Manual de Avaliação Psicológica

Manual de Avaliação Psicológica

(Parte 2 de 5)

4.1.1 Classificação

Testes com respostas corretas:Funcionamento cognitivo, conhecimento, habilidades ou capacidades; Testes nos quais não há respostas corretas:Inventários, questionários, levantamentos, testes de personalidade, motivações, preferências, atitudes, interesses, opiniões, reações características.

Os testes psicológicos, ao longo da história da Psicologia, foram protagonistas de uma série de problemáticas que contribuíram para o seu descrédito e pouca utilização. De forma geral, a principal problemática se refere ao uso inadequado das técnicas, sendo que, infelizmente, muitos psicólogos as usam de forma pouco criteriosa, com conhecimento prévio pouco cuidadoso, não fazendo a análise necessária quanto a atualização das mesmas, utilizando procedimentos que não apresentam condição de cientificidade.

Podemos considerar que a formação nesta área, nos cursos de graduação em Psicologia, tem contribuído para essas problemáticas, pois, de forma geral, os programas são estanques e primam pelo tecnicismo, ensinando as técnicas de avalia - ção de forma isolada e não como integrantes de um processo dinâmico, como entende-se a Avaliação Psicológica.

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“Testes são ferramentas. São um meio para se alcançar um fim. Podem ser mal-aplicados, o que limita ou anula sua utilidade. A responsabilidade última pelo uso e interpretação apropriados dos testes é do psicólogo.”

Segundo pesquisa desenvolvida por Noronha, Primi e Alchieri, em 2004, apenas 28,8% dos testes apresentam as três condições mínimas (precisão, validade e padronização) para ser considerado um instrumento cientificamente fundamentado.

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Sistema de Avaliação de Testes Psicológicos

Essas condições contribuíram para a pouca consideração pela própria classe em relação às técnicas de avaliação.

A partir das muitas reflexões realizadas nos Fóruns Regionais de Avaliação Psicológica e no Fórum Nacional de Avaliação Psicológica, ocorridos em 1999 e promovidos pelo Sistema Conselhos, ampliaram-se as discussões a respeito desse tema e foram localizadas algumas opções para minimizar ou acabar com as problemáticas referidas, entre elas:

Oferecer uma formação integradora, que ofereça condições técnicas, éticas e críticas - reflexivas ao aluno; Aprimorar os programas de formação - menos burocracia, mais dinâmica; Desenvolver e validar novos instrumentos de avaliação; Possibilitar o acesso ao conhecimento em formação continuada; Avaliar os instrumentos à disposição no mercado.

Com base neste diagnóstico, o plano de ação foi colocado em prática, cabendo ao Conselho Federal de Psicologia as medidas relativas à avaliação dos instrumentos de avaliação psicológica. Para tanto, foi organizado o Sistema de Avaliação dos Testes Psicológicos (SATEPSI)

Partiu-se, para tanto, do princípio de que a responsabilidade da escolha dos instrumentos, métodos e técnicas no exercício profissional é do psicólogo, mas o Conselho Federal de Psicologia (CFP) tem a competência para disciplinar e fiscalizar o exercício profissional.

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Assim, foi publicada, a Resolução CFP 02/2003, que define e regulamenta o uso, a elaboração e a comercialização de testes psicológicos (ver Anexo 1). Nessa Resolução foram definidos os requisitos mínimos que os testes precisam apresentar para serem aprovados pelo Conselho:

Fundamentação teórica; Evidências empíricas de validade e precisão das interpretações propostas; Sistema de correção e interpretação dos escores; Descrição clara dos procedimentos de aplicação e correção; Manual contendo as informações.

As técnicas devem ser apresentadas pelas editoras ou laboratórios de Avaliação Psicológica, sendo que a primeira lista de testes favoráveis foi publicada em 06 de novembro de 2003. A lista publicada não é estática nem definitiva. Será considerada falta ética a utilização de testes psicológicos que não constam da relação de testes aprovados pelo CFP, salvo os casos de pesquisa.

