Linha Guia Hanseniase

Linha Guia Hanseniase

(Parte 1 de 3)

1ª Edição SECRETARIA DE ESTADO DE SAÚDE DE MINAS GERAIS Belo Horizonte, 2006

MINAS GERAIS. Secretaria de Estado de Saúde. Atenção a saúde do adulto: hanseníase. Belo Horizonte: SAS/MG, 2006. 62 p.

1. Saúde do adulto - hanseníase. 2. Hanseníase - Atenção à Saúde do Adulto.I.Título.

GOVERNO DO ESTADO DE MINAS GERAIS Governador Aécio Neves da Cunha

SECRETARIA DE ESTADO DE SAÚDE DE MINAS GERAIS Secretário Marcelo Gouvêa Teixeira

SUPERINTENDÊNCIA DE ATENÇÃO À SAÚDE Superintendente Benedito Scaranci Fernandes

GERÊNCIA DE ATENÇÃO BÁSICA Gerente Maria Rizoneide Negreiros de Araújo

GERÊNCIA DE NORMALIZAÇÃO DE ATENÇÃO À SAÚDE Gerente Marco Antônio Bragança de Matos

COORDENADORIA DO PROGRAMA DE DERMATOLOGIA SANITÁRIA Coordenador Maria Aparecida de Faria Grossi

Aporte financeiro Este material foi produzido com recursos do Projeto de Expansão e Consolidação da Saúde da Família - PROESF

Projeto gráfico e editoração eletrônica Casa de Editoração e Arte Ltda.

Ilustração Mirella Spinelli

Produção, distribuição e informações Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais Rua Sapucaí, 429 – Floresta – Belo Horizonrte – MG – CEP 30150 050 Telefone (31) 3273.5100 – E-mail: secr.ses@saude.mg.gov.br Site: w.saude.mg.gov.br

Ana Regina Coelho de Andrade

Maria Aparecida de Faria Grossi Maria do Carmo Rodrigues de Miranda

COLABORADORA Maria Ana Araújo Leboeuf

A situação da saúde, hoje, no Brasil e em Minas Gerais, é determinada por dois fatores importantes. A cada ano acrescentam-se 200 mil pessoas maiores de 60 anos à população brasileira, gerando uma demanda importante para o sistema de saúde (MS, 2005). Somando-se a isso, o cenário epidemiológico brasileiro mostra uma transição: as doenças infecciosas que respondiam por 46% das mortes em 1930, em 2003 foram responsáveis por apenas 5% da mortalidade, dando lugar às doenças cardiovasculares, aos cânceres e aos acidentes e à violência. À frente do grupo das dez principais causas da carga de doença no Brasil já estavam, em 1998, o diabete, a doença isquêmica do coração, a doença cérebro-vascular e o transtorno depressivo recorrente. Segundo a Organização Mundial de Saúde, até o ano de 2020, as condições crônicas serão responsáveis por 60% da carga global de doença nos países em desenvolvimento (OMS, 2002).

Este cenário preocupante impõe a necessidade de medidas inovadoras, que mudem a lógica atual de uma rede de serviços voltada ao atendimento do agudo para uma rede de atenção às condições crônicas.

Para responder a essa situação, a Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais estabeleceu como estratégia principal a implantação de redes de atenção à saúde em cada uma das 75 microrregiões do estado que permitam prestar uma assistência contínua à população. E a pré-condição para a eficácia e a eqüidade dessa rede é que o seu centro de coordenação seja a atenção primária.

O programa Saúde em Casa, em ato desde 2003, tendo como objetivo a melhoria da atenção primária, está construindo os alicerces para a rede de atenção à saúde: recuperação e ampliação das unidades básicas de saúde, distribuição de equipamentos, monitoramento através da certificação das equipes e avaliação da qualidade da assistência, da educação permanente para os profissionais e repasse de recursos mensais para cada equipe de saúde da família, além da ampliação da lista básica de medicamentos, dentro do programa Farmácia de Minas.

