começar a notar de outra forma um estímulo ao qual se tornara anteriormente habituado

distraidor — traço, característica, objeto ou outro estímulo que causa uma dificuldade individual em prestar atenção seletivamente aos estímulos desejados

fenômeno ponta-da-língua - experiência envolvendo o nível pré-consciente da consciência, na qual uma pessoa tenta lembrar algo que é sabido estar armazenado na memória, mas que ela não pode evocar imediatamente

habituação tendência a acostumar-se a um estímulo e gradualmente notá-lo cada vez menos

percepção subliminar — forma de processamento pré-consciente, na qual as pessoas são capazes de detectar a informação sem estarem conscientes de que estão fazendo isso

priming— processo pelo qual estímulos iniciais específicos ativam vias mentais que aumentam a capacidade para processar os estímulos subseqüentes, relacionados aos estímulos priming sob certo aspecto

problema do coquetel — processo de seguir uma conversação diante da distração das outras conversações, um problema freqüentemente experimentado em coquetéis

processos automáticos — manipulações cognitivas que não exigem decisões conscientes ou esforço voluntário

processos controlados — operações cognitivas que exigem controle e esforço consciente, as quais são executadas em uma etapa de cada vez e consomem mais tempo para sua execução do que as operações mentais governadas por processos automáticos

sinal — estímulo a ser detectado; segundo a teoria da detecção de sinal, há quatro pares de estímulo-resposta possíveis: um acerto, um erro, um alarme falso ou uma rejeição correta

sondagem — pesquisa ativa do ambiente, à procura de estímulos particulares ou características especificas

teoria da detecção de sinal (TDS) - conjunto de princípios perceptivos que postula quatro pares de estímulo-resposta possíveis na detecção de um sinal perceptivo: um acerto, um erro, um alarme falso ou uma rejeição correta

vigilância contínua vigilância alerta para o aparecimento de um estímulo imprevisível, que pode ser sentido por meio de alguma das modalidades sensoriais

vigília — constructo hipotético que representa prontidão, vigilância e ativação, relacionado à atividade do sistema nervoso central

CAPÍTULO 4 - Sim (p. 109 – 148)
Percepção

Já lhe disseram, em algum momento, que você “não pode ver algo que está exatamente sob o seu nariz”, ou que você “não pode ver a floresta através das árvores”? Você já escutou repetidamente sua canção favorita, tentando decifrar a letra dela? Em cada uma dessas situações, denominamos o constructo completo de percepção, o conjunto de processos pelos quais reconhecemos, organizamos e entendemos as sensações recebidas dos estímulos ambientais. A percepção abrange muitos fenômenos psicológicos. Neste capítulo, focalizamos a percepção visual e a auditiva, pois são as modalidades perceptivas (sistemas para um determinado sentido, p. ex., o tato ou o olfato) mais amplamente reconhecidas e estudadas. Para descobrir um pouco dos fenômenos da percepção, os psicólogos estudam freqüentemente situações que causam problemas à compreensão de nossas sensações.

(...)

Os exemplos (...) mostram que, às vezes, não podemos perceber o que existe. É também verdadeiro, entretanto, que em outras ocasiões percebemos coisas que não existem. Por exemplo, observe o triângulo preto no centro do painel esquerdo da Figura 4.3 (ver p. 111), e o triângulo branco no centro do painel direito da mesma figura. Eles saltam aos seus olhos. Agora, observe muito atentamente cada um dos painéis. Você verá que os triângulos não estão lá realmente. O preto que constitui o triângulo central no painel esquerdo parece mais escuro ou mais preto do que o preto circundante, mas não o é. Nem o triângulo central branco no painel direito é mais claro ou mais branco do que o branco circundante. Ambos os triângulos centrais são ilusões de óptica, que envolvem a percepção da informação visual não presente fisicamente no estímulo sensorial visual.

Desse modo, algumas vezes não percebemos o que está aí; às vezes percebemos o que não está aí. Outras vezes, percebemos o que não pode estar aí.

