As Asas de um Anjo - José de Alencar

As Asas de um Anjo - José de Alencar

(Parte 3 de 4)

Araújo – Bonita!Uma mulher que tem os dentes e os cabelos na Rua do Ouvidor!

Meneses – Podemos entrar. Nada de cerimônias. Araújo – Talvez sejamos importunos. Meneses – Não tenhas receio. Sente-se, Sr. Viana. Araújo – E o tal Vieirinha? Meneses– Que tem? (Na porta Helena! Helena (dentro) – Já Vou, Sr. Meneses. Meneses – Está no toilette naturalmente. Esperemos um instante. Araújo – Não cuidei que se tratasse com tanto luxo! É uma bela casa. Meneses – Como muitas famílias não a têm; mas assim deve ser quando os maridos roubam as suas mulheres, e os pais a seus filhos para alimentarem esses parasitas da sociedade. Luís – Dizes bem; a culpa não é delas. Meneses – Mas, Araújo, sinceramente te confesso que ainda não compreendi o teu empenho! Araújo – Empenho de quê? Meneses – De conhecer a Helena. Achas bonita? Meneses – Entretanto entraste hoje de madrugada, quero dizer, às dez horas por minha casa; interrompeste o meu sono de domingo, o único tranqüilo que tem um jornalista; me fizeste sair sem almoço; pagaste um carro; e tudo isto para que te viesse apresentar a essa velha sem dentes e sem cabelos! Araújo – Isso se explica por um capricho. Sou um tanto original nas minhas paixões. Meneses – Então estás apaixonado pela Helena? Araújo – Infelizmente. Luís – Por que não confessas a verdadeira causa? O Sr. Meneses é teu amigo, e embora só há pouco tempo tivesse o prazer de conhecê-lo, confio bastante no seu caráter para falar-lhe com franqueza. Araújo – É o melhor; assim me poupas o descrédito de inventar uma paixão bem extravagante. Meneses – Qual é então a verdadeira causa desta apresentação? Luís – Eu lhe digo. Trata-se de salvar uma moça por quem muito me interesso; quero falar-lhe ainda uma vez, tentar os últimos esforços; mas na sua casa é impossível; o Ribeiro guardou-o com um cuidado e uma vigilância excessiva. Meneses – E a Carolina? Luís – Ela mesma. Lembra-se daquela cena que presenciamos no hotel há cerca de um mês? w.nead.unama.br

Araújo – Tu exageras!Ninguém se avilta a esse ponto.

Meneses – Lembro-me perfeitamente; e parece-me, pelo que vi, que os seus esforços serão inúteis. Araújo – É também a minha opinião. Tenho-lhe dito muitas vezes que a honra de um homem é uma coisa muito preciosa para estar sujeita ao capricho de qualquer mulher, só porque o acaso a fez sua parente. Luís – Não é por mim, Araújo, é por ela que procuro salvá-la. Reconheço que é bem difícil; mas resta-me ainda uma esperança: talvez a mãe obtenha pelo amor, aquilo que nem a voz da razão nem o grito do dever puderam conseguir. Meneses – Pensa bem, Sr. Viana. Luís – Para isso, porém, é preciso encontrá-la um só instante; soube que costuma vir à casa desta mulher que a perdeu e de quem é amiga. Araújo disse-me que o senhor a conhecia; e fomos imediatamente procurá-lo. Eis o verdadeiro motivo do incômodo que lhe demos; o Sr. Meneses é homem para o compreender e apreciar. Meneses – Não se enganou, Sr. Viana; farei o que me for possível. Meneses – Não tem de que; é dever de todo homem honesto proteger e defender a virtude que vacila e vai sucumbir ou mesmo ajudá-la a reabilitar-se. Mas devo corresponder à sua fraqueza com igual franqueza. Creio que o senhor, e tu mesmo, Araújo, não conhecem bem o terreno em que pisam. Luís – Não, decerto. Araújo – Quanto a mim estou em país estrangeiro. Meneses – Pois é preciso estudar o movimento e a órbita destes planetas errantes para acompanhá-los na sua rotação. Aqui não se conhece nem um desses objetos como a honra, o amor, a religião, que fazem tanto barulho lá fora. Neste mundo à parte, só há um poder, uma lei, um sentimento, uma religião; é o dinheiro. Tudo se compra e tudo se vende; tudo tem um preço. Luís – Que miséria, meu Deus! Meneses – Quem vê de longe este mundo, não compreende o que se passa nele, e não sabe até onde chega a degeneração da raça humana. O oriente desses astros opacos é o luxo; o ocaso é a miséria. Começam vendendo a virtude; vendem depois a sua beleza, a sua mocidade, a sua alma; quando o vício lhes traz a velhice prematura, não tendo já que vender, vendem o mesmo vício e fazem-se instrumento de corrupção. Quantas não acabam vendendo suas filhas para se alimentarem na desgraça! Meneses – Não exagero. Muitas são boas e capazes de um sacrifício; têm coração. Mas de que lhes serve esse traste no mundo em que vivem! Araújo – Para amar o homem a quem devem tudo. Meneses – Ele seria o primeiro a escarnecer dela.

