A semente da vitória

A semente da vitória

(Parte 2 de 6)

Essas colossais peripécias foram vagarosa e decididamente desenvolvendo em meu interior uma força que jamais antes conceberia que existisse. Tudo ocorreu gradativamente. Foi uma bola de neve rodando favoravelmente e fazendo-me dia a dia diferente daquele garoto inseguro e tímido.

Por outro lado, o contato vigoroso com tal grupo de pessoas, simples mas tão sábias, fazia-me refletir sobre a vida e colocar em xeque a cultura acadêmica, o que foi de muita valia no meu crescimento pessoal. Abordei um lado mais natural da filosofia e muito original de ver a vida.

Minha enorme transformação nas barrancas do rio Pardo foi realizando uma transferência altamente positiva para o ambiente escolar e o núcleo de minhas atividades sociais. Perceber muito depois que a total modificação de meu corpo modificaria também toda a minha emoção, todo o meu espírito, ampliando de tal forma minha concepção de vida que passei a criar dificuldades sérias para os professores.

Quando uma pessoa resgata no próprio corpo o poder dado por Deus e tirado pela sociedade, fica espiritualmente forte. E quando alguém fica forte espiritualmente, não engole mais o autoritarismo arrogante que o cerca. Entrei em litígio com os professores, discutia com eles - o que, na época, era absolutamente proibido. Acabava sempre suspenso e, o que era pior, obrigava minha mãe a ir à diretoria da escola a todo instante, o que me aborrecia demais.

A essa altura, eu era extraordinariamente forte, chegava a levantar um Fusca com as mãos. Tinha os braços e principalmente os antebraços muito rijos, resultado das competições que fazíamos e que consistiam em atravessar a ilha de São Pedro pulando de árvore em árvore sem pisar no chão. Eu sempre chegava entre os primeiros. Tinha desenvolvido uma capacidade incrível exercitando-me numa barra em casa. Era um fator favorável que criara para mim: os outros não tinham barra. Ser aceito e até admirado pelo meu grupo, aos 17 anos, me fez muito bem. E, à medida que fui mudando de corpo, mudei também minha forma de pensar.

Certas coisas que achava verdadeiras tornaram-se convicção: esse era o caminho certo na vida, já não tinha dúvidas. Mudei até a forma de me relacionar com as pessoas, fiquei mais sociável, mais tranqüilo, mais calmo, mais tolerante, dominava melhor minhas emoções. Até chegar o dia em que percebi não ser mais o discípulo do Pedro Pexexa. A coisa foi fluindo, acontecendo e, de repente, eu é que já estava explicando a ele como fazer cada exercício na barra fixa.

Foi um momento de muita felicidade porque, pela primeira vez, estava com o meu mestre à frente e já ganhava dele na queda de braço, até lhe dava umas idéias, que ele comentava: "Nuno, você tem uma imaginação, faz umas analogias, que coisa bonita". Eu respondia: "Pedro, isso você já me falou um dia". Ele me devolvia: "Mas não falei exatamente assim". Pedro Pexexa foi o cara que me ajudou demais a ser quem sou, fixando valores e consolidando parâmetros de honestidade, de respeito, de tolerância, de amor e humanismo que haviam sido colocados fortemente por seu Ribeiro e dona Mariamélia, dois grandes amigos que me amavam de fato e que trago comigo até hoje bem dentro de meu coração - por sincronismo, meus pais.

Eu então já percebia que o meu espírito dependia do meu corpo e que as ações do meu corpo influenciavam as atitudes do meu espírito. Percebia, enfim, que corpo e espírito são um só.

Nascia dessa maneira uma teoria que me colocaria em confronto com a sociedade, ainda presa a conceitos de separação de corpo, espírito, mente e emoção.

Estávamos no início da década de 1950, lembrem-se, quando o espírito era propriedade da Igreja; o cérebro, da universidade; e o corpo, ah!, o corpo ainda não existia como tal.

Daí por diante, a minha vida rolou numa constante de ocorrências positivas e extremamente gratificantes, entremeadas, lógico, de grandes choques e desilusões com a realidade. Mas isso faz parte da vida.