(...)

A existência de ilusões perceptivas sugere que o que percebemos (em nossos órgãos sensoriais) não é necessariamente o que compreendemos (em nossas mentes). Nossas mentes devem estar captando a informação sensorial disponível e manipulando-a, de algum modo, para criar representações mentais de objetos, propriedades e relações espaciais de nossos ambientes. Há milênios, as pessoas reconheciam que, às vezes, aquilo que percebemos difere dos estímulos sensoriais que atingem nossos receptores sensoriais (...)

Os arquitetos não eram os únicos que reconheciam alguns princípios fundamentais da percepção. Há séculos, os artistas sabiam como levar-nos a perceber os per­ceptos tridimensionais quando víamos imagens bidimensionais. Quais são alguns dos princípios que orientam nossas percepções tanto dos perceptos reais como dos ilusórios? Primeiramente, consideramos alguns dos indícios que nos levam a inferir o espaço tridimensional a partir da informação sensorial bidimensional e, depois, examinamos algumas das maneiras nas quais inferimos um conjunto estável de perceptos, apesar das constantes variações no tamanho e na forma daquilo que observamos.

ABORDAGENS GESTÁLTICAS À PERCEPÇÃO DA FORMA (p. 119/120)

Quando a escola gestáltica de psicologia emergiu, parecia inicialmente uma ampla reação contra a abordagem extrema decomponente (concentrada em dividir o todo em componentes elementares) do estruturalismo. Lembre-se, do Capítulo 1, que a abordagem estruturalista para formar a percepção baseia-se na noção de que as sensações simples constituem os blocos construtores da forma percebida. Tais abordagens pouco trataram das maneiras pelas quais essa infinidade de sensações interagem. As idéias estruturalistas não deram sequer uma indicação sobre como — ou se — o conjunto dinâmico da estrutura (p. ex., uma melodia conhecida) podia diferir da soma de suas partes (p. ex., as notas individuais).

Psicólogos iconoclastas como Kurt Koffka (1886-1941), Wolfgang Kõhler (1887-1968) e Max Wertheimer (1880-1943) fundaram a abordagem da Gestalt (do alemão, Gestalt, “forma”), baseada na noção de que o todo difere da soma de suas partes individuais (ver Capítulo 1). A abordagem gestáltica mostrou-se particularmente útil para a compreensão de como percebemos grupos de objetos ou até partes de objetos para formar conjuntos integrais. De acordo com a lei de Prägnanz gestáltica, tendemos a perceber qualquer arranjo visual dado (i. e., tudo que estamos vendo) em um modo que organiza, de forma mais simples, os elementos discrepantes numa forma estável e coerente, em vez de como uma miscelânea de sensações ininteligíveis e desorganizadas. Por exemplo, inclinamo-nos a perceber uma figura focal, percebendo as outras sensações como formadoras de um plano de fundo para a figura que focalizamos.

Quando você entra em uma sala bem conhecida, percebe que algumas coisas destacam-se (p. ex., faces em fotografias ou pôsteres) e outras surgem gradualmente do plano-de-fundo (p. ex., paredes e pisos não-­decorados). Uma figura é qualquer objeto percebido como realçado, quase sempre contra ou em comparação a alguma espécie de (plano-de-) fundo recuado e sem realce.

(...)

Durante a observação de uma sala bem conhecida, seria possível que você prestasse particular atenção ao revestimento do piso ou aos espaços não-decorados da parede, mas provavelmente você, na realidade, jamais faz isso. Na verdade, raramente observa alguma ambigüidade com relação ao princípio da figura-fundo, embora existam exceções.