CENA I (Os mesmos, Vieirinha e Helena)

Vieirinha (cantarolando) – De suis le sire de Framboisy! meus senhores!Não se

incomodem, estejam a gosto. Meneses – Adeus. Como vais? Vieirinha – Bem, obrigado. Meneses – Que se faz de bom? Vieirinha – Nada; enche-se o tempo. Meneses – Enfim apareceu! w.nead.unama.br

Helena – Desculpe; se me tivesse prevenido da sua visitaMas chega de repente e
Meneses – Tem razão!Aqui lhe trouxe o Sr. Viana e o Sr. Araújo que muito

28 no momento em que estava me penteando. desejam conhecê-la. São meus amigos; isto diz tudo. Helena – A minha casa está às suas ordens. Estimo muito... Meneses – Se não me engano, o Sr. Viana deseja conversar com a senhora; portanto não o faça esperar. Helena – Fazer esperar é o nosso direito, Sr. Meneses! Meneses – Quando se trata de amor, mas não quando se trata de um negócio. Helena – Ah! É um negócio... Luís – Sim, senhora... Helena – Pois quando quiser... Vieirinha – Já almoçaste, Helena? Helena – Há pouco; mas o almoço ainda está na mesa. Vieirinha – Com licença, meus senhores. (Luíse Helena conversam no sofá; Meneses e Araújo recostados à janela)

CENA I (Meneses, Araújo, Luís e Helena)

Araújo – Não me dirás que figura faz este Vieirinha no meio de tudo isto? Meneses – A figura de um desses sagüis com que os moços se divertem. Neste mundo de mulheres, Araújo, existem duas espécies de homens, que eu classifico como animais de penas. Uns são os moços ricos e os velhos viciosos que se arruinam e estragam a sua fortuna para merecerem as graças dessas deusas pagãs; esses se depenam. Os outros são os que vivem das migalhas desse luxo, que comem e vestem à custa daquela prodigalidade; esses se empenam. Araújo – O Vieirinha pertence a esta última classe. Meneses – É o tipo mais perfeito. Em todas estas casas encontra-se uma variedade do gênero Vieirinha. Araújo – Mas por que razão suportam elas esse animal? Será amor? Meneses – Às vezes é; outras é simples orgulho e vaidade. Esta gente que profana tudo, que faz de tudo, dos sentimentos mais puros uma mercadoria, depois de tanto vender, quer também ter o gosto de comprar. Umas compram logo um marido; outras contentam-se em comprar um amante. É mais cômodo: deixa-se quando aborrece. Araújo – É o que Helena fez com o Vieirinha? Meneses – Justamente. Meneses – E sai-lhe caro esse capricho? Meneses – Sem dúvida; mas o dinheiro como vem, assim vai. Depois ela dá por bem empregado qualquer sacrifício. Não quer parecer velha. Araújo – Mas quando ceamos juntos, aquela noite ao sair to teatro, me pareceu que o Pinheiro... Meneses – Deixou-a; está apaixonado pela Carolina; e a Helena, segundo me disseram, o protege. Araújo – Ah! De amante passou a confidente? Meneses – É verdade. Tu ficas? Araújo – Espero por Luís. Meneses – Então, adeus.

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Araújo – Ao meio-dia?São mais de onze...

Araújo – Por que não te demoras? Sairemos juntos. Meneses – Não posso; tenho que fazer. Vou almoçar e depois escrever um artigo. Até a noite. Araújo – Aonde? Meneses – No Teatro Lírico. Não vais? Araújo – É natural. Meneses – Sr. Viana! Helena... Luís – Já vai? Nós o acompanhamos. Meneses – Depressa terminou a sua conversa! Luís – É verdade; a senhora foi tão simples! Meneses – Fico bastante satisfeito; é sinal de que a minha apresentação valeu um pouco. Helena – O senhor sabe que ela vale sempre muito. Araújo (a Luís) – Conseguiste? Luís – Consegui tudo. O Meneses tem razão: o dinheiro venceu todas as dificuldades. Ao meio-dia, Carolina está aqui. Luís – Toma o carro. Ela está doente, mas a esperança de ver sua filha... Araújo – E tu onde me esperas? Luís – Eu vou dar uma volta, e dentro de meia hora voltarei. Araújo – Até já, Meneses! (à Helena) Viva! Luís – Vamos, Sr. Meneses. Helena – Então ao meio-dia? Luís – Aqui estarei.

CENA IV (Helena e Vieirinha)

Vieirinha – Almocei bem! O Meneses já foi? Helena – Saiu agora mesmo. Vieirinha – E os outros? Helena – Também. Vieirinha – Que fazer tu hoje? Helena – Nada. Vieirinha – Então não precisas de mim? Helena – Que pergunta! Vieirinha – Dá-me um charuto. Helena – Não tenho. Vieirinha – Estás hoje muito aborrecida. Helena – E tu muito maçante. Vieirinha – Não duvido; passei mal a noite. (Estende-se no sofá) Se quiseres conversar, acorda-me. Helena – Não se deite, não senhor. Vieirinha – Por quê? Helena – Não são horas de dormir. Vieirinha – Ora, quando se tem sono... Helena – Espero Carolina. Preciso estar só com ela. Vieirinha – Está feito. vou trocar as pernas por aí. Helena – Não voltas? w.nead.unama.br

Helena – Estás zangado?Deixa-te disso. Volta às quatro horas.
Vieirinha (rindo) – Deveras!Pois não vou ao Hotel de Botafogo porque não quero
Vieirinha – Sacrifício(faz o gesto vulgar com que se exprime dinheiro)
Vieirinha – Está dito!Tu és uma flor, Helena.

