O conceito de homem!

O conceito de homem!

(Parte 2 de 4)

Na Fenomenologia do espírito, Hegel expõe o devir da consciência em todas as suas formas, desde o seu surgimento na certeza “sensível” e na “percepção”, até o se ponto de chegada proporcionado pelo “espírito”, após superar as limitações do “entendimento”, da “consciência de si” e da “razão”. Nesse texto, fica evidente a importância da atividade humana nesse processo de formação. Entretanto, o único trabalho que realmente importa nesse processo é o trabalho da consciência que quer conhecer-se a si mesma. A essência do homem é identificada com a consciência de si. Em Hegel, a própria história do homem não é senão a história da filosofia: a história da produção de um saber, o saber que o “espírito” tem de si mesmo, o progresso da “consciência de si”, que alcança a sua plenitude no “saber absoluto”.19

Hegel reduz o ser essencial do homem ao logos. Por isso, a única coisa que ele considera importante no vir-a-ser é a sucessão dialética dos princípios em que a humanidade procura se reconhecer.20 O homem concreto, de carne e osso, em sua dimensão essencialmente corpórea, aparece como um meio evanescente, um ser “não objetivo”, “espiritualista”, que tem no “saber” seu único comportamento objetivo. Pode-se dizer que do mesmo modo que a economia política faz abstração do homem e engendra um homo-

17 FREDERICO, Celso. O jovem Marx: as origens da ontologia do ser social. São Paulo: Cortez, 1995. p. 173. 18 Ibdem. p. 166. 19 KOJÉVE, Alexandre. Introduction à la lecture de Hegel. Paris: Gallimard, 1947. p. 397. Segundo Hegel, “a história universal é a apresentação do Espírito em seu trabalho de ascensão ao conhecimento do que ele é em si”. HEGEL, Friedrich. La raison dans l’histoire. Paris: Hatier, 1987. p. 59 oeconomicos, Hegel, igualmente, capta apenas um aspecto parcial da realidade humana, o homem como pensamento, criando um homo-philosophicus,21 um ser “abstrato”, “espiritual”.

Mas essa não é, segundo Marx, a única limitação do conceito de trabalho de Hegel.

Identificado com o ponto de vista do capital, com todas as suas inevitáveis limitações, Hegel vê o lado positivo do trabalho, o trabalho como a essência do homem que se afirma a si mesma, mas não o seu lado negativo, como atividade que, no sistema do capital, não só não afirma a essência humana, como representa a sua mais franca negação.2

Hegel concebe a questão da alienação do trabalho. Mas não compreendeu concretamente este problema. Em parte, isso se deve ao fato de ele ter definido o homem abstratamente, apreendendo apenas uma de suas dimensões, ou seja, concebe-lo apenas como pensamento, deixando, por isso, de reconhecer a dimensão concreta e material da vida humana. Ao não reconhecer o homem como um ser objetivo, como materialidade viva, Hegel não poderia, conseqüentemente, captar a atividade humana como atividade objetiva. Em parte, isso se deve ao seu ponto de vista social. O fato de ele compartilhar com “o ponto de vista da economia política moderna” impedia-o de se contrapor firmemente às mediações de segunda ordem do sistema do capital. Por isso, terminou por identificar a alienação com a exteriorização. Não distinguiu, portanto, a objetivação (as formas pelas quais o homem se exterioriza, realizando-se em seu fazer) da alienação (uma forma particular e degradada de objetivação). 23

20 CHATELET, François. Logos e práxis. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1962. p. 224. 21 “Que o homem seja pensamento, que procure ser, enquanto pensamento, satisfeito, isso é muito claro. Mas, será apenas isso? Não mostra a existência histórica, que o contentamento que é capaz de alcançar, enquanto pretende ser apenas pensamento, não poderia ser duradouro e universalizável? Compreendendo o homem como um ser capaz de falar racionalmente e que se esforça em fazê-lo, o filósofo diz, sem dúvida, o que distingue o ser-humano do ser-animal: mas essa definição diferencial não revela tudo o que é o homem: pela preocupação em bem delimitar a diferença específica – a forma –, silencia sobre o gênero – a matéria.” Ibdem. p. 170. 2“Para Marx, o que viciava a filosofia de Hegel não era apenas o seu idealismo, mas o fato de este compartilhar o ‘ponto de vista da economia política’, o que significava uma postura totalmente acrítica em relação ao capital como controle metabólico da sociedade”. MÉSZÁROS, István. Para além do capital. São Paulo: Boitempo, 2002. p. 85. 23 Marx comenta o último capítulo da Fenomenologia, “o saber absoluto”: “A idéia essencial é que o objeto da consciência não é mais que a consciência de si ou que o objeto é apenas a consciência de si objetivada, a consciência de si enquanto objeto. (Pôr o homem = consciência de si) É preciso, pois, superar o objeto da consciência. A objetividade como tal é concebida como uma situação da alienação do homem que não corresponde à essência humana, à consciência de si. A reapropriação da essência objetiva do homem, tal como ela foi produzida sob a determinação da alienação e tal como ela se apresenta como objetividade estranha não significa apenas a supressão da própria alienação, significa também

