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Esta pesquisa foi desenvolvida em 1998 por um grupo de cinco professores de

Química e nove alunos que se reuniam semanalmente em uma disciplina optativa anual do curso de licenciatura. O projeto foi elaborado por um dos professores e submetido à discussão no grupo, com a seguinte questão de pesquisa: Quais são os objetivos de se fazer atividades experimentais no ensino médio?

Da mesma forma que o projeto, o instrumento de coleta de dados foi submetido a discussões no grupo, sendo reorganizado a partir delas. Coletamos os dados por meio de um questionário contendo 32 questões, em que foram atribuídos valores de 0 a 5 a diferentes objetivos (Anexo 1). Foram recolhidos 32 questionários de alunos e 18 de professores do curso.

A análise dos dados iniciou-se em aula paralelamente a leituras e discussão de referencial teórico relativo ao tema. As respostas foram classificadas em quatro grupos: desenvolver o saber (conhecimento conceitual); desenvolver o saber fazer (conhecimento procedimental); desenvolver o ser (conhecimento atitudinal); desenvolver o saber e o saber fazer.

Chegamos ao final da disciplina com a construção de um referencial teórico sobre o tema e com uma análise preliminar dos dados. A análise aqui apresentada foi feita a posteriori. Todos os alunos foram convidados a participar da continuação da pesquisa, mas apenas um deles se mostrou interessado e integra o corpo de autores, o que indica um dos limites da própria proposta de pesquisa coletiva.

5. Análise dos dados

Na análise de dados, os valores atribuídos às diferentes questões foram reordenados em três grupos. Os valores 0, 1 e 2 foram reunidos no grupo “FRACO” (significando que as atividades experimentais no ensino médio não têm aqueles objetivos). O valor 3 foi denominado de “REGULAR”. O valor 4 foi chamado de “BOM”. E o valor 5 formou o grupo denominado de “ÓTIMO”. Esse procedimento foi realizado em função do pequeno número de respostas 0, 1 e 2 (1% das respostas).

Um primeiro aspecto a ressaltar é que o problema de pesquisa remetia à análise dos objetivos de uma atividade experimental no ensino médio e isso era destacado no instrumento de coleta de dados, mas as discussões em sala de aula mostraram que muitos dos sujeitos investigados responderam sobre os objetivos das atividades experimentais no contexto de sua atuação, que é o ensino universitário.

A alta pontuação que receberam as atividades experimentais, considerando todos os sujeitos pesquisados – professores e alunos – reforça nosso argumento de que professores e alunos de Química pouco se questionam sobre as atividades experimentais. Foi expressivo o número de objetivos considerados ótimos e bons (72% das respostas ), como pode-se ver na Tabela 1, embora algumas das questões do questionário fossem antagônicas.

Tabela 1 – Pontuação de cada objetivo das atividades experimentais no ensino médio

Além das atividades experimentais serem muito valorizadas, a análise dos resultados mostra também uma diferenciação das respostas dos alunos do primeiro ano do curso em relação aos demais. Estes (10 alunos) atribuem valores mais altos à experimentação, como pode-se perceber na Tabela 2.

Os objetivos das atividades experimentais no ensino médio. Fraco Regular Bom Ótimo

Ciência & Educação, v.7, n.2, p.249-263, 2001 255

Tabela 2: Comparação da pontuação atribuída pelos alunos do primeiro ano com os demais pesquisados

Esse resultado pode ser atribuído à expectativa dos que ingressam na universidade com relação às aulas práticas devido a sua ausência no ensino médio. Um número menor de alunos pode ter motivação para as atividades experimentais, justamente pelo tipo de aula experimental que teve na educação básica1.

A partir dos resultados, podemos inferir também que, com a vivência desse tipo de aula na graduação, os alunos se tornam mais críticos. Esse aspecto pode ser observado a partir dos resultados apresentados na Tabela 3.

