Resultados de estudos etnográficos emrelação ao controle das ira na bolívia

Resultados de estudos etnográficos emrelação ao controle das ira na bolívia

(Parte 1 de 3)

SECCIÓN I Seção IV:Prevenção e Controle

Lic. María Dolores Charaly M.

Este trabalho é um resumo dos resultados de estudos etnográficos realizados na Bolívia e seus alcances no marco do convênio estabelecido em 1989 entre o Ministério de Previdência Social e Saúde Pública, UNICEF e a Universidade de John Hopkins, em Maryland, Estados

Unidos, para o fortalecimento de Programas de Controle das IRA na Bolívia, Gâmbia e Tailândia.

Em tais países implantou-se uma série de atividades conjuntas destinadas a investigar aspectos particulares relacionados com os conhecimentos, as atitudes e as práticas tradicionais em relação às IRA, e a interpretação que as comunidades e as famílias têm dos sinais e sintomas que correspondem a doenças graves como a pneumonia. Incluíram-se aspectos como a percepção dessas pessoas acerca das opções que a medicina científica oferece através dos serviços de saúde, as limitações para compreender as recomendações que o pessoal de saúde oferece em relação ao cuidado da criança doente no domicílio, assim como a administração de medicamentos.

As investigações foram realizadas com base em um protocolo elaborado pela OPAS/OMS,

Focused Etnographic Study (FES) for ARI, em três comunidades da Bolívia: Quwari, uma comunidade Quechua de 180 famílias no departamento de Cochabamba; Jayuma Llallagua, uma comunidade Aymara de 63 famílias no departamento de La Paz e, finalmente, em uma área urbana periférica da cidade de Alto de La Paz, com 194 mães de família.

Um dos objetivos gerais do FES na Bolívia foi identificar os termos locais que as mães utilizam para descrever as doenças respiratórias de suas crianças e determinar se reconhecem os sintomas chaves da pneumonia. Em particular, o estudo centrou seus objetivos na formulação das recomendações para o Programa Nacional de IRA, em como melhorar a comunicação entre os provedores de saúde e as mães com referência às IRA e seu tratamento.

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O estudo etnográfico sobre IRA orientou-se metodologicamente pelo protocolo proposto pela OPAS/OMS. Os procedimentos qualitativos que se aplicaram durante 6 a 8 semanas, incluíram entrevistas estruturadas abertas e fechadas.

Em cada uma das comunidades realizou-se o planejamento do trabalho a partir da coordenação com os clubes de mães, os grupos organizados de mulheres, autoridades da comunidade e a Unidade Sanitária no caso do Alto de La Paz.

O trabalho de campo foi realizado em 6 semanas, aplicando-se onze procedimentos diferentes, com propósitos específicos, adaptados às condições particulares de cada comunidade. As entrevistas foram efetuadas para determinar a percepção dos sinais, sintomas, causas e tratamento das doenças que levaram à morte as crianças das comunidades em estudo. Desta forma, entrevistou-se os provedores de saúde, incluídas as clínicas privadas, pessoal de saúde pública, curandeiros tradicionais, vendedores de remédios e farmacêuticos. Apresentaram-se casos hipotéticos aos vendedores de remédios e farmacêuticos, a fim de investigar seus diagnósticos e práticas de prescrição médica.

Os resultados de todas essas pesquisas são resumidos nos três quadros elaborados para cada comunidade investigada e que constam de um quadro de “modelo explicativo”; um quadro de “correspondência de sinais clínicos” com expressões locais e um quadro de “conselhos de cuidados em casa” para a criança com tosse.

A análise dos dados do estudo etnográfico inclui a construção de “modelos explicativos” das doenças respiratórias e representa a percepção da comunidade em relação às doenças, seus sinais e sintomas, assim como suas causas e tratamento administrado.

A partir da obtenção do modelo explicativo local, tem sido possível investigar as relações da opinião dos grupos entrevistados com a pneumonia clínica. Geralmente, aconselha-se que as mães busquem os serviços dos provedores capacitados, quando suas crianças têm respiração acelerada ou difícil, quando não podem beber líquidos ou parecem estar piorando.