Se toda exteriorização é uma alienação, a superação dessa alienação só seria possível mediante a negação da própria exteriorização. Mas tal superação da alienação consistiria apenas numa negação abstrata e imaginária da alienação como objetivação em geral. E mais: tal formulação não apenas não apreende concretamente a questão da superação da alienação como, no fim das contas, termina anular conceitualmente a possibilidade de uma superação real da alienação.24

Partindo de uma perspectiva materialista e inteiramente identificado com o “ponto de vista do trabalho”, Marx trata de separar o momento positivo da objetivação (quando o homem exterioriza as suas forças essenciais e nelas se reconhece) do momento negativo do trabalho (quando, por razões históricas e sociais determinadas, a exteriorização se realiza sob a forma de alienação).

Para Marx, a objetivação que o homem realiza por intermédio do trabalho constitui uma atividade essencial da vida humana. Uma atividade ele jamais poderá deixar de realizar, independentemente da forma social em que viva. A ação objetiva do homem sobre a natureza é algo que faz parte da essência de todo ser objetivo:

“o ser objetivo age de uma maneira objetiva e não agiria objetivamente se a objetividade não estivesse incluída na definição de sua própria essência. Ele põe e cria objetos apenas porque ele próprio é posto por objetos, por que, por sua origem, é natureza. O ato de por não significa uma degradação de sua atividade pura, uma queda na criação do objeto, ao contrário, seu produto objetivo apenas confirma sua atividade objetiva, sua atividade como ser objetivo natural”25 a supressão da própria objetividade. Isto é: o homem é considerado como um ser não objetivo, espiritual”. MARX, Karl. Manuscrits de 1844. Paris: Flammarion, 1996. p.167. 24 Hegel “identificou a “objetivação” com a “alienação”; em parte, por ser demasiadamente realista para permitir-se uma negação romântica da automediação ontologicamente fundamental (e autogênese do homem), através de sua atividade, pelo contrário, foi o primeiro a perceber essa relação ontológica, embora de maneira “abstrata, especulativa”; e em parte, em virtude de sua posição social, ele não se podia contrapor firmemente à forma capitalista das mediações de segunda ordem. Em conseqüência, ele fundiu as duas séries de mediações no conceito de “alienação objetivadora” e “objetivação alienadora”; um conceito que excluía de seu sistema, a priori, a possibilidade de imaginar uma superação real (prática) da alienação”. MÉSZÁROS, István. Marx: teoria da alienação. Rio de Janeiro: Zahar, 1970. p. 84, 85. 25 MARX, Karl. Manuscrits de 1844. Paris: Flammarion, 1996. p.170.

No entanto, a objetivação humana não é realizada de forma imediata, através dos instintos, como acontece nos animais, mas sim por intermédio de uma atividade consciente e livre: o trabalho – que é a forma especificamente humana de agir objetivamente sobre a natureza. Marx entende que o trabalho possui uma característica essencialmente humanizadora, mas que, em decorrência de condições históricas específicas, terminou por se transformar em fonte de martírio para os próprios trabalhadores. Diferentemente de Hegel, que identificava a exteriorização com a própria alienação, para Marx a alienação do trabalho é uma forma degrada de objetivação, que ocorre num período específico da história social humana – o período marcado pela separação radical dos trabalhadores em relação às condições objetivas de produção e pela subordinação do trabalho ao capital. Por isso, o combate de Marx não se dirige contra a mediação realizada pelo trabalho, contra as “mediações de primeira ordem”, mas apenas contra as “mediações de segunda ordem”26 colocadas pelo sistema do capital, mediações de caráter eminentemente histórico e, portanto, historicamente removíveis.27 Para Marx, portanto, não se trata de superar toda a exteriorização, pois isso significaria o próprio fim da existência humana, mas apenas a forma degradada de exteriorização que ocorre no sistema do capital.

Hegel desenvolveu brilhantemente o lado ativo do homem, um aspecto que todo o materialismo anterior ao de Marx não tinha se dado conta. É verdade que o conceito de trabalho de Hegel possuía limitações. No entanto, apesar disso, esse conceito representava uma importante descoberta teórica. Era precisamente essa descoberta que o materialismo deveria assimilar.

1.3. O conceito de homem de Marx

26 Segundo István Mészáros, as mediações primárias, cuja finalidade é a preservação das funções vitais da reprodução individual e societal, tem a sua determinação ontológica mais fundamental na atividade produtiva. As mediações de primeira ordem incluem também: a regulação da atividade reprodutora biológica; a regulação do processo de trabalho; o estabelecimento de um sistema de trocas; a organização, a coordenação e o controle das múltiplas atividades, materiais e culturais, visando o atendimento de um sistema de reprodução social cada vez mais complexo; e a promulgação e administração das normas e regulamentos do conjunto da sociedade. As mediações secundárias, que decorem do advento do sistema do capital, podem ser assim resumidas: família nuclear; os meios alienados de produção e suas “personificações”; o dinheiro; a produção para troca; as variedades da formação do Estado do capital em seu contexto global; e o incontrolável mercado mundial. MÉSZÁROS, István. Para além do capital . p. 180, 213.