(...) proximidade, similaridade, acabamento, continuidade e simetria. Esses princípios sustentam a lei fundamental de Prägnanz, visto que cada um deles ilustra como tendemos a perceber arranjos visuais em maneiras que organizam com mais simplicidade os elementos discrepantes em uma forma estável e coerente. Se você parar por um momento e observar seu ambiente, perceberá um arranjo coerente, completo e contínuo de figuras e de planos-de-fundo. Não percebe falhas em objetos das quais seu livro-texto oclui sua visão. Se seu livro ocultar parte da quina de uma mesa, você ainda percebe a mesa como uma entidade contínua, não como apresentando amplas falhas. Examinando o ambiente, tendemos a perceber grupamentos de objetos próximos (proximidade) ou de objetos semelhantes (similaridade), de objetos completos em vez de parciais (acabamento), linhas contínuas em vez de quebradas (continuidade) e padrões simétricos em vez de assimétricos.

Os princípios gestálticos da percepção da forma são extraordinariamente simples, contudo caracterizam grande parte de nossa organização perceptiva (ver Palmer, 1992). Embora os princípios gestálticos forneçam insights descritivos valiosos sobre a percepção de forma e de padrão, eles oferecem pouca ou nenhuma explicação desses fenômenos.

PALAVRAS-CHAVE (p. 146/7)

abordagens gestálticas à percepção da forma - modo de estudo da percepção da forma, baseado na noção de que a forma total difere da soma de suas partes individuais; uma gestalt (forma) é a totalidade distintiva de um todo integrado, em oposição à mera soma das várias panes

agnosia um déficit grave na capacidade para perceber a informação sensorial, geralmente relacionado à modalidade sensorial visual; estranhamente, os agnósicos têm sensações normais, mas carecem da capacidade para interpretar e reconhecer o que sentem, usualmente em conseqüência a lesões cerebrais

figura-fundo um principio gestáltico da percepção da forma: a tendência a perceber que um objeto em um campo perceptivo ou um aspecto deste parece proeminente (denominado de figura), enquanto outros aspectos ou objetos recuam para o plano de fundo (denominado de fundo)

fonema menor unidade sonora verbal que pode ser usada para distinguir uma emissão significativa de uma outra, em uma dada língua

lei de Prägnanz — um princípio gestáltico afirmando a tendência para perceber arranjos visuais de maneiras que organizam mais simplesmente os elementos discrepantes em uma forma estável e coerente

percepção o conjunto de processos psicológicos pelos quais as pessoas reconhecem, organizam e fornecem significação (no cérebro) às sensações recebidas dos estímulos ambientais (nos órgãos dos sentidos)

percepto representação mental de um estimulo que é percebido

processos de compreensão os processos cognitivos usados para compreender-se um texto como um todo e, desse modo, entender-se o que é lido

profundidade quando aplicada à percepção, a distância de alguma coisa percebida a partir do corpo do perceptor

protótipo um modelo que representa da melhor forma um dado conjunto de exemplos, compreendendo um conjunto de aspectos característicos que tendem a ser típicos da maioria dos exemplos

teoria do reconhecimento por componentes (RPC) - uma teoria da percepção de objetos que sugere que os mesmos são reconhecidos com base na percepção do arranjo distintivo dos vários geons (um conjunto de elementos geométricos tridimensionais) que compõem cada objeto

CAPÍTULO 5 - SIM (p. 149 – 182)

Representação do Conhecimento: Imagens e Proposições

Olhe cuidadosamente as fotos representadas na Figura 5.1. Descreva para si mesmo ao que duas dessas pessoas se parecem. Evidentemente, nenhuma dessas pessoas pode existir, de fato, em uma forma física no interior de sua mente. Como você é capaz de imaginá-las e descrevê-las? Você deve ter em sua mente alguma forma de representação mental (alguma coisa que representa algo mais) do que você sabe sobre elas. Mais geralmente, você usa a representação do conhecimento, a forma pela qual você conhece em sua mente as coisas, as idéias, os eventos, etc., que existem fora de sua mente.