Tal medida foi alvo de muita discussão e polêmica, sendo que os psicólogos não acompanharam de forma mais próxima o processo como um todo, tendo sido recebida a primeira lista publicada como uma surpresa. Assim, os serviços de grande porte (Detran, Avaliação de Porte de Arma, Avaliação de Vigilantes, etc.) tiveram que se adequar rapidamente às novas normas, o que gerou, na época, muitas dificuldades.

Posteriormente à publicação da primeira listagem, em 2003, os psicólogos foram pouco a pouco investindo no conhecimento de novas técnicas, apesar da resistência apresentada por grande parte dos usuários dos mesmos, em deixar de usar esta ou aquela técnica com a qual já estava acostumado.

De forma geral, passados quase quatro anos da iniciativa, pode-se perceber que os profissionais tiveram que inves - tir na remodelagem dos seus processos de avaliação, abrindo-se para novos testes, fazendo reciclagens e supervisões, o que, por si só, já pode ser considerado um grande ganho nesse trabalho.

Por parte das editoras de testes psicológicos, pode-se verificar o desenvolvimento de pesquisas científicas e o lançamento de novas técnicas de avaliação com a adequada condição científica.

Até abril de 2007, foram apresentados ao SATEPSI pelas editoras 165 testes, sendo que 8 receberam parecer favorável ao uso.

Infantis

WISC I - Escala de Inteligência Wechsler para Crianças

Colúmbia - Escala de Maturidade Mental

Raven - Escala Especial

R 2 - Teste Não Verbal de Inteligência para Crianças Teste das Fábulas

Adultos

AC - Teste de Atenção Concentrada AC 15 - Teste de Atenção Concentrada

BFM 1 - Testes de Atenção BFM 2 - Testes de Memória

BFM 3 - Teste de Raciocínio Lógico

BFM 4 - Testes de Atenção Concentrada

BGFM 1 - Testes de Atenção Difusa

BGFM 2 - Testes de Atenção Concentrada BPR 5 - Bateria de Provas de Raciocínio

D-2 - Teste de Atenção Concentrada

G 36/ G 38 - Teste Não Verbal de Inteligência

RAVEN - Escala Geral

R 1 - Teste Não verbal de Inteligência

Teste dos Relógios WAIS I - Escala de Inteligência Wechsler para Adultos

Testes de Habilidades - Aptidões - Inteligência

Infantis

DFH I - O Desenho da Figura Humana

ETPC - Escala de Traços de Personalidade para Crianças

FTT- Teste Contos de Fada H T P SMHSC - Sistema Multimídia de Habilidades Sociais de Crianças

Adultos

CPS - Escalas de Personalidade de Comrey

EFEx - Escala Fatorial de Extroversão EFN - Escala Fatorial de Neuroticismo H T P

IFP - Inventário Fatorial de Personalidade IHS - Inventário de Habilidades Sociais

Palográfico

Pirâmides Coloridas de Pfister

PMK - Psicodiagnóstico Miocinético

QUATI - Questionário de Avaliação Tipológica

Rorschah

STAXI - Inventário de Expressão de Raiva como Estado e Traço

Teste Z de Zulliger TAT - Teste de Apercepção Temática

Testes de Personalidade - Comportamento

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Apresentamos a seguir as principais técnicas que hoje são aprovadas pelo Conselho Federal de Psicologia:

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Infantis

Bender - Teste Gestáltico Viso-Motor de Bender

IEP - Inventário de Estilos Parentais

TDAH - Escala de Transtorno do Déficit de Atenção/Hiperatividade SDT - Teste do Desenho de Silver

Adultos

BBT - Testes de Fotos de Profissões

EMEP - Escala de Maturidade para a Escolha Profissional

Escalas Beck

Estilos de Pensar e Criar

ISSL - Inventário de Sintomas de Stress de Lipp

IECPA- Inventário de Expectativas e Crenças Pessoais

Acerca do Álcool

QSG - Questionário de Saúde Geral Escala Hare - PCL-R

Outros

Para que um teste possa ser utilizado pelos profissionais da Psicologia, ele necessita responder a requisitos essenciais. O primeiro grande ponto a ser discutido é a validade do teste em questão. Ao produzir um instrumento de avaliação, os autores devem estar certos de que ele mensurará o que está se propondo. Em outras palavras, os autores precisam esclarecer se o teste de atenção em questão realmente mede atenção.

