As Asas de um Anjo - José de Alencar

As Asas de um Anjo - José de Alencar

(Parte 2 de 4)

CENA XI (Luís, Araújo e Carolina)

Luís – Não saias; quero te dar uma palavra. Araújo – Depressa, que tenho hoje um baile. Luís – Espera um momento. (Olhando para CAROLINA) Sempre na janela. Araújo – Desconfias de alguma coisa? Luís – Carolina! Carolina – Ah!...Luís. Luís – Assustei, minha prima? Carolina – Não! Estava distraída. Luís – Desculpe, procurei este momento para falar-lhe porque desejava pedir-lhe perdão. Carolina – Perdão? De quê? Luís– Não recusei a sua mão que seu pai me queria dar? Não a ofendi com essa recusa? Uma mulher deve ter sempre o direito de desprezar; o seu orgulho não admite que ninguém a prive desse direito. Carolina – Não me ofendi com a sua franqueza, Luís. (Com ironia) Reconheci apenas que não era digna de pertencer-lhe; outra merece o seu amor! Luís – Esse amor que eu confessei era mentira. Carolina – Por que confessou então? Quem o obrigou? Luís – Ninguém. Menti por sua causa; para poupar-lhe um desgosto. Carolina – Não o entendo. Luís – Conhece o caráter do seu pai e sabe que quando ele quer as coisas não há vontade que lhe resista. Para tornar de uma vez impossível esse casamento, para que o meu nome não lhe cause mais tristeza, ouvindo-o associado ao título de seu marido, declarei que amava outra mulher; menti. Carolina – E que mal havia nisso? Todos não temos um coração. Luís – É verdade; porém o meu creio que não foi feito para o amor, e sim para a amizade. As minhas únicas afeições estão concentradas nesta casa; fora dela trabalho; aqui sinto-me viver. Um amor estranho seria como uma usurpação dos sentimentos que pertencem aos meus parentes. É por isso que só a sua felicidade me obrigaria a confessar-me ingrato.

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Carolina – Não!Foi engano.

Carolina – Não sei em que isso podia influir sobre a minha felicidade. Luís – Quando se ama... Carolina – Mas eu não amo. Luís – Seja franca! Carolina – Juro! Luís – Não jure! Carolina – Onde vai? Luís – Ouvi bater na janela. Luís – Vou ver. Carolina – Meu primo!... Araújo (baixo a Luís) – Um sujeito está espiando pela rótula. Carolina (na rótula, baixo e para fora) – Espere! Araújo (a Luís) – Sabes quem é?

CENA XII (Os mesmos e Margarida)

Carolina – Não era ninguémO vento...

Luís – Sei, ela o ama. Araújo – E tu consentes? Luís – Que posso fazer? Se o ofendesse ela me odiaria. Antes indiferença. Luís (a Araújo) – Mente! Margarida – Aqui tem; foi enxuto a ferro. Araújo – A senhora é a pérola das engomadeiras. Vou-me vestir; anda, Luís. Margarida (a Luís) – Estás hoje de folga? Luís – Não; volto à tipografia. Margarida – Então quando saíres cerra a porta. Luís – Sim. Até amanhã minha prima. Margarida – Tu não vens, Carolina? Margarida – Já vou, mamãezinha; deixe-me tirar meus grampos.

CENA XIII (Carolina e Ribeiro) (Luís saindo, fecha a porta do fundo. Carolina, ficando só, apaga a vela. Ribeiro salta na sala)

Ribeiro – CarolinaOnde estás?... Não me queres falar?

Carolina – Meu Deus!... Carolina – Cale-se; podem ouvir. Ribeiro – Por isso mesmo; não esperdicemos estes curtos momentos que estamos sós. Carolina – Tenho medo. Ribeiro – De quê? De mim? Carolina – Não sei! Ribeiro – Tu não me amas, Carolina! Senão havias de ter confiança em mim; havias de sentir-te feliz como eu. Carolina – E o meu silêncio aqui não diz tudo? Não engano meu pai para falar-lhe? w.nead.unama.br

Carolina – AmanhãTalvez.