Tabela 3 – Pontuação dos objetivos por grupo de alunos e professores pesquisados

Percebe-se a diferença entre as valorações atribuídas pelos professores das Ciências

Experimentais (7% atribuem notas 4 e 5) e pelos professores das Ciências Sociais (45% atribuem notas 4 e 5). Dos resultados, pode-se depreender que os professores das Ciências Experimentais (no curso pesquisado são professores de Química) acreditam mais na experimentação do que os demais sujeitos respondentes. Quando se comparam os resultados de professores e alunos, os primeiros consideram as atividades experimentais mais efetivas, para aprender. Essa conclusão pode ser feita pelo baixo percentual na classe FRACO, como pode-se observar na Tabela 4 a seguir:

Objetivos das atividades experimentais no ensino médio Fraco Regular Bom Ótimo

Objetivos das atividades experimentais no ensino médio FracoRegularBom e Ótimo

Segundo Ano (5)2%17%60% Terceiro Ano (12) Quarto Ano (5)

Professores de disciplinas experimentais (13) Professores de Ciências Sociais (5)

Tabela 4 – Pontuação dos objetivos por categoria de professores e alunos

Uma interpretação possível, no caso dos professores das Ciências Experimentais, é que, em geral, acreditam nas atividades experimentais e na sua importância para a aprendizagem, sem nunca questioná-las. Esses conceitos sobre a experimentação foram construídos ao longo de sua vivência profissional e eles pouco refletem sobre os objetivos desse tipo de aula.

Com relação a questões específicas, embora as respostas tenham sido próximas de 5, cabe olhar para aquelas com valorações mais altas, tanto quanto para as que obtiveram valores mais baixos. Esses dados estão apresentados na tabela 52:

Tabela 5 – Pontuação alcançada em cada objetivo

Os objetivos das atividades experimentais no ensino médioFracoRegularBomÓtimo

Professores de Ciências experimentais

2 Chamou-se de % Máximo, a soma que cada item alcançou dividido por 250 que é o número de respondentes (50) multiplicado pelo valor máximo possível de ser atribuído a uma questão que era 5.

Ciência & Educação, v.7, n.2, p.249-263, 2001 257

Apresentamos, a seguir, em cada categoria de análise, quais objetivos foram mais e menos valorizados, respectivamente.

Na categoria saber (conhecimento conceitual), questões de 1 a 12 do questionário, destaca-se a questão 2 (0,91) que afirma que as atividades experimentais possibilitam

aprender conceitos científicos por meio da prática. Na mesma categoria, as questões 3 (0,72) e 12 (0,68) que afirmam, respectivamente, que a atividade experimental deveria verificar fatos e princípios estudados teoricamente e fazer a prática para ver a teoria, obtiveram os valores mais baixos dentre estas questões.

Na categoria saber e saber fazer (conhecimentos conceituais e procedimentais) destacam-se positivamente as questões 13 (0,85) e 17 (0,87). Neste grupo, a questão16 (0,70) obteve menor pontuação. A questão 13 diz que as atividades experimentais deveriam

contribuir para o aluno deduzir a teoria. A questão 17 diz que as atividades experimentais deveriam auxiliar o aluno a propor hipóteses para solucionar os problemas sugeridos, enquanto a questão 16 aponta para julgar a qualidade de um plano experimental.

Na categoria saber fazer (conhecimentos procedimentais) destacam-se, como mais valorizadas, as questões 18 (0,91) e 23 (0,93). A primeira diz que as atividades experimentais

deveriam desenvolver a observação, e a segunda, que deveriam desenvolver o raciocínio.

