Pensando o Jornalismo Ambiental na ótica da sustentabilidade

Pensando o Jornalismo Ambiental na ótica da sustentabilidade

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Pensando o Jornalismo Ambiental na ótica da Sustentabilidade

Ilza Tourino Girardi

Jornalista, doutora em Comunicação UFRGS, RS

Carine Massierer

Reges Toni Schwaab

Jornalistas, Mestrandos em Comunicação e Informação UFRGS, RS

Resumo

Diante da crise ambiental mundial vivemos a constante necessidade de construção da pauta jornalística com base na discussão de questões que envolvam o funcionamento do ecossistema e a lógica da vida, o Desenvolvimento Sustentável e a preservação do meio ambiente. Por isso, propomos, neste artigo, a visão do jornalismo guiado por um paradigma que permita compreender o todo, sem isolar as partes, tenha uma abordagem qualificada e seja promotor do debate social sobre meio ambiente. Um jornalismo pela vida, no qual a sustentabilidade tenha papel central.

Palavras-chave: Jornalismo, Jornalismo Ambiental, Sustentabilidade.

Introdução

Buscamos aqui refletir sobre a compreensão do Jornalismo Ambiental dentro dos paradigmas ambientais contemporâneos, que têm a Sustentabilidade como elemento central. Não fazemos distinção de meio de comunicação, seja ele impresso, rádio, televisão ou internet, mas sim, falamos da inserção da visão ecológica no exercício diário do jornalismo. Pensamos um Jornalismo que, na atualidade, opera num cenário de centralidade da imprensa nos processos contemporâneos da sociedade.

Pela grande difusão da comunicação no mundo de hoje, as matérias jornalísticas constituem-se muitas vezes na única fonte de informação para um grande número de pessoas, o que aumenta a responsabilidade de quem as produz. No Brasil, por exemplo, dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio 2002 (PNAD), de responsabilidade do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram que o percentual de domicílios com televisão era de 89,9% naquele ano. Quanto ao rádio, a pesquisa apontou que 87,9% das residências tinham o aparelho.

Pensando o Jornalismo Ambiental na ótica da Sustentabilidade Ilza Tourino Girardi, Carine Massierer e Reges Toni Schwaab

Este contexto demonstra o alcance dos meios de comunicação e a importância do jornalismo enquanto mediador dos processos de produção de sentido nas sociedades modernas. Assim, o jornalismo tem a função não só de gerar conhecimento, mas de provocar o debate. Este é exercício inerente à profissão, e que ganha uma carga extra de responsabilidade quando passamos a lidar com o tema ambiental, que impõe questões de caráter múltiplo e contraditório. Para Bacchetta (2000), dentro da gama de especializações possíveis, o jornalismo ambiental é um dos gêneros mais complexos:

Si considerarmos al medio ambiente como el conjunto de sistemas naturales y sociales habitados por el humano y los demás seres vivos existentes em el planeta y de los cuales obtienen su sustento, el periodismo ambiental es uno de los géneros más amplios y complejos del periodismo (Bacchetta, 2000, p. 18).

Apesar da mídia ter contribuído para instituir o debate público sobre os problemas ambientais ao divulgar massivamente, a partir da década de 70, assuntos relacionados ao tema, “pode-se ressalvar que a imprensa tende a comunicar uma visão ainda bastante banalizada da questão ambiental e o cidadão comum não consegue ver senão as aparências do problema” (Canuto, 1996, p. 130).

Segundo John (2001), ainda impera no jornalismo uma visão fragmentada a respeito de assuntos ambientais, derivada do fato de que os profissionais da área não têm formação específica para o tema e em razão das editorias não disporem de um espaço definido para o meio ambiente e nem para uma “cultura ambiental”:

Diferente dos jornalistas de política, economia, polícia, internacional e mesmo esportes e lazer, o papel desempenhado pelos jornalistas ambientais ultrapassa os limites da notícia e penetra no campo incerto da educação. Incerto para jornalistas, que não têm, necessariamente, uma formação de educadores, mas acabam contribuindo para a formação de cidadãos “ambientalmente educados”, em suas tentativas diárias de traduzir as Ciências da Vida e da Terra para uma linguagem comum. (John, 2001, p. 8)

Isto está ligado à outros fatores que são já uma herança do fazer jornalístico e que aos poucos vem sendo modificados. Com o novo papel assumido pelos jornais a partir da metade do século XIX, a função do jornalista foi definida como a de observador que relata com honestidade e equilíbrio a verdade. A instituição jornalística devia informar à população interessada sobre os fatos. Desde então, o jornalismo “atém-se ao real, exercendo um papel da orientação racional” (Mello, 1985, p. 09). Fundamentou-se como um processo social e articulado a partir das relações entre as organizações da sociedade (formais, oficiais, civis), a sociedade em si (população) e os canais que permitem a difusão das informações à coletividade. Coordena múltiplos emissores de informação e opinião, receptores e interesses diversos, que interferem e interagem na ação jornalística, pelo fato de o jornalismo ser também fruto dos processos culturais.