O que importa é que eu tinha moldado meu corpo - a duras penas, diga-se - e meu corpo tinha moldado meu espírito. Ambos me levaram a ter uma cabeça segura e decidida, impedindo possíveis descontroles mentais ou emocionais. E não me faltaram oportunidades para provar que tinha de ser emocionalmente forte e mentalmente poderoso para não me desequilibrar e sair do eixo.

Era o início do meu método de trabalho. Eu já havia desenhado de forma marcante a frase que seria meu lema, apesar do assombro que causava nas pessoas havia décadas: Chegar ao cérebro pelo músculo e ao espírito pelo corpo.

Jamais esqueceria os esportes que tanto me desenvolveram, as lutas corporais nos fins de tarde nas barrancas do rio Pardo, as espetaculares ginásticas que pacientemente aprendi e que seriam minhas ferramentas de transformação.

Pedro ficaria marcado indelevelmente em minha alma pela sua simplicidade e profunda sabedoria. Seu exemplo de caráter e profundo respeito à natureza me acompanharia pela vida inteira. Eu costumava ficar na ponte pênsil vendo passar as águas abruptas da corredeira. Sem me dar conta, tinha criado uma forma de dispersar o pensamento. Chegava em casa muito bem disposto graças àqueles momentos de devaneio.

Esse hábito de devanear acompanhou-me pela vida. Acabei incorporando uma forma de meditação que hoje, num breve momento de qualquer situação - até mesmo andando na calçada - posso interiorizar-me e sentir um profundo estado de tranqüilidade, em que o tempo deixa de existir e eu ingresso num especial estado de consciência.

Uma tarde, já com 17 anos, sob essa mesma ponte pênsil, acabando de sair desse estado de meditação, prometi a mim mesmo colocar minha vida no caminho de ajudar as pessoas a se transformarem. Elegi isso como objetivo de vida e procurei daí em diante munir-me das ferramentas necessárias para a consecução desse ideal de vida.

Fui cursar a Escola de Educação Física para estudar o ser humano na profundidade que fosse possível. Não esperava que essa linha de pensamento arriscava não encontrar guarida no mundo intelectual da época. Simplesmente não aceitavam o ser humano como um todo indivisível. A norma era que o espírito ficasse para um lado, longe, muito longe da mente e mais longe ainda da emoção.

Foi para mim o mesmo que pregar no deserto, além de ser motivo de chacota, a tentativa que fiz de propor um pensamento desse tipo em várias universidades. Recolhi-me profundamente, e só consegui chegar onde cheguei por estar fechado para a ciência da época. O resultado com meus pupilos sempre foi tão feérico e exultante que me forneceu energia para vencer dificuldades pelo

compreendidas, mas naquela época

mundo afora, como se eu percorresse uma via marginal da sociedade e do academismo. Assim cheguei a este começo de século com idéias muito próprias, que hoje acredito não ser tão agressivas e repudiadas. Acredito ser até mais facilmente

Tudo que prego foi exatamente o que aconteceu comigo. A primeira escola de todas essas possibilidades foi minha incrível transformação e o fato de perceber a força do corpo no contexto geral da vida, quando direcionado corretamente. Acredito que se você próprio se transforma fica mais fácil transformar as outras pessoas - afinal, já se sabe o caminho e pode-se enxergar com clareza o futuro final. Quando você muda, você mesmo sempre saberá da importância do primeiro passo e da importância das pessoas que o estimulam e o empurram para cima.

Terminei o curso de Educação Física em dezembro de 1960.

Já no dia 13 de janeiro de 1961 estava diante do meu primeiro desafio, num instituto de menores excepcionais carentes recéminaugurado pelo governo do Estado.

Estava com a "marcha engrenada" na maior velocidade, no esplendor dos meus 2 anos, repleto de ideais e entusiasmo. Os primeiros seis meses foram terríveis, tanto pela falta de ferramentas apropriadas para desenvolver crianças tão especiais quanto pelos hábitos inadequados já incorporados em cada uma delas, nas passagens anteriores por outros abrigos de menores.

