Resultados de estudos etnográficos emrelação ao controle das ira na bolívia

Resultados de estudos etnográficos emrelação ao controle das ira na bolívia

(Parte 2 de 3)

• Pichupaw pharaqi- seu peito está “saltando”;

• Vomitañakiw muni- ânsia de vômito;

• Ajayumpi- com o susto;

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Infecções respiratórias em crianças390

• Ch’uxña wich’uchu (kursiya)- diarréia verde; • Ch’uxu- tosse.

b.6) Correspondência de doenças, sinais e sintomas com pneumonia clínica:

Jayuma Llallagua (ver quadro 5) Para determinar que doenças, sinais e sintomas descritos entre a gente de Jayuma

Llallagua correspondem parcial ou totalmente à pneumonia clínica, foram feitas entrevistas em clínicas e nas comunidades. Nestas últimas foram apresentados vídeos com mostras de crianças que apresentavam vários sinais e sintomas de IRA.

c) Cidade de Alto de La Paz

A população da cidade de Alto de La Paz é heterogênea. Em sua maioria, são migrantes das comunidades aymaras assentadas desde muitos anos, e o resto pertence a classes médias urbanas, incluindo ex-mineiros relocalizados e o represamento da cidade de La Paz, ambos grupos que receberam casas.

Da investigação realizada com as mães da cidade de Alto de La Paz foram identificadas cinco expressões para designar as doenças, e 2 sinais e sintomas, além de suas causas e tratamentos; esses foram confirmados e ampliados nas entrevistas sucessivas. Desde o início, notou-se a carência de termos para designar doenças e sinais relacionados às crenças naturais, já que há um esforço natural para transferir os termos nativos à língua espanhola. As doenças que foram reconhecidas são tosse, febre, k’aja ch’uxu, tosse com gripe e coqueluche.

c.1) Tosse

A maioria das mães menciona esta dentro de vários tipos de tosse, mas que se refere a uma mesma categoria. Para a descrição sob o termo tosse têm sido incluídos os seguintes apelativos: tosse de sol e tosse de frio, que se referem às possíveis causas dessa doença; tosse com sangue, tosse seca e tosse com catarro, que melhor indicam sinais e sintomas ou o grau de gravidade dessa doença. Alguns dos sinais encontrados com mais freqüência:

• “a garganta soa”; • “a garganta se inflama”;

• “cospe com catarro”;

• “a garganta está tapada”;

• “o peitinho afundado”.

c.2) “Quentura” ou “temperatura”

Essa doença é ambigüa, já que algumas vezes se apresenta como doença e outras vezes como sintoma de outras doenças. Entre as mães, algumas parecem distinguir a aiepi_1p_part2 3/20/03 2:12 PM Page 390 temperatura da quentura, e outras utilizam ambos os termos indistintamente. Os sinais e sintomas mencionados para esses termos são muito parecidos, razão pela qual foram incluídos dentro de uma só categoria, tomando cinco sinais dos mais comuns:

• “quentura”; • “respiração queimante”;

• “respira forte”;

• “está movendo a barriguinha”;

• “está como que tragando o ar”.

c.3) K’aja Ch’uxu

Esse termo Aymara corresponde literalmente a uma doença de tosse e quentura reconhecida pelas mães em várias oportunidades sob os nomes de k’aj k’aje k’aja usu. Preferiu-se o termo k’aja ch’uxu porque é o que descreve melhor a doença de tosse acompanhada de quentura, embora todos os outros termos também indiquem algo de quentura e tosse. As mães traduzem para o espanhol este termo, usando apenas tosse ou tosse com k’aja.

• “a tosse quer fazê-lo calar”; • “tosse forte”;

• “torna-se arroxeado”;

• “tem arasa”;

• paletilljata(o externo está afundando).

c.4) Tosse com gripe

As mães reconhecem essa doença como a mais comum e menos grave, já que indica que as crianças costumam “deixá-las pra lá” sem maiores problemas. No entanto, em recém-nascidos, essa doença pode ser grave. O nariz tapado ou t’isié o sinal mais comum, ainda quando se reconhece como “tosse do resfriado”, o muco aquoso é freqüente, acompanhado de dores de cabeça. Em algumas ocasiões, a tosse pode se complicar e causar inflamação na garganta Geralmente, essa doença causa um malestar geral no corpo, razão pela qual as crianças choram. Os termos que são encontrados mais comumente são:

• “tem muco”; • tosse;

• nariz tapado ou t’isi(“muco seco”).