Vieirinha – É boa! Deitas-me pela porta fora e achas que devo voltar? Vieirinha – Para fazer o quê? Helena – Iremos jantar ao Hotel de Botafogo. Vieirinha – É muito longe. Helena – Não faltes. Vieirinha – Se puder. Helena – Conto contigo. Vieirinha – Vai só. Helena – Não tem graça! Vieirinha – Pois eu não posso ir. Helena – Por que razão? Vieirinha – Por quê... Helena – Estás inventando a mentira? Vieirinha – Tenho acanhamento em confessar-te. Helena – Começas tarde com os teus acanhamentos! encontrar-me com certo sujeito. Helena – Ou sujeita?... Vieirinha – Já está com ciúmes! É um rapaz que me ganhou outro dia cinqüenta milréis no jogo, e a quem ainda não paguei. Helena – Não será o primeiro. Vieirinha – Nem o último. Mas esse tem uma irmã feia e rica que pode ser um excelente casamento. Se não lhe pago, fico desacreditado na família. Helena – Bem feito! Só assim deixarás o maldito vício do jogo. Vieirinha – Ah! Deu-te para aí! Queres pregar-me um sermão? Basta os que ouço do velho! (Vai sair) Helena – Então, até quatro horas? Vieirinha – Não, decididamente não vou; já te disse o motivo. Helena – Olha! Se tu me prometesses... Vieirinha – O quê? Helena – Não jogar mais. Vieirinha – Que farias? Helena – Faria um sacrifício... Helena – Sim! Vieirinha – Prometo o que tu quiseres! Juro! Helena (dando-lhe uma nota) – Pois toma; vai pagar a tua dívida e volta. Helena – Sim! Vêm a tempo os teus cumprimentos; nem fazes caso de mim. Vieirinha – Não digas isto. Os únicos momentos de felicidade que tenho são os que passo junto de ti. Até a tarde!

CENA V (Helena e Carolina)

Carolina – Cheguei muito cedo! Helena – Não faz mal.

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Sentia uma impaciência!Apenas Ribeiro saiu, meti-me num carro...Antes que me
Helena – Ainda ontem. Está arranjada com um luxo!O Pinheiro vai te tratar como
Helena – VerdadeirosMas, Carolina, tenho uma notícia a dar-te.
Carolina – Luís!Esteve aqui!... Que me quer ele? Ainda não está satisfeito com
Carolina – A mim?Tu pensas...

31 arrependesse! Helena – Assim estás resolvida? Carolina – Inteiramente. Helena – Já duas vezes disseste o mesmo, e quando chegou o momento... Carolina – Hesitei antes de dar este passo; não sei que pressentimento me apertava o coração, e me dizia que eu procedia mal. Foi o primeiro homem a quem amei neste mundo; é o pai de minha filhinha. Parecia-me que devia acompanhá-lo sempre! Helena – Se ele não te abandonasse mais dia, menos dia. Carolina – Não há de ter este trabalho; hoje resolvi-me; esta existência pesa-me. A que horas vem o Pinheiro? Helena – Não pode tardar. Carolina – É muito longe daqui a Laranjeiras? Helena – Não; é um instante! Em cinco minutos podes lá estar. Carolina – Já viste a casa? uma princesa. Carolina – Contanto que me deixe livre. Helena – Ele te adora; há de fazer todas as tuas vontades. Queres ver que lindo presente te mandou? Carolina – Por ti? Helena – Sim; está aqui. (Tira do bolso caixas de jóias) Carolina – Um colar...pulseiras...um adereço completo! Helena – Não é de muito gosto? Carolina – São brilhantes? Carolina – Que notícia? Helena – Teu primo deseja ver-te. me ter mostrado tanto desprezo? Helena – Que te importa? Carolina – Sempre que o vejo fico triste. Sofro por muitos dias. Helena – Foi a princípio. Carolina – Ainda hoje não posso esquecer as palavras que ele me disse há dois anos. E são tão amargas as suas palavras! Helena – Entretanto ele te ama. Helena – Não nos disse outro dia no hotel? Carolina – Disse que amava outra Carolina, que não sou hoje. Helena – Cuidas que por uma mulher preferir outro homem, aquele que ela desprezou deixa de amá-la? Como te enganas! Carolina – Então acreditas? Helena – Agora mesmo ele aqui esteve: e me falou de ti com um modo... Carolina – Que te disse? Helena – Confessou que estava arrependido do que fez; que deseja ver-te para mostrar que sempre te estimou e ainda te estima. Carolina – Não é possível, Helena. Se Luís me estimasse não me falava com tanto desprezo.

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Helena – Ora, Carolina, se tu amasses um homem que se casasse com outra mulher, o que farias? Carolina – Tens razão. Helena – Espera. Carolina – Mas ele te disse que me queria ver? Voltará? Helena – Creio que sim. Carolina – Meu Deus! Helena – Que mal faz que tu lhe fales? Se ele te ofender, entre para dentro; se quiser amar-te, faz o que entenderes; mas não esqueças o Pinheiro. Carolina – Sei o que devo fazer. Helena – Se precisares de mim, chama-me. Carolina – Me deixas só? Helena – Ao contrário, vê quem está aí.

CENA VI (Luís e Carolina)

Carolina – É verdade, então, Luís?Helena não me enganou!

