O conceito de homem!

O conceito de homem!

(Parte 3 de 4)

Foi através do trabalho que o homem produziu a sua própria humanização. O trabalho permitiu ao homem distanciar-se de sua animalidade, desenvolvendo uma série de novas faculdades e capacidades. Ele não deixou de ser natureza. Mas tornou-se humano. Transformou a sua natureza dada em natureza humanizada. Toda a história do homem consiste apenas nesse processo através do qual o homem transforma a sua própria natureza e se humaniza.35 Por meio do trabalho, o homem se diferencia da natureza, mas não rompe com ela. Sobre a sua universalidade natural, o homem produz a sua particularidade através do trabalho. O homem apresenta-se então como um ser que é determinado por sua historicidade: “a história é o ato de nascimento do homem”. Assim, ao invés de se opor à natureza numa antinomia insuperável, em Marx, a história apresenta-se como a “verdadeira história natural do homem”.36

Todo ser natural está obrigado a se relacionar com a natureza. Com o homem, a coisa não é diferente. A natureza é o corpo inorgânico do homem, é uma parte de seu corpo

3 Ibdem. p. 172. 34 “Pode-se distinguir os homens dos animais pela consciência, pela religião e por tudo o que se queira. Mas eles próprios começam a se distinguir dos animais logo que começam a produzir seus meios de existência, e esse passo a frente é a própria conseqüência de sua organização corporal. Ao produzirem seus meios de existência, os homens produzem indiretamente sua própria vida material”. MARX, Karl & ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. São Paulo: Martins Fontes, 1998. p.10.

35 Segundo Marx, “a história inteira é apenas uma transformação contínua da natureza humana”. MARX, Karl. Misère de la Philosophie. Paris: Editions Sociales, 1947. p. 115. 36 Idem. Manuscrits de 1844. Paris: Flammarion, 1996. p. 172.

com a qual deve manter-se em contínuo intercâmbio para manter-se vivo.37 No entanto, diferentemente dos demais seres que existem na natureza, o homem é o único ser que se relaciona com a natureza através de uma mediação: o trabalho. O trabalho é a atividade que medeia o intercâmbio material do homem com a natureza.38

O trabalho constitui um fator ontologicamente essencial da existência humana.

jamais pode prescindir e que deve, portanto, acompanhá-lo ao longo de toda a sua história

Absoluto porque é impossível pensar a existência humana sem a atividade produtiva. Tratase de uma “necessidade natural” e “eterna” da vida humana. Uma necessidade da qual ele

“Como atividade que visa, de uma forma ou de outra, à apropriação do que é natural, o trabalho é a condição natural da existência humana, uma condição do metabolismo entre homem e natureza, independentemente de qualquer forma social”.39

Por mais desenvolvida que seja a forma social, mesmo numa sociedade comunista, o homem não poderá prescindir do trabalho para produzir a sua existência material. Uma sociedade comunista pode proporcionar um tempo maior para a atividade livre dos indivíduos, para as atividades próprias da cultura, sejam elas intelectuais, esportivas, artísticas etc., sejam elas de fruição ou de criação das condições específicas para a fruição (como o trabalho do pianista, que permite aos ouvintes o prazer da audição musical), graças

37 “A natureza, ou seja, a natureza que não é o corpo humano, é o corpo inorgânico do homem. O homem vive da natureza significa: a natureza é o seu corpo com o qual ele deve permanecer constantemente em contato para não morrer. Dizer que a vida física e intelectual do homem está indissoluvelmente ligada à natureza significa apenas que a natureza está ligada a ela mesma, pois o homem é uma parte da natureza”. Idem. Manuscrits de 1844. Paris: Flammarion, 1996. p. 114. “Com efeito, como o sujeito trabalhando é um indivíduo natural e tem uma existência natural, a primeira condição objetiva de seu trabalho é a natureza, a terra, seu corpo inorgânico. O indivíduo não tem apenas um corpo orgânico, mas tem por objeto esta natureza inorgânica. O indivíduo não produz esta condição, mas ele a encontra previamente, como uma realidade natural anterior e exterior” Idem. Fondements de la critique de l’économie politique., vol. I. Paris: Éditions Anthropos, s.d. p. 450, 451. 38 Segundo Marx, “o trabalho é um processo de que participam o homem e a natureza, processo em que o ser humano, com sua própria ação, impulsiona, regula e controla seu intercâmbio material com a natureza. Defronta-se com a natureza como uma de suas forças. Põe em movimento as forças naturais de seu corpo – braços e pernas, cabeças e mãos –, a fim de apropriar-se dos recursos da natureza, imprimindo-lhes forma útil à vida humana. Atuando assim sobre a natureza externa e modificando-a, ao mesmo tempo, modifica sua própria natureza. Desenvolve as potencialidades nela adormecidas e submete ao seu domínio o jogo das forças naturais”. Idem. O capital, livro I, vol. 1. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1998. p. 211. 39 Idem. Para a crítica da economia política. São Paulo: Abril Cultural, 1978. p. 143.

