Diamantina - Uma viagem no tempo

Diamantina - Uma viagem no tempo

DIAMANTINA, uma viagem no tempo

Agostinho Menotti Orlandi *

RESUMO

O artigo reforça como a cidade de Diamantina se insere na História Nacional. A descrição de seu patrimônio histórico. A influência dos seus diamantes no período áureo. Características e objetivos de seus personagens: Chica da Siva e JK. O artigo conclui-se com propostas de maior atenção dos historiadores e arqueólogos para com a preservação cultural do patrimônio físico e, principalmente, humano.

Palavra-chave: Diamantina; Chica da Silva; JK; patrimônio cultural

    *Aluno do Curso de História da Universidade Salgado de Oliveira, Belo Horizonte, MG, menottiorlandi@msn.com

INTRODUÇÃO

Os monumentos históricos e os restos arqueológicos são importantes portadores de mensagens e, por sua própria natureza como cultura material, são usados pelos atores sociais para produzir significado, em especial ao materializar conceitos como identidade nacional e diferença étnica. A manutenção de uma cidade ou região, em parte sempre foi devida a sua influência para o país. Os caminhos, portanto são cruciais para determinar a história e influência de uma cidade em uma região.

Com quase três séculos de fundação, passando de povoado a arraial até chegar à município, Diamantina é uma cidade rica em história e tradições . Possui um patrimônio arquitetônico, cultural e natural rico e preservado. A cidade fica na borda do Espinhaço, praticamente dividindo as bacias do Rio São Francisco e do Rio Jequitinhonha. È um lugar diferente, isolado e por isso mesmo fascinante. Despontou bem mais ao norte, distante dos tradicionais centros auríferos do século XVIII. Os desbravadores chegaram em busca do ouro, mas não demorou para que descobrissem que a vocação daquela terra era outra. Uma vocação que consumiu milhões de anos da natureza e presenteou o homem com uma verdadeira preciosidade, ou seja, a formação do município está intrinsecamente ligada à exploração do ouro e principalmente diamantes, de onde derivou seu nome. Do Arraial de Tijuco originou-se Diamantina

Completamente no estilo barroco,suas casas coloniais e suas igrejas guardam segredos sobre grandes tesouros escondidos pelos escravos. As igrejas ( São Francisco, Amparo, Rosário, das Mercês..)com seu interior folheado à ouro com obras do mestre Aleijadinho e mestre Athaíde, mostram a opulência de uma época em que a cultura portuguesa predominava. Por suas ladeiras desfilaram grandes mitos, como: Chica da Silva, Juscelino Kubitschek, Pe. Rolim ( grande vulto da Inconfidência Mineira) e outros.

Construída em um sítio íngreme, possui traçado urbano sinuoso, formado por ruas estreitas com calçamento em pedra. O casario , definidor das ruas, não possui recuo frontal e se destaca pelo colorido vivo das esquadrias que contrasta com o branco das paredes. Há várias igrejas no centro, em geral se destacam do entorno no qual estão inseridas. Nota-se o uso de elementos que remetem à arquitetura portuguesa influenciada pela árabe, como muxarabis e treliças nas janelas e varandas. A morfologia urbana de Diamantina foi inspirada nas cidades medievais portuguesas. Na área central da cidade encontramos uma parte plana, de pedras acinzentadas. A tipologia comum é a colonial, havendo poucos exemplos de construções neoclássicas, ecléticas ou neocoloniais. A arquitetura moderna está representada por três obras de Oscar Niemeyer, da década de 50. Encravada na inóspita Serra do Espinhaço, Diamantina é um exemplo vivo de arquitetura colonial de linhas e formas suaves, adaptadas aos trópicos .

Serenatas e vesperatas, tradições religiosas, belos rios, ( Cristais e Sentinela), a Estrada Real, gastronomia rica e própria da região ( quiabo com angu ) além de seu conjunto arquitetônico tombado pelo Patrimônio Histórico e Artístico Nacional em 1938 fazem de Diamantina o destino obrigatório no amplo circuito turístico de Minas Gerais. E no final da década de 90 veio o reconhecimento mundial: Diamantina recebe da Unesco o título de Patrimônio Cultural da Humanidade.

