A semente da vitória

A semente da vitória

(Parte 3 de 6)

Vivi experiências de todos os tipos, com crianças, jovens e adultos de todas as idades e camadas sociais. Desenvolvi trabalhos com delinqüentes, presidiários, pessoas diversas e dos mais variados níveis intelectuais, culturais e econômicos. Foram experiências ricas, únicas, impossíveis de reproduzir.

Se hoje tenho o poder de transformar pessoas é porque consegui, de forma concreta, uma real transformação de minha própria pessoa.

A essência do Método Nuno Cobra é fazer com que a pessoa se descubra para a vida. Programo o que deve ser feito a seguir para iniciar o desenvolvimento corpo-mente-espírito-emoção, de acordo com o que cada um necessita. A força, a alavanca para a transformação, está em cada um de nós.

Foi depois das retumbantes performances de cinco de meus queridos pupilos, Ayrton Senna, Christian Fittipaldi, Rubinho Barrichello, Mika Hakkinen e Gil de Ferran - quando, em 1990, o Mika foi campeão da Fórmula 3 inglesa; em 1991, o Rubinho venceu esse mesmo campeonato, o Christian, a Fórmula 3000 Intercontinental Européia e o Ayrton foi tricampeão mundial de Fórmula 1; e ainda, em 1992, quando o Gil foi campeão da Fórmula 3 inglesa -, que resolvi escrever este livro.

Tive muita dificuldade em sintonizar, dentro da minha vida de tanto trabalho, em que ponto realmente teve início o meu método. O princípio!

Primeiro pensei se não teria sido um pouco antes de conhecer o Ayrton. Ou então com as crianças deficientes mentais. Talvez com meus pupilos do tênis, em que desenvolvi um estupendo trabalho com tantos deles, como Jaime Oncins, Cassio Motta, Cláudia Monteiro, Patrícia Medrado, entre outros.

Mergulhando no passado, fui cada vez mais para trás e, quanto mais voltava em busca do ponto de partida, mais emocionante ficava essa viagem no túnel do tempo.

Experiências magníficas brotavam onde antes só havia a bruma da memória. Inevitavelmente fui parar em São Carlos, no final da década de 1950, e me lembrei do bonito trabalho que realizei com um jovem talentoso, Waldemar Blatkauscas, jogador de basquete que acreditou em meu método e atingiu um nível físico invejável.

Aliás, o estádio de Piracicaba, cidade que já teve um dos melhores times de basquete do Brasil, leva seu nome para que jamais esqueçam suas grandiosas conquistas.

Dei-me conta de que já havia treinado esse outro bicampeão mundial. Mas não parei aí. Nessa volta ao passado fui bater lá em São José do Rio Pardo, no preciso ano de 1953, quando eu, adolescente, acordava todos os dias às 5h30 para treinar o Leozinho d' Ávila em sua casa, perto da praça da Matriz. Ele era aquele amigo típico que todo jovem possui em determinada fase da vida e jamais esquece.

De família abastada, foi graças a ele que consegui acesso ao clube mais chique da cidade e a uma turma de pessoas, como o Juquita, professor de física, o Paquetã, advogado da cidade, o doutor Léo, dentista famoso na região e pai de Leozinho, o ltagiba, professor de matemática, entre vários intelectuais que matavam minha enorme curiosidade a respeito da vida, uma vez que a escola não ensinava nada sobre isso.

Esse momento, pensei, poderia ser considerado a minha primeira experiência com um trabalho personalizado, mas lembrei-me de que, na verdade, antes eu já havia treinado meu próprio ídolo, o querido amigo Pedro Pexexa, para participar da São Silvestre.

Foi quando meu pensamento, mansamente viajando no tempo, trouxe à superfície da memória o exato momento em que encontrei meu primeiro aluno.

Era um sábado como outro qualquer e, apesar de a cidade ser pequenina, a praça da Matriz fervilhava na bucólica São José do Rio Pardo da minha juventude. A moçada caminhava ao redor da praça. As mulheres pelo lado de dentro, no sentido horário; os homens, pelo lado de fora, em sentido contrário.

Era o famoso footing, tão comum nos velhos tempos - tempos em que as pessoas ainda não haviam sido picadas por esse vírus terrível que afasta completamente uns dos outros, mesmo quando todos estão reunidos num único ambiente. Não havia ainda essa maquininha diabólica chamada televisão, e todos iam à praça da Matriz. Havia mais vida social e uma interação familiar mais intensa.

Em um dos lados desse típico jardim de cidade do interior ficava a Associação Atlética Rio-pardense. Na porta, os dois enormes bancos de madeira, em que costumavam sentar os líderes da comunidade, estavam ocupados. Eu e meus companheiros de tênis contávamos nossas aventuras nas quadras do clube, enquanto um senhor de aproximadamente 50 anos, encostado em uma porta, escutava, quieto, os nossos relatos. De repente, ele interrompeu nossa animada conversa para dizer que o que mais sentia na vida era ter passado por ela sem ter tido a chance de aprender a jogar tênis.