Foi um trabalho difícil e desgastante, mas as pequenas conquistas na lenta modificação de seus corpos me deixavam verdadeiramente apaixonado pelo trabalho com as crianças.

Foram três longos anos fora do conforto da sociedade a que estava acostumado. "Internei-me" por 24 horas diárias naquele instituto, no mais estreito contato com as crianças - e as modificações começaram a acontecer.

Usando as ferramentas de que dispunha, que nada mais eram do que a transformação dos corpos, consegui que aquelas crianças - antes indolentes, desarticuladas e desestimuladas, agora alimentadas pelo movimento, o carinho e a atenção - começassem a dar sinais de reação a partir de sua extraordinária força interior. Elas estavam mais atentas e concentradas nas aulas, mais dispostas e alegres para a vida, sempre prontas para qualquer tarefa.

Fui percebendo a formidável alavanca que possuía para motivá-Ias. Era uma bomba de tamanho efeito que nem mesmo a força bruta da sociedade foi capaz de deter as crianças, tal a explosão de vitalidade que aconteceu com cada uma.

Sua limitação mental foi se amenizando e chegando aos parâmetros da normalidade. Eu tinha diante dos olhos o máximo que era possível conseguir de autotransformação da pessoa humana, apenas mexendo no que temos de mais palpável: o corpo. Essa visão de um método tornou-se a alavanca do meu próprio trabalho ao longo de 46 anos de experiência, nos quais nunca separei físico-mente-espírito-emoção, encarando o homem em toda a sua grandeza.

Importavam-me lá, como me importam hoje, os exercícios cardiovasculares com caminhadas e corridas, que na época eram totalmente desconhecidos; importava-me o desenvolvimento muscular, também desconhecido na forma de musculação natural sem pesos, mas com aparelhos destinados à prática de ginástica olímpica.

O mais importante, no entanto, o ponto básico, o alicerce do método, sempre foi a minha preocupação com o sono e com a alimentação, além do relaxamento que, no caso dessas crianças, se fazia todas as noites.

Sem dúvida nenhuma, meu primeiro contato com o mundo real da prática de minha profissão foi o desencadeador de meu mais profundo e significativo ideal de vida. Percebi que só no amor, na entrega pura e verdadeira, um ser humano poderia realizar algo em beneficio de seu semelhante. Que o trabalho enquanto trabalho, por mais técnico e perfeito que fosse, nada resolveria sem a doação contínua e permanente.

Esse meu primeiro trabalho traçava as pegadas do que seria o meu método. Estava aprendendo uma forma de agir e pensar diante da vida e uma forma diferente no relacionamento humano. Minhas fabulosas conquistas marcaram minha entrega a esse mister de transformar as pessoas. Tinha sido picado pelo inseto do amor, da entrega e da dedicação verdadeira a meu semelhante, única forma real de desenvolver crianças carentes excepcionais.

Aprendi que para se realizar algo válido na transformação das pessoas é imprescindível o gostar permanente. Percebi que só conseguiria a verdadeira aplicação do que seria o meu método se houvesse verdadeiro interesse pela pessoa trabalhada. Era a realização plena de meus sentimentos, era a entrega de todo o meu ser àquele mister grandioso de as modificar gradativamente.

Ia percebendo na contínua labuta que o fixar do controle de suas emoções as tornava cada dia mais confiantes em suas possibilidades e que esse controle se obtinha pelo desenvolvimento da inteligência motora. Trabalhávamos continuamente no aperfeiçoamento de seus movimentos, sabendo da interferência constante em cérebros tolhidos para a função de análises matemáticas. Desenvolvia-se neles uma outra inteligência, que, fui percebendo, era das mais válidas.

