As Asas de um Anjo - José de Alencar

As Asas de um Anjo - José de Alencar

(Parte 1 de 4)

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Universidade da Amazônia

As Asas de umAs Asas de umAs Asas de umAs Asas de um

AnjoAnjoAnjoAnjo (Comédia)

de José de Alencarde José de Alencarde José de Alencarde José de Alencar

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Belém – Pará

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As Asas de um Anjo de José de Alencar

Comédia (prólogo, quatro atos, epílogo)

(Levada à cena em 1858, no Ginásio Dramático, Rio de Janeiro. Após algumas apresentações, esta peça foi proibida pela Polícia)

Personagens

Luís Viana Ribeiro Araújo Pinheiro Meneses Antônio José Carolina Margarida Helena Vieirinha Uma menina A cena é no Rio de Janeiro, e contemporânea.

PRÓLOGO (Em casa de Antônio. Sala pobre)

CENA I (Carolina, Margarida e Antônio)

(Carolina defronte a um espelho, deitando nos cabelos dois grandes laços de fita azul. Margarida cosendo junto à janela. Antônio sentado num mocho, pensativo)

Margarida – Que fazes aí, Carolina? Já acabaste a tua obra?Prometeste dá-la
uma graça!Pereces um daqueles anjinhos de Nossa Senhora da Conceição.
lembrou-se de dar-me esses laçosAssentam-me tão bem, não é verdade?
Carolina – Foi para experimentar o meu vestido novo, mãezinhaQuis ver como

Carolina – É quase noite!... pronta hoje. Carolina – Já vou, mãezinha; falta apenas tirar o alinhavo. Olhe! Não fico bonita com meus laços de fita azul? Margarida – Tu és sempre bonita; mas realmente essas fitas nos cabelos dão-te Carolina – É o que disse o Luís, quando as trouxe da loja. Tínhamos ido na véspera à missa e ele viu lá um anjinho que tinha as asas tão azuis, cor do céu! Então Margarida – Sim; mas não sei para que te foste vestir e pentear a esta hora; já está escuro para chegares à janela. hei de ficar quando formos domingo ao Passeio Público...

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Margarida – Ora, ainda hoje é terça-feira. Carolina – Que mal faz! Margarida – Está bom, vai aprontar a obra; a moça não deve tardar. É verdade!

CENA I Margarida e Antônio

Margarida – Três vestidos a cinco mil-réisFaz a conta.
Antônio – Tens idéias! Não!Sim!... (Rindo) É um presente que ela há de estimar.
Margarida – Não; simExplica-te, se queres que te entenda.
Antônio – Só?Mais nada!

Margarida – Não sei o que tem a nossa filha! Às vezes anda tão distraída... Antônio – Quantos são hoje do mês, Margarida? Margarida – Pois não sabes? Vinte e seis. Antônio (contando pelos dedos) – Diabo! Ainda faltam quatro dias para acabar! Precisava receber uns cobres que tenho na mão do mestre e só no fim da semana... Que maçada! Margarida – Não te agonies, homem! O dinheiro que deste ainda não se acabou; e hoje mesmo aquela moça deve vir buscar os vestidos que mandou fazer por Carolina. Antônio – Quanto ela tem de dar? Antônio – Quinze mil-réis, não é? Margarida – Quinze justos. Já vês que não nos faltará dinheiro; podes dormir descansado que amanhã terás o teu vinho ao almoço. Antônio – Ora Deus! Quem te fala agora em vinho? Não é para ti, nem para mim, que preciso de dinheiro. (Margarida acende a vela com fósforos) Margarida – Para quem é então, homem? Antônio – Para Carolina. Margarida – Ah! Queres fazer-lhe um presente? Antônio – Lá vai. Há muitos dias que ando para te falar nisto; mas gosto de negócio dito e feito. Estive a esperar o fim do mês pela razão que sabes, do dinheiro; e o fim do mês sem chegar. Enfim hoje, já que tocamos no ponto, vou contar-te tudo. (Chega-se à porta da esquerda) Carolina – Margarida está lá dentro; podes falar. Antônio – Não reparaste ainda numa coisa? Margarida – Em quê? Antônio – Nos modos de Luís com a pequena. Como ele a trata. Margarida – Quer dizer que Luís é um rapaz sisudo e trabalhador. Margarida – Não sei que mais se possa ver em uma coisa tão natural. Antônio . Escuta, Margarida, tu te lembras quando eu era aprendiz de marceneiro, e que te via em casa de teu pai, que Deus tenha em sua glória. Tu te lembras? Também te tratava sério... Margarida – Então pensas que Luís tem o mesmo motivo?... Antônio – Penso; e eu cá sei o que penso. Margarida – Descobriste alguma coisa? Antônio – Oh! se descobri! um companheiro lá da tipografia muito seu amigo me contou que ele tinha uma paixão forte por uma moça que se chama Carolina. Margarida – Ah! Anda espalhando!...

