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Paidéia (Ribeirão Preto)

Print ISSN 0103-863X

Paidéia (Ribeirão Preto) vol.16 no.34 Ribeirão Preto May/Aug. 2006

 

PESQUISAS EMPÍRICAS

 

Como as pessoas percebem o psicólogo: um estudo exploratório

 

How do people perceive the psychologist: an exploratory study

 

 

Marcilio Lira de Souza FilhoI,1; Josevânia da Silva Cruz de OliveiraII; Flávio Lúcio Almeida LimaII

IUniversidade Federal de Pernambuco IIUniversidade Federal da Paraíba

 

 

RESUMO

Este estudo buscou realizar um levantamento de elementos que indiquem como o psicólogo é percebido. Participaram pessoas entrevistadas na cidade de João Pessoa (PB), distribuídas em três grupos, a saber, pessoas da população geral (n = 42), estudantes de Enfermagem (n = 43) e de Psicologia (n = 52). Todas se submeteram a uma associação livre de palavras após ouvirem o termo psicólogo. Os resultados demonstraram que todos os grupos indicaram perceber o psicólogo como profissional promotor de saúde mental e proporcionador de auxílio psicológico. Particularmente, na população geral houve pessoas que nada souberam declarar. Os estudantes de Enfermagem mostraram uma percepção mais adequada das práticas do psicólogo quando comparados com a população geral. Apenas os estudantes de Psicologia demonstraram uma atenção a aspectos humanitários da prática profissional do psicólogo. Discutem-se os resultados buscando vincular a percepção de cada grupo às circunstâncias e aspectos predominantes de cada um deles.

Palavras-chave: Psicologia no Brasil, Psicólogo, Profissão

ABSTRACT

This study tried to do a survey of some elements that indicate how the psychologist is perceived. The participants were people from João Pessoa (PB), Brazil, interviewed and divided in three groups: ordinary people (n=42), Nursery students (n=43) and Psychology students (n=52). All of them were submitted to a word-free association when they heard the word psychologist. The results showed that in all groups the psychologist was perceived as a professional that worked into mental health and as a promoter of psychological care. Some individuals of ordinary people group could not answer it. The Nursery students approached to a realistic practice of the psychologist in comparison to ordinary people group. Only the psychology students showed special attention to humanitarian aspects of the psychologist care. The results were debated from a link among the perception of each group and the main social aspects of them.

Keywords: Psychology in Brazil, Psychologist, Profession.

 

 

Introdução

Desde o final do século XIX, quando foi inaugurada como ciência, a Psicologia vem conquistando o seu espaço enquanto campo de estudo e atuação. A fundação do primeiro laboratório de Psicologia Experimental de Wilhelm Wundt, em 1879, na Alemanha, significou o estopim do desenvolvimento científico da Psicologia. Segundo Castro (1999), logo após Wundt, muitos outros estudiosos contribuíram para o crescimento do conhecimento em Psicologia. Percebe-se que a herança deixada por esse passado produtivo é uma multiplicidade de modelos teóricos e metodológicos que permanecem até hoje e fundamentam tanto a ciência quanto a atuação profissional na área.

A história da atuação profissional no Brasil surge concomitante com a Psicologia científica; antes disso inexistia aqui o reconhecimento da Psicologia como prática com terminologia e conhecimento definido. Pereira e Neto (2003) sugerem três períodos sob os quais estaria dividida a história da profissão no Brasil. O primeiro, denominado pré-profissional, ocorreu até o final do século XIX quando a Psicologia não era uma prática regulamentada; o segundo corresponde à profissionalização, no qual ocorre a institucionalização e regulamentação da profissão, tal período aconteceu entre 1890 e 1975; e o terceiro, a partir de 1975, corresponde ao período profissional, momento em que a profissão foi se organizando e estabelecendo.

A formação profissional do psicólogo foi institucionalizada através da Portaria 272, referente ao Decreto-Lei 9092, de 1946. No que tange à inserção no mercado de trabalho, a atuação do psicólogo se iniciou nas áreas da educação e do trabalho entre os anos 1940 e 1950. Em 27 de agosto de 1962 a Lei nº 4.119 regulamentou a profissão de psicólogo e, nesse mesmo ano, o Parecer 403 do Conselho Federal de Educação definiu o currículo mínimo e duração do curso superior de Psicologia. Tais fatos históricos serviram como grande apoio para a abertura do mercado aos psicólogos (Netto, 2004).

Devido ao crescimento dos cursos universitários e à busca da população por serviços psicológicos, a partir dos anos 70, o número de profissionais formados em Psicologia se acentua. Entre 1970 e 1980, três áreas da Psicologia se destacavam: educação, trabalho e clínica, sendo esta última a de maior procura dos profissionais (Pereira & Neto, 2003). Atualmente, contudo, o espectro de abrangência profissional do psicólogo é bastante amplo e compreende uma vasta gama de áreas de atuação, entre elas podem ser citadas

as clínicas particulares,

escolas,

creches,

empresas,

hospitais,

postos de saúde,

comunidades,

setores judiciários,

penitenciárias,

equipes desportivas,

departamentos de trânsito e outras.

