Guia alimentear da criança

Guia alimentear da criança

(Parte 1 de 6)

Guia alimentar para crianças menores de2 anos.

Ministério da Saúde

Organização Pan Americana da Saúde Representação do Brasil

Série A. Normas e Manuais Técnicos, n. 107

Brasília – DF 2002

2002. Ministério da Saúde. Organização Pan Americana da Saúde.

É permitida a reprodução parcial ou total desta obra, desde que citada a fonte. Série A. Normas e Manuais Técnicos; n. 107 Tiragem: 15.0 exemplares

MINISTÉRIO DA SAÚDE Secretaria de Políticas de Saúde Coordenação-Geral da Política de Alimentação e Nutrição SEPN 511 Bloco C, edifício Bittar IV, 4.º andar CEP: 70750-543, Brasília – DF Tel.: (61) 448 8040 / 448 8231 Fax: (61) 448 8228

Cristina Maria G. Monte (UFCR) Elza Regina Justo Giugliani Maria de Fátima Cruz Correia de Carvalho (CGPAN/MS) Sônia Tucunduva Philippi (USP) Zuleica Portela de Albuquerque (OPAS/OMS)

Cláudia Choma B. Almeida (UFPR), Denise Cavalcante de Barros (ENSP/FIOCRUZ), Estelamaris Tronco Monego (UFG), Esther L. Zaborowski (ENSP/FIOCRUZ), Ida Helena C. F. Menezes (UFG), Ilma Kruze Grande de Arruda (IMIP/UFPE), Regina Mara Fisberg (USP), Sarah M. N. Blamires Komka (SES/DF), Yedda Paschoal de Oliveira (CGPAN/MS) Vide Anexo V

Denise Costa Coitinho (CGPAN/MS), Júlio Marcos Brunacci

Ficha Catalográfica

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Política de Saúde. Organização Pan Americana da Saúde.

Guia alimentar para crianças menores de dois anos / Secretaria de Políticas de Saúde, Organização Pan Americana da Saúde. – Brasília: Ministério da Saúde, 2002.

152 p.: il. – (Série A. Normas e Manuais Técnicos; n. 107) ISBN 85-334-0344-5

1. Nutrição infantil – diagnóstico. I. Brasil. Ministério da Saúde. I. Brasil. Secretaria de Políticas de Saúde. I. Organização Pan Americana da Saúde. IV. Título. V. Série.

NLM WS 125 DB8

2002 EDITORA MS Documentação e Informação SIA Trecho 4, Lotes 540/610 71200-040, Brasília – DF Fones: (61) 233 1774/2020 Fax: (61) 233 9558 : editora.ms@saude.gov.br

Apresentação7
Resumo9
1 Introd ução1
2 Me todologia12
3 Bases científicas atuais da alimentação da criança menor de dois anos15
3.1 Práticas Adequadas de Alimentação Infantil15
3.2 Aleitam ento Materno16
3.2.1 Definições16
3.2.2 A Importância do Aleitamento Materno16
3.2.3 A Importância do Aleitamento Materno Exclusivo19
3.2.4 Duração do Aleitamento Materno Exclusivo21
3.2.5 Duração do Aleitamento Materno23
3.3 Alimentação Complementar23
3.3.1 Qua ndo Iniciar24
3.3.2 Densidade energética25
3.3.3 Proteínas30
3.3.4 Ferro31
3.3.5 Vitam ina A3
3.3.6 Freqüência das Refeições com Alimentos Complementares3

3 3.3.7 Fatores que Afetam a Ingestão dos Alimentos Complementares..35

3.3.7.1 Apetite / Anorexia35
3.3.7.2 Variedade / Monotonia36
3.3.7.3 Sabor / Aroma38
3.3.7.4 Viscosidade / Textura40
mentos Complementares40
3.4.1 Água Contaminada42
3.4.2 Higiene Pessoal43

3.4 Evidências Sobre as Práticas de Higiene com Relação aos Ali- 3.4.3 Utensílios Utilizados para Administrar os Alimentos............43

3.4.4 Métodos de Preparação dos Alimentos4
3.4.5 Estocagem dos Alimentos já Preparados4
mentos Complementares45
3.5 3.5 Alimentação da Criança Doente46