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no trabalhoMas tu sabes como é o trabalho dele?
Antônio – Em vez do que estava escrito deitou Carolina, Carolina, CarolinaUma
Margarida – Psiu!Aí vem ela.

Antônio – Não estejas já a acusar o pobre rapaz; ele não disse a ninguém. Um dia Margarida – Não; nunca vi. Antônio – Nem eu; porém disseram que é fazer com umas letras de chumbo o mesmo que escreve o homem do jornal. Pois nesse dia, Luís que estava com o juízo cá na pequena, que havia de fazer?... Margarida – O quê? folha cheia de Carolina, mulher! No dia seguinte a nossa filha andava com o jornal por essas ruas! Margarida – Santa Maria! Que desgraça, Antônio! Antônio – Espera, Margarida; ouve até o fim. Tem lá um homem, o contramestre da tipografia, que se chama revisor; assim que ele viu a nossa filha, quero dizer o nome, pôs as mãos na cabeça; houve um grande barulho; mas como o rapaz é bom trabalhador acomodou-se tudo. É daí que o companheiro soube e me disse. Antônio – Melhor! Acaba-se com isto de uma vez. Margarida – Não lhe fales assim de repente. Antônio – Por quê? Gosto de negócio dito e feito. Margarida – Mas Antônio... Antônio – Não quero ouvir razões. (Entra Carolina com uma pequena bandeja cheia de vestidos)

CENA I (Os mesmos e Carolina)

Carolina – Estive trabalhando; mas agoraAqui estou. Quer saber as novidades?
Carolina – Casamento!Eu, meu pai?... Nunca!...

Carolina – Ainda cose, mãezinha? Isto cansa-lhe a vista. Margarida – Estou acabando; pouco falta. Vem cá. Tenho que te dizer uma coisa. Carolina – Ah! Quer ralhar comigo, não é? Antônio – E muito, muito; porque ainda hoje não te vieste sentar perto de mim como é teu costume para me contares uma dessas histórias bonitas que lês no jornal de Luís. Antônio – Não; hoje sou eu que te vou contar uma novidade; mas uma novidade... Carolina – Qual é? Quero saber. Antônio – Já estás curiosa! Quanto mais me adivinhasses... Carolina – Ora diga! Antônio – Esta mãozinha pequenina que escreve e borda tão bem, precisa de outra mão forte que trabalhe e aperte ela assim. Carolina – Que quer dizer, meu pai? Antônio – Não te assustes. As moças hoje já não se assustam quando se lhes fala em casamento. Antônio – Então hás de ficar sempre solteira? Mas eu não desejo casar-me agora. Mãezinha, eu lhe peço!... Margarida – Ninguém te obriga; ouve o que diz teu pai; se não quiseres, está acabado. Não é assim, Antônio? Antônio – Decerto. (à Carolina) Tu bem sabes que eu não faço nada que não seja do teu gosto.

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Carolina – Como, meu pai!É ele... É Luís que...
Carolina – Eu sei, meu pai. Tenho-lhe amizade, mas amornão!
Antônio – Esperar!Não entendo disto; quero as coisas ditas e feitas. Tu tens
Carolina - Meu pai!Por quem é!...
Antônio – Não quero ouvir nada. Domingoestá decidido.

