O conceito de homem!

O conceito de homem!

(Parte 1 de 4)

1.1. Feuerbach: limites e conquistas

Para explicar o modo como Marx compreende a relação entre o homem e a natureza faz-se necessário expor antes um pouco do modo como ele supera as perspectivas unilaterais tanto da filosofia idealista como do materialismo filosófico que lhe é anterior. Iniciemos por Feuerbach.

Feuerbach surgiu no cenário intelectual alemão quando o legado de Hegel não havia sido ainda plenamente criticado. Após a morte de Hegel, ocorrida em 1831, travou-se uma acirrada polêmica em torno do verdadeiro significado teórico da obra do mestre. Correntes de direita e de esquerda reivindicavam certos elementos do pensamento de Hegel. Os “velhos hegelianos”, defensores do status quo, desenvolveram-se em sentidos diversos, mas conservaram-se sempre fieis ao conteúdo doutrinário da filosofia de Hegel, sobretudo a tese de que o Estado constitui a mais alta realização do espírito absoluto. Os “jovens hegelianos”, adversários da ordem política vigente, adotaram o método dialético e o utilizaram na análise dos problemas políticos. No entanto, apesar de seu caráter progressista, eles também se mantiveram acríticos em relação ao pensamento de Hegel em sua totalidade. Apenas Feuerbach, o mais conhecido representante da esquerda hegeliana, criticou a filosofia de Hegel como um todo.1

Feuerbach critica o caráter alienado e abstrato da filosofia especulativa de Hegel.

Segundo Feuerbach, a filosofia de Hegel segue um estranho e fantasmagórico itinerário: ela começa pelo conceito de ser, atravessa uma tortuosa engrenagem de sucessivas mediações, para somente então alcançar o ser real carregado de determinações. Nessa filosofia, a natureza seria um segundo momento, aquele em que o espírito, após ter estado em plena identidade consigo mesmo, movido pelo “aborrecimento” ou pela “nostalgia de um conteúdo”, conforme as sarcásticas palavras de Marx, sai de si e se exterioriza na natureza.2

1 “Feuerbach é o único que teve uma atitude séria, crítica a respeito da dialética hegeliana, o único que fez verdadeiras descobertas nesse domínio; ele é em suma aquele que verdadeiramente ultrapassou a antiga filosofia. A grandeza de sua obra e a simplicidade com a qual ele a entregou ao mundo constituem um contraste surpreendente com atitude inversa dos outros”. MARX, Karl. Manuscrits de 1844. Paris: Flammarion, 1996. p. 159, 160. 2 Ibdem. p. 181.

Mas por que começar pelo conceito de ser, pelo ser abstrato, e não pelo ser real carregado de determinações? Por que aceitar esse ponto de vista idealista?

Contra essa visão fantasmagórica, Feuerbach propõe uma inversão materialista. Para Feuerbach, o caminho seguido pela filosofia especulativa é o caminho invertido: ela vai do abstrato ao concreto, do ideal ao real, ao invés de partir, desde o início, do real e do concreto. Trata-se de um caminho que nunca leva à realidade verdadeira e objetiva, mas apenas à realização de suas próprias abstrações.3 Feuerbach concebe a filosofia de Hegel como uma teologia racionalizada.4

“A doutrina hegeliana, segundo a qual a natureza, a realidade, é posta pela idéia, não é mais que a expressão racional da doutrina teológica segundo a qual a natureza é criada por Deus, o ser material por um ser imaterial, ou seja, abstrato”.5

Para Feuerbach, a “Idéia” de Hegel é o Deus racionalizado da teologia antes da criação do mundo. Assim como Deus se exterioriza, se revela e se faz mundo, a “Idéia” também se realiza: é a história da teologia convertida em um processo lógico.6