Ribeiro – Tu não sabes! O coração duvida sempre da ventura. Dize que me amas. Dize, sim! Carolina – Para quê? Ribeiro – Eu te suplico! Já não lhe confessei tantas vezes que lhe... Ribeiro – Assim não quero. Há de ser: eu te... Carolina – Eu te amo. Está contente? Ribeiro – Agora adeus. Até amanhã. Ribeiro – Separarmo-nos! Depois de estar uma vez perto de ti, de saber que tu me amas? Não, Carolina. Carolina – Mas é preciso. Ribeiro – Tu és minha. Vamos viver juntos. Carolina – Sempre? Ribeiro – Sempre! sempre juntos! Carolina – Como? Ribeiro – Vem comigo; o meu carro nos espera. Carolina – Fugir! Ribeiro – Fugir? não; acompanhar aquele que te adora. Carolina – É impossível! Ribeiro – Vem, Carolina! Carolina – Não! Não! Deixe-me! Ribeiro – Ah! É esta a prova do amor que me tem! Adeus! Esqueça-se de mim. Nunca mais nos tornaremos a ver. Carolina – Mas posso abandonar minha mãe? Não posso! Ribeiro – Eu acharei outras que me amem bastante para me fazerem esse pequeno sacrifício. Carolina – Outras que não terão suas famílias. Ribeiro – Mas que terão um coração. Carolina – E eu não tenho? Ribeiro – Não parece. Carolina – Antes não o tivesse. Ribeiro – Adeus. Carolina – Até amanhã. Sim? Ribeiro – Para sempre. Ribeiro – Deve ser hoje ou nunca. Carolina – E minha mãe? Ribeiro – É uma separação de alguns dias. Carolina – Mas ela me perdoará? Ribeiro – Vendo sua filha feliz... Carolina – Que dirão minhas amigas? Ribeiro – Terão inveja de ti. Carolina – Por quê? Ribeiro – Porque serás a mais bela moça do Rio de Janeiro. Carolina – Eu? Ribeiro – Sim! Tu não nasceste para viver escondida nesta casa, espiando pelas frestas da rótula, e cosendo para a Cruz. Estas mãos não foram feitas para o trabalho, mas para serem beijadas como as mãos de uma rainha.(Beija-lhe as mãos) Estes cabelos não devem ser presos por laços de fitas, mas por flores de diamantes. (Tira os laços de fita e joga-os fora) Só a cambraia e a seda podem roçar sem ofender-te essa pele acetinada.

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e à roda de uma mesa carregada de luzes e de flores!O vinho espuma nos copos
caíssem de outros lábiosTudo fascina; tudo embriaga; esquece-se o mundo e
Ribeiro – Tu verás!Vem! A felicidade nos chama.
Carolina – Meu Deus!E minha mãe?

Carolina – Mas eu sou pobre! Ribeiro – Tu és bonita, e Deus criou as mulheres belas para brilharem como as estrelas. Terás tudo isso, diamantes, jóias, sedas, rendas, luxo e riqueza. Eu te prometo! Quando apareceres no teatro, deslumbrante e fascinadora, verás todos os homens se curvarem a teus pés; um murmúrio de admiração te acompanhará; e tu, altiva e orgulhosa, me dirás em um olhar: Sou tua. Carolina – Tua noiva? Ribeiro – Tudo, minha noiva, minha amante. Depois iremos esconder a nossa felicidade e o nosso amor num teatro delicioso. Oh! se soubesses como a vida é doce no meio do luxo, em companhia de alguns amigos, junto daqueles que se ama, e o sangue ferve nas veias; e os olhares queimam como fogo; os lábios que se tocam, esgotam ávidos o cálice de champanhe como se fossem beijos em gotas que suas misérias. Por fim as luzes empalidecem, as cabeças se reclinam; e a alma, a vida, tudo se resume em um sonho. Carolina – Mas o sonho passa. Ribeiro – Para voltar no dia seguinte, no outro e sempre. Carolina – Eu também tenho meus sonhos; mas não acredito neles. Ribeiro – E que sonhas tu, minha Carolina? Carolina – Vais zombar de mim! Ribeiro – Não; conta-me. Carolina – Sonho com o mundo que não conheço! Com esses prazeres que nunca senti. Como deve ser bonito um baile! Como há de ser feliz a mulher que todos olham, que todos admiram! Mas isto não é para mim. Carolina – Espera. Ribeiro – Que queres fazer? Carolina – Rezar! Pedir perdão a Deus. Ribeiro – Pedir perdão de quê? O amor não é um crime. Ribeiro – Vem, Carolina.

CENA XIV (Os mesmos e Luís)

Carolina – Ah! Ribeiro – Quem é este homem? Carolina – Meu primo. Luís – Não pense que é um rival que vem disputar-lhe sua amante. Não, senhor! Há pouco recusei a mão de minha prima que seu pai me oferecia; não a amo. Mas sou parente e devo ampará-la no momento em que vai perder-se para sempre. Ribeiro – Não tenho medo de palavras; se quer um escândalo... Luís – Está enganado! Se quisesse um escândalo e também uma vingança bastavame uma palavra; bastava chamar seu pai. Mas eu sei que não é a força que dobra o coração; eu temo que minha prima odeie algum dia em mim o homem que ela julgará autor de sua desgraça. Ribeiro – O que deseja então? w.nead.unama.br

Luís – Eu tambéma estimo, minha prima.
Carolina – Não!Não posso!
Ribeiro – Por quê?Há pouco não dizias que eras minha?
Carolina – Com ele!Mas eu não o amo!