Essa inteligência do movimento fixava em todos eles uma nova visão de si próprios, trazia-Ihes auto-estima suficiente para proporcionar mais confiança em suas ações no instituto. O fato de se destacarem em ginástica olímpica, por exemplo, lhes fornecia combustível para enfrentar outras atividades cotidianas. Conforme se desenvolvia esse tipo de inteligência, eles iam se moldando mais adequadamente ao mundo a seu redor. Já se faziam mais afáveis e comunicativos, saíam do embotamento das muitas inibições e tristezas que a sociedade embutira em cada um. Tornavam-se mais receptivos diante das outras pessoas.

As vitórias que conseguiam com o seu corpo forneciam-lhes uma confiança sem par, oferecendo, ainda que inconscientemente, a possibilidade de assumir nova postura diante da vida, dos fatos e das coisas. Eu notava claramente em meus relatórios que, à medida que iam conquistando um corpo mais controlado, revelavam-se dotados de um cérebro mais atuante.

Era evidente o valor desse novo tipo de inteligência, a indicar-me o caminho natural do desenvolvimento de uma intelectualidade emocional, como eu a chamava, que lhes havia proporcionado o controle da própria vida e mesmo o domínio sobre ela.

Foi se incorporando em cada um, paulatinamente, uma nova postura diante da vida e uma nova forma de enfrentar suas adversidades. Percebia-se que o desempenho físico lhes proporcionava outra postura mental e emocional.

Assim, aqueles dois anos de trabalho diário para desenvolver a inteligência dos movimentos e das emoções de crianças especiais compensava o descompasso da sua deficiência analítica e dedutiva. Percebi claramente a força dessas duas novas formas de inteligência em crescimento. Era para elas uma nova postura diante da vida, suscitada por algo profundo que lhes sucedera. Sua confiança aumentara e as fazia mais otimistas. Tornaram-se mais alegres, mais comunicativas e menos rebeldes. Bastava explicar-Ihes bem os propósitos de algo para que elas aceitassem sem a postura indolente e inatingível de antes que as deixava irredutíveis e agressivas a novas propostas. Ficaram mais desenvolvidas emocionalmente, assumindo um comportamento pró-ativo, completamente diferente do que tinham quando embutidas, complexadas, inibidas e destrutivas. Eram agora mais participantes, colaboradoras e capazes de tarefas antes inconcebíveis.

Graças a isso pude desenvolver, de forma cada vez mais aprofundada e definitiva, meu método e meu ideal de vida, que permaneceram puro e incólumes em todas essas décadas. Naquele instituto de menores aprendi a esperar e a fazer da paciência minha melhor ferramenta de trabalho.

Somos todos dependentes da saúde do corpo, que no entanto era desprezado e esquecido naqueles anos 1960, assemelhados nesse aspecto, e da perspectiva atual, à própria Idade Média.

Parecia impossível fazer as pessoas acreditarem que os músculos são um prolongamento do cérebro. Que são o elemento mais puro da ação cerebral.

Eu conseguia enxergar o cérebro como músculo e o músculo como cérebro. E essa interação era tão forte que poderíamos considerá-los uma coisa única. Não havia modo de separá-los.

Para mim, o músculo não era mais o primo pobre ou o rústico irmão do cérebro, como diziam na época, mas o próprio cérebro na sua esplêndida expressão.

Foi devido justamente a essa espantosa inter-relação que o homem disparou na evolução das espécies, ao adquirir os movimentos finos das mãos e diferenciar-se dos macacos.

Eu estava cada vez mais seguro e convicto dessas idéias apesar de serem contrárias à ciência da época, em que só valia o intelecto na forma matemática e dedutiva.

Resultados concretos começaram inapelavelmente a aparecer, mostrando cada vez mais em meu trabalho o caminho natural da inteligência do movimento como base para a intelectualidade emocional. Fui ficando confiante a respeito dessas minhas estranhas idéias.

O sucesso que obtive com atletas de todos os tipos de modalidade esportiva deixou evidente a intrépida verdade de que realmente existe ligação entre cérebro e músculo, entre corpo, espírito e emoção.

Aos poucos, vagarosamente, disseminei minhas idéias com a ajuda de claros e conclusivos exemplos, tornados públicos por meio de publicações em jornais e revistas ao longo das últimas décadas.

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