Resfriado comum

Resfriado comum

(Parte 2 de 4)

No momento, ainda não se conta com um tratamento específico e eficaz para o resfriado comum, no qual se procura basicamente aliviar os sintomas (4, 3).

É compreensível a dificuldade para conseguir uma boa droga antiviral para uso clínico, pois esta teria que ser de amplo espectro, a fim de combater não só ao rinovírus, como também aos coronavírus e outros agentes virais causadores do resfriado comum.

Atualmente, conta-se com várias drogas anti-rinovírus, as quais mostraram inibição do crescimento viral in vitro. Pode-se citar entre essas o gluconato de zinco, enviroxima, interferon, flavonóides e pirodavir.

Após observar-se o alívio dos sintomas de uma menina imunodeprimida que tinha resfriados freqüentes e severos, depois de ser tratada com zinco, comprovou-se que alguns vírus que produzem resfriado comum são sensíveis ao zinco in vitro, razão pela qual foi empregado para o tratamento de casos de resfriado comum. Em um ensaio duplo-cego, constatou-se um encurtamento na duração do resfriado (34), porém em outros dois ensaios controlados, com voluntários nos quais se induziu experimentalmente resfriados por rinovírus, não se observou nenhum efeito terapêutico do gluconato de zinco (35). Portanto, dever-se-ia considerar que esta terapia é discutível.

A enviroxima é um derivado benzoimidazólico sumamente eficaz in vitrocontra o rinovírus.

Conseguiu diminuir os sintomas e a quantidade de vírus das secreções nasais, aplicado preferivelmente sob forma tópica nasal, mais que por via oral (36, 37). No entanto, são necessários mais ensaios clínicos, em um número maior de pacientes, para demonstrar sua eficácia clínica.

O interferon é um grupo heterogêneo de proteínas de baixo peso molecular, elaborado pelas células hóspedes infectadas, que protegem às células não infectadas da infecção viral. Tem sido empregado experimentalmente sob forma de aerossol por via intranasal, mas não funcionou quando o resfriado já estava estabelecido, mas sim quando foi empregado de forma profilática (38, 39).

Considera-se que os flavonóides figuram entre os inibidores mais potentes da replicação do rinovírus humano. Estão sendo sintetizadas novas moléculas deste tipo, com pequenas variações em sua fórmula, com o que se consegue, in vitro, a ampliação de seu espectro de ação (40).

Existem diversos agentes antivirais sintéticos que inibem in vitroa replicação do rinovírus humano. Um dos mais recentes é o pirodavir (R77975), que é 500 vezes mais potente que seu antecessor (R61837), e inibe 80% dos sorotipos de rinovírus. Em um ensaio clínico, aplicado seis vezes por dia sob forma de aerossol por via nasal, com um total de 25 aplicações, foi efetivo tanto para prevenir a infecção quanto a doença, e para reduzir a severidade desta, sempre que administrado antes da infecção. O medicamento foi bem tolerado por via intranasal, diferentemente de outros usados por esta via, que causam moléstias locais (41).

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Continua-se buscando um tratamento específico antiviral (anti-rinovírus) e existem esperanças de encontrá-lo, já que alguns dos medicamentos usados ocasionam moléstias de tipo local (intranasal) e requerem uma administração freqüente para serem efetivos.

Em relação ao tratamento dos sintomas existem múltiplos medicamentos para o resfriado, que geralmente são uma combinação de anti-histamínicos, descongestionantes e antitussígenos, porém não se comprovou sua eficácia, tanto quando usados isoladamente quanto em combinação.

Sabe-se que nos sintomas nasais do resfriado comum a histamina não interfere, mas sim as kininas, razão pela qual não há motivo para empregar anti-histamínicos (42, 43). Os descongestionantes, geralmente derivados da efedrina, não provaram diminuir a duração da doença, e com respeito aos antitussígenos é importante recordar que a tosse é um mecanismo reflexo de defesa, mediante o qual são limpas as vias aéreas, razão pela qual o emprego de antitussígenos resulta contraproducente.