E confessou estar morto de inveja de ouvir nossas proezas, que desfiávamos orgulhosos naquela alegre noite de domingo. Ele era uma figura familiar na cidade - o doutor Sebastião de Almeida, médico que não exercia a profissão, rico fazendeiro, solteirão inveterado que, parece, nunca teve tempo para arranjar uma companheira.

Quando ouvi aquele comentário, quase em forma de súplica, feito com tanta sinceridade e emoção, perguntei-lhe, na inocência dos meus 15 anos, por que ele não aprendia enfim a jogar tênis. Com ar entristecido, respondeu que na sua idade isso seria muito difícil, principalmente porque não era afeito a nenhuma modalidade de esporte. Portanto, concluiu o doutor Sebastião, esse sonho lhe parecia impossível de realizar.

Não sei se foi a forma como falou, mas o fato é que eu e ele nos separamos do grupo e começamos a andar na praça e conversar, bem à moda daquele tempo. Eu lhe dizia que nada era impossível e que não existia isso de idade, que isso era uma ficção. O que de fato importava era somente o querer - tudo o que desejássemos, conseguiríamos, bastava acreditar fortemente. Fico pensando hoje de onde saiu tudo o que falei ao doutor Sebastião naquela noite inspirada. O resultado foi imediato: ele topou a parada de aprender a jogar tênis. Disse que eu o tinha feito entender que era possível, e, mesmo não sabendo como se segurava uma raquete nem como funcionava a contagem desse estranho jogo, ele estava animado.

Começaríamos na segunda-feira. Sua primeira aula e todas as seguintes viraram uma rotina em minha vida por mais de um ano e meio. Para mim era um desafio ensinar tênis a uma pessoa que jamais achou possível praticar esse esporte e que não era nem um pouco familiarizada com os movimentos de bater na bola com uma raquete.

No primeiro dia ficamos apenas conversando sobre a necessidade de levar uma vida regrada, de colocar mais ação física no pacato cotidiano do fazendeiro, habituado a percorrer sua enorme fazenda de café sempre ao volante do Jipe 1951, sem jamais aproveitar a ocasião para uma saudável caminhada a pé. Deixei claro que ele tinha de ir mudando gradativamente seus hábitos de vida. Ele não resistia aos meus argumentos: quando a pessoa está animada diante de um objetivo e vibra com cada pequena conquista, todas as coisas necessárias a seu progresso são aceitas e ficam mais fáceis de realizar.

Nessas primeiras aulas ficamos muito tempo sem a raquete.

Eu apenas jogava a bola em sua direção, ora do lado direito, depois do esquerdo, acima de sua cabeça ou mais abaixo; ele tinha apenas que a apanhar com a mão direita. Isso era importante para que entendesse que, quando se sabe onde a bola vai estar e se antecipa o gesto da espera, fica muito fácil jogar tênis. O grande problema desse esporte é querer sempre preparar o movimento quando a bola já chegou.

Foi muito interessante a transformação que se operou nesse garotão - ele foi ficando cada dia mais jovem, mais ágil, mais elástico. Foi mudando seus velhos e desastrados hábitos. Passou a se preocupar com sua qualidade de vida, dando-se um precioso tempo para praticar aquilo que constituía sua maior conquista. O grande mérito, aliás, foi todo dele.

O que distingue aquele que consegue daquele que não sai do lugar é o fazer. Todo o segredo está contido nessas cinco letrinhas mágicas: f-a-z-e-r!

E lá ia todo dia o doutor Sebastião fazendo exatamente o que eu lhe apresentava como necessário, e com isso seguia em sua escalada de conquistas.

Logo ficou amigo de outros senhores tenistas e, principalmente, da garotada que o chamava de tio. Era o tio Tião, querido de todos, alegre e feliz com sua nova arte, que aperfeiçoava a cada dia.

O interessante era a forma de pagamento que arranjou pelos meus serviços especializados. Era evidente que eu me achava importante treinando o doutor Sebastião, pois tinha pouco mais de 15 anos e já me achava um verdadeiro professor. Portanto, tinha de ser remunerado, mesmo que apenas por meu entusiasmado e delicioso sentimento de ver alguém progredir no que fazia.

E sabem qual era a minha real remuneração, na materialidade da coisa? Todos os dias ele passava com seu Citroen preto por minha casa para me apanhar, impreterivelmente às 16h30. Antes de nos dirigirmos ao clube, íamos à Padaria e Confeitaria Raddi, muito chique, que tinha uns doces incríveis. Os doces eram o meu "pagamento".

Meu aluno avançava e ganhava habilidades visíveis. Ainda que os treinamentos fossem na aparência chatos, como ter de bater trinta minutos de paredão para fixar um determinado golpe que ficara tecnicamente correto, ele pacientemente se sujeitava, com o maior empenho e dedicação. Não esmorecia nunca.

Tentava ir para a cama mais cedo, ter uma alimentação mais saudável e pensar sempre de forma positiva, colocando na cabeça que conseguiria jogar tênis e, um dia, jogar muito bem. Mais ainda: que ainda venceria um daqueles que haviam olhado para ele com desdém, quando chegou torto e desengonçado para a sua primeira aula.