Resultados de estudos etnográficos em relação ao controle das IRA na Bolívia391 aiepi_1p_part2 3/20/03 2:12 PM Page 391 c.5) Coqueluche

Poucas são as mães que mencionaram essa doença. No entanto, foi levada em conta devido a sinais particulares de pneumonia que apresenta. As mães a relacionaram com K’aja ch’uxu pela tosse persistente. As expressões “dói o peitinho” e ayquski são usadas pelo esforço que os doentes fazem ao tossir, acompanhando-se algumas vezes de vômitos. O sinal “já não pode respirar” é o único que se refere à respiração difícil observável em crianças ao tragar o ar, o que indica a falta de oxigênio. Os sinais clínicos que se encontram mais freqüentemente são:

• “dói o peitinho”; • vomitos;

• “já não quer respirar”;

• ayquski (ruído queixoso produzido por uma dor constante).

Os resultados de estudos etnográficos têm por objetivo facilitar o desenvolvimento do

Programa de Controle das IRA. Este tipo de investigação deve prover aos encarregados do programa as recomendações para uma comunicação apropriada com as mães de crianças de pouco idade, e em particular, conselhos efetivos concernentes aos cuidados no domicílio para crianças com tosse ou respiração dificultosa. Mais ainda, ao ajudar a identificar fatores que facilitam ou obstaculizam a busca imediata de um provedor capacitado para o tratamento padrão de casos de IRA e/ou pneumonia, estes estudos podem ajudar ao programa de IRA a orientar seus esforços apropriadamente.

Na Bolívia, os resultados deste estudo etnográfico foram usados para adequar as recomendações gerais dos cuidados no domicílio propostos pela OPAS/OMS nas tabelas de tratamento da publicação “Controle e Tratamento de Crianças com Tosse ou Respiração Difícil”. Tais recomendações se resumiam em alimentar à criança, aumentar a quantidade de líquidos, acalmar a dor de garganta, aliviar a tosse com remédios adequados, e buscar atenção em um provedor capacitado se a criança tem respiração rápida ou difícil, se não pode tomar líquidos ou piora seu estado geral.

As sessões mais importantes, por sua vez, foram aquelas que contêm os termos locais a respeito dos sinais e sintomas de pneumonia, como aparecem nos anexos deste capítulo. Além disso, tende-se a promover certas práticas de cuidado no lar identificadas durante a investigação, como o uso de ervas-mates para a tosse e a febre. Por outro lado, tem-se advertido dos perigos das práticas nocivas, como o uso do querosene e as pomadas mentoladas derretidas.

Algumas práticas importantes de cuidados no domicílio, tais como continuar alimentando a criança, mantê-la abrigada e limpar o seu nariz se a congestão interfere com a alimentação, encontraram-se já como práticas comuns nas comunidades estudadas. Por essa razão, tais

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Resultados de estudos etnográficos em relação ao controle das IRA na Bolívia393 comunidades não necessitam realmente enfatizar estas práticas nos conteúdos da educação em saúde. Ao contrário, o esforço deve ser dirigido a melhorar o reconhecimento dos primeiros sinais de pneumonia e a necessidade imediata de buscar provedores de saúde capacitados.