Luís – Desejo tentar uma última prova. O senhor acaba de falar a esta menina a linguagem do amor e da sedução; eu vou falar-lhe a linguagem da amizade e da razão. Depois de ouvir-me, ela é livre; e eu juro que não me oporei à sua vontade. Ribeiro – Ela ama-me! Era por sua vontade que me seguia. Luís – Ela ama-o, sim; mas ignora que este amor é a perdição; que ela vai sacrificar a um prazer efêmero a inocência e a felicidade. Não sabe que um dia a sua própria consciência será a primeira a desprezá-la, e a envergonhar-se dela. Carolina – Luís! Ribeiro – Não acredites. Luís – Acredite-me, Carolina. Falo-lhe como um irmão. Esses brilhantes, esse luxo, que há pouco o senhor lhe prometia, se agora brilham a seus olhos, mais tarde lhe queimarão o seio, quando conhecer que são o preço da honra vendida! Carolina – Por piedade! Cale-se, meu primo! Depois a beleza passará, porque a beleza passa depressa no meio das vigílias; então ficará só, sem amigos, sem amor, sem ilusões, sem esperanças: não terá para acompanhá-la senão o remorso do passado. Ribeiro – Tu sabes que eu te amo, Carolina. Ribeiro – Vem! Seremos felizes! Carolina – Sim... Ribeiro – A uma palavra deste homem, esqueces tudo? Carolina – Não esqueço, mas... Ribeiro – Sei a causa. Se ele não chegasse, eu era o preferido; mas entre os dois, escolhe aquele que talvez já tem direito sobre sua pessoa. Carolina – Direitos sobre mim? Luís – Já lhe disse que não amava essa moça. Negar em tais casos é um dever. Adeus; seja feliz com ele. Ribeiro – Já lhe pertence. Carolina – Luís? Eu lhe suplico! Diga que é uma falsidade! Luís – Eu juro! Ribeiro – Não creio em juramentos! Carolina – Oh! não! Margarida (de dentro) – Carolina! Carolina – Minha mãe! Luís – Margarida! Carolina – Ah! Estou perdida! (Desfalece nos braços de Ribeiro) Luís – Silêncio! (Vai fechar a porta. Ribeiro aproveita-se deste momento e sai, levando Carolina nos braços)

CENA XV (Luís e Margarida)

Luís – Ah!(Corre à janela; ouve-se partir um carro; volta com desespero; vê os

laços de fita, apanha-os e beija) Margarida – Carolina! ...Que é isto, Luís? w.nead.unama.br

Luís (mostrando as fitas) – São as asas de um anjo, Margarida; ele perdeu-as, perdendo a inocência. Margarida – Minha filha!

ATO PRIMEIRO (Salão de um hotel. Pequenas mesas à direita e à esquerda. No centro uma preparada para quatro pessoas)

CENA I (Pinheiro, Helena e José)

Helena – Ainda não chegaram. Pinheiro – Não há tempo, José, prevenirás o Ribeiro, logo que ele chegue, de que estamos aqui. José – Sim, senhor. Helena – O champagne já está gelado? José – Já deve estar. Que outros vinhos há de querer, Sr. Pinheiro? Pinheiro – Os melhores. Helena – Eu cá não bebo senão champagne. Pinheiro – Por espírito de imitação. Ouviu dizer que era o vinho predileto das grandes lorettes de Paris. Helena – Não gosto de franceses. Pinheiro – Pois eu gosto bem das francesas. Helena – Faz bem! Nós é que temos a culpa! Se fôssemos como algumas que a ninguém têm amor!... Pinheiro – Qual! Santo de casa não faz milagres. José – Já viu uma dançarina que chegou pelo paquete? Pinheiro – A que está no Hotel da Europa? José – Não; está aqui, no número 8. Helena– Alguém lhe pediu notícias dela? José (rindo) – O Sr. Pinheiro gosta de andar ao fato dessas coisas.

CENA I (Pinheiro e Helena)

Helena – Ah! Já confessa!Mas dizem que o Araújo agora está bem?

Helena – Como esteve maçante o teatro hoje! Pinheiro – Como sempre. Helena – Não sei que graça acham esses sujeitinhos na Stoltz! Não tem nada de bonita! Pinheiro – É prima dona! Helena – Sabes quem deitou muito o óculo para mim? O Araújo. Pinheiro – Ah! Está apaixonado por ti? Helena – E por que não? Outros melhores têm-se apaixonado! Pinheiro – Isso é verdade! Pinheiro – É guarda-livros de uma casa inglesa. Helena – Foi feliz; eu conheci-o caixeiro de armarinho. Pinheiro – Escuta, Helena; tenho uma coisa a dizer-te.

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Helena – O quê?Temos arrufos?...
Helena – Está feito! tu sempre me havias de deixar!Antes assim!
Helena – Não paga o sacrifício que eu te faço!esses homens pensam! Se eles
Helena – FaloFalo...