a uma distribuição eqüitativa do trabalho entre todos os membros da sociedade, pois já não mais haverá uma classe social que se furte a realização da “necessidade natural” do trabalho, tampouco os trabalhadores supérfluos do sistema do capital.40 No entanto, mesmo sob essa forma de sociedade, o homem não poderá superar a necessidade de produzir a sua vida material através do trabalho.41

Mas em que consiste o trabalho? Há alguns animais que são capazes de realizar alguma produção. No entanto, essa produção não é trabalho em sentido estrito. O trabalho é uma atividade exclusivamente humana. A característica que distingue o trabalho da produção realizada pelo animal consiste em seu caráter consciente e livre. A produção animal é guiada pelos instintos. O homem, ao contrário, produz de forma deliberada. Ele possui um “poder de decisão” que lhe é próprio. Nos Manuscritos de 1844, Marx assinala a especificidade da atividade vital realizada pelo homem:

“O animal se confunde imediatamente com sua atividade vital. Ele não se distingue dela. Ele é esta atividade. O homem faz de sua atividade vital o objeto de sua vontade e de sua consciência. Ele tem uma atividade vital consciente; ela não é uma determinação com a qual ele se confunda imediatamente. A atividade vital consciente distingue diretamente o homem da atividade vital do animal.”42

40 “Dadas a intensidade e a produtividade do trabalho, o tempo que a sociedade tem de empregar na produção material será tanto menor, e, em conseqüência, tanto maior o tempo conquistado para a atividade livre, espiritual e social dos indivíduos, quanto mais eqüitativamente se distribua o trabalho entre todos os membros aptos da sociedade, e quanto menos uma camada social possa furtar-se à necessidade natural do trabalho, transferindo-a para outra classe. Então, a redução da jornada de trabalho encontra seu último limite na generalização do trabalho. Na sociedade capitalista, consegue-se tempo livre para uma classe, transformando a vida inteira das massas em tempo de trabalho.” Idem. O capital: livro I. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1998. p. 607. 41 É verdade que em A ideologia alemã Marx aponta a revolução comunista como uma ação que visa suprimir o trabalho. Entretanto, fica claro que Marx está se referindo, na passagem em que ele faz essa afirmação (mas também nas palavras que foram cortadas do manuscrito, quando ele diz: “...forma moderna de atividade sob a qual a dominação das...”), não ao trabalho propriamente dito, à atividade produtiva como tal, mas sim à forma como essa atividade se dá através das mediações secundárias colocadas pelo sistema do capital. MARX, Karl & ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. São Paulo: Martins Fontes, 1998. p. 86. 42 MARX, Karl. Manuscrits de 1844. Paris: Flammarion, 1996, p. 115.

Algumas linhas abaixo, Marx prossegue assinalando a diferença entre a produção animal e a atividade produtiva humana.

“Certamente, o animal também produz. Ele constrói um ninho, habitações, como a abelha, o castor, a formiga etc. Mas ele produz apenas o que é imediatamente necessário para si e sua cria; ele produz de uma maneira unilateral, enquanto o homem produz de um modo universal; ele produz apenas sob o império da necessidade física imediata, enquanto o homem produz mesmo quando livre de toda necessidade física e só produz verdadeiramente quando está verdadeiramente livre”.43

O caráter consciente da atividade produtiva do homem se revela na capacidade que ele possui de antecipar em sua mente o resultado da ação que visa executar. O homem é, portanto, o único ser da natureza capaz de agir de forma teleológica. Foi por meio dessa atividade que o homem se afirmou no mundo como sujeito e imprimiu na natureza as marcas indeléveis de seu poder.4 No livro primeiro de O capital, Marx retoma, em termos um pouco modificados, a comparação entre a atividade produtiva do homem e do animal.

“Uma aranha executa operações semelhantes às do tecelão, e a abelha supera mais de um arquiteto ao construir sua colmeia. Mas o que distingue o pior arquiteto da melhor abelha é que ele figura na mente sua construção antes de transformá-la em realidade. No fim do processo do trabalho aparece um resultado que já existia antes idealmente na cabeça do trabalhador”.45

43 Ibdem. p. 115, 116. 4“Sem essa experiência que lhe permite prefigurar o seu télos (o ponto onde quer chegar), o sujeito humano não seria sujeito, ficaria sujeitado a uma força superior à sua e permaneceria tão completamente preso a uma dinâmica objetiva como uma folha levada por um rio caudaloso”. KONDER, Leandro. O futuro da filosofia da práxis. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992. p. 106. 45 MARX, Karl. O capital: livro I, vol. 1. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1998. p. 211, 212.