Carolina – Luís! Luís – Não me recusou falar, Carolina. Eu lhe agradeço. Carolina – Por que recusaria? Luís – Depois do que se tem passado, não era natural que desejasse fugir à presença de um importuno? Carolina – Qual de nós, a primeira vez que nos encontramos depois de uma longa ausência, repeliu o outro? Luís – A repreensão é justa, eu a mereço. Mas não creio que venho ainda lembrarlhe um passado que todos devemos esquecer, e acusá-la de uma falta de que outros talvez sejam mais culpados. Venho falar-lhe como irmão; queres ouvir-me? Carolina – Fale; não tenho receio. Luís – Todos nós, Carolina, homens ou mulheres, velhos ou moços, todos sem exceção, temos faltassem nossa vida; todos estamos sujeitos a cometer um erro ou praticar uma ação má. Uns, porém, cegam-se ao ponto de não verem o caminho que seguem; outros se arrependem a tempo. Para estes o mal não é senão um exemplo e uma lição: ensina a apreciar a virtude que se desprezou em um momento de desvario. Estes merecem, não só o perdão, porém muitas vezes a admiração que excita a sua coragem. Carolina – Não, Luís; há faltas que a sociedade não perdoa, e que o mundo não esquece nunca. A minha é uma destas. Luís – Está enganada, Carolina. Se uma moça que, levada pelo seu primeiro amor, ignorando o mal, esqueceu um instante os seus deveres, volta arrependida à casa paterna; se encontra no coração de sua mãe, na amizade de seu pai, na afeição dos seus, a mesma ternura; se ela continua a sua existência doce e tranqüila no seio da família; por que a sociedade não lhe perdoará, quando Deus lhe perdoa, dando-lhe a felicidade? Carolina – Nunca ela poderá ser feliz! A sua vida será uma triste expiação. Luís– Ao contrário, será uma regeneração. Em vez da paixão criminosa que a rouba de seus pais, ela pode achar no seio de sua família o amor calmo que purifique o passado e lhe faça esquecer a sua falta. Luís – O quê?... Não sei...

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Luís – Amanhã?Que vai fazer?
meioé uma loucura.
Carolina – Cuidei que fosse mais tarde!Bonitas pedras! Não são? Foi um

Carolina – Ainda me ama! Luís – Eu?... Carolina – Não era de si que me falava? Luís – Não, Carolina; falava do Ribeiro. Carolina – Ah! Era dele!... Luís – É o único que tem direito de amá-la. Carolina – Pois eu não o amo. Luís – Não creio. Carolina – Juro-lhe. Luís – É impossível. Carolina – Amanhã não duvidará. Carolina – Há de saber. Luís – Carolina, eu lhe peço, não dê semelhante passo; ele é ainda mais grave do que o primeiro. Compreendo que uma menina inexperiente sacrifique-se à afeição de um homem; mas nada justifica a mulher que renegar aquele a quem deu sua vida. Carolina – Então não posso deixá-lo! Luís – Não! Uma mulher deve sempre conservar a virgindade do coração e guardar pura sua primeira afeição. Respeita-se o consórcio moral de duas criaturas que se unem apesar do mundo e dos prejuízos que as separam; respeita-se a virtude ainda quando ela não reveste as fórmulas de convenção. Mas despreza-se a mulher que aceita qualquer amor que lhe oferecem. Carolina – E quem lhe diz que amarei a outro? Luís – O primeiro amor é às vezes o último; o segundo nunca o será. Carolina – Podia ser, Luís, se o não desprezassem. Luís – Não compreendo. Carolina – Também eu não compreendo este sentimento; mas o coração é assim feito; deseja o que não pode obter, e que muitas vezes desdenhou quando lhe ofereciam. Admiro-me do que se passa em mim, e não sei explicá-lo. Parece-me, às vezes, que ainda haveria um meio de ligar o fio de minha vida às recordações dos meus dezoito anos, e continuar no futuro a existência tranqüila de outrora. Mas esse Luís – Diga, Carolina! Eu farei tudo... Carolina – Tudo!... Luís – Duvida? Carolina – Ame-me então! Luís – Escarnece de mim. Carolina – Luís! Luís – Creia-me, Carolina. Se eu estivesse convencido da realidade desse amor, ainda assim, sacrificaria a minha felicidade à sua. Carolina – Está bem! Não falemos mais nisso. Foi um gracejo; não faça caso... Adeus... Luís – Já me despede. Carolina – Pode ficar se quiser. (Chega-se ao espelho, e enxuga furtivamente uma lágrima. Deita fora as jóias que Helena lhe dera) Luís (vendo no relógio) – Meio dia... presente!... Luís – Ah! foi um presente? w.nead.unama.br

Carolina – Não é de bom gosto? Luís – Muito lindo! Carolina – Quanto valerá? Luís – Nada para mim; para outros talvez seja o preço de uma infâmia. Carolina – Faltava o insulto!

Helena – Tu lhe escreveste?Para quê?...

Helena – Quem está aí? Carolina – Não. Helena – O Ribeiro. Carolina – Ah! Helena – Que virá fazer? Carolina – Não sei. Naturalmente recebeu a minha carta mais cedo do que devia. Luís (à Carolina) Seu amante! Carolina – Eu o espero.

Ribeiro – Não acredito!tu não podes deixar-me!
Carolina – Não possoPor quê?
Mas paciêncianem sempre a moça tímida havia de sujeitar-se ao jugo que lhe
o que tenho sofridoem que luta vivo com minha família!

Ribeiro (à Carolina) – Esta carta? Carolina – É minha. Ribeiro – Que quer dizer isto? Carolina – Não leu? Preveni-o da minha resolução. Ribeiro – Tu és minha, Carolina! Tu me pertences! Carolina – Engana-se; o que lhe pertence ficou em sua casa; deixando-o, deixei tudo o que me havia dado. Ribeiro – Que me importa isso? É a ti que eu não quero e não devo perder. Carolina – Seu que incomoda a falta de um objeto com o qual estamos habituados! impuseram. Ribeiro – É a segunda vez que me fazes esta exprobração. Não me compreendes! Se eu não te amasse, teria realizado os teus sonhos; gozaria um momento contigo desta vida louca e extravagante que te fascina e depois te abandonaria ao acaso. Mas Deus puniu-me com a minha própria falta: quis seduzir-te e amei-te. Não sabes Carolina – Nesse ponto me parece que se algum de nós deve ao outro, não é decerto aquela que sacrificou a sua existência. Mas não cuide que me queixo; aceito o meu destino! Fui eu que assim o quis... Ribeiro – Tu me lembras que tenho uma dívida de honra a pagar-te. Carolina – Obrigada! Basta-me a liberdade e o sossego! Ribeiro – Então decididamente me deixas? Carolina – Já o deixei; já não estou em sua casa. A minha é nas Laranjeiras. Ribeiro – A dele, queres dizer? A do Pinheiro! Carolina – É o mesmo. Luís – E era esta mulher que há pouco falava de amor.