3.4.6 Peculiaridades da Promoção das Práticas de Higiene dos Ali-

sileira Menor de Dois Anos48
4.1 O Estado Nutricional48
4.1.1 Indicadores Antropométricos48
4.1.2 Peso ao Nascer50
4.2 Carências Nutricionais Específicas53
4.2.1 Ferro53
4.2.2 Vitam ina A5
4.3 Práticas Alimentares57
4.3.1 Situação do Aleitamento Materno57
4.3.2 Alimentação Complementar6
4.3.2.1 Época da Introdução6
4.3.2.2 Alimentos Introduzidos67
4.3.2.3 Densidade Energética69
4.3.2.4 Densidade Protéica71
4.3.2.5 Adequação de Ferro71
4.3.2.6 Adequação de Vitamina A73
4.3.2.7 Freqüência da Oferta de Alimentos74
tos Complementares76
4.3.2.9 Uso de Mamadeira / Risco78
4.3.2.10 Variedade e Monotonia79
4.4 Percepções, Crenças e Tabus Referentes à Alimentação Infantil80
4.4.1 Alimentação da Criança Doente83

4 Diagnóstico Atual da Situação Nutricional e Alimentar da Criança Bra- 4.3.2.8 Práticas de Manipulação e Estocagem de Alimen- 5 Síntese dos Problemas Nutricionais e Alimentares Identificados..............85

5.1 Situação Nutricional85
5.2 Práticas Alimentares86
6 Recomendações para uma Alimentação Saudável87
nores de Dois Anos87
6.2 Pirâmide Alimentar e Sugestões de Cardápios / Dietas91
6.2.1 Me todologia91
6.2.2 Pirâm ide Alimentar Infantil92
6.2.3 Cardápios / Dietas Sugeridos97
Sugeridos103
7 Resultados Esperados com a Implantação do Guia Alimentar105
8 Re ferências Bibliográficas106
9 Ane xos125

6.1 Dez Passos da Alimentação Saudável para Crianças Brasileiras Me- 6.2.4 Cálculos da Adequação Nutricional dos Cardápios / Dietas

(6 a 23 meses)125
Anexo I Adequação Nutricional dos Cardápios / Dietas Sugeridos137
Cálcio e Retinol141
Anexo IV Lista e Tabelas, Figuras e Quadros143

Anexo I Equivalentes Calóricos para a Pirâmide Alimentar Infantil Anexo I Classificação dos Alimentos de Acordo com o Teor de Ferro, Anexo V Lista e Participantes na Elaboração do Guia Alimentar por macroregião............................................................................. 145

Apresentação

A alimentação e nutrição adequadas são requisitos essenciais para o crescimento e desenvolvimento de todas as crianças brasileiras. Mais do que isso, são direitos humanos fundamentais, pois representam a base da própria vida.

Esta publicação é mais uma contribuição do Ministério da Saúde para a materialização desse direito. Destina-se à capacitação técnica dos diversos profissionais que atuam no campo da alimentação infantil, principalmente os profissionais nutricionistas e as Equipes de Saúde da Família.

O conteúdo deste Guia é bem abrangente. Parte de uma compilação das evidências científicas mais atualizadas sobre a alimentação das crianças pequenas e apresenta um diagnóstico da situação alimentar e nutricional dos menores de dois anos. O texto inclui percepções, práticas e tabus alimentares das diferentes regiões do país e proporciona orientações e recomendações para a melhoria do quadro apresentado. Estas são apropriadas para a riqueza e a diversidade da nossa cultura alimentar.

Para o levantamento das informações regionais e elaboração das recomendações, contamos com a colaboração de pesquisadores, de grupos acadêmicos e dos técnicos das Secretarias Estaduais de Saúde de todos os estados da federação e, ainda, com o apoio inestimável da Organização Pan-Americana da Saúde. Agradeço a todos que participaram deste processo.

José Serra Ministro da Saúde

AGRADECIMENTOS ESP ECIAIS        

8 pelo apoio técnico e coordenação das primeiras etapas deste trabalho.

Resumo

Este Manual contém os dez passos recomendados pelo Ministério da

Saúde e Organização Pan-Americana da Saúde / Organização Mundial da Saúde (OPAS / OMS) para melhorar a alimentação infantil das crianças menores de dois anos no Brasil.

As recomendações foram elaboradas com a participação de profissionais de saúde de todo o País que lidam com nutrição de crianças, em serviços de saúde, em ensino e em pesquisa, a partir de um diagnóstico baseado em dados secundários compilados e complementado com resultado de pesquisa qualitativa específica por macrorregião.

Este Guia, portanto, apresenta um quadro da atual situação de nutrição e alimentação de crianças menores de dois anos no País, ao qual são aplicados conhecimentos científicos atualizados sobre o tema, de forma a abranger os problemas identificados como sendo comuns a todas as regiões.

Os dados analisados indicam que, apesar da melhoria do estado nutricional das crianças atingida nos últimos anos, a desnutrição infantil continua a ser um problema de saúde pública nesta faixa de idade, no qual a alimentação tem um papel relevante. A prevalência do aleitamento materno é baixa, sua duração é curta e o aleitamento materno exclusivo até o sexto mês de vida é raro. Alimentos complementares são precocemente introduzidos para uma grande maioria de crianças e são freqüentemente deficientes em conteúdo energético e de nutrientes.