Através do trabalho, o homem rompeu com o círculo natural da necessidade. Ele deixou de procurar sempre o mesmo objeto para fazê-lo sobre algo novo. Ao produzir um objeto, o homem cria uma nova necessidade, que busca atender. Uma vez satisfeita a primeira necessidade, a ação de satisfazê-la e o instrumento já adquirido com essa satisfação levam a novas necessidades. Eis o que Marx considera ser o primeiro ato histórico.46 O trabalho cria objetos que engendram novas necessidades e estas levam a novas criações. Trata-se de um processo que não cessa jamais.47

É verdade que o homem possui necessidade sempre constantes, como, por exemplo, a necessidade de se alimentar. No entanto, no homem, mesmo essa necessidade se apresenta como uma necessidade mediada historicamente. Para o homem, não é alimento tudo que, por suas propriedades físicas e químicas, possa lhe aplacar a fome. O alimento precisa de um preparo adequado, que lhe satisfaçam as suas necessidades humanamente cultivadas. É verdade que a forma humana da comida não faz muita diferença para um homem faminto. Para este, serve-lhe o alimento em sua forma mais grosseira. Mas nesse caso já não há mais a forma humana de comida, mas apenas o seu modo de existência abstrato de comida.48 Em tal circunstância, torna-se impossível distinguir a alimentação humana da alimentação animal.

De qualquer modo, o trabalho humano não pode ser compreendido como uma atividade dirigida para a satisfação de necessidades eternas e imutáveis. As necessidades que efetivamente determinam a produção não são as necessidades estritamente naturais, mas sim aquelas suscitadas pela própria produção. A produção cria o objeto de consumo, mas também faz nascer o “apetite” e a capacidade de consumo sob a forma de necessidade. A necessidade, por sua vez, age sobre a produção: ela fornece a finalidade e o motivo da produção, animando-a.49

Pelo trabalho, o homem modificou toda a realidade natural que lhe era imediatamente dada e a transformou num domínio material próprio. Transformou a alteridade da natureza dada em uma alteridade mediada historicamente, transformou-a em

46 MARX, Karl & ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. São Paulo: Martins Fontes, 1998. p. 2. 47 “O ser que já iniciou a apropriação da natureza por meio do trabalho de suas mãos, do intelecto e da fantasia jamais deixará de fazê-lo e, após cada conquista vislumbra já seu próximo passo”. FISCHER, Ernest. O que Marx realmente disse. Rio de janeiro: Civilização Brasileira, 1970. p. 2. 48 MARX, Karl. Manuscrits de 1844, Paris; Flammarion, 1996. p. 151. 49 Idem. Fondements de la critique de l’économie politique. Paris: éditions anthropos, s.d. Vol. I, p. 19 a 23.

natureza humanizada. No entanto, vale lembrar que o homem não produz apenas objetos. O homem também é capaz de uma produção em sentido mais amplo. Ele produz a Religião, a família, o Estado, o direito, a moral, a ciência, a arte etc. Estes são outros tantos “modos particulares” da produção humana.50

Ao produzir o seu mundo humanizado, o homem produz-se a si mesmo como homem. A transformação da natureza é acompanhada da simultânea transformação da natureza humana. O homem transforma a realidade objetiva ao mesmo tempo em que molda a sua subjetividade.

O trabalho só é possível mediante a repetição de certos gestos. Estas repetições levam-no a adquirir a habilidade desenvolvida na primeira produção. Mas todo gesto é apenas o ponto de partida para um gesto mais bem sucedido. No entanto, ao produzir, o homem também se defronta com dificuldades, que busca solucionar. A procura dessas soluções leva-o a refletir no plano teórico sobre a dimensão criativa de sua atividade.

O trabalho está na base do desenvolvimento intelectual do homem. Mas este desenvolvimento não se refere apenas aos conhecimentos diretamente ligados à produção material. Com a transformação da atividade produtiva e as modificações dos aspectos sociais desta atividade, sobretudo após o aparecimento da divisão social do trabalho, a atividade intelectual deixa de estar inteira e diretamente subordinada à atividade práticomaterial, surgindo então outras diferentes formas de assimilação espiritual da realidade: ciência, arte, religião etc. Essas novas capacidades intelectuais do homem são acompanhadas por outras necessidades, inteiramente novas: a “curiosidade” científica, as aspirações estéticas e religiosas etc., e da necessidade de realizar essas aspirações.51

O trabalho está também na base do desenvolvimento da própria sensibilidade humana. Foi por intermédio da grande riqueza objetivamente desdobrada do ser humano, da humanização da natureza, que se desenvolveu e se produziu a riqueza sensorial humana, tornando-a mais fina, fazendo-o descobrir na realidade uma infinita diversidade de objetos e significações.

50 Idem. Manuscrits de 1844. Paris: Flammarion, 1996. p. 145. 51 MARKUS, Gyorgy. Teoria do conhecimento no jovem Marx. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1974. p. 87.

“É somente graças à riqueza objetivada da essência humana – afirma Marx – que se criou e se formou a riqueza da sensibilidade objetiva do homem, que um ouvido torna-se musical, que um olho perceba a beleza da forma, em suma, que os sentidos tornem-se capazes de gozo humano, tornem-se sentidos que se afirmem como forças essenciais do homem. Pois não somente os cinco sentidos, mas também os sentidos ditos espirituais, os sentidos práticos (vontade, amor etc.), em uma palavra os sentidos humanos, a humanidade dos sentidos, formam-se apenas graças à existência do seu objeto, graças à natureza humanizada”.52

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