Diamantes

Os índios botocudos guiaram os primeiros exploradores pela região, em busca de ouro. Minas ainda não tinha revelado todo o seu fascinante mundo dourado quando, em 1714, pequeninas pedras brilhantes foram encontradas no Arraial do Tijuco. Preciosas e raras. O diamante até então só era encontrado nas Índias. Dá para compreender o rebuliço que a descoberta causou na época.

O período diamantífero serviu como um período de grande crescimento para Portugal. As pedras transladadas para o Reino fomentou maior investimento em esquadras e diversas viagens para as “entradas e bandeiras” nos rincões do Brasil. O lastro dos diamantes, fez com que os portugueses abrissem veredas, trilhas e atalhos que os levaram a São Paulo de Piratininga atrás de novos veios, concomitantemente ao caminho inverso de São Sebastião do Rio de Janeiro.

Os tropeiros, transportadores de diamantes e traficantes, naturalmente criaram caminhos para o escoamento destes valores, e que veio a se chamar de Estrada Real; ligando a cidade do Serro e Diamantina a Parati, no Rio de Janeiro. Atualmente ponto turístico de grande repercussão para a cidade de Diamantina. Pedras preciosas, junto com ouro, deixavam os portos de Rio de Janeiro. Os navios vinha de Portugal carregados com pedras comuns, que serviam como lastro. Voltavam com ouro e diamantes. Ficavam as pedras comuns como pagamento.

Ao contrário do Ciclo do Ouro, que declinou no final do século XVIII, o Ciclo do Diamante, manteve sua exuberância por mais tempo. Ainda em 1831, ano em que o arraial passou a se chamar Vila Diamantina, a extração e comércio de diamantes originava grandes riquezas. Teve espaço a elite mais requintada de Minas Gerais, enquanto as cidades do ouro amarguravam exaustão de suas jazidas. Esta situação não duraria para sempre. Em 1860, com a descoberta de fabulosas jazidas na África do Sul, o preço do diamante despencou. Começava um período de decadência com a diminuição das reservas diamantíferas.

Diamantina foi a maior lavra de diamantes do mundo ocidental no século XVIII. Foram aproximadamente três milhões de quilates, uma fortuna astronômica. Os diamantes perfeitos eram chamados de “estrelas”. Por isso é fácil aceitar que o céu de Minas refletia os diamantes do Tijuco.

CHICA DA SILVA

Estes cristais diamantinos foram os responsáveis pela criação de um grande mito diamantinense: mulher negra , escrava, muito bonita, que fascinou o homem mais rico do Arraial do Tijuco, o comerciante de diamantes João Fernandes de Oliveira. Havia quem falasse que tinha fortuna maior que o rei de Portugal. “ A escrava que se fez rainha”: assim ficou impregnada a imagem desta mulher no imaginário popular: CHICA DA SILVA.

Personagem do livro de João Felício dos Santos, sobrinho-neto de Joaquim Felício dos Santos, difundido pelo filme homônimo de Cacá Diegues, ambos de 1976 e revista em novela ( TV Manchete), além da substituição do “Ch” pelo “X”, retrata a liberação de costumes da mulher daquela década, marcada pelo revolução sexual. A historiadora Keila Grinberg, professora de UFRJ afirma: “ Chica é uma personagem com várias construções.”

Esta rainha do ébano, influenciou as vestimentas femininas no arraial , em Minas e na cultura brasileira, refazendo as nuances das roupas européias predominantes na Colônia. Chamando para si a responsabilidade de uma mulher forra, numa época em que o Tribunal Eclesiástico denominava de herege tais atitudes mulheris. “ A primeira heroína da nascente nacionalidade brasileira, redentora da sua raça”, segundo afirma a historiadora Júnia Ferreira furtado.

Livre do anacronismo dos séculos subsequentes , Chica da Silva não foi uma exceção. Foi sim, um produto de seu tempo. “Muitas escravas afirmavam seguidamente que sua condição de liberta devia-se a elas próprias. Mais de 50% dos chefes de domicílios no arraial de Tijuco ( como era chamado, então, o distrito de Diamantina) na época eram mulheres libertas, ex- escravas.”( Júnia Furtado)

Quando morreu, não era mais uma escrava parda sem nada de seu; era senhora de “ grossa casa”, possuidora de bens imóveis e numerosos escravos. Era, já havia mais de 40 anos, uma mulher importante, que viveu com um poderoso homem, acumulou fortuna e se tornou, como disse Cecília Meireles também no Romanceiro da Inconfidência, “ a Chica-que-manda!”