REPRESENTAÇÃO MENTAL DO CONHECIMENTO (p. 151)

Teoricamente, os psicólogos cognitivos adorariam ser capazes de observar diretamente como cada um de nós representa o conhecimento, tal como fazer um videoteipe ou uma série de instantâneos das representações contínuas do conhecimento na mente humana. Infelizmente, os métodos empíricos diretos para observar a representação do conhecimento não são disponíveis presentemente e é improvável que tais métodos estejam acessíveis no futuro imediato (embora nunca saibamos). Quando os métodos empíricos diretos são inexeqüíveis, restam alguns métodos alternativos. Em primeiro lugar, podemos pedir às pessoas que descrevam suas próprias representações do conhecimento e seus próprios processos de representação do conhecimento. Lamentavelmente, nenhum de nós tem acesso consciente aos nossos próprios processos de representação do conhecimento, de modo que a informação por auto-relato desses processos é altamente não-confiável (Pinker, 1985).

Outra possibilidade é a abordagem racionalista, na qual tentamos deduzir logicamente a explicação mais razoável de como as pessoas representam o conhecimento. Durante séculos, os filósofos fizeram exatamente isso. Na epistemologia clássica (o estudo da natureza, as origens e os limites do conhecimento humano), os filósofos distinguiam entre duas classes de estruturas do conhecimento: o conhecimento declarativo (fatos que podem ser declarados, p. ex., a data de seu nascimento, o nome de seu melhor amigo ou a maneira como um coelho olha) e o conhecimento procedural (procedimentos que podem ser executados, p. ex., as etapas envolvidas em amarrar os cordões dos seus sapatos, somar uma coluna de números ou dirigir um carro). A diferença, conforme expressou o filósofo Gilbert Ryle (1949), está entre saber o que e saber como.

Embora os psicólogos cognitivos tenham feito amplo uso dos insights racionalistas como um ponto de partida para entender a cognição, raramente se contentam apenas com as descrições racionalistas. Em vez disso, procuram algum tipo de sustentação empírica para os insights propostos nas explicações racionalistas da cognição. Há duas fontes principais de dados empíricos sobre a representação do conhecimento: os experimentos laboratoriais e os estudos neuropsicológicos. No trabalho experimental, os pesquisadores estudam indiretamente a representação do conhecimento, observando como as pessoas lidam com várias tarefas cognitivas que exigem a manipulação do conhecimento representado mentalmente. Nos estudos neuropsicológicos, os investigadores observam como o cérebro normal responde às diversas tarefas cognitivas que envolvem a representação do conhecimento ou observam as relações entre vários déficits na representação do conhecimento e das patologias associadas, no cérebro.

REPRESENTAÇÕES DO CONHECIMENTO DECLARATIVO: PALAVRAS VERSUS FIGURAS (p. 151/3)

O conhecimento declarativo é um corpo organizado de informações factuais. Os psicólogos cognitivos analisaram o conhecimento declarativo em várias maneiras (p. ex., se a informação está ou não ligada a episódios empíricos específicos; ver Capítulo 7).

Neste capítulo, focalizamos a distinção entre o conhecimento representado em figuras mentais e o conhecimento representado em formas mais simbólicas, como as palavras. Naturalmente, os psicólogos cognitivos estão interessados principalmente em nossas representações mentais internas daquilo que conhecemos, mas considerar primeiramente como as representações externas em palavras diferem de tais representações em figuras pode auxiliar nossa compreensão.

Algumas idéias são representadas de modo melhor e mais facilmente em figuras e outras em palavras. Por exemplo, se alguém lhe perguntar: “Qual é a forma de um ovo de galinha?”, você pode achar mais fácil desenhar um ovo do que descrevê-lo. Para muitas formas geométricas e objetos concretos, as figuras parecem expressar uma infinidade de palavras sobre o objeto em uma forma econômica. Por outro lado, se alguém lhe perguntar: “O que é justiça?”, por mais difícil que seja descrever esse conceito abstrato em palavras, seria ainda mais difícil fazer isso pictoricamente.

(...) embora tanto as palavras como as figuras possam ser usadas para representar coisas e idéias, nenhuma forma de representação mantém realmente todas as características daquilo que está sendo representado. Por exemplo, nem a palavra gato, nem a figura do gato realmente comem peixe, miam ou ronronam quando o gato é acariciado. Tanto a palavra gato como a figura desse gato são representações distintivas da condição de ser gato, e cada tipo de representação tem características diferentes.

