A semente da vitória

A semente da vitória

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A SEMENTE DA VITÓRIA Nuno Cobra

Nota do Editor

Nuno Cobra, um profissional com mais de quarenta anos de atividade, poderia inscrever em seu currículo até mesmo a contribuição para feitos admirados no mundo inteiro, como a conquista de campeonatos de Fórmula 1 do automobilismo. Inscreveria também certas antecipações a que a psicologia deste limiar de século dá ênfase, como a referente à inteligência da emoção - ele fala disso há muitos anos, conforme uma legião de pessoas que já o ouviram pode testemunhar.

O Método Nuno Cobra, conhecido no país e além-fronteiras, não dispunha porém de uma formulação a que tivessem acesso os que não são "pupilos" diretos de seu autor, participantes de workshops que ele orienta ou ouvintes das palestras que ministra.

A semente da vitória é esse livro que faltava, o primeiro que

Nuno Cobra publica. Ele o fez como uma exposição de motivos e propósitos pelos quais criou seu Método. E o fez bem à sua maneira entusiástica, generosa, energizada pela vontade de mudar a vida dos que se beneficiam das suas idéias. Mudar para muito melhor essa vida que é uma só e é o bem mais precioso entre todos que temos.

A transformação como avanço qualitativo sempre constituiu um objetivo do SENAC de São Paulo em seu trabalho educacional. Este livro propõe uma transformação pela conquista da saúde, radical e otimista, como é próprio de Nuno Cobra e seu Método.

Prefácio

O Nuno é uma pessoa predestinada ao especial! Uma estrela que viaja a todo instante pelo universo de todas as pessoas que toca. Tem a magistralidade suprema do desenvolvimento de todo potencial humano.

Preenche os espaços do ambiente em que se encontra com a magia de sua energia e a plena convicção de que viver é beber da comunhão do amor que cada ser humano carrega.

Ama o que faz! Transforma cada pessoa que toca com tal serenidade que a notoriedade de seus gestos faz encantar e suplantar o lado irresoluto da vida.

Traz assentada no coração a leveza de cada momento e a certeza de todas as possibilidades que cada ser humano carrega no desabrochar para a vida.

É o mestre do fazer - e do deixar acontecer como resposta sempre extrema de todo enredo do crescer. Tem a palavra-chave de que cada pessoa precisa - no momento-chave preciso de cada pessoa.

Deixa penetrar a perspectiva de cada dia simplesmente porque existe sempre a perspectiva de um novo dia. E porque a alegria é seu combustível em cada novo alvorecer.

Ter a bênção de viver a seu lado, ter a honra de participar na realização deste livro e poder compartilhar sua filosofia e o seu trabalho é como viver um pouquinho de Deus na Terra com sua contundente inteireza de caráter, compaixão e fluxo forte de verdades a nos escancarar a alma a todo instante. Porque nos prova que o certo e o errado não existem e que tudo sempre tem uma mensagem.

Sua imagem é muito mais abrangente do que qualquer palavra que se ouse utilizar.

É o arquétipo do amor! E o protótipo da certeza do encantamento com a vida que lhe rodeia a alma em seu mais profundo esplendor.

Ele é assimMuito mais que apenas mestre, é a prova de

que a felicidade existe e que vive forte dentro de cada um de nós.

diferença. Porque realmente faz

É único! Penetra todas as almas e verdades porque, mesmo sabendo que nunca se sabe ao certo o que está por vir, nos faz a todo instante experimentar que o acreditar é o que faz a

Dra. Silvia Risette Especialista no Método Nuno Cobra

São José do Rio Pardo, 1950. Os ruídos de marretas e bigornas pareciam uma encantada melodia passeando pela intimidade dos meus ouvidos. Eu, um garoto magro, franzino e inibido, espreitava, admirado, a intensa movimentação de cavalos puro-sangue e ferraduras incandescentes que saíam da forja.

Toda a minha atenção estava voltada para um rapaz muito forte que, girando no ar com extrema facilidade uma marreta de 10 quilos, deixava à flor da pele negra, reluzente de suor, uma exuberante musculatura.

Isso me fascinava. Poderia eu também conseguir tantos músculos? Seria possível eu também ficar forte? Já tinha estado ali à espreita muitas tardes e sabia que estaria em muitas outras.

Precisava munir-me de coragem para abordar o rapaz. No momento, só o que queria era realizar o sonho de modificar meu corpo com o auxílio dessa fascinante figura, cujo nome era Pedro Pexexa, um ferreiro de profissão e líder de um grupo de pescadores nessa distante São José da década de 1950.