Algumas observações, no entanto, assinalam que estes medicamentos atuam de alguma maneira, o que justificaria seu emprego por duas razões principais. Uma, de índole farmacológica, visto que os anti-histamínicos têm uma ação anticolinérgica, e portanto reduzem a secreção de muco; os descongestionantes são vasoconstritores eficazes, e diminuem a congestão nasal, e os antitussígenos cortam efetivamente o reflexo da tosse quando necessário para aliviar o paciente. A segunda razão é que a maioria das crianças é levada a consulta quando os sintomas são mais intensos e é possível que nas seguintes 24 a 48 horas melhorem devido à evolução natural da doença, que coincidiria com o emprego de algum medicamento (2).

A principal razão para não recomendar esse tipo de medicamento é que seus efeitos secundários podem ser mais prejudiciais que o verdadeiro alívio que pode proporcionar sua administração. Desta maneira, o efeito anticolinérgico dos anti-histamínicos faria com que as secreções secassem, o que dificultaria sua eliminação e o bloqueio do reflexo da tosse, por outro lado, pode dificultar a eliminação das secreções. Com respeito aos descongestionantes, o maior risco está em seu efeito rebote, sobretudo nos lactentes, cuja congestão nasal pode piorar uma vez que passe o efeito inicial. Um efeito dos descongestionantes que tampouco deve ser esquecido é a possibilidade da hipertensão arterial, sobretudo quando tomados em doses excessivas, o que pode acontecer devido ao fato de que a maioria desses produtos se apresenta em forma de xarope para crianças. Um efeito secundário, adicional ao efeito atropínico dos anti-histamínicos, é a irritabilidade ou sonolência que nem sempre estão relacionadas com a dose (4).Pode-se deduzir do anterior, que as reações secundárias a este tipo de medicamentos freqüentemente empregados para tratar o resfriado comum, não são nada desprezíveis.

As recomendações para combater o resfriado comum estão baseadas na aplicação de medidas simples para aliviar a obstrução nasal e controlar a febre, na indicação de uma alimentação normal, no oferecimento de líquidos com certa freqüência e na observação para detectar complicações.

O alívio dos sintomas nasais mediante a limpeza adequada das secreções e o emprego de soro fisiológico para a congestão nasal, aplicado diretamente nas fossas nasais três a quatro gotas cada aiepi1.P 3/20/03 2:05 PM Page 176 vez que seja necessário, são as medidas simples que produzem alívio nas crianças e que não apresentam risco algum (45).

Se a febre estiver alta (39º C ou mais) ou produz mal-estar na criança, deve ser aliviada mediante a dose comum de um antipirético (acetoaminofen ou aspirina em crianças maiores, 10 a 15 mg/kg/dose). A criança deve receber sua alimentação normal e habitual; além disso deve-se oferecer líquidos com freqüência, a fim de facilitar a eliminação das secreções com a tosse.

É importante lembrar que o resfriado comum é uma doença autolimitada e que seu prognóstico é bom, sendo que mais importante do que receitar um determinado remédio antigripal, é explicar adequadamente à família o curso usual da doença, a fim de que qualquer alteração na seqüência habitual, tanto na duração quanto na intensidade dos sintomas, sirva para detectar possíveis complicações.

Com respeito ao alívio sintomático, ao usar alguns analgésicos, antipiréticos e antiinflamatórios, os resultados clínicos de seu uso regular são contraditórios, tendo sido constatados alguns efeitos adversos, tais como supressão da resposta de anticorpos neutralizantes e aumento dos sintomas e sinais nasais durante o resfriado com medicamentos como o acetoaminofen e a aspirina (46). No entanto, não têm sido encontrados tais efeitos com alguns antiinflamatórios como o ibuprofen e o naproxen (46, 47).Portanto, recomenda-se seu emprego somente em função da intensidade da febre e do mal-estar geral, e não de forma horária ou regular durante vários dias.

A partir de vários estudos clínicos, foi demonstrado que a administração de antibióticos no resfriado comum não conseguiu diminuir a duração da doença nem prevenir as complicações e, portanto, não há razão para indicá-los rotineiramente (49-51).

Ainda que os médicos continuem indicando antibióticos de forma ampla, seu uso não é apropriado para o tratamento das infecções agudas do trato respiratório superior que, em sua grande maioria, são infecções virais. Têm sido identificados alguns fatores que influem na decisão de empregar antibióticos (52):

•A ansiedade do médico com respeito a seu próprio trabalho, sobretudo o temor de equivocar-se, motivo pelo qual opta freqüentemente por atender o episódio com antibióticos, quando não pode diferenciar uma infecção viral de uma bacteriana.