Como base para o desenvolvimento dessa estratégia, foram publicadas anteriormente as linhas-guias Atenção ao Pré-natal, Parto e Puerpério, Atenção à Saúde da Criança e Atenção Hospitalar ao Neonato, e, agora, apresentamos as linhas-guias Atenção à Saúde do Adolescente, Atenção à Saúde do Adulto (Hipertensão e Diabete, Tuberculose, Hanseníase e Hiv/aids), Atenção à Saúde do Idoso, Atenção em Saúde Mental e Atenção em Saúde Bucal e os manuais da Atenção Primária à Saúde e Prontuário da Família. Esse conjunto de diretrizes indicará a direção para a reorganização dos serviços e da construção da rede integrada.

Esperamos, assim, dar mais um passo na consolidação do SUS em Minas Gerais, melhorando as condições de saúde e de vida da nossa população.

Dr. Marcelo Gouvêa Teixeira Secretário de Saúde do Estado de Minas Gerais

É com grande satisfação que apresento a “Linha-guia em Hanseníase”, destinada aos profissionais de saúde que atendem hanseníase na atenção primária.

A hanseníase representa ainda hoje, um problema de saúde pública em Minas Gerais.

Doença infecciosa, fácil para tratar e curar, tem como fator agravante a repercussão sóciopsicológica gerada pelas incapacidades físicas, que podem ocorrer na evolução da doença e que são a grande causa do estigma e isolamento do paciente na sociedade.

O diagnóstico precoce e o tratamento adequado permitem que a doença se cure sem deixar seqüelas. É de suma importância, portanto, que o profissional de saúde tenha subsídios que facilitem identificar, diagnosticar e tratar a hanseníase.

O presente instrumento é parte das medidas que vem sendo adotadas em Minas Gerais para a eliminação da hanseníase como problema de saúde pública. Eliminar não é erradicar, mas significa alcançar e manter a taxa de prevalência menor de 1 caso em cada 10.0 habitantes. Nos últimos anos o Estado tem detectado mais de 3.0 casos novos por ano o que exige a manutenção de serviços capacitados para o diagnóstico e tratamento, visando a manutenção da pessoa com hanseníase na sociedade, sem incapacidades e deformidades. Este é o real desafio que se espera alcançar com um atendimento humanizado, adequado e resolutivo para todos os usuários do Sistema Único de Saúde, incluindo a pessoa com hanseníase.

Coordenadoria Estadual de Dermatologia Sanitária

International Federation of Anti-Leprosy Association – ILEP

Netherlands Leprosy Relief – NLR – Brasil

Serviço de Dermatologia do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG

Programa Nacional de Eliminação da Hanseníase (PNEH) da Secretaria de Vigilância em Saúde (SVS) do Ministério da Saúde do Brasil

Oficina de Monitores e Centros de Referência em hanseníase de 24 e 25 de agosto de 2006.

Marcelo Grossi Araújo, professor de Dermatologia e referência estadual em hanseníase do Hospital das Clínicas da UFMG.

Simone Passos Bacha – Gerência de Saúde de Varginha

parabéns pelo trabalho. Imagino que o mesmo esteja sendo validado em unidades

COMENTÁRIOS DE VALIDAÇÃO do PSF dos municípios prioritários de Minas Gerais”.

Maria Leide Wand-Del-Rey de Oliveira

Departamento de Hansenologia Sociedade Brasileira de Dermatologia

meus parabéns à equipe que trabalhou e produziu um material tão importante

para o controle da hanseníase na rede SUS com as Linhas-Guia”.

“Desde já agradeço a oportunidade de contribuir e mais uma vez parabéns pelo excelente material”.

Isabela Goulart

Centro de Referência Nacional em Hanseníase Uberlândia/MG

“ A linha-guia Hanseníase não poderia ter melhor momento para a sua chegada. A consolidação das ações para o controle da hanseníase na atenção básica, num cenário que se vislumbra de baixa endemicidade, certamente foram decisivos para o empenho dessa equipe que, mais uma vez, mostra a sua competência técnica e sensibilidade para esta doença que ainda não pode ser esquecida. Parabéns!”