Apesar de magro e fraco, eu pressentia que se o Pedro me ajudasse, eu conseguiria me transformar completamente. Tive uma educação muito rígida, como era próprio da época, e isso dificultava aproximar-me de uma pessoa estranha, principalmente por ela representar, para mim, uma épica figura. Muito magro e fraco, eu era também muito acanhado.

Mas sentia algo dentro de mim. Uma intuição que falava alto. Era capaz de acreditar na possibilidade de fazer alguma coisa concreta e passava horas imaginando se essa aproximação ainda demoraria a acontecer.

O que não podia imaginar era que o contato com essa pessoa tão especial mudaria toda a minha vida.

São José foi onde o engenheiro Euclides da Cunha escreveu

Os sertões enquanto construía a ponte de aço sobre o rio Pardo em 1901. Todos os anos, de 9 a 15 de agosto, festejava-se o aniversário do grande escritor, reunindo pessoas de todo o Brasil, em vários tipos de competição que incluíam uma concorrida maratona intelectual. Era a famosa Semana Euclidiana.

Pedro Nogueira, Pexexa, era uma pessoa que fascinava a gente da cidade por sua bravura ao enfrentar desafios, sempre com feitos admiráveis. Era destaque de força e habilidade na Semana Euclidiana, principalmente em luta livre e boxe. Havia por isso a curiosidade de outros atletas, experientes nadadores da capital, no sentido de desafiá-Io em provas no rio Pardo. Pedro prevenia para o perigo do rio. Dizia que era completamente diferente de tudo o que eles conheciam, mas eles insistiam em nadar em suas águas bravias. Era um rio perigoso, não era uma piscina, e sempre causava vítimas de afogamento - mesmo que fossem campeões de natação. Aquilo tudo era muito triste, mas, por mais que a turma do Pedro falasse, de nada adiantava.

Vinha o Corpo de Bombeiros de São Paulo com equipamentos de mergulho, em vão: era sempre o Pedro que, sem nenhum equipamento, conseguia encontrar e resgatar as vítimas nas profundas águas do Pardo. Dessa maneira, ele era admirado por todos na cidade pela bravura e destemor. Enfrentava também com muita coragem a escola noturna para resgatar, já em idade avançada, os estudos aos quais, como arrimo de família, não pudera se dedicar em idade adequada.

Ele era o líder de um grupo de pescadores que se reunia na ilha São Pedro, nas cercanias da cidade, onde havia uma ponte pênsil feita de tábuas de madeira afastadas umas das outras, deixando ver o temível rio que se move logo embaixo. Anos depois eu passaria veloz por debaixo dessa ponte, provocando uma reação admirável em minha alma devido às abruptas corredeiras - a mesma ponte que, no início, eu só conseguia atravessar devagarinho, segurando com força nos seus cabos de aço laterais, cheio de medo e insegurança.

Pedro era bem mais velho que eu e tinha uma experiência de vida admirável. O que ele dizia fazia muito sentido para mim pois eram coisas que eu tinha visto em livros e de que os professores da escola não falavam. Em contato tão intenso com a natureza do rio, na presença solene das matas, fui desenvolvendo um outro lado que a convivência com os colegas de escola e da sociedade rio-pardense não me apresentara.

Um novo mundo que conheci com Pedro modificaria por completo toda a minha vida, fazendo-me ver as coisas de forma natural, gostosa e muito intensa, que, certamente, sem esse encontro, eu não conheceria. Tinha agora outra turma de influência, bem diferente da constituída pelas pessoas que se reuniam no clube rio-pardense. Descobri um lado inóspito da vida com uma sabedoria que impregnaria todo o meu ser - pendi mais para esse lado.

A natureza me fascinava. Pedro me ensinou a nadar, a varejar, que é ficar em pé em cima de uma canoa manobrando uma vara de bambu que empurra e estabelece a direção. A ponta da vara finca nas pedras do fundo das corredeiras. Era uma manobra difícil que requeria coordenação motora e muita força nos braços e abdome. Ele me ensinou a saltar de galho em galho nas altas árvores, o que exigia intenso trabalho de antebraços.

Mas o mais admirável de tudo eram suas colocações sobre a vida, depois de nossas lutas greco-romanas travadas no centro da ilha.