A consolidação da entrada do psicólogo no mercado de trabalho, no contexto nacional, gerou a necessidade de avaliar essa profissão, tanto em termos da organização profissional, quanto no tocante à forma como essa prática vinha sendo percebida. Isso tem motivado a realização de pesquisas tanto na primeira direção (CFP, 2004; Mello, 1975; Yamamoto, Dantas, Costa, Alverga, Seixas & Oliveira, 2003), quanto na segunda (Bettoi & Simão, 2002; Gomes, Teixeira, Crescente, Fachel, Sehn & Klarmann, 1996; Santos, 1989; Weber, Rickli & Liviski, 1994).

Segundo um recente levantamento realizado pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP, 2004), a profissão de psicólogo no Brasil é, predominantemente, feminina (91%) e jovem (65% estava na faixa etária compreendida entre 26 e 45 anos); têm-se como atuação principal a Psicologia Clínica com atendimento individual ou em grupo (55%) e dispõe-se, prioritariamente, como local de trabalho as clínicas particulares (41%). Os resultados apresentados nos estudos anteriores de Mello (1975) e Yamamoto e cols. (2003) seguem basicamente esta mesma direção.

A marcante preferência pela área clínica, acima descrita, é verificada também entre alunos de graduação em Psicologia. O estudo de Magalhães, Straliotto, Keller e Gomes (2001), realizado com estudantes de Psicologia do primeiro ano da graduação, demonstrou que a escolha da profissão é acompanhada, primeiramente, por um sentimento altruísta de ajuda ao próximo, seguido da busca por um crescimento pessoal, encanto pelo conhecimento psicológico e competência profissional. Destarte, a preferência pela área clínica estaria relacionada a esse desejo de "ajuda ao próximo", de "uma relação direta, íntima e prolongada", uma vez que ela possibilitaria tal relação. Ademais, as instituições e a comunidade representariam, na opinião desses alunos, locais onde não seria possível o desenvolvimento de uma atuação "profunda".

Mello (1975) já ressaltava que a relevância da presente questão não estaria em se criticar a preferência dos profissionais e alunos pela clínica, mas em verificar quais as variáveis que estariam imbricadas nessa orientação da profissão e, a posteriori, quais seriam seus efeitos nas relações dessa profissão com a sociedade. Ademais, o que tem sido observado, mais especificamente a partir da década de 80, é o crescimento de uma demanda por profissionais de Psicologia nos serviços públicos, exigindo uma prática profissional diversificada uma vez que a população a ser atendida tem características diferentes daquelas nas quais, historicamente, os psicólogos lidavam (Andrade & Morato, 2004).

Ainda a esse respeito, Dimenstein (2000) aponta a existência de uma cultura do profissional da Psicologia no Brasil, afirmando que essa tem se caracterizado por um modelo de subjetividade decorrente do desenvolvimento de um ideário individualista, reforçado pela difusão da Psicanálise na classe média urbana. A presença de uma ideologia individualista e de um modelo clínico de atuação (privada) na cultura profissional do psicólogo gera conseqüências na sua prática quando é impelido a atuar no setor público (postos de saúde e ambulatórios, por exemplo) uma vez que esse modelo de atuação é transportado para esse contexto. Em decorrência disso, Dimenstein (2000) menciona o abandono dos tratamentos, uma baixa eficácia da terapêutica, uma "psicologização dos problemas sociais" e uma "hierarquização da clientela".

No que tange à forma como o psicólogo é percebido, Santos (1989), analisando uma amostra de calouros de um curso de formação em Psicologia da cidade de São Paulo, apresentou a seus participantes a pergunta "O que faz um psicólogo na sua opinião?". Seus resultados revelaram um insuficiente e desordenado conhecimento acerca das diversas áreas de atuação em Psicologia. No geral, o que se observou foi uma expressiva predominância da menção à área de atuação clínica e do psicólogo percebido enquanto um profissional liberal atuando em consultórios particulares; ele possuiria um "conhecimento teórico eclético e profundo" sobre o ser humano e tal conhecimento seria o responsável ou o elemento capacitador que lhe permitiria ajudar, aconselhar e orientar as pessoas.

Nesta mesma direção, Weber e cols (1994) também comentam que a representação social que o público leigo tem do psicólogo e da Psicologia apresenta limitações e equívocos, em boa parte, devido à maneira como os profissionais da área viriam atuando. Estes vieses estariam vinculados, mormente, entre outros fatores, à formação acadêmica em Psicologia.

Em um outro estudo, Bettoi e Simão (2002) contaram com a participação dos alunos de uma disciplina de Psicologia Geral e de profissionais para verificar as concepções existentes acerca do psicólogo. De modo geral, os alunos concebiam o psicólogo como alguém que é definido por seus atributos pessoais (aspectos morais e éticos), ao passo que a prática profissional e o benefício social dessa prática eram enfatizados em segundo plano. Os profissionais, por sua vez, também mencionaram a necessidade de atributos pessoais para que o psicólogo possa ser bem sucedido; entre esses figuram a postura ética, a maturidade, a humildade, entre outros. Ainda, na amostra de profissionais, observou-se maior ênfase nos aspectos valorativo e moral das qualidades pessoais do psicólogo do que nos racionais. Todavia, as concepções dos alunos, ao final da disciplina, foram relativamente equivalentes nesses dois aspectos.