Carolina – Pois não me fale mais de casamento. Fico logo triste. Margarida – Por que, Carolina? É com a idéia de nos deixares? Carolina – Sim, mãezinha; vivo tão bem aqui. Antônio – Pois continuarás a viver: Luís mora conosco. Antônio – É ele que eu quero dar-te por marido. Gosta muito de ti e além disto é teu parente. Carolina – Meu Deus! Margarida – Tu não podes achar um moço mais bem comportado e trabalhador. Antônio – E que há de ser alguma coisa, porque tem vontade, e quando se mete em qualquer negócio vai adiante. Pobre como é, estuda mais do que muito doutor. Antônio – Pois é o que basta. Quando me casei com tua mãe ela não sabia que história era essa de amor; e nem por isso deixou de gostar de mim, e ser uma boa mulher. Margarida – Entretanto, Antônio, não há pressa; Carolina há de fazer dezoito anos pela Páscoa. Carolina – É verdade, mãezinha; sou muito moça; posso esperar... amizade a teu primo; ele te paga na mesma moeda; portanto só falta ir à igreja. Domingo... Margarida – Ouve, Antônio; é preciso também não fazer as coisas com precipitação. (Luís aparece) Carolina – Ah! Mãezinha, defenda sua filha!... Margarida – Que posso eu fazer, Carolina? Tu não conheces o gênio do teu pai!! Quando teima... Antônio – Não é teima, mulher. Luís há de ser um bom marido para ela. Se não fosse isto não me importava. Quero-lhe tanto bem como tu! Carolina (chorando) – Se me quisesse bem não me obrigava... Antônio – É escusado começares com choradeiras; não adiantam; o casamento sempre se há de fazer.

CENA IV (Os mesmos e Luís)

Luís – Não, Antônio. Carolina – Meu primo! Antônio – Oh! Estavas aí, rapaz? Chegaste a propósito, mas que queres tu dizer? Margarida – Ele não aceita. Antônio – Espera, Margarida! Fala, Luís. Luís – Tratava-se aqui de fazer Carolina minha mulher; mas faltava para isso uma condição indispensável. Antônio – Qual? Luís – O meu consentimento. Não pedi a mão de minha prima, nem dei a entender que a desejava. Margarida – Mas tu lhe queres bem, Luís? Luís – Eu, Margarida? w.nead.unama.br

Luís – Dos tipos?Não sei o que quer dizer.
Carolina – O meu nome?Como, mãezinha?
Luís – Porque elaporque...
Carolina – Meu pai!Vamos. Sim, ou não?

Antônio – Tens uma paixão forte por ela; eu sei. Carolina – É verdade? Luís – Parece-me que desde que moro nesta casa não dei motivos para me fazerem esta exprobração. Trato Carolina como uma irmã, ela pode dizer se nunca uma palavra minha afez corar. Carolina – Não me queixo, Luís. Luís – Creio, minha prima; e se falo nisto é para mostrar que seu pai se ilude: nunca tive a idéia de que um dia viesse a ser seu marido. Antônio – Mas então explica-me essa história dos tipos. Margarida – Uma noite na tipografia estavas distraído e em lugar de copiar o papel, escreveste não sei quantas vezes o nome de Carolina. Antônio (a Luís) – Ainda pretendes negar? Luís – Mas era o nome de outra moça... Carolina – Chama-se Carolina, como eu? Luís – Sim, minha prima. Antônio – Pensas muito nessa moça, para distraíres por ela a tal ponto. Margarida – Com efeito quem traz assim a lembrança de um nome sempre na idéia... Luís – Que fazer, Margarida? Por mais vontade e prudência que se tenha, ninguém pode arrancar o coração; e nos dias em que a dor o comprime, o nome que dorme dentro dele vem aos lábios e nos trai. Tive naquele dia esse momento de fraqueza; felizmente, não perturbou o sossego daquela que podia acusar-me. Agora mesmo ela ignora que era o seu nome. Antônio – À vista disso decididamente não queres casar com tua prima? Luís – Não, Antônio; agradeço mas recuso. Antônio – Por que razão? Margarida – Já não disse! Não lhe tem amor; gosta de outra. Carolina – E vai casar com ela! Antônio – Olha lá; se é este o motivo, está direito; mas se não tens outra em vista, diz uma palavra, e o negócio fica decidido. Luís – Não, amo a outra... Carolina – Ah!... Antônio – Está acabado! Não falemos mais nisto. Carolina – Obrigada; Luís, sei que não mereço o seu amor. Luís – Tem razão, Carolina: deve agradecer-me.