Marcelo Grossi Araújo

Centro de Referência em Hanseníase Hospital das Clínicas da UFMG

Introdução15
I. As diretrizes para o atendimento17
1.1 O acolhimento do usuário19
1.2 Os fatores de risco21
prevenção de agravos23
I. A abordagem clínica25

1.3 As medidas de promoção de saúde e

e o exame dos contatos27
2.2 Acompanhamento30
I. A organização da assistência39

2.1 As consultas em hanseníase

da equipe de sáude41
3.2 As competências da unidade de sáude42
3.3 As competências de outros pontos de atenção43
3.4 Interfaces do atendimento em hanseníase43
IV. O sistema de informação gerencial45
4.1 A notificação do caso47
4.2 Acompanhamento do caso47
4.3 A planilha de programação48
4.4 Os indicadores epidemiológicos51
Anexos53

Com a proposição da Organização Mundial da Saúde – OMS de eliminar a hanseníase como problema de saúde pública até o ano de 2005, várias medidas foram adotadas e recomendadas, mobilizando governos e profissionais. As medidas propostas foram:

Aumentar a cobertura, descentralizando as ações de controle de Hanseníase;

Diagnosticar e tratar todos os casos novos esperados;

Dar alta por cura e diminuir o abandono;

Adequar sistema de informação e arquivos das Unidades de Saúde.

Em 2005, com a expansão da cobertura para as equipes de Saúde da Família, com o maior envolvimento das Secretarias Municipais de Saúde e das Universidades e com a implementação de Centros Colaboradores de Referência, Minas Gerais conseguiu reduzir a taxa de prevalência para 1,5 / 10 0 habitantes.

O preconceito em relação à doença, a desinformação dos profissionais e da população, a concentração do atendimento ao portador de Hanseníase em poucas Unidades Básicas de Saúde ainda são barreiras que impedem a detecção precoce dos casos existentes.

A política atual da SES-MG, no intuito de melhorar o atendimento dos pacientes, por meio da construção de protocolos e de linhas-guia vem de encontro aos anseios desta Coordenadoria de Dermatologia Sanitária para descentralização e facilitação do atendimento à pessoa com hanseníase pela Atenção Básica.

Coordenadoria de Dermatologia Sanitária

1.1 O ACOLHIMENTO DO USUÁRIO

A identificação de um caso suspeito de hanseníase é feita pela presença de manchas e/ou áreas com alteração de sensibilidade, que pode ser realizada por qualquer profissional da área de saúde, treinado e sensibilizado para o problema hanseníase.

Uma vez identificado, o caso suspeito é encaminhado a uma Unidade Básica de Saúde, onde será feito o atendimento.

O primeiro atendimento poderá ser feito pelo enfermeiro capacitado que realizará uma triagem antes de encaminhá-lo para a consulta médica que confirmará ou não o diagnóstico.

Confirmado o diagnóstico, o paciente iniciará o tratamento e receberá as orientações pela equipe de atenção primária.

O paciente não deve sofrer nenhum tipo de restrição em relação às suas atividades cotidianas relacionadas com a família, trabalho, escola e lazer.

Quando necessário, o paciente poderá ser encaminhado às Policlínicas e Centros de Referência, aonde será acolhido por uma equipe multidisciplinar com assistente social, psicólogo, terapeuta ocupacional, fisioterapeuta, etc, de acordo com a realidade estrutural de cada local. Os critérios para o encaminhamento do paciente serão explicitados no decorrer do texto.

EQUIPE ACOLHE O CASO SUSPEITO REALIZA TRIAGEM/ 1ª CONSULTA

1.2 OS FATORES DE RISCO

Epidemiológico

Sendo a Hanseníase uma doença transmissível, o principal fator de risco está ligado ao contato com pacientes das formas contagiantes multibacilares que não estão em tratamento.

Nesse caso, a população de maior risco é a dos contatos intradomiciliares, ou seja, os conviventes, nos últimos 05 anos, dos casos diagnosticados.

Do mesmo modo que nas demais doenças infecciosas, as condições de moradia, sanitárias, nutricionais interferem no panorama da manutenção da endemia.

O risco do profissional de saúde contrair Hanseníase é igual ao da população geral.

Iniciado o tratamento, os pacientes multibacilares deixam de transmitir a infecção imediatamente.

Acompanhamento dos casos

Baixo risco

A maioria dos pacientes cursa o tratamento sem maiores intercorrências, tomando a medicação prevista para 6 ou 12 meses e, em seguida, recebendo a alta cura. Serão sempre atendidos na atenção primária.

Alto risco

Alguns casos requerem maior atenção e disponibilização de tempo de toda a equipe.

