Capitulo 6 Narração

Capitulo 6 Narração

(Parte 1 de 3)

Capítulo 6 Professor: Edson

Comunicação e Expressão

Capítulo 6 Professor: Edson

A Narração

Caro aluno:

Vamos, a partir de agora, analisar outro tipo de texto, igualmente importante: o texto narrativo. Então, pense um pouco: você se lembra de quando era pequeno e ouvia histórias?

Vivemos em meio a infinitas narrativas. Desde pequenos somos levados a ouvir e a contar histórias. Contamos o que acontece e o que poderia ter acontecido, assim como contamos, muitas vezes, o que desejamos que aconteça. Narramos casos de amor, de morte, de lutas, de mistérios. Relatamos o que aconteceu na novela, no filme, no livro que lemos. Contamos sonhos, piadas. Em cada uma das narrativas experimentamos, com maior ou menor intensidade, o gosto de contar. Transformamo-nos em outras personagens, transportamo-nos para outros lugares e tempos, vivemos outros destinos. Essa é a sedução do ato de narrar, tanto para quem conta como para quem lê. Uma história bem narrada faz-nos viver outros momentos. Cada narrativa é um convite a uma viagem, em que recriamos imaginariamente a existência. Vamos então identificar qual é diferença básica entre narrar e descrever e, para isso, leia atentamente o poema de Manuel Bandeira:

Poema tirado de uma notícia de jornal

João Gostoso era carregador de feira-livre e morava no morro da Babilônia, num barracão sem número Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro Bebeu Cantou Dançou Depois se atirou na lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado.

Capítulo 6 Professor: Edson

No início deste texto, temos a apresentação de quem era João Gostoso, todavia, não são as qualificações da personagem que têm maior importância, mas são as suas ações: um carregador de feira-livre chegou a um bar, bebeu, cantou, dançou e depois se suicidou. Repare que temos apenas algumas dicas de como era João Gostoso, mas nós não sabemos como era o bar e como era a lagoa; para termos essas informações o texto deveria ser descritivo, no entanto, o texto só atribui importância ao acontecimento das ações em si, o que o torna predominantemente narrativo.

Para construir um texto narrativo, é necessário que elaboremos algumas questões:

Portanto, narrar consiste em construir um conjunto de ações realizadas por personagens, em um determinado tempo e espaço, para a construção de uma história, que chamamos de enredo, cuja ação é contada por um narrador.

Quem participa nos acontecimentos? (personagens); O que acontece? (enredo); Onde e como acontece? (espaço, ambiente e situação dos fatos);

Quem narra? (narrador); Como? (o modo que os fatos aconteceram); Quando? (o tempo dos acontecimentos); Onde? (local onde se desenrolou o acontecimento);

Por quê? (a razão, motivo do fato).

Capítulo 6 Professor: Edson

Elementos Básicos da Narração Para falar sobre os elementos da narração, tomemos como base o texto a seguir:

Pausa

Às sete horas o despertador tocou. Samuel saltou da cama, correu para o banheiro, fez a barba e lavou-se. Vestiu-se rapidamente e sem ruído. Estava na cozinha, preparando sanduíches, quando a mulher apareceu, bocejando:

- Vais sair de novo, Samuel? Fez que sim com a cabeça. Embora jovem, tinha a fronte calva; mas as sobrancelhas eram espessas, a barba, embora recém feita, deixava ainda no rosto uma sombra azulada. O conjunto era uma máscara escura.

- Todos os domingos tu sais cedo - observou a mulher com azedume na voz.

- Temos muito trabalho no escritório – disse o marido, secamente. Ela olhou os sanduíches: - Por que não vens almoçar?

- Já te disse: muito trabalho. Não há tempo. Levo um lanche. A mulher coçava a axila esquerda. Antes que voltasse a carga,

Samuel pegou o chapéu:

- Volto de noite. As ruas ainda estavam úmidas de cerração. Samuel tirou o carro da garagem. Guiava vagarosamente, ao longo do cais, olhando os guindastes, as barcaças atracadas.

Estacionou o carro numa travessa quieta. Com o pacote de sanduíches debaixo do braço, caminhou apressadamente duas quadras. Deteve-se ao chegar a um hotel pequeno e sujo. Olhou para os lados e entrou furtivamente. Bateu com as chaves do carro no balcão, acordando

Capítulo 6 Professor: Edson um homenzinho que dormia sentado numa poltrona rasgada. Era o gerente. Esfregando os olhos, pôs-se de pé.

A gente

- Ah! Seu Isidoro! Chegou mais cedo hoje. Friozinho bom este, não é? - Estou com pressa, seu Raul! – atalhou Samuel.