Podemos representar coisas e idéias em figuras ou em palavras. Nem as palavras, nem as figuras captam todas as características daquilo que representam, e cada uma capta mais facilmente alguns tipos de informação do que outros tipos. Alguns psicólogos cognitivos sugeriram que temos (a) algumas representações mentais que se assemelham a imagens pictóricas análogas; (b) outras representações mentais que são altamente simbólicas, como as palavras; e talvez ainda (c) representações mais fundamentais que estão num “mentalismo” abstrato puro que não é verbal, nem pictórico, o qual os psicólogos cognitivos representam, freqüentemente, nessa abreviação altamente simplificada.

(...) a figura mostra atributos concretos (p. ex., forma e tamanho relativo) que são similares aos aspectos e às propriedades do objeto do mundo real que ela representa. Mesmo se você encobrir parte da figura do gato, o que permanece ainda é análogo a uma parte de um gato. Sob a maioria das circunstâncias, a grande parte dos aspectos da figura pode ser compreendida simultaneamente, embora você possa examinar a figura, aproximar-se para uma visão mais detalhada ou afastar-se para ver a figura em toda a sua extensão. Mesmo quando examinando a figura ou aproximando-se e afastando-se dela, entretanto, você não tem de seguir quaisquer regras arbitrárias para olhar as características da figura de cima para baixo, da esquerda para a direita, e assim por diante.

Ao contrário da figura de um gato, a palavra gato é uma representação simbólica; a relação entre a palavra e o que ela representa é simplesmente arbitrária. Basicamente, nada há de semelhante a um gato a respeito da palavra. Se você encobrir parte da palavra, nem mesmo se mantém mais uma relação simbólica com alguma parte do objeto que ela representa. Além disso, por serem arbitrários os símbolos, sua utilização exige a aplicação de regras. Por exemplo, na formação de palavras, os sons ou as letras também devem ser ordenados de acordo com regras (p. ex., g-a-t-o, e não a-g-t-o ou t-g-­a-o; no original: c-a-t, e não a-c-t ou t-c-a); na formação de frases, as palavras também devem ser ordenadas segundo regras (p. ex., “o gato está sob a mesa”, e não “mesa sob gato a o está”; no original: “the cat is under the table”, e não “table under cat the the is”).

Representações simbólicas como a palavra gato captam alguns tipos de informação, mas não outros. O dicionário define gato como “um mamífero carnívoro (Felis catus) há muito tempo domesticado como um animal de estimação e para caçar ratos e camundongos” (Merriam Webster’s Collegiate Dictionary, 10. ed.). Se nossas próprias representações mentais para os significados das palavras forem semelhantes às do dicionário, a palavra gato conota um animal que come carne (“carnívoro”), amamenta seus filhotes (“mamífero”), e assim por diante. Essas informações são abstratas e gerais e podem ser aplicadas a qualquer número de gatos específicos, com qualquer cor ou padrão de pelagem. Para representar características adicionais, devemos usar palavras adicionais (p. ex., preto, persa ou malhado).

A figura do gato não comunica sequer uma das informações abstratas transportadas pela palavra, no tocante ao que o gato come, se amamenta seus filhotes, e assim por diante. Por outro lado, a figura transmite muitas informações concretas sobre esse gato específico, tais como a posição exata das suas pernas, o ângulo no qual o estamos observando, o comprimento da sua cauda, se ambos os seus olhos estão abertos, etc.

Palavras e figuras também representam relações de diferentes maneiras. A gravura na Figura 5.2(a) mostra a relação espacial entre o gato e a mesa. Para qualquer figura dada que mostre um gato e uma mesa, a relação (ao lado, acima/abaixo, atrás, etc.) espacial (posicional) estará representada concretamente na figura. Ao contrário, quando se usam palavras, as relações espaciais entre os objetos devem estar estabelecidas explicitamente por um símbolo distinto (i. e., uma palavra como uma preposição) — por exemplo, “o gato está sob a mesa”. Por outro lado, as relações mais abstratas, tais como a qualidade de pertencer a um grupo, são freqüentemente sugeridas pelos significados das palavras (p. ex., os jatos são mamíferos, as mesas são elementos da mobília), mas raramente estão subentendidas por meio das figuras.