CENA V (Antônio, Margarida e Carolina)

Antônio – Margarida, tu conheces alguma outra moça na vizinhança que se chame Carolina? Margarida – Não: mas isto não quer dizer nada: pode ser que aquela de quem Luís falou more em outra rua. Antônio – Não acredito.

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Carolina – Meu pai deseja por força que Luís seja meu marido. Ainda cuida que ele gosta de mim. Antônio – Disto ninguém me tira. Margarida – Mas, homem, não o ouviste afirmar o contrário? Antônio – Muitas vezes a boca diz o que o coração não sente. Carolina – Ora, meu pai, por que motivo ele encobriria? Antônio – O motivo? Tu és quem pode dizer (Vai a sair) Carolina – Eu?... Margarida – Sabes que mais? Antônio, vieste hoje da loja todo cheio de visões. Que te aconteceu por lá? Antônio – Eu te digo, mulher. Contaram-me há dias, e hoje tornaram a repetir-me, que um desses bonequinhos da moda anda rondando a nossa rua por causa de alguma menina da vizinhança. Carolina – Ah! Margarida – Então foi por isto que assentaste de casar Carolina? Antônio – Uma menina solteira é um perigo neste tempo. (Saindo)Estes sujeitinhos têm umas lábias! Margarida – Para aquelas que querem acreditar neles. (Pausa. Batem na porta) Carolina – Estão batendo. Margarida – Há de ser a moça dos vestidos.

CENA VI (Helena, Margarida e Carolina)

Carolina – Luvas?nunca tive senão um par, e de retrós.

Helena – Adeus, menina. Boa noite, Sra. Margarida. Margarida –Boa noite. Carolina – Venha sentar-se. Margarida – Aqui está uma cadeira. Carolina (baixo, à Helena) – E ele?... Helena – Espere! (Alto) Então aprontou? Carolina – Sim, senhora; todos. Helena – E estão bem cosidos, já se sabe! Feitos por estas mãozinhas mimosas que não nasceram para a agulha, e sim para andarem dentro de luvas perfumadas. Margarida – Quem te perguntou por isto agora? Helena – Não faz mal; porém deixe ver os vestidos. Carolina – Vou mostrar-lhe. Margarida – É obra acabada às pressas; não pode estar como ela desejava. Helena – Bem cosidos eles estão; assim me assentem. Margarida – Hão de assentar. Carolina cortou-os pelo molde da francesa. Carolina – Apenas fiz um pouco mais decotados como a senhora gosta. Helena – É a moda. Margarida – Mas descobrem tanto! Helena – E por que razão as mulheres hão de esconder o que têm de mais bonito? Carolina – É verdade!... Helena (a Margarida) – Me dê uma cadeira. (Margarida vai buscar uma cadeira; ela diz baixo à Carolina) Preciso falar-lhe. Carolina – Sim! Margarida (dando a cadeira) – Aqui está.

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Helena – Obrigada. (Senta-se) Realmente esta menina tem muita habilidade. Carolina – Mãezinha, Vm. vai lá dentro buscar a minha tesoura? Esqueceu-me abrir uma casa. Margarida – Não queres a minha? Carolina – Não; está muito cega. Margarida – Onde guardaste a tua? Carolina – No cestinho da costura. (Margarida sai à esquerda. Carolina tira do bolso a tesoura e mostra sorrindo a Helena)

CENA VII (Helena e Carolina)

Carolina – MasPor que ele não veio?

