Psicanálise e saúde mental: a análise do sujeito psicótico na instituição psiquiátrica

Psicanálise e saúde mental: a análise do sujeito psicótico na instituição psiquiátrica

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Psicanálise e saúde mental: a análise do sujeito psicótico na instituição psiquiátrica

São Luis/MA EDUFMA 2009

Adriana Cajado Costa

Dedico este livro aos meus amores:

Alexandre Fernandes Corrêa e Bruno de Lorenzo Costa Corrêa

A memória do meu pai, Walter Martins Costa

COSTA, Adriana Cajado. Psicanálise e saúde mental: a análise do sujeito psicótico na instituição psiquiátrica. São Luis/MA: EDUFMA, 2009, 146p.

ISBN 978-85-7862-042-4

Capa: w.flickr.com/photos/ze1/10769192/ Impresso somente no formato eletrônico (e-book)

De acordo com a Lei n.10.994, de 14/12/2004, foi feito depósito legal na Biblioteca Nacional

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Com apoio do

Núcleo de Educação de Jovens e Adultos - NEJA

Universidade Federal do Maranhão

Gabinete da Reitoria - Administração Natalino Salgado Filho Diretor Edufma: Ezequiel Antonio Silva Filho

Adaptação da Dissertação de Mestrado Psicanálise e saúde mental: a análise do sujeito psicótico na instituição psiquiátrica, defendida no

Programa de Pós-Graduação em Psicologia Clínica da

Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, sob orientação de Maria Lucia Vieira Violante, em 2002

Eu hoje tive um pesadelo e levantei atento a tempo

Eu acordei com medo e procurei no escuro

Alguém com seu carinho e lembrei de um tempo

Porque o passado me traz uma lembrança

Do tempo que eu era criança E o medo era motivo de choro

Desculpa pra um abraço ou um consolo

Hoje eu acordei com medo, mas não chorei

Nem reclamei abrigo

Do escuro, eu via um infinito sem presente

Passado ou futuro

Senti um abraço forte, já não era medo, era uma coisa sua que ficou em mim, que não tem fim

De repente a gente vê que perdeu

Ou está perdendo alguma coisa

Morna e ingênua

Que vai ficando no caminho

Que é escuro e frio, mas também bonito

Porque é iluminado

Pela beleza do que aconteceu Há minutos atrás

Apresentação

Estamos todos em uma sala ampla e escura. O reconhecimento dos objetos e dos outros é difícil. Os pontos de referência se dissolvem e se reorganizam formando uma imagem disforme; não há descanso, não há um espelho que o situe no contorno do seu próprio corpo – pode ser homem, mas também pode ser mulher, jovem, adulto, criança ou, apenas, o resto de algo que, ao tentar se constituir, fracassou. Fratura que o deixou fora de si, de uma história compartilhável, da cidade, do trabalho e do amor.

Como apresentar um processo de investigação e trabalho analítico, com sujeitos psicóticos em instituição psiquiátrica, sem recorrer à construção imagética que localize meu leitor na trajetória de uma escuta psicanalítica que aposta na suposição de um sujeito na psicose?

Publicar um trabalho, que já foi escrito sete anos atrás, no momento de um Mestrado e que viabilizou a elaboração de uma investigação clínica, que já trazia uma história de outros sete anos, é um exercício de reorganizar uma pesquisa. O que apresento ao leitor nesse livro é o resultado de uma dissertação de mestrado defendida em 2002. De lá para cá, o trabalho de investigação clínica e de pesquisa se aprofundaram.

A clínica das psicoses movimenta uma escuta analítica delicada e atenta ao manejo transferencial. A direção do tratamento precisa ser inscrita na construção do sujeito e de nomeação de sua obra, assinar em nome-próprio. As dimensões do Outro, do Desejo e do

A presente pesquisa é fruto de inquietações e questionamentos oriundos do atendimento a sujeitos psicóticos confinados em hospital psiquiátrico (conveniado ao SUS) de cunho asilar. Pode-se afirmar que tais sujeitos foram institucionalizados numa prática de tratamento eminentemente medicamentosa. Entretanto, se esta foi a fonte de interesse da pesquisa, terreno no qual foi possível sua concepção, passados alguns anos, seu desenvolvimento se deu numa instituição pública.

Esta instituição passa por inúmeras reformas, disponibilizando aos pacientes, no momento, os seguintes tratamentos: no CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) – oficinas de marcenaria, serigrafia, reciclagem de papel, bijuteria, cabeleireiro, artesanato etc.; no Serviço Ambulatorial – atendimento psiquiátrico e psicoterápico; Lar abrigado; Emergência e Internação. Os muros que cercavam a área do hospital foram derrubados e, no lugar, uma grade foi erguida; agora é possível ter-se uma comunicação direta com as pessoas que passam pela rua.

O ambulatório constituiu-se como o espaço privilegiado da pesquisa. A agenda de consultas oscilava muito: ora estava lotada, fazendo com que alguns pacientes ficassem na fila de espera almejando por uma vaga para iniciar seu tratamento, ora o fluxo diminuía a ponto de não haver ninguém para ser atendido. Muitas pessoas se dirigiam ao ambulatório em busca do psicólogo e recusavam-se a ser atendidas pelo psiquiatra. Temiam ser “dopadas” ou indicadas para a observação – um passo para a internação.

Adriana Cajado Costa

Gozo precisam ser alinhavados, tecidos e localizados para que o sujeito na psicose encontre seu lugar.

Atualmente, pode-se questionar sobre o que impede a inscrição em nome-próprio e a introdução do sujeito psicótico na ordem fálica. Qual a porção demoníaca dos delírios paranóicos de cunho persecutório que em seu desfecho podem situar o sujeito, em termos de filiação, no Nome-do-Pai? O que há de odioso na loucura?

Compreendo as limitações e possibilidades da escuta de sujeitos institucionalizados, mais pelo instituído da instituição - sem esquecer da invasão medicamentosa e da aliança mecânica da máquina de prescrição de receitas - do que da demanda do sujeito.

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