Além de adaptar os conselhos de cuidados no lar, os resultados dos estudos etnográficos provêm um número de recomendações concernentes ao melhoramento do tratamento e controle das IRA:

a)O Programa Nacional de IRA deve dar prioridade à instrução do pessoal de saúde que disposto a permanecer por um período prolongado na mesma comunidade. As mães parecem confiar e visitar menos aos médicos que permanecem na área temporariamente, somente para cumprir com os serviços sociais requeridos pelos seus estudos; e preferem pessoal com vários anos de experiência e que, além disso, falem o idioma local. Potencialmente, esse pessoal sanitário com alta formação têm mais impacto sobre a mortalidade por pneumonia que os próprios doutores. b)Para aquelas parteiras tradicionais que já recebem instrução na prática do parto limpo, seria fácil e útil incluir um componente sobre o reconhecimento dos sinais de pneumonia e doença grave nas crianças. c)O pessoal de saúde deve incentivar as mães na busca de cuidados por parte dos provedores de saúde com capacitação, assim que apresentem os sinais da chamada saxraou de outras doenças graves produzidas por “causas sobrenaturais”. No entanto, como as mães tendem a buscar primeiro os conselhos dos curandeiros tradicionais, o Programa Nacional de IRA deve explorar a possibilidade de ensinar aos curandeiros tradicionais a referir as crianças com sinais de pneumonia ou doença grave aos serviços de saúde da área. d)Na comunicação com as mães, deve-se ensinar ao pessoal de saúde a não usar o termo

“IRA” como se fora uma só doença. IRA refere-se a um grupo amplo de doenças que talvez as mães não considerem como uma “classe” de doenças, o que poderia tender a confundi-las. e)O pessoal de saúde deve ensinar as mães a observar os sinais de dificuldade respiratória (respiração rápida e retração) para inferir corretamente quando as crianças estão gravemente doentes.

Os resultados dos estudos etnográficos têm servido para modificar os conselhos a respeito dos cuidados no lar, os quais têm sido reproduzidos em cartazes e folhetos utilizados pelos trabalhadores de saúde nos serviços de primeiro nível. Os resumos dos achados etnográficos também têm sido descritos e serão usados como apêndice na instrução de trabalhadores de saúde no módulo de comunicação “Falando com as mães”, desenvolvido pelo Programa de Controle das IRA da OPAS/OMS. Em tal módulo, são estabelecidos achados chave dos estudos etnográficos e sua importância para a comunicação efetiva com as mães ou os encarregados das crianças com IRA.

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Baseando-se no princípio de que o manejo apropriado dos casos de IRA é o único meio efetivo para reduzir a mortalidade por pneumonia, pode-se inferir de estudos como o resumido neste capítulo que, para propiciar o desenvolvimento dos serviços de saúde e as atividades de comunicação a fim de que facilitem a busca imediata de atendimento para as crianças com os primeiros sinais de pneumonia, os programas precisam atender as condições sob as quais as famílias tratam essas doenças nas comunidades. Ainda mais importante e necessário é identificar os obstáculos que se opõem à busca de cuidados por parte dos pais ou responsáveis pelas crianças doentes; estes obstáculos ou barreiras culturais podem ser superados com as atividades do programa de controle das IRA.

Espera-se que os estudos etnográficos contribuam para aumentar o interesse de indivíduos e organizações preocupados com a saúde, nos contextos sociais e culturais nos quais trabalham. Em particular, esse tipo de estudo provê um exemplo claro de como uma investigação sistemática de estudos etnográficos pode-se traduzir em recomendações concretas a fim de superar as brechas sociais e de comunicação que ocorrem freqüentemente entre o pessoal de saúde e as comunidades às quais servem.

1. Huanca, Tomas e col. Investigación de infecciones respiratorias agudas: “Estudio etnográfico sobre conocimientos y prácticas en IRA” (Informe Final). Comunidades Quwari e Jayuma Llallagua, 1991.

2. Estudios etnográficos en la ciudad de El Alto sobre infecciones respiratorias agudas (IRA). Distrito I de El Alto de La Paz, zonas Kupi Lupaka, Oro Negro y Amor de Dios, 1992.

3.Ministerio de Previsión Social y Salud Pública, Dirección Nacional de Atención a las Personas.

UNICEF-0PS/OMS. Estudio etnográfico sobre conocimientos y prácticas relacionados con las infecciones respiratorias agudas (IRA) en dos comunidades de Bolivia. La Paz, Bolívia, 1992.