Importante situar em que situação hoje se produz informação, uma vez que o jornalismo está inserido no grande pacote midiático a que temos acesso, seja em grandes corporações ou em empresas de médio e pequeno porte. O mundo é midiatizado e, portanto, as pessoas estão abertas à circulação das formas simbólicas mediadas pelos meios de comunicação, de massa. Para Sodré (2004), trata-se de um contexto de

Pensando o Jornalismo Ambiental na ótica da Sustentabilidade Ilza Tourino Girardi, Carine Massierer e Reges Toni Schwaab domínio da produção simbólica, que tem efeitos importantes no campo social, uma vez que, a linguagem é produtora da realidade. A mídia (ou o conjunto dos meios de comunicação hegemônicos) se vale fortemente da ideologia globalista, a qual não compactua com a causa ambiental. Podemos refletir que

[...] quando um grupo hegemônico obtém da sociedade a aceitação de uma ideologia, está obtendo aval semântico para uma pletora de pontos de vista, visões de mundo, articulações de senso comum e representações sociais guiadas por um sentido determinado, que pretende comum a todos, universal, verdadeira. Própria do mecanismo ideológico é a troca da parte pelo todo, isto é, da parcialidade de sentido (já que é apenas a unidade consensual de um grupo específico) por uma totalidade ou universalidade ilusória. (Sodré, 2004, p. 2)

Conforme Moraes (2004, p. 187), as corporações de mídia tem tido papel estratégico na tarefa de “agentes operacionais” da globalização, no que ele chama de enunciação discursiva. Legitimam o discurso social dominante, propagando visões de mundo e modos de vida e transferem para o mercado a regulação das demandas coletivas.

Chaparro (1994, p. 87) também lembra que vivemos em uma sociedade composta por organizações, que nos acolhem, educam e empregam. O fazer jornalístico, por sua vez, é igualmente fruto da atuação de uma organização, produtora de um bem necessário à sociedade. Nesta mesma linha, podemos observar ainda que

[...] o jornalista, como todos os produtores da indústria cultural, é um trabalhador, cuja produção específica o qualifica como um intelectual, pois a mercadoria que produz são idéias, valores, imagens e sons que explicam o mundo, lhe dão sentido e substrato para sonhá-lo (Berger, 1998, p. 3).

Traquina (2004, p. 158) complementa esta visão quando afirma que o trabalho jornalístico “é influenciado pelos meios de que a organização dispõe”, apontando a influência dos aspectos econômicos na atividade jornalística, sabido que, como argumenta Morin (2002), a economia está fechada em si mesma e de costas para aspectos sociais, culturais e ecológicos. Todas as questões levantadas até aqui podem ser classificadas como limites para a abordagem da questão ambiental no jornalismo.

Neste contexto, compreendemos importante resgatar o que é entendido como essência do jornalismo e que possibilidades este conceito nos coloca. Beltrão (1992), define a essência do jornalismo, dizendo que ele existe “a partir do público, para o público e pelo público” (p. 1). Um pensamento que se justapõe ao de Marques de Mello (1985, p. 10), quando este concebe o jornalismo como um processo social, pois o ser humano sempre teve vontade, interesse e aptidão para saber o que se passa, tendo a informação como requisito para a sociabilidade. Por esta razão, foram viabilizados os meios tecnológicos para que o jornalismo existisse, como reflexo das exigências sócio-culturais crescentes.