Outro ponto refere-se à fidedignidade do teste. Este assunto envolve o fato de o escore obtido na aplicação se aproximar ao escore verdadeiro do sujeito. Ou seja, ao aplicar um teste de atenção e obter o escore médio, significa que o indivíduo possui realmente uma atenção dentro da média? A fidedignidade é a “confiabilidade” do instrumento de testagem ou a sua “precisão”.

Ao formalizar um teste, os autores precisam estabelecer “regras” que sejam comuns a todos os usuários: é a padronização, ou seja, a uniformidade dos procedimentos tanto de aplicação quanto de pontuação do teste. Isso garantirá que todos os psicólogos que fizerem uso do material em um mesmo sujeito, por exemplo, obterão o mesmo resultado. Por isso é muito importante ressaltar que, quando o profissional muda uma consigna está ferindo os princípios de padronização do teste e perdendo a confiabilidade de seu resultado.

Por fim, o teste utilizado pelo psicólogo deve corresponder à realidade em que está sendo utilizado. Isso significa que ele deve estar adaptado às realidades social, econômica e política do Brasil. Dessa forma, muitos testes que são apenas traduzidos para a língua portuguesa não são testes que podem ser utilizados pela Psicologia. Esses instrumentos

Validade Fidedignidade Padronização Adaptação

O teste mede o que se propõe a medir? O escore obtido no teste se aproxima do escore verdadeiro do sujeito? Há uniformidade dos procedimentos tanto de aplicação quanto de pontuação do teste? O teste corresponde à realidade em que é utilizado?

Série Técnica - Manual de Avaliação Psicológica25 necessitam passar por um processo de pesquisa em que será estudado e aplicado em populações específicas para poder ser considerado apto à população daquele país.

Resumidamente, os requisitos fundamentais para que um teste possa ser considerado um bom instrumento de avaliação são:

A publicação da Resolução 02/2003, do Conselho Federal de Psicologia, regulamentou a elaboração, a comercialização e o uso dos testes, estabelecendo critérios básicos para os testes. Após disso, para que possam ser disponibilizados ao uso dos profissionais e incluídos na listagem do SATEPSI, uma comissão consultiva avalia todos os critérios minuciosamente e decide se aquele instrumento já possui todos os requisitos para que os psicólogos possam utilizá-lo com confiança.

4.1.2 A escolha dos instrumentos

Conhecer os princípios que regem a elaboração dos testes é fundamental. Entretanto os profissionais, quando em sua prática, ficam em dúvida quanto ao qual instrumento deverá utilizar para avaliar determinada característica. É importante ressaltar que não existem instrumentos melhores ou piores – visto que todos passaram por um processo científico de elaboração – e sim instrumentos mais indicados ou menos indicados para determinada situação.

Os pontos abaixo podem ajudar o profissional a pensar melhor e a escolher o teste mais adequada para a ocasião:

Que atributos ou características se quer avaliar:personalidade, atenção, inteligência etc.; Quais as técnicas disponíveis e aprovadas:técnicas que constam na lista do CFP como aprovadas; Idade, escolaridade, nível socioeconômico etc. do testando:perfil da pessoa a ser avaliada; Familiaridade com o instrumento:ter conhecimento prévio do material antes de sua aplicação; Qualidade do instrumento:confiabilidade do material mediante indicação ou não do CFP; Materiais originais:utilização de materiais da editora e nunca fotocópias.