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Ribeiro – Eu te seduzi, fiz-te desgraçada, não é verdade?Pois bem! Arrosto a

Carolina – Não era esta, não senhor; era a outra a quem insultaram.(Vai sair) Ribeiro – Uma palavra, Carolina!... Carolina – Que quer ainda, senhor? oposição de minha família! Arrosto tudo! Quero reparar a minha falta! És a mãe de minha filha; sê minha mulher! Carolina – Tua mulher! Ribeiro – Sim, Carolina! É um sacrifício que te devo. Carolina – Não lho pedi. Ribeiro – Mas sou eu que te suplico. Luís – É a honra, é a virtude; é a felicidade que ele lhe restitui! (Aparece Pinheiro)

CENA IX (Os mesmos e Pinheiro)

probos e honestos!Aí curvando a fronte ao vício, o marido trairá sua esposa, o
Pinheiro – Eu traí; e o senhor?Roubou! Roubou a filha a seus pais.

Carolina – Não! É tarde... Luís– Carolina!... Carolina – Já que o amor não é possível para mim, prefiro a liberdade! Quero ver a meus pés, um por um, todos esses homens orgulhosos que tanto blasonam de filho abandonará sua família, o pai esquecerá os seus deveres para mendigar um sorriso. Porque no fim de contas, virtude, honra, glória, tudo se abate com um olhar, e roja diante de um vestido. (a Pinheiro) Meu carro?... Pinheiro – Está na porta. Helena – Vem ver como é rico! Ribeiro – Lembra-se ao menos de tua filha!... Carolina – Deixo-o as seu pai como um remorso vivo. Luís – Reflita, Carolina; aceite a reparação que o senhor lhe oferece; faça de um homem arrependido, de uma moça desgraçada e de uma menina órfã, uma família; dê a felicidade a seu marido, e um nome à sua filha! Carolina – E quem me dará a mim o que eu perco? Luís – A sua consciência. Carolina – Não a conheço! Adeus! (Vai sair) Ribeiro – Não! Tu não sairás com este homem! Carolina – Quem impedirá? Ribeiro – Eu! Helena – Sr. Ribeiro, seja prudente! Pinheiro – É o que faltava ver! Que o senhor queira levar o ridículo a esse ponto! Tem algum direito sobre ela? Ribeiro – Tenho o direito de vingar-me de um amigo desleal que me traiu. Luís (à Carolina) – Veja os homens a quem ama! Carolina – Não amo a ninguém! Sou livre! (Caminhando para a porta vê Margarida que entra pelo braço de Araújo, recua com espanto).

CENA X (Os mesmos, Margarida e Araújo) w.nead.unama.br

Margarida – Carolina!Não falas à tua mãe? Não me queres conhecer?... Depois
de tanto tempo!Tens medo de mim?... Não penses que vim repreender-te....
acusar-te! Já não tenho forças!Vim pedir-te que me restituas a filha que perdi!
Queria ver-te antes de morrerEu te perdôo tudo... Não tenho que perdoar... Mas
fala-meOlha-me ao menos!... Mais perto! Quase não te vejo!... As lágrimas
cegame tenho chorado tanto!
Carolina – Nem pode andar!Mas tenho ai o meu carro.
brilhantes!Não te assentam!
Carolina – Que importa?Minhas jóias!... Tão lindas!... Sem elas, o que serei eu?
Uma pobre moça que excitará um sorriso de piedade!Não! Nasci com este

Carolina – Ah! Esqueci que ainda tinha mãe! Margarida – Carolina! Luís– Tardaste muito! Araújo – Apesar de toda a sua coragem, faltavam-lhe as forças! Que te disse ela? Luís – Cala-te! Carolina – Minha mãe!... Margarida – Ah!... Carolina – Oh! não! Margarida – Que tens? Carolina – Tenho vergonha! Margarida – Abraça-me! Deus ouviu as minhas orações! Achei enfim a minha filha!...minha Carolina! Carolina – Não estás mais zangada comigo? Margarida – Nunca estive! Tinha saudades! Porém agora não nos separaremos mais nunca. Vem!... Carolina – Para onde? Margarida – Para a nossa casa; hás de achá-la bem mudada. Mas tudo voltará ao que era. Estando tu lá, a alegria entrará de novo; seremos muito felizes, eu te prometo. Carolina – Está tão fraca!... Margarida – Contigo sinto-me forte! Já não estou doente: vê! (Dá um passo e vacila) Margarida – Teu carro!... Carolina – Sim! Ainda não viu? É muito bonito. Margarida – Todas estas riquezas que compraste tão caro e com tantos sofrimentos custaram à tua mãe, já não te pertencem, Carolina, atira para longe de ti estes Carolina – Minhas jóias!... Margarida – Oh! Não lamentes a sua perda! Beijos de mãe brilham mais em tuas faces do que esses diamantes. Tu eras mais bonita quando íamos à missa aos domingos. Carolina – Pois sim! (Afasta-se) Luís (à Margarida) – Era a minha última esperança! Margarida – Não falhou, o coração me dizia... Carolina (no espelho) Não! Não tenho coragem! Margarida – Que dizes? Carolina – Perdão, minha mãe! É impossível! Margarida – lembra-te, minha filha, que é a tua desonra que tu mostras a todos! destino! É escusado. Luís – (à Margarida) - Foi irritá-la!...

