Competitividade na indústria de abate e preparação de carnes

Competitividade na indústria de abate e preparação de carnes

(Parte 1 de 8)

Ministério da Ciência e Tecnologia - MCT Financiadora de Estudos e Projetos - FINEP Programa de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico - PADCT

Nota Técnica Setorial do Complexo Agroindustrial

O conteúdo deste documento é de exclusiva responsabilidade da equipe técnica do Consórcio. Não representa a opinião do Governo Federal.

Campinas, 1993

Documento elaborado pelo consultor John Wilkinson (CPDA/UFRRJ).

A Comissão de Coordenação - formada por Luciano G. Coutinho (IE/UNICAMP), João Carlos Ferraz (IEI/UFRJ), Abílio dos Santos

(FDC) e Pedro da Motta Veiga (FUNCEX) - considera que o conteúdo deste documento está coerente com o Estudo da Competitividade da Indústria Brasileira (ECIB), incorpora contribuições obtidas nos workshops e servirá como subsídio para as Notas Técnicas Finais de síntese do Estudo.

Comissão de Coordenação

Instituições Associadas

Instituições Subcontratadas

Instituição Gestora

Coordenação Geral:Luciano G. Coutinho (UNICAMP-IE)

João Carlos Ferraz (UFRJ-IEI)

Coordenação Internacional:José Eduardo Cassiolato (SPRU) Coordenação Executiva:Ana Lucia Gonçalves da Silva (UNICAMP-IE)

Maria Carolina Capistrano (UFRJ-IEI)

Coord. Análise dos Fatores Sistêmicos:Mario Luiz Possas (UNICAMP-IE) Apoio Coord. Anál. Fatores Sistêmicos:Mariano F. Laplane (UNICAMP-IE)

João E. M. P. Furtado (UNESP; UNICAMP-IE)

Coordenação Análise da Indústria:Lia Haguenauer (UFRJ-IEI)

David Kupfer (UFRJ-IEI)

Apoio Coord. Análise da Indústria:Anibal Wanderley (UFRJ-IEI) Coordenação de Eventos:Gianna Sagázio (FDC)

Contratado por:

Ministério da Ciência e Tecnologia - MCT Financiadora de Estudos e Projetos - FINEP Programa de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico - PADCT

O Estudo foi supervisionado por uma Comissão formada por:

João Camilo Penna - PresidenteJúlio Fusaro Mourão (BNDES) Lourival Carmo Monaco (FINEP) - Vice-PresidenteLauro Fiúza Júnior (CIC) Afonso Carlos Corrêa Fleury (USP)Mauro Marcondes Rodrigues (BNDES) Aílton Barcelos Fernandes (MICT)Nelson Back (UFSC) Aldo Sani (RIOCELL)Oskar Klingl (MCT) Antonio dos Santos Maciel Neto (MICT)Paulo Bastos Tigre (UFRJ) Eduardo Gondin de Vasconcellos (USP)Paulo Diedrichsen Villares (VILLARES) Frederico Reis de Araújo (MCT)Paulo de Tarso Paixão (DIEESE) Guilherme Emrich (BIOBRAS)Renato Kasinsky (COFAP) José Paulo Silveira (MCT)Wilson Suzigan (UNICAMP)

RESUMO EXECUTIVO1
APRESENTAÇÃO15
1. A DINÂMICA MUNDIAL DAS CADEIAS DE CARNE16
1.1. Padrões de Produção e Consumo16
1.2. O Segmento de Carne Bovina19
1.2.1. Novas tecnologias21
1.2.2. Padrões de concorrência e estratégias das empresas líderes2
1.3. O Setor de Carne Suína25
1.4. O Setor de Aves28
2. A COMPETITIVIDADE DA AGROINDÚSTRIA BRASILEIRA DE CARNES34
2.1. O Setor de Carne Bovina36
2.2. O Setor de Aves42
2.3. O Setor de Suínos47
2.4. A Competitividade do Setor de Carnes e o Mercosul50
2.5. Novas Técnicas Organizacionais, Capacitação e Relações de Trabalho52
3. PROPOSIÇÕES DE POLÍTICA54
3.1. Políticas de Reestruturação Setorial54
3.2. Políticas de Modernização Produtiva56
3.3. Políticas Relacionadas aos Fatores Sistêmicos57
4. INDICADORES DE COMPETITIVIDADE58
BIBLIOGRAFIA60
RELAÇÃO DE TABELAS62