Para que os profissionais de saúde sejam capazes de comunicar efetivamente às mães quais sinais devem ser observados, e quando devem voltar para os cuidados específicos, necessitam saber como as mães percebem e falam a respeito desses sinais. Os estudos realizados em Quwari, Jayuma Llallagua e no Alto de La Paz tentam dar respostas a diversas interrogações concernentes ao controle das IRA nas crianças, tais como:

• As mães reconhecem a respiração acelerada, lhe dão outro nome? • Sabem que esses são sinais de doenças graves?

• A que sinais prestam maior atenção?

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As seções seguintes descrevem os modelos explicativos das mães de Quwari, Jayuma Llallagua e Alto de La Paz.

a) Comunidade Quwari

As mães de Quwari reconhecem sete doenças diferentes com seus sinais e sintomas de IRA.

Ainda que estas sejam consideradas como doenças distintas, também representam diferentes níveis de gravidade no processo da doença. As causas observadas incluem influências naturais e sobrenaturais que não são mutuamente excludentes. Por exemplo, uma doença leve pode ser atribuída à exposição da criança ao frio, porém se a doença piora ou não responde aos tratamentos usuais, esta é uma razão para se acreditar que a causa é sobrenatural.

a.1) Rumarisu

Segundo as mães de Quwari, rumarisu é uma das doenças mais comuns e geralmente se qualifica como leve. No entanto, em recém-nascidos e crianças de pouca idade, pode ser grave e causar a morte em poucos dias de sua manifestação. Em contraste, em crianças maiores de dois anos, as mães a consideram como pasalan (passageira), razão pela qual quase não recebe tratamento. Segundo os sintomas que caracterizam a doença rumarisu – espirros, nariz entupido, corrimento nasal, febre e perda de apetite – pode-se dizer que é similar a um resfriado comum. Os seguintes termos em quechua são exemplos dos achados “clínicos” do rumarisu:

• Achis achis ninku- “achís achís”, dizem (espirro); • Sinqanmanta qhuña mana sayanchu- não podem segurar seu catarro;

• K’ajan- está queimando;

• Mana valorsitun kanchu- não tem valor nem força.

a.2) Peste

As mães consideram a peste como um grau de complicação do rumarisu.

Descreve-se como um rumarisuque se agravou e se apresenta com ronqueira, ardor na garganta e diarréia. Como o rumarisu, a peste se qualifica de grave* para as crianças menores de um ano e leve/moderada* para crianças de mais idade (* critérios subjetivos de classificação). Os seguintes são alguns dos termos incluídos como parte dessa “complicação”:

• K’ajan- está queimando; • Ansaqin- está agitado;

• Rumarisu- gripe;

• Kusiyanku- diarréia;

• Kunkitan k’aran- a gargantinha arde;

• Calorwan kanku- está com calor.

aiepi_1p_part2 3/20/03 2:12 PM Page 385 a.3) K’aja unquy

O sintoma principal de k’aja unquyé a temperatura interna alta que se manifesta com a respiração acelerada. Em crianças de pouco idade, sua gravidade se manifesta pela “boquinha seca” e as “bolinhas” que brotam na boca. Em crianças de maior idade, aumenta a temperatura e a respiração se acelera. O “descuido” pode se converter em tosse crônica ou apresentar uma recaída, que causa preocupação às mães, já que seu tratamento costuma ser mais difícil. Alguns dos termos são:

• Simisitun ch’akin- a “boquinha” está seca; • K’ajan- está queimando;

• Calorwan kanku- está com calor;

• Ansaqin- está agitado.

a.4) Ch’uju unquy

Esta doença manifesta-se principalmente em crianças maiores de um ano, e é relacionada com causas sobrenaturais, tais como mancharisqa (susto que causa a separação da alma do corpo na criança); ayasqa (doença produzida pela presença de animais mortos), e pachamama ou “Mãe Terra” (que leva a alma da criança quando dorme em lugares estranhos, se é deixada sozinha sem proteção ou chora fora de seu meio conhecido). Os sinais e sintomas que mais se observam são a temperatura alta e a aparição da tosse. Em algumas oportunidades, as doenças respiratórias se manifestam com diarréia. Termos próprios dessa entidade são:

• Kunkitan k’aran- a gargantinha arde; • K’ajan- está queimando;

• Libre ansaqin- se agita mais;

• Vómitos- vômitos;

• Sh’uju apuran- tosse muito seguidamente;

• Calorwan kanku- está com calor; a.5) Coqueluche

Essa doença causa enorme preocupação nas mães. Quando se manifesta com hemorragia nasal, relaciona-se diretamente com as causas sobrenaturais, tais como pachamama. Quase nunca se chega a esses níveis de gravidade na comunidade, salvo em casos extremos; as mães crêem que ela se deve ao descuido da mãe. Alguns dos termos empregados:

• K’ajan - está queimando; • Aswanta ch’ujunku- tosse mais e forte;

• Vómitos- vômitos;

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• Libre ansaqin- se agita mais; • Kunkitan ansaqin- a gargantinha arde;

• Tuta mana puñun atinkuchu- de noite não pode dormir;

• Tusisqanpi ch’inyarparin- ao tossir se cala.

a.6) T’uku Uju

Esta doença se caracteriza pela agudização da tosse, a qual produz “desmaios momentâneos”, “estiramentos para trás” e a “cor arroxeada da pele”. Nestes casos, as mães asseguram que as crianças somente podem ser curadas com tratamentos “simbólicos”:

• Killillata wijch’ukun- ao desmaiar, torna-se arroxeado; • Kasqallampi ujllata estirakun- de repente se estira;

• K’ajan- está queimando;

• Ch’uju apuran- tosse muito seguidamente;

• Tusisqanpi ch’inyarparin- ao tossir se cala.

a.7) Ch’aki uju

O nome significa tosse seca, também reconhecida como pulmón unquy (doença do pulmão). Segundo opinam as mães, é a única doença que apresenta tosse crônica sem respiração acelerada nem temperatura alta, tendendo a prolongar-se por muito tempo. Apresenta-se freqüentemente em adultos e algumas vezes em crianças maiores de três anos. Os seguintes termos designam algumas de suas características:

• Q’iya bolasta thuqamun- cospe bolas de catarro; • Kunkitan k’aran- a gargantinha arde;

• Ch’uju apuran- tosse muito seguidamente;

• Aswanta ch’ujunku- tosse mais forte.

a.8) Correspondência de doenças, sinais e sintomas com pneumonia clínica:

Quwari (ver Quadro 2) As entrevistas realizadas mostrando crianças com diferentes sinais e sintomas de

IRA, filmadas em vídeo, assim como as entrevistas realizadas em clínicas, foram realizadas para determinar a correspondência entre as terminologias locais e os sinais físicos reais. O quadro mostra os termos dos sinais e sintomas clínicos chaves usados pelas mães de Quwari.

b) Comunidade Jayuma Llallagua

As mães de Jayuma Llallagua reconheceram cinco doenças diferentes, caracterizadas por sinais e sintomas de IRA. Da mesma forma que as mães de Quwari, as de Jayuma Llallagua

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Infecções respiratórias em crianças388 crêem que os sintomas de IRA poderiam ser originados tanto por causas naturais (ar frio, água fria, contágios e mudanças repentinas de temperatura) como por causas sobrenaturais.