Sentados em folhas secas sob árvores imensas que encobriam totalmente o céu, ele falava dos clássicos da Grécia. Gostava especialmente do Banquete, de Platão, com sua filosofia que sabia de cor e que me embevecia.

Percebi que meus estudos acadêmicos nada tinham a ver com o que realmente importava e que os professores cobravam muito sobre assuntos pouco ou nada ligados com a vida. O ensino tradicional aborrecia-me, afastei-me dele; com isso aborreci minha mãe, que lutava para me dar um diploma - seu sonho e sua imensa preocupação.

Foi uma fase difícil para ela, por eu me aventurar em lugar tão perigoso e começar a me desinteressar pelos estudos regulares. Mas isso faria toda a diferença. Ali envolvido com aquele apaixonante rio e recebendo aulas de vida do Pedro, eu moldava meu caráter e desenvolvia uma personalidade combativa e destemida. Ele tinha uma visão diferente das coisas que certamente me diferenciaria no curso da vida. Dizia: "Não se deve lutar com quem não se gosta, para não se igualar a quem você repudia".

estaria morto. Não podia ter "será"

Meu maior desafio naquele rio foi aprender a manejar tão bem o varejão que era capaz de subir em pé na canoa, com as violentas corredeiras no trecho sob a ponte pênsil. Varejar entre as pedras traiçoeiras era um desafio que mexia com algo profundo em minha alma. Se pensasse: "Será que a canoa vai suportar?" ou "Será que vou embicar e bater nas pedras?",

Às vezes, quando chovia muito de madrugada, o dia amanhecia com o rio caudaloso, "bufando", como diziam os pescadores da região, assustando quem chegasse perto das margens. Nessas condições eu tinha de fazer como os demais: vestido só com um calçãozinho, enregelado de frio, atirava-me de cabeça do bico mais alto da ponte construída por Euclides da Cunha em direção às águas que formavam bravias correntezas. Era um impacto tão incrivelmente forte que quase me tirava o fôlego, mas que também fortificava meu espírito.

Essa atitude corajosa e decisiva de enfrentar os mistérios do rio, sem enxergar direito em que abismo caudaloso me lançava, fazia com que controlasse minhas emoções e tirasse, sem saber de onde, a necessária coragem que ia aumentando minha confiança e, acima de tudo, dando têmpera a meu caráter.

Foi quando aprendi com Pexexa minha grande e profunda lição. Ele me ensinou que coragem só é mesmo coragem quando sentimos um imenso medo. Dizia ele que, quando nos arremessamos a fazer alguma coisa que em princípio exige coragem, deve existir junto uma dose de medo, senão a empreitada se revela irresponsável. Pode-se estar diante de uma loucura, de um desatino ou estupidez.

A coragem é justamente sentir o medo que enrijece a alma e o poder de enfrentar o desafio serena e positivamente. Dizia ele que o medo faz parte da história, é necessário para acordar o organismo e fazê-Io reagir com todos os seus recursos.

Naquela situação ameaçadora, o rio ficava com uma cara tão feia que eu tinha de solicitar do meu espírito o máximo envolvimento para oferecer ao corpo a força necessária a dar conta do recado. Percebia que um coquetel de estimulantes invadia minha corrente sanguínea, permitindo-me reagir com cada milímetro dos meus músculos e toda a minha astúcia. Podia, dessa maneira, sentir claramente o valor de uma verdadeira coragem.

Era a emoção me ajudando, me impelindo com tal poder que só assim eu conseguia a determinação necessária para enfrentar o estupendo desafio.

Tinha de ter a maior concentração. Nada podia estar em desatino em mim. Nenhum fio de dúvida podia atravessar meu cérebro. Apenas a absoluta certeza de que venceria. Qualquer vacilação representava risco de vida.

Foram essas oportunidades de desafiar meu espírito, antes acomodado e inibido, que fizeram com que me soltasse por inteiro e me tornasse dono absoluto do meu corpo, fixado agora em uma nova verdade, resoluto e decidido.

Essas aventuras do meu espírito integrado em meu corpo moldaram-me o caráter na rudeza das provas e fixaram de forma indelével minha personalidade. A necessidade de superação constante dos obstáculos anteriormente intransponíveis mostrou ao meu espírito suas possibilidades e seu verdadeiro poder.

Isso provocou uma mudança radical em meu comportamento. Com a auto-estima fortalecida, ganhei nova disposição para haver-me com meus medos e fiquei apto a enfrentar com coragem tudo o mais que viesse desafiar-me.

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