SUMÁRIO ANEXO: PESQUISA DE CAMPO - ESTATÍSTICAS BÁSICAS PARA O SETOR................63

1 ESTUDO DA COMPETITIVIDADE DA INDÚSTRIA BRASILEIRA

1. TENDÊNCIAS INTERNACIONAIS DA COMPETITIVIDADE

1.1. Características Estruturais do Setor

Com a consolidação da transição de uma dieta de proteína vegetal para animal nos países ocidentais industrializados, o setor de carnes tornou-se o eixo do sistema alimentar. O setor compreende várias cadeias, entre as quais a bovina, a suína e a avícola, que representam as rubricas principais e serão a base da análise feita a seguir.

Em 1992, a produção global dos principais países, desdobrada por cadeia, foi a seguinte (em 1.0 toneladas): bovinos, 38.7; suínos, 64.900; aves, 35.053, chegando a um total de 134.731 mil toneladas. O comércio global destes países (também em 1.0 t), no mesmo ano, foi: bovinos, 5.821; suínos, 2.165; aves, 2.266, movimentando apenas 10.252 mil toneladas, ou seja, 7.6% da produção global. Estes dados demonstram que os mercados domésticos constituem o eixo fundamental dos sistemas de produção e consumo de carnes.

Houve uma estagnação e até declínio no consumo de carne bovina nos países industrializados a partir dos anos 80, ligeiro aumento na carne suína (basicamente China), e um dinamismo maior para aves, embora com perda de fôlego, na CEE, a partir do final da década. O deslocamento do consumo para carne avícola foi estimulado pela crise nos países desenvolvidos a partir do final dos anos 60, uma vez que o preço do frango baixou em relação às outras carnes e em relação aos índices gerais de preços, e pelos novos hábitos de consumo (conveniência, saúde, nutrição).

Na década de 80, os mercados domésticos dos países industrializados foram caracterizados por uma crescente sofisticação e segmentação, além de uma orientação para a incorporação de serviços, com o aumento do consumo fora do lar. O comércio mundial é relegado aos segmentos de menor valor e a participação dos países industrializados neste comércio é motivada sobretudo pelo escoamento de excedentes a montante na cadeia (carcaça e produtos pouco elaborados).

A natureza do comércio é bem distinta entre os três segmentos. O comércio de carne bovina é polarizado entre os eixos Atlântico e Pacífico, apresentando nesta última área maiores preços e maior dinamismo, e é submetido a rigorosas legislações sanitárias. O Brasil situa-se no

2 ESTUDO DA COMPETITIVIDADE DA INDÚSTRIA BRASILEIRA eixo Atlântico, dependente do mercado da CEE, com exceção de carnes industrializadas (cozidas), que são exportadas principalmente para os EUA.

No caso de suínos, os fluxos comerciais são menos definidos e pouco significativos, embora exista um importante comércio dentro dos países asiáticos. O Brasil pretende redinamizar suas exportações também para esta região (especialmente Hong Kong).

Em relação a aves (basicamente frangos) também existe maior flexibilidade nos fluxos comerciais. O Brasil fica entre os três primeiros exportadores, disputando o mercado do Oriente Médio com a CEE e EUA, e o mercado japonês com a China e a Tailândia. Durante os 80, face aos incentivos à exportação concedidos pela CEE e pelos EUA, o Brasil perdeu espaço nestes mercados, sobretudo para os EUA.

