Manual de Avaliação Psicológica

Manual de Avaliação Psicológica

(Parte 3 de 5)

A integração de todos os dados de uma avaliação psicológica (entrevistas, testes, observações, dinâmicas) não é um trabalho fácil e exige do psicólogo muito treino e competência.

4.2 Observação

A avaliação psicológica é no seu fim último uma pesquisa. E fazer pesquisa implica em desenvolvimento de um repertório específico. Este repertório contempla a habilidade de manejar diferentes ferramentas. Dentre as ferramentas disponíveis para a utilização do psicólogo em um processo de avaliação, a observação é uma das principais.

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A observação é um método mais aberto de avaliação psicológica e sem dúvida o primeiro instrumento que o profissional de Psicologia aprende a utilizar. Assim, o seu treino é fundamental para que haja clareza e exatidão nas informações coletadas.

Observar significa tornar mensurável o comportamento que se expõe por parte do sujeito que o manifesta. O comportamento observado também produz reações (sentimentos, respostas) no observador, que o auxiliam a formular hipóteses sobre o mesmo.

4.2.1 Exame do estado mental

Atenção Capacidade de concentração do psiquismo frente a determinado estímulo; Senso percepção Capacidade de receber um estímulo e transformá-lo em uma imagem; Consciência Estado de clareza psíquica; Orientação Capacidade de situar-se em relação a si mesmo e ao ambiente; Memória Capacidade de fixar, conservar, evocar e reconhecer um estímulo;

“Observar é estudar, examinar, olhar com atenção, pesquisar minuciosamente.”

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Pensamento Capacidade de elaborar, associar e criticar idéias. Traduz a aptidão de elaborar conceitos, articulá-los em juízos e construir raciocínios de modo a solucionar problemas;

Linguagem Conjunto de sinais convencionados utilizados para se expressar; Afetividade Capacidade de experimentar sentimentos e emoções; Conduta Tendência psicomotora da atividade psíquica.

4.2.2 Observação

Aparência geral: Higiene, cuidados corporais e vestimentaAspecto físico e de saúdeModo de comportar-se Área sensorial e motora Visão Audição Movimento corporal

4.3 Entrevista

A entrevista psicológica é uma conversação dirigida a um propósito definido de avaliação. Sua função básica é prover ao avaliador subsídios técnicos acerca da conduta do candidato, completando os dados obtidos pelos demais instrumentos utilizados.

A entrevista é uma técnica de investigação científica em psicologia, sendo um instrumento fundamental do método clínico. (...) Compreende o desenvolvimento de uma relação entre o entrevistado e o entrevistador, relacionada com o significado da comunicação. Revela dados introspectivos (a informação do entrevistado sobre os seus sentimentos e experiências), bem como o comportamento verbal e não-verbal do entrevistador e do entrevistado. (Cunha, 1986)

Apesar de suas vantagens, a entrevista está sujeita a interpretações subjetivas do examinador (valores, estereótipos, preconceitos, etc.). Deve-se, portanto, planejar e sistematizar indicadores objetivos de avaliação correspondentes ao perfil examinado.

4.3.1 Roteiro de entrevista

De forma geral, os dados a serem obtidos deverão ser observados de acordo com o contexto onde o atendimento estará sendo realizado. Assim, em determinados contextos, certas informações são imprescindíveis, enquanto que em ou - tros, algumas informações se tornam irrelevantes.

A entrevista deve ser entendida como uma forma dinâmica, o que possibilitará o conhecimento necessário aos objetivos da avaliação proposta. Consideramos como importantes, nos mais diversos contextos, a investigação das seguintes informações:

Dados de identificação Dados socioculturais História familiar História escolar História e dados profissionais História e indicadores de saúde/doença Aspectos da conduta social Visão e valores associados a temática investigada Características pessoais Expectativas de futuro

Ao mesmo tempo em que os dados objetivos são coletados, deve-se observar o processo de comunicação que se estabelece entre o cliente e o profissional que o atende. Quando se processa uma entrevista, o psicólogo tem que ter em mente que há outras formas de comunicação, além da verbal, que seria a mais tradicional e óbvia. A comunicação nãoverbal muitas vezes é mais intensa e rica, complementando ou não a exposição oral.

A forma de organização espacial, a localização, os gestos, o olhar e a voz irão fornecer ao psicólogo treinado adequadamente dados muito confiáveis a respeito dos sentimentos do cliente, assim como sobre as condições da comunicação que está acontecendo (vontade de favorecer a comunicação, bloqueios, inseguranças, etc.).

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5. Aspectos Éticos da Avaliação Psicológica

“Pelos atos que praticamos em nossas relações com os homens nos tornamos justos ou injustos.” Aristóteles

Antes de tratar os aspectos éticos que norteiam a Avaliação Psicológica, é importante conhecer a definição básica de ética.