No lugar dessa filosofia abstrata e alienada, Feuerbach propõe uma nova filosofia, feita em “carne e osso”, que tenha como ponto de partida, não o ser abstrato da especulação filosófica, mas aquilo que é indubitável e imediatamente certo: o ser sensível. Para Feuerbach, onde começa sensibilidade termina toda a dúvida e todo o litígio. Enquanto na filosofia de Hegel, tudo está mediado, Feuerbach entende que somente o imediato é verdadeiro.7

O ponto de partida da filosofia de Feuerbach é o homem e a natureza. Com essa inflexão, Feuerbach aponta para uma ontologia empirista que quer substituir o processo dialético da constituição dos seres pela exigência de partir diretamente do concreto, do ser

3 FEUERBACH, Ludwig. Tesis provisionales para la reforma de la filosofia. Barcelona: Labor, 1976. p. 12. 4“A essência da filosofia especulativa não outra que a essência racionalizada, realizada e atualizada de Deus. A filosofia especulativa é a teologia verdadeira, conseqüente e racional” Idem. Principios de la filosofia del futuro. Barcelona: Labor, 1976. p. 32. 5 Idem. Tesis provisionales para la reforma de la filosofia. Barcelona: Labor, 1976. p. 20. 6 Idem. Principios de la filosofia del futuro. Barcelona: Labor, 1976. p. 84. 7 Ibdem. p. 91.

empírico. A nova filosofia de Feuerbach surge como uma antropologia radical que deve procurar a verdade por meio da intuição sensível, imediata, e não através dos jogos especulativos da dialética e das fantasias do raciocínio teológico.

Feuerbach concebe o homem como um ser corpóreo, físico, que existe no espaço e no tempo e que, só como tal, possui a faculdade de perceber e pensar. Segundo o princípio antropológico de Feuerbach, não há separação entre o corpo e o espírito. Feuerbach está inteiramente convencido de que todos os artifícios idealistas decorrem da separação entre o corpo e o espírito. Segundo ele, quando se faz tal separação, o pensamento se converte numa força divina que cria a matéria. Todavia, o princípio antropológico de Feuerbach manifesta um materialismo bastante incompleto e limitado. Ele capta a essência corpórea, sensível da realidade humana. Mas não capta o homem como um ser histórico e social.

A teoria do conhecimento de Feuerbach, como toda a sua doutrina materialista, apresenta um caráter contemplativo. Como materialista, Feuerbach admitia que o conhecimento dos objetos remete a objetos reais, a uma realidade material anterior ao sujeito do conhecimento. No entanto, sua perspectiva materialista se prendia a uma concepção de conhecimento segundo a qual a consciência aparece como uma simples “receptora”, que acolhe passivamente o que provém de fora dela. O materialismo de Feuerbach, portanto, não se dava conta de que a consciência é sempre consciência de um ser consciente ativo, cujo modo de existir consiste precisamente em intervir transformadoramente na realidade.8

Por diversas vezes, Marx assinalou os defeitos do materialismo de Feuerbach, sobretudo nas Teses sobre Feuerbach e em A ideologia alemã. Não investigaremos aqui todas as questões levantadas por Marx contra a filosofia especulativa de Feuerbach. Abordaremos apenas aquelas que dizem respeito de um modo mais direto à relação entre o homem e a natureza.

Na primeira Tese contra Feuerbach, Marx aponta para um defeito comum a todo o materialismo passado, inclusive o de Feuerbach: o de captar a coisa concreta, o real, o sensível, apenas sob a forma de objeto ou de intuição, contemplativamente, mas não como atividade humana sensível, como práxis. Feuerbach capta os objetos sensíveis, realmente

8 KONDER, Leandro. O futuro da filosofia da práxis. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992. p. 114.

distintos dos objetos pensados, mas não capta a própria atividade humana como “atividade objetiva”.9

Em Feuerbach, esse defeito se deve sobretudo à sua má compreensão do significado da atividade prática do homem. O modo como ele interpreta a atividade prática humana está expresso claramente no capítulo XII de A essência do cristianismo.

