Manual de Avaliação Psicológica

Manual de Avaliação Psicológica

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Fazer com que as pessoas compreendam que a Avaliação Psicológica não faz “milagres” também é importante.

Muitos colegas acreditam que o trabalho do psicólogo é ‘descobrir’ se o candidato será ou não um bom colaborador. Deve-se esclarecer, no entanto, que o comportamento é imprevisível e a avaliação não é definitiva, refletindo um caráter momentâneo e parcial daquela pessoa.

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Por fim cabe aos profissionais da área desenvolver trabalhos científicos de forma a divulgá-los para os demais colegas. Só assim poder-se-á fortalecer uma área em freqüente expansão e tão rica para o trabalho da Psicologia.

7.2 Avaliação Psicológica em Orientação Profissional

A orientação profissional (ou vocacional) é uma das atividades desenvolvidas pelos psicólogos que tem mais crescido atualmente. Sendo uma área de atuação social, ela gera muitas dúvidas quanto a utilização das ferramentas adequadas para um processo produtivo ao cliente.

A orientação constitui uma ampla gama de tarefas, que inclui o pedagógico e o psicológico, para diagnóstico, investigação, prevenção e solução da problemática vocacional (Bohoslavsky, 1998, p.1). Pode-se dizer, assim, que essa atividade compreende a Psicologia Clínica, a Psicologia da Educação e a Psicologia do Trabalho na medida em que a atividade têm o caráter de desenvolvimento pessoal e engloba a questão da aprendizagem e todo o aspecto comportamental do orientando perante o mercado de trabalho.

Assim, exige que o psicólogo tenha conhecimento dos aspectos que envolvem a aprendizagem e, além disso, esteja atualizado no que se refere ao mercado de trabalho. Saber quais as profissões que estão sendo mais requisitadas, quais os novos cursos e cargos, instituições educadoras e até mesmo o aspecto social e econômico mundial. Isso fará com que o profissional tenha um pano de fundo e possa desenvolver um trabalho mais próximo da realidade do cliente e do contexto em que este está inserido. Lisboa (in Levenfus e org., 2001, p.4) aponta que tal atitude permite “sair do indivi dual, no que diz respeito apenas ao que é importante para a pessoa”.

Dessa forma, o trabalho de Orientação Profissional visa facilitar a escolha profissional, ajudando o cliente a compreender sua situação específica de vida nos âmbitos familiar, pessoal e social e construir seu projeto de vida. Facilitar a escolha significa auxiliá-lo a pensar, coordenando o processo para que as dificuldades de cada um possam ser formuladas e trabalhadas. O trabalho de “orientar” não decide a escolha de ninguém, mas instrumentaliza o orientando para que este reflita e, ele próprio, estabeleça seu caminho.

Bohoslavsky (1998, p. 2-3) aponta duas modalidades de trabalho em Orientação: a modalidade estatística e a modalidade clínica.

A modalidade estatística, baseada nos princípios psicométricos e nos princípios psicotécnicos norte-americanos, estabelece que se conhecendo as aptidões e interesses das pessoas, pode-se auxiliar a escolha profissional.

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Já a modalidade clínica, cujo instrumento principal é a entrevista, compreende técnicas não-diretivas e auxiliam o jovem a conseguir assumir a situação que enfrenta e, ao compreendê-la, chegar a uma decisão pessoal responsável.

Temos, dessa forma, duas posições que, para muitos, parecem ser divergentes. Muitos profissionais acreditam que a utilização de testes em Orientação Profissional torna o processo “frio” e “determinista”. Outros, no entanto, acreditam que a testagem resolve o problema de qualquer orientando e facilita a escolha, pois dá uma resposta mais próxima aquilo que o cliente pensa em termos profissionais. Assim, a posição vai desde a desvalorização dos instrumentos até a idealização dos mesmos, indicando um déficit de informação e assim, criando preconceitos e estereótipos.

Os testes, dessa forma, devem ser utilizados como uma das ferramentas dos profissionais atuantes em Orientação

Profissional. Eles permitem conhecer melhor a pessoa, fazendo que ela se conheça ainda mais, o que facilita na escolha profissional.