16 Pinheiro – Estou apaixonado pela Carolina. Helena – Já me disseste. Pinheiro – Julgaste que era uma brincadeira! Mas é muito sério. Estou disposto a tudo para conseguir que ela me ame. Helena – Por isso é que já não fazes caso de mim? Pinheiro – Ao contrário; é de ti que eu mais espero. Helena – De mim? Pinheiro – Não me recusarás isto! Helena – Ah! Julgas que a minha paciência chega a este ponto? Pinheiro – Foste tu que protegeste o Ribeiro. Pinheiro – Sim; mas o Ribeiro não era meu amante, como o senhor! Pinheiro – Ora, deixa-te disso! Queres fazer de ciumenta! Que lembrança!... Helena – Não julgue os outros por si. Pinheiro – Olha! A Carolina gosta de mim, e... Helena – E mais cedo ou mais tarde devo ceder-lhe o meu lugar? Pinheiro – Desde que nada perdes... Helena – É o que te parece. Pinheiro – Eu continuarei a ser o mesmo para ti. Helena – Cuidas que não tenho coração? Pinheiro – Se eu não soubesse como tu és boa e condescendente, não te pedia este favor. Pinheiro - Obrigado, Helena. Helena – Que queres que eu faça? Pinheiro – Eu te digo. Dei esta ceia ao Ribeiro unicamente para ver se consigo falar à Carolina. Helena – Ah! nunca lhe falaste? Pinheiro – Nunca: o Ribeiro não a deixa! Helena – É verdade: há dois anos que a tirou de casa e ainda gosta dela como no primeiro dia. Pinheiro – Posso contar contigo? Helena – Já te prometi. Mas vês esta pulseira? Foi o presente que me fez o Ribeiro. É de brilhantes!... Pinheiro – Eu te darei um adereço completo. dizem que a gente é de mármore! Pinheiro – Falarás hoje mesmo a ela. Pinheiro – Vê se consegues que deixe o Ribeiro. Helena – Fica descansado. Eu sei o que hei de fazer. Agora vai contar isto aos teus amigos para que eles zombem de mim.

CENA I (Os mesmos,. José, Ribeiro e Carolina)

José – Aí está o Sr. Ribeiro com uma senhora. Posso servir? Pinheiro – Podes. Helena – Ainda não. Espere um momento.

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Helena – Já te esqueceste?deve ser antes.

Pinheiro – Para quê? Pinheiro – Ah! Sim! Ribeiro – Chegaram muito cedo. Helena – Saímos antes de acabar o espetáculo. Ribeiro – Não reparei. Quanto mais depressa acabarmos, melhor. Pinheiro – A Favorita fez-te fome? Ribeiro – Alguma: mas além disso preciso recolher-me cedo. Carolina – Pois eu previno-te que enquanto houver uma luz sobre a mesa e uma gota de vinho nos copos, não saio daqui. Tenho tantas vezes sonhado uma noite como esta, tenho esperado tanto por estas horas de prazer, que pretendo gozá-las até o último momento. Quero ver se a realidade corresponde à imaginação. Ribeiro – Está bem, Carolina: pode ficar o tempo que quiseres. Não te zangues por isso. Carolina – Oh! Não me zango! Já estou habituada à vida triste a que me condenaste. Mas hoje... Helena – Então não vives satisfeita? Carolina – Não vivo, não, Helena: sabes que me prometeram uma existência brilhante, e me fizeram entrever a felicidade que eu sonhava no meio do luxo, das festas e da riqueza! A ilusão se desvaneceu bem depressa. Ribeiro – Tu me ofendes com isto, Carolina. Carolina –Cuidas que foi para me esconderes dentro de uma casa, para olhar de longe o mundo sem poder gozá-lo, que abandonei meus pais? Que sou eu hoje? Não tenho nem as minhas esperanças de moça, que já murcharam, nem a liberdade que sonhei. Ribeiro – Mas, Carolina, tu bem sabes que eu, se te guardo para mim somente, se tenho ciúme do mundo, é porque te amo: sou avaro, confesso; sou avaro de um tesouro. Carolina – Não entendo esse amores ocultos que têm vergonha de se mostrarem; isto é bom para os velhos e para os hipócritas. Amar é gozar a existência a dois, partilhar seus prazeres e sua felicidade. Que prazeres temos nós que vivemos aborrecidos um do outro? Que felicidade sentimos para darmo-nos mutuamente? Ribeiro – Está hoje de mau humor. Carolina – Ao contrário, estou contente! A vista destas luzes, destas flores, desta mesa, destes preparativos de ceia, me alegrou. É assim que eu compreendo o amor e a vida. Na companhia de alguns amigos, vendo o vinho espumar nos copos e sentindo o sangue ferver nas veias. Os olhares queimam como fogo; os seios palpitam, a alma bebe o prazer por todos os poros; pelos olhos, pelos sorrisos, nos perfumes, e nas palavras que se trocam! Helena – Bravo! Como estás romântica! Carolina – Oh! Tu não fazes idéia! Meu espírito tem revoado tantas vezes em torno dessa esperança, que vendo-a prestes a realizar-se, quase enlouqueço. Outrora dei por ela a minha inocência; hoje daria a minha vida inteira! (Ribeiro e Pinheiro conversam à parte) Helena– Pois olha! Tens o que desejas bem perto de ti. Carolina – Não entendo. Helena – Deixa-te ficar e verás. Carolina – Mas escuta! Helena – Depois; não percas tempo. Carolina – Já perdi dois anos! w.nead.unama.br

Ribeiro – Foste injusta comigo, Carolina. Não acreditas que te amo, ou já não me amas talvez! Confessa! Carolina – Não sei. Ribeiro – Dize francamente. Carolina – Como está quente a noite! Abre aquela janela. (Ribeiro vai abrir a janela do fundo; Helena que falava baixo a Pinheiro, dirige-se a ele, e ambos conversam recostados à grade e voltados para a rua)

CENA IV (Carolina e Pinheiro)

Carolina – Hoje?...Não!Talvez amanhã.