Feuerbach trabalha com duas categorias: a atividade teórica, “espiritual”, da “cabeça” e a prática egoísta, “passiva”, “grosseira”, “judaica”. Nesse esquema, apenas o procedimento teórico expressa um comportamento propriamente humano, enquanto a prática revela uma forma degradada de comportamento.

Para Feuerbach, a relação prática expressa apenas a busca da realização dos interesses “sórdidos” e “egoístas” do homem. A natureza seria então uma mera matériaprima através da qual o homem realizaria a sua vontade e a sua necessidade. Segundo ele, esse é o modo como os judeus se relacionam com o mundo. A expressão teorética dessa concepção egoísta é a doutrina da criação: a doutrina fundamental da religião judaica.10 Assim concebida, a relação prática não poderia, evidentemente, servir para humanizar o homem, mas apenas para evidenciar o egoísmo da subjetividade humana. Por isso, Feuerbach considera o comportamento teórico, contemplativo, o ponto de vista da harmonia com o mundo, característico dos gregos, como o único comportamento propriamente humano, enquanto a práxis só é apreendida em sua manifestação sordidamente judaica.1

Esse defeito do materialismo de Feuerbach obliterava inteiramente a possibilidade de sua filosofia conceber de forma concreta a realidade humana. Por isso, ele concebe o homem como um ser passivo, contemplativo, diante da natureza, e esta, como uma realidade sempre igual a si mesma, desde a eternidade. Em A ideologia alemã, Marx critica essas limitações da filosofia de Feuerbach. Nesse texto, Marx explica que o homem não é

9 MARX, Karl. Thèse sur Feuerbach. Paris: Gallimard, 1982. (Oeuvres I). p.1029. 10 “O estágio da teoria é o estágio da harmonia com o mundo. [...] Mas onde, ao contrário, o homem só se coloca no ponto de vista prático e considera o mundo a partir deste, transformando até mesmo o ponto de vista prático no teorético, aí está ele cindido com a natureza, aí transforma ele a natureza numa escrava submissa do seu próprio interesse, do seu egoísmo prático. A expressão teorética desta concepção egoísta, prática, para a qual a natureza em e por si mesma nada é, significa: a natureza ou o mundo foi criado, fabricado, é um produto de um imperativo. Deus disse: faça-se o mundo, e o mundo se fez, Deus ordenou: faça-se o mundo, e sem demora surgiu o mundo depois desta ordem. O utilitarismo, a utilidade é o princípio supremo do judaísmo” FEURBACH, Ludwig. A essência do cristianismo. Campinas – SP: Papirus, 1997. 1 MARX, Karl. Thèses sur Feuerbach. Paris: Gallimard, 1982. (Oeuvres I). p.1030.

um ser passivo e, tampouco, a natureza, um domínio intocado pelo homem, mas o contrário: o homem real revela-se como um ser essencialmente ativo – atividade essa que se manifesta sobretudo sob a forma de trabalho – e a natureza, por sua vez, como uma realidade inteiramente modificada no curso da história, através de sucessivas mediações engendradas pelo trabalho. Todo o mundo no qual o homem vive revela-se como um produto histórico, resultado de uma série de gerações, onde até a mais simples “certeza sensível”, mesmo a da mais modesta árvore frutífera, apresenta-se como uma realidade mediada pelo trabalho humano.12

Marx também sublinha o fato de que o trabalho constitui a base de todo o mundo existente, a tal ponto que se fosse interrompido, Feuerbach não apenas veria uma enorme modificação em todo o mundo natural, como bem depressa deploraria a perda de todo o mundo humano, de sua própria faculdade de intuição e até de sua existência. E acrescenta que a natureza da qual fala Feuerbach não é a natureza onde ele vive. Uma natureza intocada pelas mão humanas é algo que já não mais existe em parte alguma, com exceção talvez em alguns atóis australianos de formação recente.13