JK

Burilou-se em Diamantina , um dos maiores ícones da história brasileira: Juscelino Kubitschek de Oliveira , vulgo JK. De governador de Minas à Presidente da República , ele mudou a historia deste país. “ Deste Planalto Central, desta solidão que em breve se transformará em cérebro de altas decisões nacionais, lanço os olhos mais uma vez sobre o amanhã do meu país e antevejo esta alvorada com fé inquebrantável e uma confiança sem limites no seu grande destino”. Esta foi a frase dita por Juscelino Kubitschek quando pisou pela primeira vez na região em que , ano mais tarde, viria a ser a capital do país. Eram os anos de 1956-1960.

O governo JK foi embalado por altos índices de crescimento econômico, revoluções culturais, cinema novo e a bossa nova, além do sonho realizado da construção de Brasília. Seu slogan “ 50 anos em 5” repercutiu nas amplas camadas da população. Juscelino aproveita esta estabilidade para implantar o seu plano de metas que tem como objetivo o desenvolvimento econômico do Brasil, privilegiando setores como: energia, transporte, indústria de base e educação. Neste contexto Brasília se configurava como sua “meta síntese”, tornando a grande prioridade do governo . ( Moreira, 2003)

Brasília nasceu como uma capital planejada- mas se transformou em algo completamente diferente do que seus criadores poderiam imaginar. Brasília nasceu de um gesto primário, dois eixos se cruzando, ou seja : o próprio sinal da cruz como quem pede uma bênção ou perdão .

De positivo temos o desenvolvimento e ampliação do parque industrial do país , que possibilitou o aumento da oferta de empregos à população urbana, além de estimular o consumo por parte da classe média; no setor de infra-estrutura atuou de forma marcante nos principais pontos de estrangulamento, como energia e transporte, que inibiam o desenvolvimento do país. Mesmo sofrendo algumas críticas, é impossível o não reconhecimento de sua importância para a aceleração do desenvolvimento da região central do Brasil, ajudando desta forma a integração nacional; e por fim a estabilidade política do seu governo que possibilitou o desenvolvimento de seu plano de metas.

Com Brasília, JK tirava o país de quatro séculos de vida litorânea e empurrava-o em direção ao Oeste, para tomar posse do que ele chamava de “ o maior deserto fértil do mundo “.

Brasília é o sonho adulto da Diamantina criança !

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Em algumas regiões do Brasil, o cuidado do patrimônio sempre esteve a cargo da elite, cujas prioridades têm sido, tanto míopes como ineficazes. Edifícios de alto estilo arquitetônico, protegidos por lei, são deixados nas mãos do mercado imobiliário. A gente comum sente-se alienada tanto em relação ao patrimônio erudito quanto aos humildes vestígios arqueológicos, já que são ensinados a desprezar índios, negros, mestiços, pobres, em outras palavras, a si próprios e seus antepassados. Felizmente na maioria dos estados, a preservação e melhorias tem-se feito vivas quando se agregam órgãos governamentais responsáveis e a UNESCO. O fomento e a participação das grandes empresas particulares também logram na manutenção desta história. Prédios coloniais, igrejas e até bairros inteiros de várias cidades, tais como: Diamantina, Parati, Pelourinho (Bahia) e outros se sentem gratificados quando se reconstrói sua história no contexto nacional. A preservação deste patrimônio mantém a história da região viva na memória de seu povo. Mas a maior riqueza de uma região está no seus habitantes , pois são eles que, com a sua inteligência, as suas capacidades, o seu poder de iniciativa, o seu engenho e o seu trabalho, promovem o desenvolvimento e criam riqueza e condições de bem estar, propagam as lendas e o mito, criam heróis.

Referências

*Brasília, um sonho que virou realidade – www.artigol.com

*LEOPOLDI, Maria Antonieta P. Crescendo em meio á incerteza: a política do governo JK ( 1956-60) In: GOMES, Ângela de Castro (org) O Brasil de JK. 2 ed. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1991

*Site Oficial de Diamantina – www.diamantina.mg.gov.br

*Diamantina- Minas Gerais ( Turismo) – www.idasbrasil.com

*FURTADO, Júnia Ferreira ,Chica da Silva e o Contratador de Diamantes. O outro lado do mito, , Companhia das Letras , 2006

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