•A resposta do facultativo à pressão social, que ocorre sobretudo quando o médico é inseguro e cede à ansiedade da família.

•A ansiedade familiar que faz consultar freqüentemente pelos mesmos sintomas de um mesmo episódio ou de quadros similares. Se o médico não recorda que os episódios de IRA são freqüentes e a maioria é de etiologia viral, cederá à pressão com uma rápida indicação de antibióticos, a fim de "controlar" a infecção.

•O temor do médico a possíveis complicações de supostas infecções estreptocócicas, sobretudo quando no quadro clínico do resfriado há moléstias faríngeas, esquecendo que a maioria das infecções de etiologia viral pode causá-las.

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Linus Pauling, prêmio Nobel de física, sustentava que a vitamina C é eficaz para combater o resfriado comum (53); esta eficácia continua sendo discutida. Alguns autores afirmam que é útil na profilaxia e no tratamento do resfriado comum, porém outros negam tal utilidade, argumentando que o benefício reportado obedece a artifícios estatísticos e a um efeito de placebo, mais do que um benefício real do ácido ascórbico ou vitamina C (54, 5).

O emprego de algumas medidas como o uso de vapor de água ou bebidas quentes, assim como de medicamentos de uso popular como o mentol, tem dado resultados igualmente contraditórios em alguns estudos clínicos(56-60).

Na busca de um tratamento eficaz, tem sido testado o emprego simultâneo de um antiviral (interferon, por via nasal) com antiinflamatório (naproxen, por via oral) e um anticolinérgico (ipratrópio, por via intranasal) em resfriados experimentais de adultos, tendo sido obtidos resultados satisfatórios, tais como um período mais breve de excreção viral, um menor título de vírus e uma melhoria dos sintomas, comparado com os de um grupo que recebeu placebo (61). No entanto, será preciso avaliar melhor este tratamento, tendo em conta seu alto custo e o fato de que essa doença tem um curso autolimitado, reservando-o talvez para casos severos ou para quando a presunção de severidade ocorra em um paciente imunodeprimido.

A prevenção específica por meio de vacinas para rinovírus ainda não é possível, devido principalmente a que a quantidade de sorotipos de rinovírus implicados é muito grande, ao fato do conteúdo antigênico destes vírus variar constantemente e também ao aparecimento contínuo de novos sorotipos.

O emprego de interferon é promissor para a profilaxia, já que este mediador tem sido proposto como um elemento importante na recuperação da infecção por rinovírus. Das experiências com interferon, deduz-se que é necessária uma dose alta e o emprego da via intranasal para obter bons resultados (39).

A prevenção não específica que corta o modo de transmissão pode dar resultados satisfatórios.

Neste sentido, a partir do conhecimento de que os rinovírus também podem transmitir-se por meio de mãos contaminadas com secreções nasais, busca-se modos de evitar esse tipo de contágio, mediante o emprego de substâncias viricidas que seriam usadas durante a lavagem das mãos, lembrando que o simples lavar das mãos, por si mesmo, parece ter certa eficácia (31). Igualmente, a eliminação adequada das secreções nasais também tem importância, motivo pelo qual o emprego de lenços descartáveis evitaria uma maior contaminação das mãos. No entanto, algumas dessas medidas não são aplicáveis às crianças, sobretudo às menores, de maneira que deve-se ter presente que este modo de contágio é importante, com a finalidade de evitá-lo, pelo que seria necessário buscar outras medidas de prevenção.

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O resfriado comum é uma doença infecciosa freqüente em crianças e adultos, muito contagiosa, de etiologia viral, que por ter um caráter autolimitado, requer, por enquanto, medidas simples de tratamento sintomático, principalmente para os sintomas nasais. Em um futuro próximo, seguramente vão estar disponíveis drogas antivirais e meios eficazes de controle, que evitariam que tanto crianças quanto adultos sofram desta incômoda doença. Enquanto isso, é importante que os pais ou encarregados das crianças reconheçam quando o resfriado comum deixa de ser um simples catarro, quer seja por sua duração ou pelo aparecimento de sinais de perigo, os quais dependem da idade da criança (por exemplo, tiragem ou taquipnéia). Nestes casos, é quando se deve consultar o médico para modificar o enfoque terapêutico.

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