É importante lembrar que os limites do materialismo de Feuerbach não constituem, segundo Marx, os limites de uma pessoa, mas sim os de uma classe social. O materialismo que não concebe a sensibilidade humana como prática corresponde ao ponto de vista da teoria dos “indivíduos isolados” e da “sociedade burguesa”, explica Marx na nona Tese contra Feuerbach.14 Na décima Tese, Marx assinala que um novo materialismo só poderia surgir de um ponto de vista mais elevado: o da “sociedade humana” ou da “humanidade social”.15

De qualquer forma, Feuerbach teve o mérito de fazer uma crítica radical contra a filosofia especulativa de Hegel e propor, em contraposição ao idealismo filosófico, uma perspectiva materialista, que tivesse como ponto de partida o reconhecimento da natureza e do homem. A proposta de Feuerbach feita numa ótica empirista e voltada para a emancipação dos sentidos exerceu grande influência no pensamento teórico de Marx. Foi a

12“Sabe-se que a cerejeira, como quase todas as árvores frutíferas, foi transplantada para as nossas latitudes pelo comércio, há apenas poucos séculos, e que portanto foi somente graças a essa ação de uma determinada sociedade em uma determinada época que ela foi dada à ‘certeza sensível’ de Feuerbach” MARX, Karl & ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. São Paulo: Martins Fontes, 1989. p. 4. 13 Ibdem. p. 45. 14 MARX, Karl. Thèses sur Feuerbach. Paris: Gallimard, 1982. (Oeuvres I). p. 1033 filosofia de Feuerbach que abriu os caminhos para Marx elaborar uma concepção materialista do mundo.

Feuerbach constitui o elo intermediário entre a filosofia de Hegel e a filosofia de

Marx. No entanto, o materialismo de Feuerbach continha sérias limitações, que o impossibilitavam compreender concretamente a realidade humana. Um dos principais defeitos do pensamento de Feuerbach consistiu no fato de ele não ter apreendido o homem como um ser ativo, como um ser que age transformadoramente sobre o mundo. A elaboração de um conceito mais concreto acerca da realidade humana passava pela apropriação de uma contribuição essencial do pensamento filosófico de Hegel: o conceito de trabalho. Nenhum materialismo poderia superar Hegel sem se apropriar desta conquista decisiva do idealismo hegeliano.

1.2. Os méritos e as limitações do conceito de trabalho de Hegel

Até o ano de 1843, quando ainda se movia na órbita da filosofia de Feuerbach, o conceito de práxis não havia despertado interesse filosófico no então jovem Marx. Somente no ano seguinte, após ter entrado em contato com o ativo movimento operário francês, Marx sentiu-se impelido a formular um pensamento alternativo à filosofia contemplativa de Feuerbach.

O ponto de partida das reflexões de Marx encontra-se no conceito de trabalho exposto por Hegel em sua Fenomenologia do espírito. Nos Manuscritos de 1844, Marx aponta os méritos desse texto de Hegel:

“A grandeza da Fenomenologia e de seu resultado final, a saber a dialética da negatividade como princípio motor e criador, consiste pois, de uma parte, em que Hegel compreenda a produção do homem por ele mesmo como um processo, a objetivação como desobjetivação, como alienação e supressão dessa alienação; em que compreenda a essência do trabalho e conceba o homem objetivo, verdadeiro pois real, como o resultado de seu próprio trabalho”.16

15 Ibdem. p. 1033. 16 Idem. Manuscrits de 1844. Paris: Flammarion, 1996. p. 165.

Uma das formulações mais importantes da Fenomenologia do Espírito consiste na apreensão da dimensão ontologicamente universal do trabalho.17 É verdade que o trabalho já havia sido captado pela economia política moderna. Mas ela captava o trabalho sob uma forma particular, restrita ao mundo burguês. Foi apenas com Hegel que o trabalho adquiriu uma significação mais ampla: o de ser a atividade formadora do homem, através da qual o homem se autoproduziu. No entanto, essa descoberta de Hegel possuía uma grande limitação. Hegel entendeu a importância do trabalho no processo de formação do homem. Contudo, o único trabalho ele conhecia e reconhecia era a “atividade abstrata do espírito”.18

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