Para resumir as figuras captam adequadamente as informações concretas e espaciais de um modo análogo a tudo quanto representam; as palavras captam habilmente ­as informações abstratas e absolutas numa maneira que é simbólica de tudo quanto representam. As representações pictóricas transmitem todas as características simultaneamente; em geral, algumas regras para criar ou entender as figuras pertencem à relação análoga entre a figura e aquilo que ela representa, assegurando, talvez, tanta similaridade quanto possível entre ambos. As representações em palavras geralmente transmitem seqüencialmente as informações, segundo regras arbitrárias que pouco têm a ver com o que as palavras representam, mas que têm muito a ver com a estrutura do sistema simbólico para o uso de palavras. Cada tipo de representação é bem-adequado para alguns propósitos, mas não para outros. Por exemplo, cópias reprográficas e fotos de identificação servem a diferentes propósitos daqueles dos ensaios e dos memorandos.

Agora que temos algumas idéias preliminares sobre as representações externas do conhecimento, podemos voltar a considerar as suas representações internas. Especificamente, como representamos o que conhecemos em nossas mentes? Temos cenários (figuras) e narrativas mentais (palavras)? Em capítulos subseqüentes, examinaremos vários tipos de representações mentais simbólicas. Neste capítulo, focalizamos as figuras mentais.

IMAGINAÇÃO MENTAL (p. 153/4)

Imaginação é a representação mental das coisas (objetos, eventos, ambientes, etc.) que presentemente não estão sendo percebidas pelos órgãos sensoriais. Por exemplo, recorde uma de suas primeiras experiências num campus universitário. Quais foram algumas das visões, dos sons e até dos aromas (p. ex., de gramados ou de alamedas) que você teve naquela ocasião? Embora essas sensações não lhe sejam imediatamente acessíveis nesse momento, ainda assim você pode imaginá-las. De fato, a imaginação mental pode representar coisas que jamais haviam sido observadas pelos seus sentidos em momento algum; por exemplo, imagine o que seria descer o rio Amazonas. As imagens mentais podem, mesmo, representar coisas que absolutamente não existem fora da mente da pessoa que as cria; exemplificando, pense em sua aparência se você tivesse um terceiro olho no centro de sua testa.

A imaginação pode envolver representações mentais em quaisquer modalidades sensoriais (audição, olfato, paladar, etc.). Imagine um alarme de incêndio, sua canção favorita ou o hino do seu país; o aroma de uma rosa, de bacon frito ou de uma cebola; o sabor de um limão, de picles ou de seu doce favorito. Pelo menos hipoteticamente, cada forma de representação mental está sujeita à investigação e alguns pesquisadores estudaram cada uma das representações sensoriais (p. ex., Intons-Peterson, 1992; Intons-Peterson, Russell & Dres­sei, 1992; Reisberg, Smith, Baxter & Sonenshine, 1989; Reisberg, Wilson & Smith, 1991; Smith, Reisberg & Wil­son, 1992).

Todavia, a maioria das pesquisas sobre a imaginação, na psicologia cognitiva, focalizou a imaginação visual, a representação mental do conhecimento visual (p.ex., objetos ou ambientes) não-visível presentemente aos olhos. Aparentemente, os pesquisadores são apenas como outras pessoas: a maioria de nós está mais consciente da imaginação visual do que de outras formas de imaginação. Quando Stephen Kosslyn e colaboradores (Kosslyn, Seger, Pani & Híllgei; 1990) pediram aos alu­nos que mantivessem um diário de suas imagens mentais, estes relataram muito mais imagens visuais do que imagens auditivas, olfativas, táteis ou gustativas.

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