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Carolina – Adeuse para sempre!
Margarida – Ah!(Desmaia)

Margarida (à Carolina) – Escuta! Não exijo nada! Não quero saber de coisa alguma! Faze o que quiseres; mas deixa-me acompanhar-te; deixa-me viver contigo: eu partilharei até mesmo a tua vergonha. Carolina – Nunca! minha mãe! Seria profanar o único objeto que eu ainda respeito neste mundo. Adeus... Margarida – Carolina... Luís – Assim, depois de ter desconhecido o pai, e abandonado a filha, repele a mãe! Carolina – Como há pouco me repeliram.

ATO TERCEIRO (Em casa de Carolina. Sala rica e elegante)

CENA I (Carolina, Helena, Meneses e Araújo)

Meneses – Tão depressa?Para isso não valeu a pena incomodar-nos.

Carolina – Dize alguma coisa, Sr. Araújo. Araújo – Prefiro ouvir. Carolina – Como está o seu amigo? Araújo – Bem, obrigado. Carolina – Por que ele não veio? Araújo – Deve saber a razão. Carolina – Ele foge de mim; não é verdade? Araújo – Creio que foi a senhora que fugiu dele. Meneses – Que é feito do Pinheiro? Carolina – Não sei. Helena – Anda por aí. Depois que deitou fora a fortuna do pai vive tão murcho! Meneses – Está pobre! Helena – Não tem vintém. Araújo – Ninguém pode melhor dizê-lo do que a senhora. Carolina – Explique-se. Araújo – Este luxo explicará melhor. Quem lho deu? Carolina (subindo) – Não me recordo. Helena (na janela, à Carolina) – Não passeias hoje? A tarde está tão linda! Carolina – Talvez. Araújo – Vou me embora. Araújo – É verdade! Mas convidei-te para esta visita, só por um motivo. Meneses – Qual? Araújo – Luís pediu-me que soubesse notícias dela. Vim buscá-las eu mesmo, para dá-las exatas. Meneses– Pois então demora-te; talvez ainda tenhas que ver. Helena – Olha! Lá vai aquela sujeita! Carolina – Quem? Helena – A mulher do Fernando, a quem pregaste aquela peça! Carolina – Lembro-me. Helena – Que bem feita coisa! Meneses – O quê? w.nead.unama.br

cem mil-réis por um de segunda ordemNúmero?...
Helena – Ao contrário, um homem delicado!Mas o melhor, é que saindo daqui,

Helena – É uma história muito engraçada. O senhor não sabe? Meneses – Não. Conta, Carolina. Carolina – Não estou para isso. Se queres conta tu, helena. Araújo – É melhor. Helena – Foi no último dia de grande gala que houve... Araújo – O dia 7 de setembro. Helena – Isso mesmo. O Fernando por pedido da mulher veio à cidade de propósito para comprar um bilhete de camarote do Teatro Lírico. Os cambistas lhe fizeram dar Carolina – Não me lembro. Helena – Como era tarde, jantou na cidade e escreveu à mulher dizendo que se aprontasse porque tinham o camarote. Na ida passou por aqui e entrou. Começamos a conversar, falou-se de teatro; Carolina estava morrendo por ir... Enfim, para encurtar razões, deu-lhe o bilhete. Araújo – Que tratante. não sabendo que desculpa havia de dar à mulher, não foi à casa, nem lembrou-se da carta que tinha escrito. Ora, a sujeita vendo que ele não ia, meteu-se no carro e largou-se para o teatro. Araújo – Adivinho pouco mais ou menos o resto. Helena – Não adivinha, não! Quando o bilheteiro ia abrindo a porta, chegou Carolina que ia comigo, e disse: — Este camarote é meu. A mulher do Fernando respondeu: — Não é possível; meu marido o comprou hoje para mim. O que havia ela de replicar? — Foi seu marido mesmo quem mo deu; aqui está o bilhete, que por sinal custou-lhe cem mil-réis. Araújo – Ela disse isto?... Helena – Palavra de honra. Araújo – O que fez a mulher? Helena – Que havia de fazer? Retirou-se da corrida. Meneses – Retirou-se, sim; e sem dizer uma palavra: porque uma senhora não dá à amante de seu marido nem mesmo a honra de indignar-se contra ela. Quanto ao homem que praticou este ato infame, perdeu para sempre a estima de sua esposa e dos homens de bem. Queira Deus que ele não veja um dia os seus cabelos brancos manchados por esse mesmo vício que alimentou. Carolina – Está o Meneses como quer; deram-lhe tema para fazer discursos. Araújo – Mas diga-me uma coisa. A senhora pensa que a sociedade pode tolerar por muito tempo uma mulher que não respeita coisa alguma? Carolina (rindo) – Aí vem o outro com a sociedade! Helena – É bem lembrada! Araújo – Olha que eu não estou disposto a rir-me. Meneses – Ri; é o melhor; não tomes isto a sério. Carolina – Como quiserem; para mim é indiferente! Essa sociedade de que o senhor me fala, eu a desprezo. Araújo – Porque a repele! Carolina – Porque vale menos do que aquelas que ela repele do seu seio. Nós. Ao menos, não trazemos uma máscara; se amamos um homem, lhe pertencemos; se não amamos ninguém, e corremos atrás do prazer, não temos vergonha de o confessar. Entretanto as que se dizem honestas cobrem com o nome de seu marido e como respeito do mundo os escândalos da sua vida. Muitas casam por dinheiro com o homem a quem não amam; e dão sua mão a um, tendo dado a outro sua w.nead.unama.br