Ainda nessa categoria foram menos valorizadas as questões 20 (0,69), 24 (0,71), 25 (0,73) e 27 (0.64) que dizem, respectivamente, que as atividades deveriam contribuir para o aluno recolher rigorosamente os dados, aplicar o método científico, aprender técnicas de laboratório e usar computadores para a compilação de dados. Estas observações podem ser feitas a partir do gráfico a seguir:

Na categoria ser (conhecimento atitudinal) destaca-se negativamente a aprendizagem relativa à questão 31 (0,62). Esta diz que as atividades experimentais contribuem para manter um contato menos formal com os docentes. Na mesma categoria, teve destaque a questão de número 32 (0,8), que diz que a atividade experimental deveria contribuir para o aluno desenvolver a capacidade de trabalhar em grupo.

Ciência & Educação, v.7, n.2, p.249-263, 2001 259

6. Conclusões

A pesquisa coletiva em sala de aula de um curso de licenciatura nos leva a conclusões em dois âmbitos: um relativo aos resultados da pesquisa e outro à vivência de uma pesquisa coletiva.

Com relação ao primeiro, os resultados da pesquisa nos levam a considerar a importância de um trabalho como este na formação inicial, podendo ser um impulso para provocar a mudança de compreensão dos futuros docentes sobre suas próprias concepções e, na experiência aqui descrita, sobre os objetivos das atividades experimentais no ensino médio, em função das discussões ocorridas, do aprofundamento teórico que a pesquisa exigiu, dos relatórios elaborados pelos alunos.

Da análise também se pode concluir sobre a necessidade de discutir esse tema com os formadores. Algumas respostas dos investigados, como discordar da verificação de fatos, aprender os conceitos pela prática, recolher rigorosamente os dados, aplicar o método científico e aprender técnicas de laboratório, nos levam a considerar uma mudança no entendimento das atividades experimentais em relação à epistemologia empirista, que tem fundamentado muito fortemente ainda as aulas de professores das Ciências experimentais.

No nosso entender, essa mudança mostra que o grupo investigado considera a atividade experimental como um dos instrumentos possíveis de serem utilizados para a aprendizagem de Ciências no ensino médio, mas não o único. No entanto, a valorização da prática ainda aparece como elemento único de construção da teoria. Neste segundo caso, existe a separação entre aulas teóricas e práticas. Então, é preciso primeiro fazer a prática para depois ver a teoria, ou seja, a prática estruturando a teorização, como se não existisse teoria ao se fazer a prática.

Por outro lado, algumas questões, que atualmente surgem na literatura como importantes no ensino de Ciências, não foram salientadas pelos pesquisados. Isso se pode depreender pelas valorizações baixas dadas às questões como julgar a qualidade de um plano experimental, apreciar o papel do cientista em uma investigação, ter uma visão de conjunto das diferentes ciências, detectar erros conceituais, entender a natureza das Ciências.

Além disto, se o ensino de Ciências tem por objetivo desenvolver o aluno em todas as suas habilidades para torná-lo um sujeito mais capaz socialmente, ficam incoerentes as respostas que atribuam valorações opostas ao trabalho em grupo e ao contato menos formal entre discentes e professor.

Pode-se perceber, no entanto, que, apesar de este grupo ser um pouco mais crítico em relação às atividades experimentais, ainda seria importante refletir a respeito das concepções sobre o cientista. O objetivo que tratava das atividades experimentais, desenvolvendo atitudes científicas, bem como a consideração com as idéias de outras pessoas, a objetividade e a cautela para não emitir juízos apressados, recebeu pontuação alta como se as qualidades apontadas na questão fossem inerentes ao cientista. Dito em outras palavras, basta ser cientista para ser objetivo, cauteloso, capaz de ouvir as opiniões dos outros.

De outra parte, a pesquisa sobre as atividades experimentais tem apontado para o uso do computador como possibilidade de mudança (Giordan, 1999). Esse objetivo foi pouco valorizado pelos professores e alunos universitários, o que pode evidenciar a distância da própria academia dos resultados da pesquisa ou uma interpretação dos investigados sobre a inadequação do uso de computador na escola pois ainda são inexistentes.

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