Os testes projetivos e expressivos, que avaliam aspectos da personalidade, podem ser administrados e discutidos, posteriormente, com o cliente. Isso possibilitará que ele conheça aspectos de seu comportamento no momento do feedback dos pontos observados na avaliação. Conhecer-se mais significa desenvolvimento, uma das premissas básicas do processo psicoterápico.

Já os testes que avaliam as competências intelectuais e as aptidões permitem ao psicólogo e ao cliente conhecer as áreas em que o desempenho é superior ou inferior, conectando os resultados com as profissões em que determinada habilidade é exigida. Assim, se o cliente possui raciocínio numérico superior à média, provavelmente terá facilidade em profissões em que o cálculo é constante.

Os testes, assim sendo, permitem que o cliente conheça-se mais e possa utilizar os resultados como ferramenta para seu plano de vida. Não devem ser utilizados como único material para a produção de um documento “determinista”. Devem, entretanto, ser mais uma “carta” do psicólogo e sua utilização dependerá do andamento do processo de Orientação Profissional. Necessitam ser utilizados no momento certo e da forma correta, ou seja, não como uma avaliação propriamente dita, mas como um instrumento de reflexão para o cliente.

Só entendendo o que é a Orientação Profissional é que se poderá oferecer um serviço de qualidade. Infelizmente, no meio acadêmico, ainda pouco se discute sobre essa atividade e o psicólogo sente-se inseguro diante de uma população cuja indecisão é característica. Dessa forma, cabe ao profissional atualizar-se constantemente, quer nos aspectos técnicos, quer no que se refere ao mundo de trabalho.

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7.3 A Avaliação Psicológica na Área Psicoeducacional

Quando se fala em Educação, rapidamente vem à mente a questão dos problemas de aprendizagem. A não-aprendizagem na escola é uma das causas de fracasso escolar, cujo contexto deve ser compreendido na interligação dos aspectos orgânico, cognitivo, emocional, social e pedagógico, ajudando a construir uma visão gestáltica da pluricausalidade desse fenômeno (Weiss, 2004, p.2).

De modo geral, o trabalho do psicólogo inicia mediante a queixa da escola ou dos pais em relação à aprendizagem da criança. Estes querem esclarecer o “problema” da criança e a necessidade de encaminhá-la ou não para a escola ou classe especial. E uma das maiores dúvidas dos profissionais que atuam na área é justamente responder a uma pergunta que envolve âmbitos tão complexos e será determinante na vida da criança.

Antes de iniciar um processo de avaliação é importante que o profissional tenha claro a contextualização do cliente (presente) sem deixar de lado todo o caminho percorrido até então, ou seja, tudo aquilo que determinou a cons - trução do sujeito tal qual ele se apresenta no momento. Por isso, o profissional deve entender não só o comportamento na escola, mas como a família de base (nuclear) e as famílias materna e paterna influenciaram e influenciam no cliente. Além disso, investigar os grupos que fazem parte da convivência (igreja, amigos, etc.) ajudam a entender ainda mais o cliente e seu problema.

Há várias maneiras de estruturar-se um processo diagnóstico na área educacional, recomendados por diferentes autores. É importante salientar que tal estrutura depende de cada cliente e da disponibilidade das pessoas envolvidas no processo. Entrevista com a família e com os professores são uma maneira de compreender a aprendizagem situacionalmente. Além disso, anamnese (reconstrução da história da criança/adolescente), sessões lúdicas, pesquisa do material escolar e observação são outras ferramentas para compreensão do todo.

Os testes, por sua vez, auxiliam muito o trabalho do psicólogo. Embora existam poucos instrumentos disponíveis no mercado para a avaliação educacional, pode-se utilizar outros materiais de forma a auxiliar o processo, o prognóstico e encaminhamentos posteriores.

Em termos pedagógicos, pode-se avaliar as características de alfabetização, leitura, escrita e matemática, esta - belecendo em que grau encontra-se o desenvolvimento do avaliando.

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