O conceito de homem de Marx supera o idealismo e todo o materialismo que lhe precede. A presente seção é dedicada à apresentação desse conceito.

O conceito de homem de Marx parte de uma evidência, um dado que ele aceita sem mais delongas: o homem é um ser que existe empiricamente. A existência empírica do homem é o ponto de partida de Marx. Em A ideologia alemã, Marx apresenta as premissas de sua concepção:

“As premissas de que partimos não são bases arbitrárias, dogmas; são bases reais que só podemos abstrair na imaginação. São os indivíduos reais, ação e suas condições materiais de existência, tanto as que eles já encontraram prontas, como aquelas engendradas de sua própria ação. Essas bases são pois verificáveis por via puramente empírica. A primeira condição de toda história humana é, naturalmente, a existência de seres humanos vivos. A primeira situação a constatar é, portanto, as relações que ele gera entre eles e o restante da natureza”.28

Mas o que significa esse reconhecimento? O que significa reconhecer o homem como um ser empírico?

Em primeiro lugar, significa reconhecer o homem como um ser natural, como vida natural que se desenvolve nesse domínio imposto e único que é a natureza. Significa aceitar o homem como um ser que pertence à natureza e que, por isso, encontra-se submetido ao estatuto da dependência, tal como qualquer animal ou planta. Faz parte da essência do homem, de sua essência como ser natural, que ele seja obrigado a se apropriar dos objetos que lhe são exteriores.29

O corpo do homem é regido por leis naturais. Trata-se de leis que lhe são impostas pela natureza. São leis que regem o funcionamento de seu corpo, independentemente da vontade e opinião. A fome é a prova sobeja de que o homem se encontra submetido a essas

27 MÉSZÁROS, István. Marx: teoria da alienação. Rio de Janeiro: Zahar, 1970. p. 74. 28 MARX, Karl & ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. São Paulo: Martins Fontes, 1998. P. 10. 29 “Um ser que não tem sua natureza fora de si – diz Marx – não é um ser natural, não participa do ser da natureza. Um ser que não tem nenhum objeto fora de si não é um ser objetivo”. MARX, Karl. Manuscrits de 1844. Paris: Flammarion, 1996. p. 171.

determinações estritamente naturais. O homem pode até querer morrer de fome para mostrar a sua independência com relação a essa exigência fisiológica. Mas isso em nada altera o fato de que o seu corpo precisa de alimentos. O simples fato de que ele saiba que morrerá de fome e que decida adotar essa conduta exatamente por essa razão é a prova mais clara do caráter fundamental dessa sujeição.

“A fome é uma necessidade natural; para se satisfazer, para se apaziguar, ela tem a necessidade da natureza, de um objeto exterior. A fome é a necessidade material de meu corpo, a necessidade que ele prova de um objeto situado fora dele, que é necessário para completá-lo e manifestar

A fome é a inextinguível reivindicação do corpo que não cessa de fazer o espírito “confessar” a sua miserável condição material.31 Essa dependência do homem em relação à natureza é um aspecto essencial da vida humana. Segundo Marx,

“Um ser que não tem sua natureza fora de si não é um ser natural, não participa da natureza. Um ser que não tem nenhum objeto fora de si mesmo não é um ser objetivo. Um ser que não é ele mesmo objeto para um outro é um ser que não tem nenhum ser como objeto; ou seja, é um ser que não se encontra em relações objetivas e, portanto, seu ser não é objetivo. Um ser não-objetivo é um não-ser”.32

Todavia, é importante esclarecer que a definição do homem como um ser natural não significa de modo algum promover uma redução da existência humana a qualquer ordem fisiológica substancial da qual o seu comportamento seria apenas a manifestação. Nada disso. Tal definição busca apenas indicar a dependência do homem em relação à natureza que lhe é exterior, aos objetos que existem fora de si e lhe são independentes,

30 Ibdem. p. 171. 31 BENSAÏD, Daniel. Marx, o intempestivo. Rio de Janeiro, 1999. p. 437. 32 MARX, Karl. Manuscrits de 1844. Paris: Flammarion, 1996. p. 171.

como uma relação primordial, originária, a partir da qual o devir humano se elabora, e não algum termo no qual tudo estaria contido como os predicados em sua substância.

O homem, porém, não se define apenas por sua dependência. Nos Manuscritos de 1844, Marx explica que, na medida em que o homem se revela como um ser que padece, sofre, ele se revela um ser “apaixonado”. No entanto, a “paixão” humana não é apenas o sofrimento passivo em relação aos objetos exteriores. Ela é também “a força essencial do homem que tende energicamente para o seu objeto”.3 O modo de existir dessa paixão consiste em fazer o homem agir. Mas no homem essa ação tem se manifestado ao longo de sua história sobretudo através de uma atividade que lhe é muito peculiar: o trabalho. O trabalho é a forma especificamente humana de o homem agir sobre a natureza. A capacidade que o homem tem de trabalhar consiste numa outra determinação essencial da realidade humana. Assim, o homem revela-se como um “ser trabalhador”.34

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