Toda sociedade possui regras de convivência humana. Sabemos que não podemos andar sem roupas nas ruas, que não podemos matar uma outra pessoa e que devemos cuidar bem de nossos filhos. Essa é a moral, ou seja, um conjunto de princípios que norteiam a ação dos homens em sociedade. Cada sociedade, evidentemente, possui suas normas so ciais fruto da construção de sua história. A ética é, por sua vez, a ciência da reflexão crítica desses princípios, os quais refe - rem-se aos ideais da conduta humana.

Dessa forma, é fácil entender o que é a ética profissional: são deveres e princípios morais no exercício de determinada profissão. Pressupõe a crítica sobre a consistência e a coerência dos valores que norteiam o nosso trabalho. O Código de Ética expressa sempre uma concepção de homem e de sociedade, determinando as direções das relações entre os indivíduos. Traduzem-se em princípios e normas que devem pautar pelo respeito ao sujeito humano e seus direitos fundamentais.

Os dois principais documentos que compõem os preceitos da Ética Profissional do Psicólogo são o Código de Ética (cuja última versão é de 2005) e o Guia de Princípios Éticos da APA (American Psycological Association), de 1953.

O atual Código de Ética Profissional do Psicólogo - o terceiro da categoria -, entrou em vigor no dia 27 de agosto de 2005, após a publicação da Resolução 10/2005. Sua missão primordial é assegurar um padrão de conduta que fortaleça o reconhecimento social da categoria, dentro de valores relevantes para a sociedade e para a prática desenvolvida.

Renovar o código da profissão significa adaptar-se às mudanças da sociedade e da própria prática. Além disso, há a inserção de atividades multidisciplinares, novas legislações, a criação do Código de Defesa do Consumidor, o Estatuto da Criança e do Adolescente, o Estatuto do Idoso e a Própria Constituição Federal que, criados ou renovados, precisam ser considerados durante a prática profissional.

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Os objetivos do Código de Ética são:

Estabelecer padrões de conduta esperados, fortalecendo o reconhecimento sócia da categoria de psicólogos; Fomentar a auto-reflexão exigida de cada indivíduo acerca de sua práxis, de modo a responsabilizá-lo, pessoal e coletivamente, por ações e conseqüências no exercício profissional.

O Código de Ética é um instrumento de reflexão que tem ainda os objetivos de discutir os limites e interseções relativos aos direitos individuais e coletivos (sociedade, colegas, usuários e beneficiários), contemplando a diversidade da profissão. Apresenta, assim, as responsabilidades e deveres do profissional para a população, oferecendo diretrizes para a sua formação, além de balizar os julgamentos de suas ações.

Os princípios fundamentais da prática profissional apontados neste documento são:

Respeito, liberdade, dignidade, igualdade e integridade Promover a saúde e a qualidade de vida Responsabilidade Social Aprimoramento Profissional Contínuo Acesso ao conhecimento da ciência Posicionamento crítico

Complementando as idéias principais do Código, a APA determinou seis princípios básicos para a formação e atua ção do psicólogo.

Primeiramente, a competência técnica, que envolve manter um alto padrão de exigência em seus trabalhos, reco - nhecendo seus limites e oferecendo apenas serviços para os quais está habilitado. Isso subentende, também, a constante reciclagem do conhecimento, acompanhando as mudanças científicas da área de predominante atuação.

Cabe ao profissional, também, apresentar comportamentos honestos, justos e respeitosos na sua atuação. Deve ter consciência de seus valores e os efeitos que estes podem ter na sua prática, evitando colocar seus próprios ideais mesclados em sua atuação.

A responsabilidade científica e profissional aponta para a necessidade de o profissional estar atento a sua atuação e colaborar com colegas, profissionais de outras áreas e instituições, procurando ampliar a postura ética a todos os âmbitos atingidos pelo trabalho.

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Respeitar a dignidade das pessoas, principalmente, em uma sociedade que tem mais consciência de seus direitos, é fundamental. Reconhecer que as pessoas têm direito à privacidade e à confidencialidade do que é discutido dentro do ambiente de atendimento. É um princípio básico da atuação da Psicologia. Além disso, entender que as pessoas são autodeterminadas e que têm autonomia sobre suas atitudes; pontos os quais devem estar sempre na mente do profissio - nal durante o atendimento e após ele.

Relacionado ao que foi discutido no parágrafo anterior está a preocupação com o bem-estar do outro. Isso significa que qualquer conflito que porventura possa ocorrer na prática profissional deve ser resolvido da melhor forma possí - vel, minimizando os riscos envolvidos.

Finalmente, a questão da responsabilidade social do trabalho, ou seja, a responsabilidade científica diante da comunidade e da sociedade na qual está inserido. O profissional da Psicologia deve ser responsável também na formulação de leis e políticas que possam beneficiar a sociedade sem que envolvam, necessariamente, vantagens profissionais.