Helena – Eu percebi!... Helena – É sobre isto mesmo que lhe quero falar. O Ribeiro mandou dizer-lhe... Carolina – O quê?... Helena – Que deseja vê-la a sós. Carolina – Como? Helena – Escute. Às nove horas ele passará por aqui e lhe falará por entre a rótula. Carolina – Para quê? Helena – Está apaixonado loucamente por você; quer falar-lhe; não há senão este meio. Carolina – Podia ter vindo hoje com a senhora, como costuma. Era melhor. Helena – O amor não se contenta com estes olhares a furto e esses apertos de mão às escondidas. Carolina – Mas eu tenho medo. Meu pai pode descobrir; se ele soubesse!... Helena – Qual! É um instante! O Ribeiro bate três pancadas na rótula; é o sinal. Carolina – Não! Não! Diga a ele... Helena – Não diga nada; não me acredita, e vem. Se não falar-lhe, nunca mais voltará. Carolina – Então deixará de amar-me!... Helena – E de quem será a culpa? Carolina – Mas exige uma coisa impossível. Helena – Não há impossíveis para o amor. Pense bem; lembre-se que ele tem uma paixão... Carolina – Aí vem mãezinha!

CENA VIII (As mesmas, Margarida e Araújo)

Margarida – Não achei, Carolina; procurei tudo. Helena – Está bom; já não é preciso. Mando fazer isto em casa pela minha preta. Araújo (Entrando pelo fundo com um colarinho postiço na mão) – A senhora me apronta este colarinho? Margarida – A esta hora, Sr. Araújo? Araújo – Que quer que lhe faça? Um caixeiro só tem de seu as noites. Agora mesmo chego do armarinho, e ainda foi preciso que o amo desse licença. Margarida – Pois deixe ficar, que amanhã cedo está pronto.

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Araújo – Amanhã?E como hei de ir hoje ao baile da Vestal?
Carolina – Ah!o senhor vai ao baile?
o conviteMas o colarinho? Ande, Sra. Margarida.

9 Araújo – Então pensa que por ser caixeiro não freqüento a alta sociedade? Cá está Margarida – Lavar e engomar hoje mesmo? Araújo – Para as oito horas. Não quero perder nem uma quadrilha. As valsas pouco me importam... Margarida – O senhor dá-me sempre cada maçada!... Araújo – Deixe estar que um dia destes trago-lhe uma caixinha de agulhas. Margarida – Veremos.

CENA IX (Araújo, Helena e Carolina) Carolina, na janela.

Araújo – A senhora por aquiÉ novidade.
Araújo – E dão cada tesourada! Como os alfaiates da Rua do OuvidorMas assim
Araújo – AhnnTrata-se agora.
Araújo – Ah!Não se lembra!... Pois olhe! Estou agora me lembrando de uma

Helena – Como está Sr. Araújo? Helena – Também o senhor. Araújo – Eu sou vizinho; e a Sra. Margarida é minha engomadeira. Helena – Pois eu moro muito longe; porém mandei fazer uns vestidos para esta menina. Araújo – Então já não gosta das modistas francesas? Helena – Cosem muito mal. mesmo, a senhora largar-se do Catete à Rua Formosa, em busca de uma costureira! Helena – Que tem isso? Araújo – Veio de carro? Está um na porta. Helena – É o meu. Helena – Sempre fui assim. coisa. Helena – De quê? Araújo – Lá no armarinho, quando as fazendas ficam mofadas, sabe o que se faz? Helena – Ora, que me importa isso? Araújo – Separam-se umas das outras, para que não passe o mofo. Helena – Que quer o senhor dizer? Araújo – Quero dizer que as mulheres às vezes são como as fazendas; e que tudo neste mundo é negócio, como diz o amo. Helena – Está engraçado!

CENA X (Os mesmos e Margarida)

Araújo – Acha isso? Helena – Deixai-me! Adeus, menina! Carolina – Já vai? Araújo – O maldito colarinho está pronto? w.nead.unama.br

Margarida – Arre!Que pressa!...

Margarida – Está quase. Helena – Mande deitar estes vestidos no carro. Margarida – Sim, senhora. Helena – a Carolina – Adeus. (Baixo) Veja lá! Oito horas já deram. Carolina– Sim! Helena – Adeus!...(a Araújo) Boa noite! Araújo – Viva! Helena – Não fique mal comigo. Araújo – Há muito tempo que conhece esta mulher, D. Carolina? Carolina – Há um mês. Araújo – Quem a trouxe cá?... Carolina – Ninguém; ela precisa de uma costureira. Araújo (à Margarida) – Olhe que são mais de oito horas! Araújo – Não se demore! Eu volto já; vou fazer a barba.

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