O conceito de homem!

O conceito de homem!

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A objetivação da essência humana desempenha um papel essencial no processo de formação da sensibilidade humana:

“a objetivação da essência humana é, tanto do ponto de vista teórico como prático, necessário tanto para tornar humano os sentidos do homem como para criar os sentidos humanos que correspondem a toda riqueza da essência do homem e da natureza”.53

Os sentidos humanos não são sentidos imediatamente dados pela natureza. É verdade que os sentidos humanos pressupõem os órgãos sensoriais que, por sua estrutura e funcionamento, constituem o seu fundamento biológico, natural. Esta é uma condição necessária, mas não suficiente para a existência do sentido humano. O sentido humano é fruto do desenvolvimento histórico-social do homem, da criação de um mundo objetivo e, por sua vez, da autocriação do homem pelo trabalho. “A formação dos cinco sentidos é um trabalho de toda a histórica universal até nossos diais”.54

Uma outra característica não menos importante do homem consiste na socialidade: o homem é um “zoon politikon” – “ser social”, “animal social”.5 Mas de onde provém essa socialidade? O que faz do homem um ser social?

52 MARX, Karl. Manuscrits de 1844. Paris: Flammarion, 1996. p. 151. 53 Ibdem. p. 151. 54 Idem. Manuscritos econômico-filosóficos. São Paulo: Abril Cultural. 1978. (Os pensadores) p. 12. 5 Idem. Fondements de la critique de l’économie politique, Vol I. Paris: éditions anthropos, s.d. p. 12.

Sobre essa questão, Marx opera uma revolução. Superando todas as concepções filosóficas precedentes, Marx interpreta o fato social em seu sentido mais profundo: como relação material dos indivíduos submetidos à necessidade, que, como tais, colaboram no processo de apropriação e transformação da natureza ou se opõem na posse dos bens de consumo. A socialidade, portanto, não é um predicado acrescentado do exterior à realidade humana, e sim uma dimensão que lhe é absolutamente essencial.

Independentemente da forma histórica em que realizem a atividade produtiva, seja sob um regime de colaboração ou de exploração, os homens sempre se apropriam da natureza dentro de uma determinada forma de sociedade e através dela. Mesmo quando eles realizam seus trabalhos privados de forma independente, ainda assim o fazem em sociedade. Segundo Marx, a produção realizada pelo indivíduo isolado fora da sociedade é algo tão absurdo como o desenvolvimento da linguagem sem indivíduos que vivam juntos e falem entre si. A socialidade humana se manifesta mesmo nas atividades em que é preciso um relativo isolamento para poder realizá-la.56

“Mas mesmo se minha atividade for de ordem científica etc., e ainda que eu raramente possa realizar em comunidade direta com os outros, eu sou um ser social porque atuo enquanto homem. Não apenas o material de minha atividade – por exemplo, a língua graças ao qual o pensador faz seu trabalho – me é dado como um produto social, mas minha própria existência é atividade social. Em conseqüência, o que eu faço de mim, eu o faço para a sociedade, consciente de ser eu mesmo um ser social”. 57

Nas páginas acima, busquei expor algumas características essenciais do homem considerado em seu ser empírico. Mas cabe uma ressalva. Se é verdade que tais características se manifestam de forma duradoura no homem, elas não pretendem qualquer retorno a alguma espécie de substancialismo que imobilizaria o ser do homem em uma determinação ontológica qualquer. Nada disso. Para Marx, o homem revela-se como um ser essencialmente histórico, um ser em eterno tornar-se. As definições que foram

56 Ibdem. p. 12. 57 Idem. Manuscrits de 1844. Paris: Flammarion, 1996. p. 146, 147.

apresentadas visam apenas reter certas dimensões do ser humano considerado em seu “ser genérico”. Trata-se de uma abstração que busca captar as características fundamentais do homem que o acompanham ao longo de toda a sua história. Ela busca apreender os aspectos duradouros da realidade humana e distingui-los daqueles que surgem de acordo com as próprias necessidades do devir histórico. De fato, o homem é um “ser natural”, submetido ao estatuto da necessidade e dependente de objetos que são exteriores ao seu corpo. Todavia, as necessidades humanas não se limitam às necessidades meramente naturais. Em grande medida, as necessidades humanas são historicamente produzidas. Do mesmo modo, o homem está irremediavelmente obrigado a trabalhar para se apropriar da natureza e produzir objetos que satisfaçam às suas necessidades, independentemente da forma social. No entanto, é inteiramente histórica a forma através da qual o homem realiza a sua atividade produtiva. O mesmo ocorre com a socialidade humana. Se é verdade que o homem revela-se como um ser eminentemente social, que só produz em sociedade, são históricas as formas sociais nas quais os homens vivem.

As três dimensões essenciais do homem – a necessidade, o trabalho e a socialidade – permitem definir com mais rigor o que se deve entender pelo termo práxis. A práxis é termo que designa a totalidade das determinações reais do homem.58 Entretanto, o laço efetivo através do qual torna-se possível compreender concretamente o modo como se articulam e se revelam na realidade essas dimensões essenciais da existência humana é a historicidade. Uma definição que busca apreender algumas características gerais do homem é útil para a investigação teórica. Todavia, essa abstração oculta em si uma totalidade de determinações particulares. A generalidade desse conceito tem uma importância teórica, mas também tem um limite bem preciso: ela é incapaz de revelar a realidade humana tal como ela se manifesta real e historicamente em cada forma particular de sociedade.

58 CHATELET, François. Logos e Práxis. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1962. p. 215.

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