- Está bem, não vou atrapalhar. O de sempre. – estendeu a chave. Samuel subiu quatro lanços de uma escada vacilante. Ao chegar ao último andar, duas mulheres gordas, de chambre floreado, olharam-no com curiosidade.

- Aqui, meu bem! - uma gritou e riu: um cacarejo curto. Ofegante, Samuel entrou no quarto e fechou a porta à chave. Era um aposento pequeno: uma cama de casal, um guarda-roupa de pinho; a um canto, uma bacia cheia d’água, sobre um tripé. Samuel correu as cortinas esfarrapadas, tirou do bolso um despertador de viagem, deu corda e colocou-o na mesinha de cabeceira.

Puxou a colcha e examinou os lençóis com o cenho franzido; com um suspiro, tirou o casaco e os sapatos, afrouxou a gravata. Sentado na cama comeu vorazmente quatro sanduíches. Limpou os dedos no papel de embrulho, deitou-se e fechou os olhos.

Dormir. Em pouco dormia. Lá embaixo a cidade começava a mover-se: os automóveis buzinando, as jornaleiras gritando, os sons longínquos.

Um raio de sol filtrou-se pela cortina, estampou um círculo luminoso no chão carcomido.

Samuel dormia; sonhava. Nu, corria por uma planície imensa, perseguido por um índio montado a cavalo. No quarto abafado ressoava o galope. No planalto da testa, nas colinas do ventre, no vale entre as pernas, corriam. Samuel mexia-se e resmungava. Às duas e meia da tarde sentiu uma dor lancinante nas costas. Sentou-se na cama, os olhos esbugalhados: o índio acabava de trespassá-lo com a lança. Esvaindo-se em sangue, molhado de suor, Samuel tombou lentamente; ouviu o apito soturno de um vapor. Depois, silêncio.

Às sete horas o despertador tocou. Samuel saltou da cama, correu para a bacia, lavou-se. Vestiu-se rapidamente e saiu.

Sentado numa poltrona, o gerente lia uma revista. - Já vai, seu Isidoro?

- Já – disse Samuel, entregando a chave. Pagou, conferiu o troco em silêncio. - Até domingo que vem, seu Isidoro – disse o gerente.

- Não sei se virei – respondeu Samuel, olhando pela porta; a noite caía.

- O senhor diz isto, mas volta sempre – observou o homem, rindo.

Samuel saiu.

Ao longo do cais guiava lentamente. Parou um instante, ficou olhando os guindastes recortados contra o céu avermelhado. Depois, seguiu. Para casa.

Moacyr Scliar (http://w.michiganprevestibular.com.br/site/content/artigos/detalhe.php ?artigo_id=17)

Capítulo 6 Professor: Edson

Você acabou de ler o conto Pausa de Moacyr Scliar. Vejamos como se apresenta a estrutura dessa narrativa.

Enredo

Um texto narrativo pode contar fatos fictícios ou verdadeiros. No caso do conto, Pausa, os fatos narrados são fictícios. Se fôssemos relatar os acontecimentos narrados no texto, poderíamos apresentá-los de forma bastante simples: “um homem sai de casa bem cedo, todos os domingos, e vai para uma espécie de pequeno hotel, ou pensão, onde permanece todo o dia. Após dormir por um longo tempo, acorda às sete horas da noite e volta para casa.” Todos os fatos apresentados no texto estão identificados nesse relato. O texto lido conta-nos um pequeno drama humano: a história de uma personagem – Samuel/Isidoro – que precisa sair de sua rotina, fugir da presença da esposa, do cotidiano que o aprisiona, para sonhar que vive aventuras e que corre livre por espaços sem fronteiras. O que essas constatações nos indicam a respeito da narrativa? Em primeiro lugar, que os fatos, embora presentes, podem significar muito pouco. A narrativa os amplia por meio da ficção. Assim, o que poderia ser contato como uma história curiosa sobre um homem que sai de sua casa, aos domingos, para dormir em um quarto mal cuidado, transforma-se em um drama humano que evidencia a angústia da personagem aprisionada pelas grades de sua vida medíocre.

O enredo pode ser organizado de diversas formas. Esta é a mais comum:

• Situação inicial: É a parte do texto em que são apresentadas algumas personagens e expostas algumas circunstâncias da história, como o momento e o lugar em que a ação se desenvolverá. Cria-se, assim, um cenário e uma marcação de tempo para as personagens iniciarem suas ações. Atente para o fato de que nem todo texto narrativo tem esta primeira parte: há casos em que já de início se mostra a ação em pleno desenvolvimento.

• Conflito: É a parte do texto em que se inicia a ação: por algum motivo, acontece alguma coisa ou algum personagem toma uma atitude que dá

(Parte 1 de 3)

Comentários