Gomes e cols. (1996), por sua vez, analisaram as crenças de estudantes universitários de Psicologia e de outros cursos sobre a psicoterapia e o psicólogo. Utilizando uma escala psicométrica, identificaram que os estudantes de Psicologia eram mais favoráveis, em comparação com os universitários de outros cursos, à psicoterapia e que, a partir dela, os clientes poderiam obter benefícios. Por seu turno, os estudantes de outros cursos, mais do que os de Psicologia, atribuíam um papel de maior diretividade à figura do psicólogo. Os autores comentam que, apesar de a Psicologia estar cada vez mais popular, o público leigo ainda permanece com uma imagem não correspondente com a que o psicólogo tem de si mesmo e de sua prática. Segundo esses autores, os psicólogos não aceitariam para si o papel, atribuído pelos leigos, de alguém que "sabe" e que, com base nesse "saber", instrui ou orienta os seus pacientes no sentido de resolverem suas dificuldades. Pelo contrário, esses profissionais parecem constituir um conjunto de crenças que justificam suas práticas desvinculadas de um caráter mais orientador ou instrutor. Desta discrepância de expectativas resultaria uma baixa aderência aos tratamentos.

Verificar, pois, como as pessoas percebem uma prática profissional se faz necessário em qualquer área de atuação uma vez que possibilita o reconhecimento de aspectos positivos e de debilidades dessa prática, seja no seu processo de formação acadêmica, ou no próprio exercício dessa mesma prática e ainda, na trajetória histórico-epistemológica de sua constituição enquanto disciplina. Nesta direção, a presente pesquisa, assumindo um caráter exploratório, objetivou fazer um levantamento de elementos que apontem como a figura do psicólogo é percebida não por um único grupo, mas sim por diferentes grupos, especificamente por pessoas da população geral, estudantes de Enfermagem e de Psicologia, buscando vincular a percepção de cada grupo às circunstâncias e aspectos predominantes de cada um deles.

A escolha desses grupos não foi aleatória. Primeiramente, verificar a percepção de pessoas da população geral se fez importante tendo em vista que este grupo constitui o principal público-alvo ao qual se destina a prática profissional do psicólogo, sendo o conhecimento da percepção de tal população ponto fundamental para uma otimizada atuação desse profissional. Os estudantes de Enfermagem, por sua vez, mais do que as pessoas da comunidade geral têm uma proximidade maior com os elementos do universo da Psicologia por compartilharem uma realidade acadêmico-científica análoga. Consequentemente, isso deverá permitir identificar se essa proximidade contribuiria com uma percepção mais completa ou abrangente da Psicologia. Finalmente, os estudantes de Psicologia, por se tratarem de futuros profissionais e dada a sua contingência acadêmica, têm uma estreita ligação com os conteúdos teóricos e possibilidades práticas da área. Isso, contudo, seria suficiente para ter uma visão completa ou não-estereotipada da Psicologia? Enfim, verificar a forma como psicólogo e sua prática são percebidos mostra-se extremamente relevante uma vez que tais percepções perpassam a relação existente entre o profissional e a clientela atendida. Assim, espera-se que este estudo possa levar a melhor compreensão de como o papel do psicólogo é percebido pela sociedade.

 

Método

Amostra

Contou-se, neste estudo, com a participação de três grupos distintos. O primeiro foi composto por 42 pessoas da população geral entrevistadas nas ruas da cidade de João Pessoa (Paraíba). Suas idades variavam de 18 a 74 anos (M = 30,9; DP = 10,9). O nível de escolaridade predominante foi o Ensino Médio completo (59,5%). No segundo grupo foram reunidos 43 estudantes do curso de Enfermagem da UFPB, a maioria do sexo feminino (84,2%), com idades variando entre 19 e 25 anos (M = 21,9; DP = 1,53) e que já haviam cursado ao menos a metade de sua graduação. Finalmente, o terceiro grupo foi composto por 52 estudantes de Psicologia da UFPB, sendo a maioria também do sexo feminino (73,1%) e com suas idades variando entre 19 e 39 anos (M = 22,6; DP = 3,57), tal como os estudantes de Enfermagem, neste grupo todos os alunos eram veteranos. Dado o caráter exploratório deste estudo, todos esses grupos compõem amostras do tipo nãoprobabilística, selecionadas de forma acidental ou por conveniência.

Procedimento de Coleta

Por se tratar de grupos distintos, cujo acesso envolveria diferentes estratégias, o método de coleta variou em função do grupo a ser entrevistado; não obstante, basicamente, todos responderam a um teste de associação livre de palavras. Os participantes foram informados sobre o caráter sigiloso com que suas respostas seriam tratadas e que a participação no estudo era completamente voluntária.

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