Pinheiro – Eu lhe agradeço, Carolina. Carolina – O que, senhor Pinheiro? Pinheiro – A satisfação que me causaram suas palavras. Não pensava, dando esta ceia, que ia realizar um desejo seu. Carolina – Ah! é verdade! Mas sou eu então que lhe devo agradecer. Pinheiro – Faça antes outra coisa. Carolina – O quê? Pinheiro – Faça que o acaso se torne uma realidade; que esta noite de esperança se transforme em anos de felicidade. Aceite o meu amor. Carolina – Para fazer o que dele? Pinheiro – O que quiser; contanto que me ame um pouco, sim? Carolina – Não. Pinheiro – Amor por amor, já tenho um; e este, ao menos é primeiro. Pinheiro – O meu será o segundo e eu procurarei torná-lo tão belo, tão ardente que já não tenha mais inveja do primeiro. Carolina – Já me iludiram uma vez essas promessas, quando eu ainda via o mundo com os olhos de menina, hoje não creio mais nelas. Pinheiro – Não tem razão. Carolina – Oh! se tenho! O senhor diz agora que me ama, por mim, para fazer-me feliz, para satisfazer os meus desejos, os meus caprichos, as minhas fantasias. Se eu acreditasse nessas belas palavras, sabe o que aconteceria? Pinheiro – Me daria a ventura! Carolina – Sim, mas ficaria o que sou. No momento em que lhe pertencesse, tornarme-ia um traste, um objeto de luxo; em vez de viver para mim, seria eu que viveria para obedecer às suas vontades. Não; no dia em que a escrava deixar o seu primeiro senhor, será para reaver a liberdade perdida. Pinheiro – Não é livre então? Não pode amar aquele que preferir? Carolina – Para uma mulher ser livre é necessário que ela despreze bastante a sociedade para não se importar com as suas leis; ou que a sociedade a despreze tanto que não faça caso de suas ações. Eu não posso ainda repelir essa sociedade em cujo seio vive minha família; há alguns corações que sofreriam com a vergonha da minha existência e com a triste celebridade do meu nome. É preciso sofrer até o dia em que me sinta com bastante coragem para quebrar esses últimos laços que me prendem. Nesse dia, se houver um homem que me ame e que me ofereça a sua vida, eu a aceitarei; porém como senhora. Pinheiro – E por que este dia não será hoje? Diga uma palavra! uma só... Pinheiro – Promete? w.nead.unama.br

Carolina – Não prometo nada. Vamos cear. Anda. Helena! Ribeiro!Deixem-se de

19 conversar agora. Pinheiro – José, serve-nos.

CENA V (Os mesmos, Ribeiro, Helena e Meneses)

eu não gosto de ser nem importuno, nemVieirinha!...

Ribeiro – É mais de meia-noite. Helena – Um dia não são dias, Sr. Ribeiro; amanhã dorme-se até às duas horas da tarde. Carolina – Justamente as horas que eu passo mais aborrecida. Tu me pareces a mesma. Achaste o que procuravas? Carolina – Ainda não. És difícil de contentar. Pinheiro – Adeus, Meneses. Queres cear conosco? Meneses – Muito obrigado. Pinheiro – Não faças cerimônia. Meneses – Tu és que estás usando de etiquetas. Onde vieste usar um quinto parceiro para jogar uma partida de voltarete? Ribeiro – Ah! É por isso que não aceitas? Meneses – Decerto! Nesta espécie de ceias, a regra é nem menos de dois, nem mais de quatro; um quinto transtorna a conta, a menos que não seja um zero. Ora, Pinheiro – Deixa-te disso; vem cear. Meneses – É escusado insistires. Ribeiro – Pois não sabes o que perdes. Meneses – Não; mas sei quanto ganho. Pinheiro – Podemos ir-nos sentando.

CENA VI (Os mesmos, Luís, Araújo e José)

Araújo – Não tenhoUma pessoa que te fez bastante mal.
Araújo– Lembras-te daquela mulher que mandava fazer costuras(Vendo Carolina,

Araújo – Tu não és capaz de adivinhar quem eu vi esta noite no teatro. Luís – Alguma tua apaixonada? Luís – Quem? aperta o braço de Luís) oh! Luís – Ela!... Araújo – Não faças estaladas. Finge que não a vês; é o melhor. Luís – Adeus. Não posso ficar aqui. Araújo – Deixa-te disso, Luís. Nada de fraquezas! Luís – Mas a sua presença é uma tortura. Araújo – Come alguma coisa: é o melhor calmante para as dores morais. Tenho estudado a fundo a fisiologia das paixões e estou certo que o coração está no estômago quando não está na algibeira. Meneses – Araújo! Araújo – Oh! Não te tinha visto. Meneses – Estiveste no teatro? w.nead.unama.br