O papel social desempenhado pela imprensa através do jornalismo também é ressaltado por Silveira:

[...] a informação jornalística transmitida através da notícia pelos meios de comunicação, tem uma fundamental influência em todas as instituições e nas pessoas de sociedades com ordens econômicas distintas. A natureza e as características do sistema de comunicação e do ambiente onde são

Pensando o Jornalismo Ambiental na ótica da Sustentabilidade Ilza Tourino Girardi, Carine Massierer e Reges Toni Schwaab geradas as notícias, têm um papel preponderante no outro lado do processo, qual seja, no público, que irá consumi-las e interpretá-las. (Silveira, 1996, p. 141)

Bahia (1990) acrescenta que o jornalismo, além de difundir informação, deve promover o bem comum e estimular a troca de idéias, pois é seu “dever mostrar a realidade por trás da aparência” (p. 67), sendo que, como nos lembra Traquina (2004), de forma alguma a realidade pode deixar de ser um fator determinante do conteúdo noticiado.

No entanto, é preciso levar em conta que, cada vez mais há uma representação da realidade social e a imprensa contribui para a isso através do repasse de informações de uma realidade fragmentada. Como que o jornalismo ambiental pode então contribuir para o repasse de informações tão complexas como as que envolvem o meio ambiente?

Para isso é preciso compreender o todo, sem isolar as partes e ver as matérias jornalísticas como promotoras do debate social sobre meio ambiente e levem a população a refletir sobre os perigos da adoção de um desenvolvimento que não seja sustentável para o planeta1.

A centralidade do tema Sustentabilidade

Capra (2002) alerta que a expansão ilimitada, calcada na busca de um crescimento econômico contínuo e indiferenciado era claramente insustentável e que poderia levar a uma catástrofe:

Com efeito, nesta virada de século, já está mais do que evidente que nossas atividades econômicas estão prejudicando a biosfera e a vida humana de tal modo que, em pouco tempo, os danos poderão tornar-se irreversíveis. Nessa precária situação, é essencial que a humanidade reduza sistematicamente o impacto das suas atividades sobre o meio ambiente natural. (Capra, 2002, p. 157)

No entanto, um dos principais problemas é que os processos culturais de exploração e apropriação da natureza foram instaurados por uma sociedade que partia do pressuposto que os recursos naturais eram infinitos e, por isso, poderiam contribuir para o desenvolvimento econômico desenfreado. Como avalia Leff (2001, p. 15), a visão mecanicista da razão cartesiana converteu-se no princípio constitutivo de uma teoria econômica que predominou sobre os paradigmas organicistas dos processos da vida, legitimando uma falsa idéia de progresso da civilização moderna. Desta forma, a racionalidade econômica baniu a natureza da esfera da produção, gerando processos de destruição ecológica e degradação ambiental.

Modificações de paradigma só passaram a acontecer a partir de 1950, quando as correntes do pensamento ecológico começaram a tomar forma. Elas compactuam com a chamada cosmovisão contemporânea, que tem como base o pensamento sistêmico. Este, por sua vez, ganha mais força em todo mundo a partir dos anos 70, impulsionado por uma série de movimentos de contra-cultura que passaram a difundir a teoria das

1 Para Leff (2001, p.246-247), os desafios do desenvolvimento sustentável implicam a necessidade de formar capacidades para orientar um desenvolvimento fundado em bases ecológicas de eqüidade social, diversidade cultural e democracia participativa. Isto estabelece o direito à educação, a capacitação e a formação ambiental como fundamentos da sustentabilidade, que permita a cada pessoa e cada sociedade produzir e apropriar-se de saberes, técnicas e conhecimentos para participar na gestão de seus processos de produção, decidir sobre suas condições de existência e definir a sua qualidade de vida.

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teoria dos sistemas vivos envolve uma nova maneira de ver o mundo e uma nova forma de pensar

redes de relações vivas, fundando um novo paradigma que compreende a Terra não como um planeta com elementos separados, mas um sistema no qual interagem dinamicamente organismos vivos e não vivos. “A Significa pensar em termos de relações, padrões e contexto” (Capra, 2003, p. 21). Trata-se de uma visão apresentada na contramão do cartesianismo e fruto de uma ecologização das sociedades.

Falamos de redes de relações vivas, fundantes de um novo e grande paradigma fundamentado inclusive na visão do cosmo (dinâmico, gigantesco e distante), onde a Terra não é um simples planeta com elementos separados, mas um sistema no qual interagem dinamicamente organismos vivos e não vivos. Uma história de evolução de quase quatro bilhões de anos. Esta visão apresenta-se na contramão do cartesianismo, propondo-se fugir de moldes obsoletos e remetendo à cidadania e a solidariedade, fundamentada em olhares ecológicos mais profundos. A proposta visa promover uma superação do pensamento baseado na revolução científica calcada na objetificação da natureza e no reducionismo.