passam por sisudos e graves nos condenem e nos chamem perdidas?O que são
eles?Uns profanam a sua inteligência, vendem a sua probidade, e fazem um
em virtude!Todos valemos o mesmo! Todos somos feitos de lama e amassados

alma! E é isto o que chamam virtude? É essa sociedade que se julga com direito de desprezar aquelas que não iludem a ninguém, e não fingem sentimentos hipócritas?... Araújo – Têm o mérito da impudência! Carolina – Temos o mérito da franqueza. Que importa que esses senhores que mercado mais vil e mais infame do que o nosso, porque não tem nem o amor nem a necessidade por desculpa; porque calculam friamente. Outros são nossos cúmplices, e vão, com os lábios ainda úmidos dos nossos beijos, manchar a fronte casta de sua filha, e as carícias de sua esposa. Oh! Não falemos em sociedade, nem com o mesmo sangue e as mesmas lágrimas! Meneses – Não te iludas, Carolina! Esse turbilhão que se agita nas grandes cidades; que enche o baile, o teatro, os espetáculos; que só trata do seu prazer, ou do seu interesse; não é a sociedade. É o povo, é a praça pública. A verdadeira sociedade, da qual devemos aspirar a estima, é a união das família honestas. Aí se respeita a virtude e não se profana o sentimento; aí não se conhecem outros títulos que não sejam a amizade e a simpatia. Corteja-se na rua um indivíduo de honra duvidosa; tolera-se numa sala; mas fecha-se-lhe o interior da casa. Carolina – Quanta palavra inútil!... Meneses – Não são para ti, bem sei; mas saem-me sem querer e, felizmente, aqui está um amigo que me escuta com prazer. Araújo – Realmente precisava ouvir-te para não duvidar de mim, e de todos esses objetos que estou habituado a respeitar. Helena – Falemos de coisas mais alegres. Meneses – Não lhe agrada a conversa neste tom? (Batem palmas) Helena – Não entendo disso; é bom para a Carolina que vive a ler. Meneses – Ah! Lê romances naturalmente? Carolina – Que lhe importa?

CENA I (Os mesmos e Pinheiro)

Pinheiro (recusando, confuso) – Tem passadobem...

Helena (na porta) – Não lhe pode falar! Não teime! Carolina – Quem é? Helena – O Pinheiro. Carolina – Que vem ele fazer cá? Dize-lhe que não estou em casa. Araújo – Bate-lhe na cara com esta mesma porta que ele fechava outrora com sua chave de ouro. Meneses ( a Araújo ) – Não te disse que ainda tinhas que ver? Pinheiro (à Helena) – Deixa-me! Hei de falar a Carolina. (Entra) Helena – Onde viu o senhor entrar assim na casa dos outros? Pinheiro – São os maus hábitos que ficam a quem já foi dono. Meus senhores!... Meneses – Sr. Pinheiro! (Estendendo-lhe a mão) Meneses – Pode apertá-la; nunca a estendi aos favores do homem rico; ofereço-a ao homem pobre que sabe suportar dignamente a sua desgraça. Pinheiro (apertando a mão) – Se todos tivessem esta linguagem...

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Araújo – Ele não teria merecimento, Sr. Pinheiro. Pinheiro – Os senhores permitem que eu diga algumas palavras em particular à Carolina? Meneses – Sem dúvida! Esperamos naquela saleta. Anda, Helena; vem divertir-nos contando os teus arrufos com o Vieirinha. Helena (à Carolina) – Não sofras maçada. Carolina – Deixa.

CENA I (Pinheiro e Carolina)

Pinheiro – É a minha presença?Tem razão; estou lhe roubando o seu tempo;

Pinheiro – Vejo que a minha presença lhe aborrece, Carolina. Só um motivo forte me obrigaria a importuná-la. Carolina – Previno-lhe que vou sair; portanto não se demore. Pinheiro – Houve tempo em que nesta mesma sala, neste mesmo lugar, a mesma voz se queixava quando eu não podia me demorar. Carolina – Deixemos o passado em paz. Pinheiro – Não se recorda. Carolina – As mulheres só começam a recordar depois dos quarenta anos; antes gozam. Pinheiro – Pois bem! Que esqueça o amor, compreendo; mas há certas coisas que lembram sempre. Carolina – Não sei quais sejam. Pinheiro – Os benefícios. Carolina – Deixam de ser quando se lançam em rosto. Pinheiro – Não foi essa minha intenção, Carolina; desculpe. O meu espírito se azeda com estas reminiscências. antes que a ofenda de novo, não vou dizer o que lhe quero pedir. Carolina – Ah! Vem pedir? Pinheiro – Admira-se! Carolina – Como nunca pedi, estranho sempre que me pedem. Pinheiro – Talvez algum dia seja obrigada!... Carolina – Deixamos o passado para tratar do futuro? Pois olhe, se um pertence às mulheres velhas, o outro é o consolo das pobres meninas de dezoito anos, que vivem a sonhar. Pinheiro – Deste modo não me deixa dizer... Carolina – Que lhe impede? Pinheiro – Suas palavras de sarcasmo. Carolina – Estou hoje contrariada. Pinheiro – Por que motivo? Carolina – Não sei. outrora podia comprá-lo; hoje estou pobre; gastei toda a minha fortuna. Não me queixo, nem a acuso. Sofreria resignado essa perda se ela fosse apenas uma perda de dinheiro, e não acarretasse a desgraça de outra pessoa. Carolina – Que tenho eu com isto? Pinheiro – Deixe-me acabar. Vou confessar-lhe uma vergonha minha; mas é preciso: seja este o primeiro castigo. Escuso lembrar-lhe, Carolina, que ou por amor ou vaidade, procurei sempre adivinhar, para satisfazê-los, os seus menores desejos.