Em muitas famílias, esses alimentos são preparados em condições desfavoráveis de higiene, às vezes estocados à temperatura ambiente por tempo prolongado, e quase universalmente são oferecidos, principalmente no primeiro ano de vida por mamadeira. Alimentos regionais de alto valor nutritivo, disponíveis e utilizados na alimentação da família, não são dados às crianças nos primeiros anos de vida em decorrência de crenças e tabus (do tipo: alimentos reimosos, frios, quentes, fortes / fracos, permitidos / proibidos em uma dada etapa de desenvolvimento da criança). Algumas estratégias adotadas para fazer com que a criança coma mais são inadequadas, como as ameaças, as recompensas ou os castigos. Outras crianças são deixadas a se alimentarem sozinhas. A alimentação da criança doente também é muitas vezes inadequada, quer seja por suspensão ou restrição de determinados alimentos por algum período, pela administração de dietas de baixo valor calórico e nutritivo ou pela falta de estímulo à criança doente que se encontra muitas vezes sem apetite. Observa-se também a pequena oferta de frutas, verduras, vegetais folhosos às crianças nesta faixa etária, muito embora haja grande variedade desses alimentos ricos em minerais e vitaminas.

A proposta contida neste Guia Alimentar traz orientações de como proceder para ultrapassar estes problemas. Com vistas a prevenção e redução dos riscos e problemas detectados e à promoção de uma dieta saudável, foi elaborado

O Guia pode servir de material de consulta para um grande número de profissionais de diversas instituições como profissionais de saúde e nutrição dos serviços de saúde e de educação, seus gestores, professores da rede de ensino e de universidades, planejadores de saúde e agroindústria e demais pessoas interessadas.

PASSO 1 – Dar somente leite materno até os seis meses, sem oferecer água, chás ou qualquer outro alimento.

PASSO 2 – A partir dos seis meses, oferecer de forma lenta e gradual outros alimentos, mantendo o leite materno até os dois anos de idade ou mais.

PASSO 4 – A alimentação complementar deve ser oferecida sem rigidez de horários, respeitando-se sempre a vontade da criança.

PASSO 5 – A alimentação complementar deve ser espessa desde o início e oferecida de colher; começar com consistência pastosa (papas / purês), e gradativamente aumentar a sua consistência até chegar à alimentação da família.

PASSO 6 – Oferecer à criança diferentes alimentos ao dia. Uma alimentação variada é uma alimentação colorida.

PASSO 7 – Estimular o consumo diário de frutas, verduras e legumes nas refeições.

PASSO 8 – Evitar açúcar, café, enlatados, frituras, refrigerantes, balas, salgadinhos e outras guloseimas nos primeiros anos de vida. Usar sal com moderação.

PASSO 9 – Cuidar da higiene no preparo e manuseio dos alimentos; garantir o seu armazenamento e conservação adequados.

PASSO 10 – Estimular a criança doente e convalescente a se alimentar, oferecendo sua alimentação habitual e seus alimentos preferidos, respeitando a sua aceitação.

" ( ) " : Práticas de alimentação infantil, nutrição infantil; guias alimentares, Alimentação Complementar, Guia Alimentar Infantil, Pirâmide Alimentar Infantil.

1 Introdução

Muito embora os últimos estudos nacionais apontem uma tendência à redução na prevalência da desnutrição energético-proteica (DEP) no País, seus resultados indicam que a desnutrição vem se concentrando entre as crianças de 6 a 18 meses de idade, evidenciando a importância da alimentação para saúde e para o estado nutricional dessas crianças.

Este Guia foi elaborado à luz dos conhecimentos científicos atualizados sobre alimentação da criança pequena (Organização Pan- Americana da Saúde / OPAS, 1997) com base no conceito de que Guia Alimentar é “o instrumento educativo que adapta os conhecimentos científicos sobre requerimentos nutricionais e composição de alimentos em mensagens práticas que facilitam a diferentes pessoas a seleção e o consumo de alimentos saudáveis” (Penã e Molina, 1998).

Para que se pudesse elaborar recomendações específicas para alimentação saudável da criança menor de dois anos, sentiu-se a necessidade de realização de um diagnóstico sobre a situação nutricional e alimentar, das práticas alimentares, percepções, crenças e tabus relacionados à alimentação da criança pequena.

Com vistas a esse conhecimento, foi realizado um amplo levantamento de dados existentes no País e complementados com a realização de estudos qualitativos, garantindo-se assim a identificação dos problemas existentes e, dentre eles, aqueles prioritários para intervenção.

