Histórias para pais, filhos e netos

Histórias para pais, filhos e netos

(Parte 1 de 10)

1 Paulo Coelho

Histórias para pais, filhos, e netos

Edição especial da página w.paulocoelho.com.br , venda proibida

Aquêle que entre vós for o menor de todos, êsse é que é o grande

Lucas, 9-48

Nota do autor

Quando o grande místico sufi Hasan estava morrendo, um dos seus discípulos perguntou: - Mestre, quem foi o teu mestre?

- Eu tive centenas de mestres – foi a resposta.- Se tivesse que dizer o nome de todos eles, levaria meses, talvez anos, e mesmo assim ainda terminaria esquecendo alguns.

- Entretanto, não houve algum deles que marcou mais que outros? Hassan pensou por um minuto, e disse: - Na verdade, existiram três pessoas que me ensinaram coisas muito importantes.

“O primeiro foi um ladrão. Certa vez eu estava perdido no deserto, e só consegui chegar em casa muito tarde da noite. Havia deixado minha chave com o vizinho, mas não tinha coragem de acorda-lo aquela hora. Finalmente encontrei um homem, pedi ajuda, e ele abriu a fechadura num piscar de olhos.

“Fiquei muito impressionado, e implorei que me ensinasse a fazer aquilo.

Ele me disse que vivia de roubar as outras pessoas, mas eu estava tão agradecido que convidei-o para dormir em minha casa.

“Ele ficou comigo por um mês. Toda noite saía e comentava: “Estou indo trabalhar; continue sua meditação e reze bastante.” Quando voltava, eu perguntava sempre se tinha conseguido alguma coisa. Ele invariavelmente me respondia: “Não consegui nada esta noite. Mas, se Deus quiser, amanhã tentarei de novo.”

“Era um homem contente, e nunca o vi ficar desesperado com a falta de resultados. Durante grande parte da minha vida, quando eu meditava e meditava sem que nada acontecesse, sem conseguir meu contacto com Deus, eu me lembrava das palavras do ladrão – “não consegui nada esta noite, mas, se Deus quiser, amanhã tentarei de novo”. Isso me deu forças para seguir adiante. - Quem foi a segunda pessoa?

- Foi um cachorro. Eu estava indo em direção ao rio, para beber um pouco de água, quando o cachorro apareceu. Ele também estava com sede. Mas, quando chegou perto da água, viu outro cachorro ali – que não era mais que sua própria imagem refletida.

“Ficou com medo, afastou-se, latiu, fez tudo para que afastar o outro cachorro. Nada aconteceu, é claro. Finalmente, porque sua sede era imensa, resolveu enfrentar a situação e atirou-se dentro do rio; neste momento a imagem sumiu.

Hassan deu uma pausa, e continuou: - Finalmente, meu terceiro mestre foi uma criança. Ela caminhava em direção à mesquita, com uma vela acesa na mão. Eu perguntei: “Você mesmo acendeu esta vela?” O garoto disse que sim. Como fico preocupado com crianças brincando com chamas, insisti: “Menino, houve um momento em que esta vela esteve apagada. Voce poderia me dizer de onde veio o fogo que a ilumina?”

“O garoto riu, apagou a vela, e me perguntou de volta: “E o senhor, pode me dizer para onde foi o fogo que estava aqui?”

“Neste momento eu entendi o quão estúpido sempre tinha sido. Quem acende a chama da sabedoria? Para onde ela vai? Compreendi que, igual aquela vela, o homem carrega por certos momentos no seu coração o fogo sagrado, mas nunca sabe onde ele foi aceso. A partir daí, comecei a comungar com tudo que me cercava – nuvens, arvores, rios e florestas, homens e mulheres. Tive milhares de mestres a minha vida inteira. Passei a confiar que a chama sempre estaria brilhando quando dela precisasse; fui um discípulo da vida, e ainda continuo sendo. Consegui aprender a aprender com as coisas mais simples e mais inesperadas, como as histórias que os pais contam para os seus filhos.

Este belo conto, pertencente à tradição mística do Islã, mostra que uma das formas mais tradicionais que o homem encontrou de passar o conhecimento de sua geração, foi através de histórias e relatos.

A história é o que existe de mais puro na literatura, porque permite interpretações que vão além do tempo em que foram concebidas. Elas são alegres, divertidas, dramáticas, mas sobretudo transmitem o conhecimento deuma maneira agradável. Enquanto escrevia a grande maioria dos textos deste livro, imaginava quem os concebeu, quem os contou para seus filhos e netos, como foram capazes de sobreviver ao tempo, viajar pelo espaço, e percorrer muitos continentes e oceanos.

Sempre que é possível identificar uma fonte – como a do conto acima – eu o faço. Mas a quase totalidade dos textos pertence aos arquivos secretos do coração do homem; o nome do autor se perdeu, embora sua mensagem continue presente . Existe também alguns contos que tem versoes diferentes em diferentes culturas, e neste caso eu optei pela mais conhecida.

“Histórias de pais, filhos e netos” deve muito aos leitores da coluna que escrevo em diversos jornais do Brasil e exterior; foram eles que me incentivaram a reunir o material sob a forma de livro, ao qual acrescentei algum material ainda inédito. Também resolvi incluir trechos que escrevi sobre certas experiencias pessoais, que gostaria de dividir com os outros.

Vamos, então, passear pelas tradições e lendas de diversos continentes, embalados pelas três palavras mágicas que escutamos na infância, e nunca mais esquecemos: Era uma vez...