A atuação do Estado varia nos países de maior participação na produção. Nos EUA não existem programas diretos de apoio à produção, mas o setor beneficia-se dos controles sobre importação e, indiretamente, das políticas que afetam a produção de rações. Por outro lado, as exportações são diretamente apoiadas pelo Export Enhancement Programme. Na CEE, o setor é apoiado também pela política relativa a rações, bem como por políticas de intervenção e de estoques, no caso de carne bovina, que por sua vez beneficia-se também da política leiteira. Ao mesmo tempo, o mercado doméstico é protegido e as exportações subsidiadas.

1.2. Estratégias Empresariais

As estruturas produtivas são bastante distintas nos três segmentos e, sobretudo no caso de carne bovina, entre os principais blocos - EUA e CEE.

Nos EUA, as empresas líderes concentram-se em torno de seus mercados domésticos e refletem a mudança de eixo do setor para a produção intensiva de carne branca com base em rações. Os grandes frigoríficos de carne bovina (Wilson, Swift, Armour) cederam lugar para empresas como a ConAgra e a Cargill, que se diversificaram de cereais/oleaginosos para carnes brancas. Estas empresas diversificaram-se tanto na direção de outras carnes (que são produtos substitutos do ponto de vista do consumo), como para os segmentos de maior valor agregado a jusante na cadeia (industrializados e serviços). A internacionalização no setor de carnes, porém, tem se mostrado muito tímida, embora estimulada agora pelos incentivos à exportação e pelas oportunidades nos mercados asiáticos.

Na CEE, as cooperativas ou empresas formadas a partir de cooperativas são fortes no conjunto da produção de carne bovina e suína. A carne bovina é fundamentalmente tributária da pecuária leiteira e, consequentemente, o setor permanece bastante fragmentado. O setor avícola

3 ESTUDO DA COMPETITIVIDADE DA INDÚSTRIA BRASILEIRA mostra-se mais concentrado e dominado pelo setor de capital privado. O nível de diversificação dentro do conjunto das carnes é, portanto, menor na CEE do que nos EUA, mas as estratégias empresariais são também orientadas prioritariamente para a segmentação e sofisticação do mercado doméstico.

Tratando-se ao mesmo tempo de commodities e de produtos diferenciados, as empresas líderes precisam articular estratégias de custos e de marcas, e estabelecer competências a montante (na logística de abastecimento), no próprio processo produtivo (através de sistemas flexíveis) e a jusante (na distribuição). Amplas redes de comercialização e formas estáveis de integração com a agricultura, portanto, são aspectos cruciais para a competitividade.

1.3. Tendências Tecnológicas

A avicultura consolidou-se como líder do setor através dos avanços genéticos representados pela tecnologia de hibridização, que não podiam ser estendidos ao setor bovino. Atualmente, as biotecnologias - que são essencialmente genéricas - oferecem possibilidades para um avanço qualitativo do setor bovino, e também para suínos, através da transferência de embriões, hormônios de crescimento e novos avanços na área de nutrição.

As novas biotecnologias, porém, têm uma relação ambivalente com as preocupações ecológicas. A valorização do "natural" aponta para a redução mais do que para avanços na intensificação da produção a partir das biotecnologias.

Na área de avicultura, as inovações dirigem-se a superar os problemas de stress, que baixam a produtividade em condições de produção intensiva, e ao controle de perigosas infecções como salmonela e listeria. Na área de suínocultura a questão fundamental é o controle da poluição do solo e dos lençóis freáticos decorrente da produção intensiva. Importantes avanços genéticos estão levando a uma renovação das matrizes, melhorando produtividade e qualidade.

A nível industrial, a prioridade tem sido dada à polivalência na área de abate, combinada com tecnologias que mantêm a identidade dos produtos (códigos de barra internos que identificam a origem e tipo de cada corte de carne, por exemplo) e sistemas flexíveis que, cada vez mais, orientam a produção na direção de uma demanda diversificada e sob a forma de encomenda.

4 ESTUDO DA COMPETITIVIDADE DA INDÚSTRIA BRASILEIRA

2. COMPETITIVIDADE DO SETOR DE ABATE E PREPARAÇÃO DE CARNES NO BRASIL

(Parte 1 de 8)

Comentários