Espera-se que a aplicação das recomendações contidas neste Manual contribua para a melhoria da alimentação infantil nos seguintes níveis:

• *" " obtendo uma dieta saudável e culturalmente aceitável, com as menores modificações possíveis da alimentação habitual; corrigindo os hábitos alimentares indesejáveis; resgatando e reforçando práticas desejáveis para a manutenção da saúde; orientando o consumidor com relação à escolha de uma dieta saudável com os recursos econômicos disponíveis e alimentos produzidos localmente, levando em conta também a variação sazonal dos mesmos;

• *"  subsidiando o planejamento de programas

sociais e de alimentação e nutrição; subsidiando os profissionais de saúde no repasse de mensagens adequadas sobre alimentação e nutrição; fornecendo informações básicas para inclusão nos currículos de escolas de todos os níveis; servindo de base para a formação e capacitação em nutrição de profissionais de diversas áreas em diferentes níveis;

2 Metodologia

O processo de elaboração deste documento foi bastante participativo e envolveu todos os estados da federação e várias instituições, sendo desenvolvido segundo os passos descritos a seguir:

Inicialmente realizou-se uma primeira reunião nacional em Pelotas

Rio Grande do Sul, financiada pelo Programa de Nutrição Humana da OPS (HPP / HPN) em Washington, na qual estiveram presentes o diretor e técnicos do Departamento de Epidemiologia da Universidade Federal de Pelotas, Dr Manuel Peña do Programa de Nutrição Humana do escritório central da OPS, consultor nacional de nutrição do escritório da OPS / Brasil, Ministério da Saúde, coordenadores de nutrição das macrorregiões e outros convidados. Nessa reunião foram apresentados o conceito de Guia Alimentar e o estágio de desenvolvimento desta proposta nos outros países das Américas e Caribe. Foram distribuídos, lidos e discutidos materiais sobre o tema produzidos pela OPAS, INCAP – Instituto de Nutrição Centro

América e Panamá – e outras instituições. Também foram feitas apresentações sobre alguns aspectos da alimentação da criança pequena. Houve consenso nessa reunião que o Guia Alimentar a ser elaborado teria como grupo alvo as crianças pequenas, menores de dois anos, que a coordenação técnica nacional dos trabalhos seria responsabilidade dos Drs. César Victora e Fernando Barros, que os Centros Colaboradores em Alimetação e Nutrição de cada macrorregião coordenariam os trabalhos dos seus estados e que as áreas técnicas de nutrição e de saúde materno-infantil das secretarias estaduais de saúde de cada unidade federada buscaria articulação com as demais instituições dentro de seus estados (incluindo as universidades) para coletar o maior número possível de informações.

Na região Nordeste, posteriormente, em virtude da Coordenação de um dos dois Centros Colaboradores em Alimentação e Nutrição dessa região (centralizado em PE) estar envolvido com a pesquisa de “Situação de Saúde e Nutrição do Estado de Pernambuco”, o estado do Ceará, sob a coordenação da Dra. Cristina Monte ficou responsável pela coordenação dos trabalhos de levantamento dos dados, da realização do seminário da região Nordeste e da pesquisa qualitativa nessa região, passando, portanto, a participar deste trabalho junto com as coordenações de todas as macrorregiões.

O então Instituto Nacional de Alimentação e Nutrição (INAN / MS) ficou responsável pela coordenação e financiamento dos trabalhos com o apoio técnico e financeiro da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS / representação do Brasil).

Foram elaboradas uma agenda para o desenvolvimento dos trabalhos e uma lista com os principais indicadores para nortear e uniformizar o levantamento da coleta de dados existentes (publicações, teses, relatórios de instituições, etc) para se fazer um diagnóstico da situação alimentar e nutricional das crianças brasileiras menores de 2 anos.

Saúde, 1997).

Em cada macrorregião do país foram realizadas reuniões para análise, discussão, avaliação dos dados levantados e elaboração de um relatório final, sintetizando os resultados. Para duas regiões, Centro-Oeste e Nordeste, esses relatórios tornaram-se publicações oficiais (Monego et al 1998a e Monte e Sá, 1998).

Após as reuniões macrorregionais percebeu-se a necessidade de se realizar estudos qualitativos para um melhor conhecimento das percepções, crenças e tabus por parte das mães sobre a alimentação da criança pequena, frente a escassez de dados sobre o tema.

Para padronizar um estudo deste tipo, os Drs. César Victora

(UFPel) e Ceres Victora (UFRGS) desenvolveram um protocolo de pesquisa para ser realizado em uma “unidade sociocultural” em cada macrorregião e deram também apoio técnico e de capacitação de recursos humanos onde julgou-se necessário. Esse estudo foi financiado pelo Ministério da Saúde.

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