Apesar do advento dessa nova visão, os problemas ambientais continuaram a existir e inclusive se agravaram, até porque muitos são mais antigos do que estas correntes, frutos de uma relação histórica ainda não superada. Grande parte dos problemas ambientais são produzidos pela visão que os homens lançaram sobre a natureza, ou seja, são decorrentes da forma como a percepção do meio foi estabelecida. Ao mesmo tempo em que um novo paradigma emergia, foi justamente nas décadas de 1950 e 1960 que as possibilidades de realizar alterações na natureza foram ampliadas. Meller (1997) cita que se tornaram evidentes os efeitos negativos sobre a qualidade de vida da humanidade, ameaçando as condições dos recursos naturais como água, ar, florestas e começando a comprometer a qualidade de vida das sociedades.

Em 1968, já havia interpretações para esta questão da sustentabilidade, considerando incompatível o desenvolvimento econômico com respeito ao ambiente. Essa foi a declaração de um informe dos universitários do chamado Clube de Roma. Apesar disso, o enfoque é voltado apenas para a natureza e não fala dos países em desenvolvimento, por acreditar-se que esse processo devia interromper um crescimento que ainda não se iniciou.

As discussões maiores tomaram forma em 1972, na Conferência de Estocolmo, que conforme Meller (2002, p. 09) reuniu 113 países e representou um marco para o surgimento de movimentos ambientalistas. Foram tirados da Conferência 23 princípios para conservação e melhoria do ambiente, destacando o uso adequado dos recursos naturais da Terra “para assegurar ao ser humano condições de liberdade, igualdade e ao desfruto de condições de vida adequadas, que possibilitem viver com dignidade e bem estar” (idem, p. 10). Entre os princípios está, também, o compromisso do homem em proteger o ambiente, garantindo a sustentabilidade.

Porém, foi somente em 1980 que o termo Desenvolvimento Sustentável, foi utilizado pela primeira vez pela Aliança Mundial para a Natureza (UICN), um organismo privado de pesquisa. Em 1987, o conceito apareceu em um informe realizado pela ex-ministra norueguesa Gro Harlem Brundtland para a ONU - Organização das Nações Unidas, no qual afirmava-se que um desenvolvimento é duradouro quando responde às necessidades do presente, sem colocar em perigo as capacidades das gerações futuras para fazerem o mesmo. Nos encontros internacionais sobre Meio Ambiente, o conceito tem sido centro das discussões. Em um extremo

Pensando o Jornalismo Ambiental na ótica da Sustentabilidade Ilza Tourino Girardi, Carine Massierer e Reges Toni Schwaab situam-se os ecologistas radicais, que defendem o crescimento zero para pôr fim ao esgotamento dos recursos. No outro lado, estão aqueles que acham que o progresso tecnológico permitirá resolver todos os problemas ambientais.

Classificada como a maior reunião sobre Meio Ambiente já promovida, a Segunda Conferência Mundial sobre Meio Ambiente, a Eco-92 ou Rio-92 congregou 100 chefes de Estado e representações de 170 países. “Fez história ao chamar a atenção de todo o mundo para uma questão nova na época: a compreensão de que os problemas ambientais do planeta estão intimamente ligados às condições econômicas e à justiça social” (Mousinho, 2003, p. 363). A RIO 92 ainda trabalhou a adoção de uma visão que integrasse ambiente, social e econômico, pregando o desenvolvimento sustentável como meta para o local, nacional e global.

Um dos eventos internacionais mais recentes na área ambiental foi em 2002. A Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável – Rio+10, foi realizada dez anos após a Rio 92. Estiveram reunidos, em Joanesburgo, na África, 104 chefes de Estado, Ongs, setor empresarial e outros segmentos sociais. A questão central foi “até que ponto o mundo é capaz de mudar o curso para atingir um futuro sustentável?” (Mousinho, 2003, p. 362). As ações necessárias foram compiladas em um Plano de Implementação Mundial, de dez capítulos, com regras, metas e cronogramas para ação sustentável.

Além de uma nova visão assumida pela comunidade científica e da instauração de eventos de grande repercussão social com foco no desenvolvimento sustentável é importante ressaltar o papel desempenhado pelos movimentos sociais ambientalistas, que, segundo Castells (2001, p. 141), conquistaram posição de destaque “no cenário da aventura humana”, no último quarto do século X, contribuindo muito para que as preocupações com a sustentabilidade do planeta e da natureza passassem a ter destaque na esfera dos debates mundiais.

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