São aqueles com surtos reacionais recorrentes que podem ultrapassar o período do tratamento específico. Esses pacientes serão acompanhados sistematicamente no curso agudo das reações até a retirada total dos medicamentos utilizados para tratamento das reações. Podem necessitar de encaminhamento para as unidades de referência.

Pacientes que apresentarem reações adversas aos medicamentos do esquema padrão deverão ser encaminhados para as unidades de referência, para avaliação e indicação de esquemas alternativos.

Os casos diagnosticados e tratados mais tardiamente podem apresentar seqüelas nos olhos, nariz, mãos e pés. Deverão receber orientação, atenção e cuidado continuado, não só da unidade local, como também da de referência de média e alta complexidade, de acordo com a necessidade de cada caso.

Sinais de alerta

O profissional de saúde deverá ficar atento para alguns sinais de alerta relacionados aos surtos reacionais. Esses sinais exigem cuidado imediato e pronto encaminhamento para os centros de referências. Podem ocorrer antes durante ou após o tratamento poliquimioterápico. São eles:

Inflamação súbita de manchas pré-existentes;

Dor aguda em nervos de face, mãos e pés;

Aparecimento súbito de caroços vermelhos e doloridos;

Piora da sensibilidade de mãos e pés;

Perda súbita da força muscular em face, mãos e pés;

Piora do quadro geral com febre, mal-estar, feridas e ínguas;

Dor e vermelhidão nos olhos;

Diminuição súbita da acuidade visual;

Edema de mãos, pernas, pés e face.

O paciente poderá, durante o tratamento, apresentar alguns efeitos adversos dos medicamentos utilizados na poliquimioterapia, como:

Anemia grave;

Cianose de extremidades;

Sintomas parecidos com a gripe após a dose supervisionada;

Icterícia;

Náuseas e vômitos incontroláveis;

Pele apresentando edema, eritema, vesículas, bolhas, descamação.

Nesses casos, suspender os medicamentos, e encaminhar o paciente para o centro de referência mais próximo. Se o paciente estiver em corticoterapia para tratamento dos surtos reacionais observar:

Aparecimento súbito de queixas relativas à hipertensão arterial como dor de cabeça, tontura;

Sede excessiva e micções freqüentes (diabetes induzido);

Sintomas como fraqueza, mal-estar, hipotensão arterial, dores musculares e articulares pela interrupção abrupta do corticóide.

Aumento da pressão intracelular (glaucina).

Lembre-se: o corticóide não deve ser suspenso abruptamente;

o corticóide aumenta o risco para infecções de um modo geral.

Esses casos devem ser encaminhados para uma unidade de pronto atendimento existente no município e avaliados, posteriormente, pelo centro de referência.

1.3 AS MEDIDAS DE PROMOÇÃO DE SAÚDE E PREVENÇÃO DE AGRAVOS

Promover e manter a mobilização social e educação dirigida à população, aos contatos, aos profissionais de saúde sobre a presença de manchas e áreas dormentes, o tratamento e a cura, através da realização de campanhas, palestras, etc. A abordagem do estigma é de fundamental importância para a desvinculação do termo lepra e hanseníase.

A principal medida de prevenção está justamente na detecção e tratamento precoce da doença, diagnosticando o paciente na forma inicial, paucibacilar e sem alteração de incapacidade física, quando o tratamento cursa num tempo menor e com menor probabilidade de complicações reacionais.

O controle dos contatos tem importância fundamental como medida preventiva, através do exame dermato-neurológico e vacinação com BCG, conforme normas do Ministério da Saúde.

É essencial a divulgação de sinais e sintomas da Hanseníase para a população em geral, para que o diagnóstico precoce aconteça.

26 ATENÇÃO À SAÚDE DO ADULTO – HANSENÍASE

2.1 AS CONSULTAS EM HANSENÍASE E O EXAME DOS CONTATOS

2.1.1 O roteiro para a primeira consulta

2.1.1.1 História clínica Anamnese;

Antecedentes pessoais e doenças concomitantes;

Antecedentes familiares;

2.1.1.2 Exame físico Exame físico geral;

Exame dermato-neurológico

• exame da superfície corporal; • teste de sensibilidade nas lesões suspeitas;

• avaliação neurológica simplificada: palpação de nervos;

teste de força muscular;

teste de sensibilidade de córnea, palmas e plantas;

determinar o grau de incapacidade nas mãos, pés, olhos;

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