O doutor Sebastião era aluno exemplar, não faltava um dia e estava se transformando num atleta. Eu sempre lhe dizia: nada resiste ao trabalho, não existe muito esse negócio de talento, o que existe mesmo é dedicação, esforço e suor.

Os meses foram passando e ele já jogava um tênis razoável.

Conseguia jogar - e isso já era fantástico para quem achava que nunca teria jeito para um esporte tão complicado. Estar na quadra trocando bolas era para ele o maior deleite do mundo. Dizia nunca ter sentido tanto prazer com nenhuma outra realização na vida. Sentia-se realmente muito mais jovem e produtivo em seu cotidiano e agora percorria os cafezais com mais agilidade, terminava o trabalho muito mais cedo, só pensando na hora de ir para o treino.

Nascia um novo homemMais disposto e otimista, com um

sorriso de criança estampado no rosto corado e saudável. Eu me sentia realmente empolgado com minha "obra".

Foi de tal magnitude esse trabalho - nem tanto pelo fato de ter permitido a alguém aprender a jogar tênis, mas, principalmente, pelo alcance espiritual de ter auxiliado uma pessoa a realizar seu sonho. Sim, foi nesse momento que, acredito, nasceu esse meu desejo profundo de ajudar a transformar as pessoas na conquista de seus objetivos.

O incrível é que o doutor Sebastião não parou mais. Depois de ter assimilado toda a bagagem de golpes fundamentais do jogo, foi evoluindo em sua técnica. Os golpes foram adquirindo uma espantosa consistência, principalmente para quem começou a jogar já na idade adulta, pois o tênis requer como pré-requisito equilíbrio dinâmico, coordenação neuromotora, força e resistência cardiovascular.

Para se ter uma idéia, ainda hoje existe uma incrível e acirrada disputa que acontece há mais de cinqüenta anos e polariza o estado de São Paulo: os Jogos Abertos do Interior, que se realizam anualmente. Pois bem, em 1956, a equipe de São José do Rio Pardo foi formada por mim, Leozinho d' Ávila e o incrível doutor Sebastião de Almeida. Fomos a São Carlos no Citroen preto disputar os jogos que reuniam todas as cidades do estado.

Foi uma longa e inesquecível viagem de três tenistas para a disputa de jogos importantes, representando nossa querida cidade.

Com essa incrível volta ao passado acabei descobrindo em que ponto, de fato, começou a ser criado o Método Nuno Cobra. Sem dúvida foi com o doutor Sebastião de Almeida que apliquei pela primeira vez, e ainda sem consciência de um método, o que viria a ser o meu método - e colhi frutos mais deliciosos do que poderia imaginar...

Relembrei nossa epopéia e o grau a que o senhor sisudo, sedentário e avesso ao esporte havia conseguido chegar, confiando cegamente em um garoto, quase urna criança.

Saudades daqueles tempos tão queridos! Meu Deus, quanto tempo! Onde andaria o doutor Sebastião? Fazendo as contas, concluí que ele devia beirar os 90 anos e que talvez já não estivesse entre nós. Mas não custava dar um telefonema ao Leozinho, agora famoso cirurgião-dentista que ainda morava na terrinha querida, para saber de notícias.

Qual não foi minha surpresa e emoção ao saber que meu amigo estava vivo e bem disposto. Morava em Mococa, cidade vizinha, cuidando com entusiasmo de suas fazendas. Surpreendime com sua longevidade, e mais ainda quando o Leozinho me disse que ele estava "inteiraço".

Quis fazer esta homenagem a uma grande figura humana que acreditou cegamente em meu trabalho. Foi com ele que tive minha primeira experiência concreta de professor, a qual, sem dúvida, marcou minha alma para sempre.

num rapaz audacioso

Devo dizer-Ihes que fui a Mococa visitar o doutor Sebastião e que foi muito forte a emoção desse primeiro encontro depois de tanto tempo. Não pudemos impedir lágrimas a descer pela face. O abraço eternizou-se no tempo enquanto algo muito forte me queimava o peito. Um colossal flashback em minha mente percorria caminhos distantes - quando um senhor decidiu confiar

Juntos, é óbvio, voltamos a pisar numa quadra de tênis. Era de saibro, cor tão peculiar como a tarde de singular luminosidade e alegria que passamos jogando.

Foi espantoso vê-Io desferir saques enérgicos, manter movimentos coordenados, não parecendo nunca carregar a idade que tem, na qual a maioria já desistiu do movimento e do bemestar.

Estava frente a frente com meu amigo, percebendo a grandeza da vida, 46 anos depois daquele elevado momento em que pus a girar uma idéia em minha cabeça.

pessoas na busca de uma vida melhor

E essa primeira experiência eloqüente marcou, indelevelmente, minha alma, fazendo brotar o ideal de ajudar as

Foi lindo ver o resultado de minha "obra" esculpida em formato de vida. Como o Todo-Poderoso havia sido bom oferecendo-me esse talento de ajudar as pessoas a buscar seus ideais!

(Parte 3 de 6)

Comentários