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Carolina (rindo) – Ah! Ah! Ah!É interessante!... Sr. Meneses! Helena! Sr. Araújo!...

Carolina – Loucura! Não há nada que encha esse vácuo imenso que se chama o coração de uma mulher. Pinheiro – É exato, toda a minha fortuna se sumiu no abismo; restavam-me apenas cinco contos de réis, que não me pertenciam. Eram um legado que meu pai deixara como dote a uma menina órfã, sua afilhada. Esse dinheiro devia ser sagrado para mim por muitos motivos; devia respeitar nele a última vontade de meu pai e a propriedade alheia; entretanto, foi com ele que comprei aquela pulseira que lhe dei no último dia em que estive nesta casa. Carolina – Ah! Aquela pedra só custou cinco contos? Pinheiro – Custou um roubo! A órfã me pede o seu dote para casar-se; e eu não o tenho para restituir-lhe. Carolina – Então é impossível; não pense mais nisso. Pinheiro – Não é impossível se quiser, Carolina; faça um sacrifício, empreste-me esta jóia, e juro-lhe que com o meu trabalho lhe pagarei o valor dela. Ouçam esta! É original.

CENA IV (Os mesmos, Meneses, Araújo e Helena)

Helena – O que é? Meneses – Alguma outra anedota? Carolina – Uma lembrança muito engraçada. Araújo – Faço idéia! Carolina – O senhor entendeu que devo agora fazer-me mascate de jóias. Meneses – Não é má profissão. Carolina – Adivinhem o que ele veio propor-me! Helena – Por que não explicas logo? Carolina – Querem saber? Pinheiro – Eu poupo-lhe o trabalho; não tenho vergonha de confessar. É um homem, meus senhores, que tendo consumido com uma mulher a sua fortuna, perdeu a razão ao ponto de comprar-lhe o último presente com um depósito sagrado que lhe foi confiado. Ameaçado do opróbrio de uma condenação, esse homem vem pedir àquela a quem tinha sacrificado tudo, que o salvasse, emprestando-lhe essa jóia cujo valor ele jurava restituir-lhe com o seu trabalho. A resposta que teve foi a gargalhada que ouviram. Carolina – Não tinha outra. Meneses – Certamente. Araújo – Como, Meneses? Carolina – Vê! Pinheiro – O senhor aprova? Meneses – Não, senhor. Araújo – Mas, então?... Meneses – Desgraçados dos homens de bem, Araújo, se o mundo não fosse assim; se o vício não tivesse em si esse princípio de destruição que é o seu próprio corretivo. Estimo o Sr. Pinheiro desde que soube a maneira digna com que aceitou o seu infortúnio; mas esse infortúnio proveio de sua paixão louca por Carolina; ele não podia, não devia achar nela um sentimento de gratidão. É preciso que o despreze para o punir; é preciso que lhe negue para uma boa ação o dinheiro com que ele w.nead.unama.br acabou de perdê-la. A avareza (designa Carolina) corrige a prodigalidade (designa Pinheiro) Carolina – Avareza! Não admito. Araújo – E que nome tem isto? Carolina – Chame-lhe ingratidão, chame-lhe o que quiser, mas avareza, não! Faço tanto caso do dinheiro como da moral que trazem certos sujeitos na algibeira, e da qual só usam quando lhes convém, como de um charuto, de um lenço, ou de uma caixa de rapé. E a prova é que essa jóia, dá-la-ia de esmola a qualquer miserável, se não estivesse convencida que ele amanhã nem me tiraria o chapéu! Pinheiro – Quando eu passo à noite pela Travessa de São Francisco de Paula, ouço vozes humildes que suplicam, e que já falaram mais alto que a sua, Carolina. Carolina – Que tem isto? Se algum dia ouvir a minha, não a escute, como eu hoje não quero escutar a sua. Pinheiro – Nem todos possuem o seu coração. Carolina – Isso é verdade! Araújo – E o seu amor...

CENA V (Carolina, Meneses, Helena e Araújo)

Carolina – Justamente! Numa caixinha de charãoVai ver, Helena; está no meu
Meneses – E debaixo de chave!És prudente!

Carolina – Amor?... Araújo – Amor ao dinheiro. Carolina – Mas seriamente, os senhores não me compreendem. Nem sabem que para uma mulher não há ouro que valha o prazer de humilhar um homem. Meneses – Tanto ódio nos tens? Carolina – Muito!... Araújo – Contudo não posso crer que aquelas que durante toda a sua existência correm atrás do dinheiro, façam dele tão pouco caso. Carolina – Pois creia; todas essas minhas jóias, todo esse luxo e riqueza, que me fascinaram, e que hoje possuo, não os estimo senão por uma razão. Araújo – Qual? Carolina – Talvez possam realizar um sonho da minha vida. Araújo – E que sonho é esse? Carolina – Não digo. Araújo – Por quê? Carolina – Vai zombar de mim. Araújo – Não tenha receio. Meneses – Para zombar começaríamos tarde! Carolina – E que zombem, não faz mal. Toda a criatura boa tem o seu fraco; assim toda a mulher, por mais desgraçada que seja, conserva sempre um cantinho puro onde se esconde a sua alma. Meneses – Estás bem certa que tens uma alma, Carolina? Carolina – Talvez me engane; é possível. Mas eu guardo-a com tanto cuidado! Araújo – Aonde, em alguma caixinha? guarda-vestidos. (Dá-lhe as chaves) Carolina – No meio de todas as minhas extravagâncias, de todos os meus prazeres, eu sentia uma pequena parte de mim mesma que nunca ficava satisfeita; chamei a w.nead.unama.br

(Parte 3 de 4)

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