A verdadeira habilidade O yogue Raman era um verdadeiro mestre na arte do arco e flecha. Certa manhã, ele convidou seu discípulo mais querido para assistir uma demonstração do seu talento. O discípulo já vira aquilo mais de cem vezes, mas - mesmo assim - resolveu obedecer o mestre.

Foram para o bosque ao lado do mosteiro: ao chegarem diante de um belo carvalho, Raman pegou uma das flores que trazia em seu colar, e a colocou um dos ramos da árvore.

Em seguida, abriu seu alforje, e retirou três objetos: seu magnífico arco de madeira preciosa, uma flecha, e um lenço branco, bordado com desenhos em lilás.

O yogue então posicionou-se a uma distância de cem passos do local onde havia colocado a flor. De frente para o seu alvo, e pediu que seu discípulo o vendasse com o lenço bordado.

O discípulo fez o que o mestre ordenara. “Quantas vezes você já me viu praticar o nobre a antigo esporte do arco e flecha?” – perguntou.

“Todos os dias”, respondeu o discípulo. “E sempre o vi acertar na rosa, a uma distância de trezentos passos”.

Com seus olhos cobertos pelo lenço, o yogue Raman firmou os seus pés na terra, distendeu o arco com toda a sua energia – apontando na direção da rosa colocada num dos ramos do carvalho – e disparou.

A flecha cortou o ar, provocando um ruído agudo, mas nem sequer atingiu a árvore, errando o alvo por uma distância constrangedora.

“Acertei? “disse Raman, retirando o lenço que cobria seus olhos. “O senhor errou – e por uma grande margem” respondeu o discípulo. “Achei que ia mostrar-me o poder do pensamento, e sua capacidade de fazer mágicas.” “Eu lhe dei a lição mais importante sobre o poder do pensamento”, respondeu Raman. “ Quando desejar uma coisa, concentre-se apenas nela: ninguém jamais será capaz de atingir um alvo que não consegue ver.” Como ser lembrado

No mosteiro de Sceta, o abade Lucas reuniu os frades para o sermão. - Que vocês jamais sejam lembrados - disse ele.

- Mas como? - respondeu um dos irmãos. - Sera' que nosso exemplo não pode ajudar quem está precisando?

- No tempo em que todo mundo era justo, ninguém prestava atenção nas pessoas exemplares - respondeu o abade. - Todos davam o melhor de si, sem pretender, com isso, cumprir seu dever com o irmão. Amavam ao seu próximo porque entendiam que isto era parte da vida, e não estavam fazendo nada de especial em respeitar com uma lei da natureza. Dividiam seus bens para não terem que ficar acumulando mais do que podiam carregar, já que as viagens duravam a vida inteira. Viviam juntos em liberdade, dando e recebendo, sem nada a cobrar ou culpar nos outros. Porisso seus feitos não foram contados, e eles não deixaram nenhuma história.

“ Quem dera, pudéssemos conseguir a mesma coisa no presente: fazer do bem uma coisa tão comum, que não haja qualquer necessidade de exaltar aqueles que o praticaram.”

Reconstruindo o mundo

O pai estava tentando ler o jornal, mas o filho pequeno não parava de perturbalo. Já cansado com aquilo, arrancou uma folha – que mostrava o mapa do mundo – cortou-a em varios pedaços, e entregou-a ao filho.

- Pronto, aí tem algo para você fazer. Eu acabo de lhe dar um mapa do mundo, e quero ver se você consegue monta-lo exatemente como é.

Voltou a ler seu jornal, sabendo que aquilo ia manter o menino ocupado pelo resto do dia. Quinze minutos depois, porém, o garoto voltou com o mapa. - Sua mãe andou lhe ensinando geografia? – perguntou o pai, aturdido.

- Nem sei o que é isso – respondeu o menino. – Acontece que, do outro lado da folha, estava o retrato de um homem. E, uma vez que eu consegui reconstruir o homem, eu também reconstruí o mundo.

Pensando na morte

Zilu perguntou a Confúcio (filósofo chinês, que viveu no século VI A.C).: - Posso perguntar-lhe o que pensa sobre a morte? Poder, você pode – respondeu Confúcio. – Mas se ainda não compreende a vida, por que deseja saber tanto sobre a morte? Deixe para refletir sobre ela quando a vida já tiver acabado. Pagando o preço devido

Nuxivan havia reunido seus amigos para jantar, e estava cozinhando um suculento pedaço de carne. De repente, percebeu que o sal havia terminado.

Nixivan chamou o seu filho: - Vai até a aldeia, e compre o sal. Mas pague um preço justo por ele: nem mais caro, nem mais barato.

O filho ficou surpreso: - Compreendo que não deva pagar mais caro, papai. Mas, se puder barganhar um pouco, por que não economizar algum dinheiro?

- Numa cidade grande, isto é aconselhável. Mas, numa cidade pequena como a nossa, toda a aldeia perecerá.

Quando os convidados, que tinham assistido a conversa, quiseram saber porque não se devia comprar o sal mais barato, Nixivan respondeu:

- Quem vender o sal abaixo do preço, deve estar agindo assim porque precisa desesperadamente de dinheiro. Quem se aproveitar desta situação, estará mostrando desrespeito pelo suor e pela luta de um homem que trabalhou para produzir algo. - Mas isso é muito pouco para que uma aldeia seja destruída.

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