Araújo – Estive. Meneses – Que tal correu a Favorita? Araújo – Bem; por que não foste? Meneses – Tinha uma partida a que não podia faltar. Pinheiro – Anda mais depressa, José! José – Pronto! Uma mayonnaise soberba! Helena – De quê? José – De salmão? (Durante este último diálogo, Carolina tira as luvas e o mantelete, que vai deitar no sofá à direita; Luís ergue-se. O trecho seguinte da cena é dito à meia-voz) Carolina – Luís. Luís– Silêncio! Carolina – Não me quer falar, meu primo? Luís – Com que direito os lábios vendidos profanam o nome do homem honesto que deve a posição que tem ao seu trabalho? Com que direito a moça perdida quer lançar a sua vergonha sobre aqueles que ela abandonou? Carolina – Não me despreze, Luís. Luís – Não a conheço. Carolina – Tem razão. Esqueci-me que estou só neste mundo; que não me resta mais nem pai, nem mãe, nem parentes, nem família. O senhor veio lembrar-me! Obrigada. Luís – Minha prima! Carolina – Sua prima morreu! (Volta-lhe as costas) Helena – Vem, Carolina! Ribeiro – Quem é este moço com quem conversavas? Carolina – Não sei. Ribeiro – Não o conheces? Carolina – Nunca o vi. Ribeiro – Mas falavas com ele? Carolina – Pedia-me notícias de uma amiga minha que já é morta. Ribeiro – Não estejas com estas idéias tristes. Anda; estão nos esperando. Araújo – José, traz-nos alguma coisa. José – O que há de ser? Araújo – O que vier mais depressa. Meneses – E a mim, quanto tempo queres fazer esperar? José – O que deseja, senhor Meneses? Meneses – Desejo o que tu não tens; dize-me antes o que há. José – Quer uma costeleta de carneiro? Meneses – Vá feito. Araújo (a Luís) – Sabes do que estou lembrando? Daquelas noites em que ceávamos juntos na Águia de Prata, há dois anos, quando tu me falavas do teu amor. Naquele tempo não tínhamos dinheiro, nem freqüentávamos os hotéis. Eras compositor e eu caixeiro de armarinho na Rua do Hospício. Luís – E hoje somos mais felizes? Adquirimos uma posição bonita, que muitos invejam, mas perdemos tantas esperanças que naqueles tempos nos sorriam! Araújo – Vais cair nos sentimentalismos! A esta hora é perigoso. Luís – Dizes bem! Há certas ocasiões em que é preciso rir para não chorar. (a José). Uma garrafa de cerveja. Araújo – Amarela! w.nead.unama.br

CENA VII (br) (Os mesmos e Vieirinha)

Meneses – Então já se sabeTiveste serviço?
Vieirinha – Não lhe dei corda! ocupei-me com outra pessoaMas esta tu não
Vieirinha – Adeus, Pinheiro!Mas como está isto florido!

Vieirinha – Só o Meneses não estaria por aqui! Meneses – Sigo o teu exemplo. Vieirinha – Não quiseste ir hoje ao lírico? Meneses – Tive que fazer. Vieirinha – Pois esteve bom; havia muita moça bonita. A Elisa lá estava. conheces. Meneses – É nova? Vieirinha – Negócio de quinze dias; porém já está adiantado. Meneses – Ainda não te escreveu? Vieirinha – És curioso. Pinheiro – Vieirinha! Pinheiro – Vem cear conosco. Vieirinha – Aceito. Como estás, Ribeiro? Ribeiro – À tua saúde! Pinheiro – E dos teus amores. Vieirinha – Quais? Meneses – São tantos, que nem se lembra! Araújo – Quem é este conquistador? Meneses – Nunca o viste? Araújo – Não. Meneses – Admira! É um desses sujeitos que vivem na firme convicção de que todas as mulheres o adoram; isto o consola do pouco caso que dele fazem os homens. Araújo – Então é um fátuo? Meneses – Pois não! É um homem feliz; vai a um teatro e a um baile; acha bonita uma mulher, solteira, viúva ou casada; persuade-se que ela o ama; e no dia seguinte com a maior boa fé revela esse segredo a alguns amigos bastante discretos para só contarem aos seus conhecidos. Araújo – E é nisso que se ocupam? Meneses – Achas que é pouco? Vieirinha – Uma saúde! Mas há de ser de virar. Helena – A quem? Vieirinha – À mulher que compreende o amor. Pois eu bebo à mulher que compreende o prazer. Pinheiro – Bravo! Muito bem! Helena – Não bebe, senhor Ribeiro? Ribeiro – Eu bebo à minha saúde. Helena – E eu à segunda. Vieirinha – E eu a ambas. Pinheiro – José, pede permissão a estes senhores para oferecer-lhes um copo de champagne. Espero que me façam o obséquio de acompanhar a nossa saúde. Vamos, Meneses! Meneses – Qual é a saúde? Carolina – À mulher que ama o prazer.

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honrada. Tinha dezoito anos; era lindacomo... uma senhora que está a seu lado,
Carolina – Por quê?A história do senhor é tão bonita.