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Dessa forma, há testes que não podem ser utilizados com pessoas de baixa escolaridade, adultos, etc. e há instrumentos que exigem do profissional mais treino do que outros. Isso deve ser pensado antes da formalização e da escolha dos materiais que se pretende utilizar.

4.1.3 Cuidados na aplicação dos testes

Na prática dos profissionais, percebem-se muitos erros e muitas dúvidas na hora da aplicação. Como é uma situação que envolve pessoas e, dessa forma, são situações em que fatos inesperados podem ocorrer, é importante que o psicólogo observe alguns pontos.

Antes da aplicação do teste, é importante que o profissional observe o avaliando (ou o grupo de avaliandos) nos seguintes aspectos: condições físicas (medicações, estado de cansaço, problemas visuais e auditivos, alimentação etc) e condições psicológicas (problemas situacionais, alterações comportamentais), procurando identificar possíveis situações que possam influenciar na qualidade do desempenho do sujeito.

Além disso, estabelecer um bom rapport é imprescindível: no início da avaliação é importante salientar os objetivos da mesma, procurando esclarecer todas as dúvidas.

Durante a aplicação propriamente dita, é de responsabilidade a observação dos princípios de padronização do teste: reduções não previstas e instruções diferentes do que estabelece o manual ferem os princípios básicos de sua utilização. Deve-se no entanto, seguir rigorosamente as orientações do manual sem assumir postura estereotipada e rígida. Além disso, a utilização de materiais fotocopiados podem gerar problemas futuros.

Para que se obtenha um desempenho adequado dos avaliandos, deve-se também observar a postura do psicólogo na hora da execução: aplicar os testes de forma clara e objetiva, inspirando tranqüilidade e evitando, assim, acentuar a ansiedade situacional típica da avaliação.

O trabalho pode ser facilitado se o psicólogo habituar-se a registrar os eventos de forma pormenorizada, ou seja, os comportamentos durante a aplicação. Isso facilitará na hora da sistematização dos dados e ajudará o profissional na conclusão de seu trabalho.

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1. Utilizar testes não aprovados pelo CFP. 2. Usar cópias de testes. 3. Não encarar a Avaliação Psicológica como um processo. 4. Dispensar a entrevista. 5. Adaptar os testes de acordo com a sua vontade: alterar tempos,instrumentos, não observando a padronização. 6. Não pedir ao candidato para assinar o teste. 7. Não registrar todas as informações pertinentes ao caso. 8. Aceitar remuneração incompatível com a sua prática. 9. Não esclarecer a respeito da Avaliação Psicológica ao cliente e ao usuário do serviço. 10. Não fazer entrevistas de devolução. 1. Não se aperfeiçoar em reciclagens, cursos, supervisões e congressos. 12. Não guardar os materiais por cinco anos.

Os 12 Pecados Mortais do Uso de Testes Psicológicos

4.1.4 A avaliação dos testes

Após a aplicação dos testes, a próxima etapa corresponde à avaliação dos mesmos. Deve-se, neste momento, observar todos os princípios contidos no manual e segui-los com rigorosidade. A entrega dos resultados e a entrevista de devolução baseiam-se na boa avaliação. Após isso, é importante observar o resguardo e o sigilo das informações, assegurando a guarda adequada dos materiais. Trataremos desse assunto de forma mais específica um pouco adiante.

A integração das informações obtidas quando há a utilização de mais de uma ferramenta de avaliação torna-se um processo demorado, porém fundamental. Para que se possa ter uma real visão do objeto de estudo, é preciso expor para si todas as informações obtidas e organizá-las. Identificar padrões de comportamento é o primeiro passo, ou seja, quando o sujeito, em diferentes momentos, apresentar formas semelhantes de reação. Além disso, essas informações deverão ser correlacionadas com o que se conhece sobre a história do indivíduo e de sua família, bem como o registro contratransferencial do profissional, levantando hipóteses explicativas. Deve-se, também, procurar informações incoerentes e estudá-las, investigando e fornecendo respostas para elas.

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