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VII. ANEXOS aiepi_1p_part2 3/20/03 2:12 PM Page 395

Quadro 1: Modelo explicativo de Quwari DOENÇA GRA VIDADE SINTOMAS CAUSAS TRA TAMENTO

RAMARISUleve• achhis achhis ninhku• resfriadochás • singanmanta qhyña mana sujetanchu• contágiofricções

• k’ajanbanhos

• mana valorcitun kanchutabletes

PESTE leve/intermediária • k’ajan • recaídas chás • rumarisu• descuidofricções

• kusiyankubanhos

• kunkitan k’aran

K’AJA UNQUYleve/intermediária• simisitun ch’akin• resfriadoschás • k’ajan• descuidobanhos

• calorwan kankuemplastros

• ansaqincalor local

CH’UJU UNQUYintermediária/grave• kunkitan k’aran• leite maternochás • k’ajan• bebidas friasfricções

• libre ansaqin• mancharisqabanhos

• chu’uju apuranemplastros

• calorwan kanku

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Quadro 1 (Cont.) DOENÇA GRA VIDADE SINTOMAS CAUSAS TRA TA MENTO

COQUELUCHEgrave• aswan ch’ukunku• resfriadoschás • libre ansaqin• pachamamaemplastros

• kunkitan k’aran• jap’iqacalor local

• tuta mama puñuy atinkuchutratamentos simbólicos

• tusisqanpi chi’iny arparin

T’UKU UJUgrave• kasqallanpi ujilata estrirakuna• jap’iqachás • kullillata wijch’ukun• ayasqatratamentos simbólicos

• k’ajan• unquy purinbanhos rituais

• ch’uju apuran

• tusisqanpi ch’inyarparin

CH’AKI UJUgrave• q’iya bolasta thuqhamun• resfriadoschás

Quadro 2: Correspondência com sinais clínicos SINAL CLÍNICOEXPRESSÃO QHISWA

Respiração rápida• ansaqin(está agitado)

• sayk’un(se cansa) • apurata saman(respira rápido)

• wisitan apurata kuyun(a barriguinha se afunda e se levanta)

Respiração difícil• n’akayata saman(apenas respira) • samaynin ch’usajchkun(a respiração se acaba)

Respiração ruidosa• arqbin(ruído que indica esgotamento) (sibilância, estridor)• qhurqusan(ruídos parecidos à ronqueira porém mais agudo) • aras(ruído produzido pela interferência de espuma na boca)

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Quadro 3: Conselhos de cuidado em casa para a criança com tosse: Qhiswa SINAIS DE PERIGO: Se a criança apresentar quaisquer dos sintomas seguintes, levá-la prontamente ao médico:

• Ñak’ayta saman(apenas respira) • Apurata saman(respira rápido)

• Ansaqin(está agitada)

• Samaynin ch’usajchkun(a respiração se acaba)

• Sayk’un· (se cansa)

• Wisitan untuj kuyun(a barriguinha se afunda e se levanta)

• Wisitan apurata kuyun(a barriguinha se move rápido)

• Aras(ruído produzido pela interferência da espuma na boca)

• Arqhin(ruído que indica esgotamento)

• Qhurqusan(ruído parecido à ronqueira, mas mais agudo)

Se a mãe pensa que a criança tem ayasqa, saxra ou mancharisqa,deve levá-la ao médico e ao jampiri(curandeiro) imediatamente; uma cura pelos dois é melhor.

• Amamentar com mais freqüência; • À criança maior de 4 a 6 meses, dar também muito líquido, por exemplo chás de eucalipto, agrião e muni • Quando estiver melhor, dar-lhe comida adicional durante uma semana;

• Limpar-lhe o nariz com gotinhas de leite, camomila e água com sal;

• NUNCA usar tawañunem phusuqullupara desobstruir o nariz.

• Dar-lhe chás de eucalipto e muni; • Usar emplastros e cataplasmas, bolsas de água quente e folhas de eucalipto.

• NUNCA usar querosene nem creolina para curar as crianças; estes produtos são venenosos e muito perigosos;

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