Meneses – Vá lá! Pinheiro – Os senhores não bebem? Araújo – Eu agradeço. Pinheiro – E o senhor Viana? Luís – Eu proponho outra saúde: ao prazer e àqueles que para gozá-lo sacrificam tudo! Pinheiro – É a melhor! Luís – E a mais verdadeira. Se os senhores me permitem, eu lhes contarei uma pequena história que os há de divertir. Vieirinha – Com muito gosto. Meneses – Venha a história. Luís – O senhor pode aproveitá-la para um dos seus folhetins, quando lhe falte matéria. Meneses – Fica ao meu cuidado. Vieirinha – Mas não a apliques a ti, conforme o teu costume. Meneses – Se for uma história de amor, está visto que hás de ser tu o meu herói. Luís – É uma história de amor. Passou-se há dois anos. Pinheiro – Aqui na corte? Luís – Na Cidade Nova. Vivia então no seio de uma família uma moça pobre, mas Sr. Ribeiro. Ribeiro – Em que rua morava? Luís – Não me lembro. Seu pai e sua mãe a adoravam; tinha um primo, pobre artista, que a amava loucamente. Carolina – A amava?... Luís – Sim, senhora. Era ela quem lhe dava a ambição; era esse amor que o animava no seu trabalho, e que o fazia adquirir uma instrução que depois o elevou muito acima do seu humilde nascimento. Mas sua prima o desprezou, para amar um moço rico e elegante. Araújo (baixo) – Vais trair-te. Luís – Não importa. Pinheiro – Continue, senhor Viana. Helena – Eu acho melhor que se faça uma saúde cantada. Vieirinha – Com hipes e hurras! Vieirinha – Lá isso não se pode negar! É um perfeito romance. Luís – Uma noite, no momento em que esse moço entrava, sua prima seduzida por seu amante, ia deixar a casa dos pais. Meneses – O! Temos um lance dramático? Luís – Não, senhor; passou-se tudo muito simplesmente. Ele disse algumas palavras severas à sua prima; esta desprezou suas palavras como tinha desprezado o seu amor, e...partiu. Vieirinha – Como! O sujeito deixou-a partir? Luís – É verdade. Carolina – E a amava!... Meneses – Era um homem prudente. Luís – Era um homem que compreendia o prazer. Pinheiro – Não entendo. Luís – Ele amava essa moça, mas não era amado; nunca obteria dela o menor favor, e respeitava-a muito para pedi-lo. Lembrou-se que, deixando-a fugir, chegaria w.nead.unama.br

Carolina – Essa moçaOs senhores desejam conhecê-la?

o dia em que com algumas notas de banco compraria a afeição que não pôde alcançar em troca de sua vida. Araújo – Como podes mentir assim! Ribeiro – Não bebas tanto champagne, Carolina. Faz-te mal! Luís – Esse homem compreendia o mundo, não é verdade? Vieirinha – Era um grande político. Meneses – Da tua escola. Luís – Desde então ele tratou de ganhar dinheiro; precisava não só para satisfazer o seu capricho, como para aliviar a miséria da família daquela moça, que com a sua loucura, tinha lançado sua mãe em uma cama, e arrastado o pai ao vício da embriaguez. Ah!... Ribeiro – Que tens? Carolina – Uma dor que costumo sofrer! Dá-me vinho. Luís – É justamente o que esse pai fazia. Sentia a dor da perda de sua filha e queria afogá-la com vinho. Vieirinha – Mau! A história começa a enternecer-me. Meneses – É bem interessante. Carolina – Mas falta-lhe o fim. Meneses – Ah! Tem um fim? Ribeiro – Carolina! Vieirinha – Decerto. Carolina – Sou eu! Pinheiro – A senhora! Luís (a Araújo) – Está perdida. Carolina – Sou eu: e espero que chegue o dia em que possas pagar o sacrifício desse amor tão generoso, que desprezei. Pinheiro – Mas seu primo?... Carolina – Já o não é. Meneses – Como se chama? Carolina – Não sei. Araújo – José, dá-me a conta. Meneses – Espera, vamos juntos. Araújo – Ainda te demoras! Meneses – Não.

CENA VIII (Os mesmos, José e Antônio)

Antônio (da parte de fora) – Quero beberVinho... compro com o meu dinheiro. Eh!

José (na porta) – Ponha-se na rua! Não achou outro lugar para cozinhar a bebedeira? Meia garrafa, senhor moço! José – Vá-se embora, já lhe disse. Meneses – Que barulho é este, José? José – É um bêbado. Achou a porta aberta e entrou. Agora quer por força que lhe venda meia garrafa de vinho. Araújo – Pois mata-lhe a sede. José – Se ele já está caindo.

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Antônio – Estão rindo?Cuidado que estou meio lá meio cá.
Antônio – Não é, não. Mas faltavam-lhe os cobres, senãoOh! Tanto hei de beber
Antônio – Não sabe? Upa!Pois não sabe?... Eu não bebo porque goste de
vinhoJá me enjoa.
Antônio – Porque procurôôôeh! Iô... procuro no fundo da garrafa uma coisa que
Antônio – Venha! (Provando) Puah!não presta! É doce como as falas de certa
Antônio – Não tem que contarO trabalhador não deve criar sua filha para os