O thayan pasjataou “passado pelo frio” refere-se ao resfriamento pela umidade e pelo frio, provocado pelo agasalhamento insuficiente, uma corrente de ar circunstancial, chuva, roupas molhadas, por brincar com água fria e pela ingestão de líquidos frios. Esse tipo de resfriamento pode se localizar em uma determinada área do corpo, por exemplo no pulmão, no peito, na garganta ou na cabeça, e a origem dele seria sua inflamação. As doenças atribuídas às causas naturais incluem pisti, Ch’uxu, Kustipa e k’aja ch’uxu.

b.1) Pisti

Pisticorresponde à gripe ou ao catarro, basicamente no que se refere ao nariz tampado, dor de cabeça, tosse leve e temperatura moderada. Considera-se uma doença leve e não é grande motivo de preocupação, já que ocorre às vezes de um modo natural. No entanto, se não for curada oportunamente, agrava-se e pode resultar em sh’uxu, K’aja ch’uxu ou Kustipa.Entre os vocábulos para descrever os sinais, encontram-se:

• Jach’is jach’is jurmaniw- espirro que libera muco; • P’iqi usu- dor de cabeça,

• Tumpa calentura- um pouco quentura;

• Aliq ch’uxu- tosse comum.

b.2) Ch’uxu

Ch’uxupode ser considerado como um agravamento da pisti. Essa doença se manifesta com muita tosse seca e temperatura mais alta. Não está associada a respiração rápida nem difícil. Sinais característicos podem ser:

• Manqha calentura- quentura interna; • Mallq’a ch’ajantata- a garganta ronca;

• Pisti- catarro;

• Janiw ñuñxiti- já não mama;

• Janiw ch’uxsuñ puedxiti- não pode tossir.

b.3) K’aja ch’uxu

K’aja ch’uxuse caracteriza por tosse persistente e seca, temperatura interna alta e respiração rápida e difícil. A tosse forte leva a uma queda do estado geral pelo esforço constante que requer, o que impede a respiração normal. Nos casos mais graves, esta situação pode levar ao “desmaio”. Quando o K’aja ch’uxuchega à sua fase mais grave, apresenta-se com qhurqhuski(“ronqueira aguda”), ayquski(gemidos com assobio) e aras(assobio com espuma), os quais anunciam uma situação quase irreversível. Entre os sinais próprios de k’aka ch’uxuestão:

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• K’aj k’aj ch’uxsusa muraduk tuku- tossindo k’aj K’aj se torna arroxeado; • Wal samaqi- respira muito;

• Walja manqha calentura- temperatura interna alta;

• Wilamp ch’uxuni- tosse com sangue;

• Janiw sum samsuniñ puedxiti- já não pode respirar bem.

b.4) Kustipa

Kustipatem vários sintomas comuns com a K’aja ch’uxu, mas se diferencia desta pela impossibilidade de tossir. Esta última se manifesta através de um “congestionamento” que pode provocar hemorragias nasais devido às “feridas” do cuyma(pulmão). As mães concluem que tem, além disso, um som característico, “como uma lata velha”. Entre as causas desta doença estão o sol, a água, o vento frio e também a fumaça; porém estas causas se superpõem a doenças ou a sintomas que já se haviam manifestado, portanto, kustipaé considerada como o agravamento ou “recaída” de outras doenças respiratórias subjacentes.

• Wilampa ch’uxuni- tosse com sangue; • Nasat willaw sari- sai sangue pelo nariz;

• Janiw sum ch’uxsunxiti- já não tosse bem;

• Ratwkiy samanix- respira rápido.

b.5) Saxra

A doença Saxra, em contraste, não é produzida por uma desarmonia física ou corporal, mas aparece por causas sobrenaturais ou “extra-humanas”. Trata-se de algum tipo de espírito que reclama a vida de um recém-nascido e que servindo-se de algum fenômeno ou elemento físico (vento, água, um lugar ruim, entre outros) desencadeia uma série de sintomas que são caracterizados por uma ação violenta que em poucas horas pode tirar a vida da criança. Em sua etapa terminal, aparece a doença k’aja ch’uxu, mas sem tempo suficiente para que se apresentem o ayquskinem o qhurqhuski. Pode ser diretamente atacada pelo aras. Um dos sintomas que as mães observam como inconfundível para essa doença apresenta-se como faixas de cor verde escura, como se o doente tivesse sido flagelado. Sinais presentes em saxrasão:

• Lakapax muraduki tuku- sua boca se torna arroxeada; • Manqha calentura- quentura interno;

• Ratukiw samanix- respira rápido;

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