A discussão até o presente momento sobre Ética Profissional dispõe aos psicólogos que atuam na área de

Avaliação Psicológica a observância e o respeito de alguns princípios fundamentais. Abaixo, alguns pontos enumerados por uma pesquisa de Pietro, Muniz, Almeida e Bartram (1999). Segundo o estudo, a postura inadequada do profissio nal fere princípios de responsabilidade e ética:

Fotocopiar materiais sujeitos a direitos autorais; Utilizar testes inadequados na sua prática; Estar desatualizado na área de atuação; Desconsiderar os erros de medida nas suas interpretações; Utilizar folhas de resposta inadequadas; Ignorar a necessidade de explicações sobre pontuação nos testes aos solicitantes da avaliação; Permitir a aplicação de testes por pessoal não qualificado; Desprezar as condições que afetam a validade dos testes em cada cultura; Ignorar a necessidade de arquivar o material psicológico coletado; Interpretar além dos limites dos testes utilizados.

Os pontos ressaltados pelos autores refletem situações que comumente são vistas na atuação de profissionais pouco atualizados: utilização de materiais antigos e folhas de resposta produzidas por eles próprios, utilização de testes que não constam como aprovados na listagem do SATEPSI, aplicação de testes por pessoas que não são psicólogos ou

Série Técnica - Manual de Avaliação Psicológica33 estudantes de Psicologia, resistência em divulgar o resultado da Avaliação para o avaliando, entre outros.

Dessa forma, é importante que o psicólogo esteja ciente de seus direitos e deveres frente ao atendido, evitando problemas futuros com a legislação e garantindo credibilidade ao trabalho da classe.

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6. A produção de documentos legais decorrentes da Avaliação Psicológica

Uma das maiores dúvidas os profissionais é a produção de documentos, não somente decorrentes da Avaliação

Psicológica. De forma geral, podemos entender que um documento é uma peça legal, que representa uma verdade. Deve ser então, desta forma, entendido como uma prova legal realizada por um especialista, que fornece informações técnicas acerca de determinada questão. É então, uma comunicação técnico-científica de natureza oficial.

Em 2003, através da Resolução 07/2003, do CFP, é instituído o Manual de Elaboração de Documentos

Escritos produzidos pelo psicólogo e decorrentes da Avaliação Psicológica frente à constante necessidade da apresentação de do cumentos, com objetivos diversos e procurando subsidiar o profissional na produção qualificada destes materiais. Assim, toda e qualquer comunicação por escrito deverá seguir as diretrizes escritas e a não observância constitui falta ética disciplinar. Esta resolução tem como principal objetivo orientar o profissional na confecção de documentos decorrentes das avaliações psicológicas e fornecer subsídios técnicos e éticos necessários para a elaboração qualificada da comunicação escrita.

Primeiramente, é de fundamental importância que a redação seja bem estruturada e definida, evitando interpretações errôneas de seu conteúdo. Ordenar as idéias e utilizar linguagem profissional é primordial para que seja compreensível por quem lê e garanta precisão na comunicação, com clareza, concisão e harmonia.

Deve-se respeitar os princípios éticos e técnicos, estando cientes de pontos básicos como os deveres em relação ao atendido, o sigilo profissional e as relações com a justiça, oferecendo à população um trabalho de qualidade e uma boa imagem da profissão.

É importante salientar a natureza dinâmica e não definitiva do objeto de estudo, apontando o caráter situacional e momentâneo da avaliação. Dessa forma, as terminologias devem ser precisas e claras, com conclusões baseadas apenas no que foi observado e nos instrumentais técnicos utilizadas.

Um grande erro de muitos profissionais é criar documentos com muitas informações que não correspondem ao que foi solicitado e que acabam por prejudicar o atendido. Assim, o que constará em um documento desta modalidade deverá ser única e exclusivamente o necessário para responder e atender o que foi perguntado.

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Salienta-se, ainda, a importância de rubricar todas as laudas e assinar a última página, garantindo que folhas não serão substituídas, acrescentadas ou retiradas.

As modalidades de documento apontadas pela Resolução 07/2003 são: declaração, atestado psicológico, relatório ou laudo psicológico e parecer psicológico, sendo que sua utilização depende do objetivo da elaboração do mesmo. Vejamos cada um dos exemplos e sua utilização, bem como os pontos mínimos que devem conter.

6.1. Declaração

A Declaração é um documento que visa informar a ocorrência de fatos objetivos com a finalidade de declarar: Comparecimentos do atendido e/ou do seu acompanhante, quando necessário; Acompanhamento psicológico do atendido; Informações sobre as condições do atendimento (tempo, dias, horários).

Sua estrutura deve ser em papel timbrado ou carimbo com nome/sobrenome e CRP contendo:

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