Antônio (cantando) – Mandei fazer um balaio Da casquinha de um camarão José – Nada! Ponha-se no andar da rua. Carolina – Deixe-o entrar; talvez nos divirta um pouco. Estou triste. José – Mas é capaz de quebrar-me a louça. Pinheiro – Que tem isso? Eu pago o que ele quiser. Carolina – É uma fineza que lhe devo. Ribeiro – Mas não é necessária; tu podes satisfazer a teus caprichos sem recorrer a ninguém. Antônio – Oh! temos bródio por cá também? Viva a alegria! Toca música! Ta-ra, lalá, ta-ri, to-ri (dança). Meneses – O homem é diletante como o Vieirinha. Vieirinha – E engraçado como um artigo teu. Meneses – Não; faz tanto barulho que vê-se logo que está todo cá. Antônio – Pois olhe, apenas bebi seis garrafas. Vieirinha – Não é muito! que por fim hei de achar. Meneses – Achar o quê? Meneses – Por que bebe então? os velhos chamam virtude, e que não se acha mais nesse mundo. Pinheiro – Eis um Diógenes!... Helena – Como te chamas? Antônio – Que te importa o meu nome? Não tenho dinheiro! Araújo – (a Luís, baixo) – Luís! Luís! Olha! Luís – O quê? Araújo – Este homem. Luís – Antônio!... Araújo – Cala-te! Meneses – Mas então ainda não achou o que procuravas? Antônio – Hein?... Meneses – A virtude... Antônio – Não existe. No fundo da garrafa só acho o sono. Mas é bom o sono. A gente não se lembra... Vieirinha – Das maroteiras que fez. Antônio – A gente vive no outro mundo que não é ruim como este. Oh! é bom o vinho! Vieirinha – Pois tome lá este copo de champagne. gente; embrulha-me o estômago! Antes a aguardente que queima! Meneses – Chegue aqui; diga-me o que você procura esquecer. Sofreu alguma desgraça? Vieirinha – Queres outra história? Antônio – Qual história? Não sofri nada! Diverti os outros. Meneses – Mas conte isso mesmo. moços da moda? w.nead.unama.br

Antônio – Roubaram e nem ao menos me deram o que ela valia! VelhacosOs
dias. Estou rico! Viva a alegria! Olá! senhor moço! Ande com isso!Meia garrafa!...
Antônio (para Carolina) – Olé! Que peixão! Dê cá este abraçomenina!
Antônio – Pai!Há muito tempo que não ouço esta palavra. Mas quem és tu?
Deixa-me ver o teu rosto. Tu pareces bonita. Serás como Carolina? Masse não
me enganoSim... Sim... Tu és!
Antônio – Não foste tu que me falaste há pouco?aqui... Não me chamaste teu
pai?Carolina!
Antônio – Sim, tua mãeMargarida. Se soubesses... como ela tem chorado...
Antônio – Oh! tens razão! Tu não és minha filha. Nunca foste(Precipita-se sobre
Antônio – E elafica.

Meneses – Então sua filha... sujeitinhos hoje estão espertos! Meneses – Pobre homem! Antônio – Pobre, não! (Bate no bolso) Veja como tine. (Rindo) A mulher está doente, não trabalha; eu durmo todo o dia, não vou mais à loja; porém Margarida tinha uma cruz de ouro com que rezava. Fui eu, e furtei de noite a cruz, como o outro furtou minha filha, e passei-a nos cobres. Cá está o dinheiro; chega para beber dois Helena – (à Carolina) – Vamos para outra sala; não podes ficar aqui. (Erguem-se) Ribeiro (a José) – Faz já sair este bêbado! Araújo (a Luís) – Tenho medo do que vai se passar. Carolina – Meu pai!...(Esconde o rosto) Carolina – Não! Antônio – Tu és minha filha! Carolina – É falso! Carolina – Deixe-me! Antônio – Vem! Tua mãe me pediu que te levasse. Carolina – Minha mãe!... Minha pobre Margarida! Carolina – Não sei quem é. Antônio – Não sabes? Carolina – Não! Antônio – Tu não sabes? Carolina – Meu Deus! Antônio – Esqueceste até o nome de tua mãe? Carolina – Esqueci tudo. ela e a obriga a ajoelhar-se. Ribeiro e Pinheiro protegem Carolina, enquanto Luís segura Antônio pelo braço) Luís – Antônio! Antônio – Solta-me, Luís! Meneses – Não a ofenda! É sua filha! Antônio – Não: já não é. Meneses – Mas é ainda uma mulher. Deseja puni-la? Respeite essa vida que a levará de lição em lição até o último e terrível desengano. É preciso que um dia a sua própria consciência a acuse perante Deus, sem que possa achar defesa, nem mesmo na cólera severa, mas justa de um pai. Araújo – Vamos; vamos, Luís. Araújo – Nem lhe responde! Antônio – Pois sim, fica; se algum dia me encontrares no teu caminho, se o teu carro atirar-me lama à cara, se os teus cavalos me pisarem, não me olhes, não me w.nead.unama.br

Abre os braços à tua filha!Olha! Olha!... Não vês que ela chora?
Carolina – Foram as últimas lágrimasjá secaram!... se tivessem caído neste copo,

reconheças. Vê o que tu és, que um miserável bêbado, que anda caindo pelas ruas, tem vergonha de passar por teu pai! Luís – Espera, Antônio! Talvez ainda não esteja tudo perdido. Um último esforço! eu beberia com elas à memória do meu passado.

ATO SEGUNDO (Sala em casa de Helena)

CENA PRIMEIRA (Luís, Araújo e Meneses)

(Parte 2 de 4)

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