As Asas de um Anjo - José de Alencar

As Asas de um Anjo - José de Alencar

(Parte 4 de 4)

com toda a curiosidade. Tu és um destes flagelos, não faças caso da palavraum
Carolina – Escute!Não!...

isto minha alma, tive pena dela, fechei-a dentro dessa caixa, e disse-lhe que esperasse até um dia em que seria feliz. (Helena volta com a caixa) Araújo – Ah! E esta? Meneses – E de que maneira pretendes dar-lhe a felicidade? Carolina – Não sei; mas como o dinheiro é tudo, fiz uma coisa; dividi o que eu tinha e o que viesse a ter com a minha alma. Voltava de uma ceia onde tinha me divertido muito; metia dentro desta caixa todo o dinheiro que possuía, para que o espírito tivesse um igual divertimento. As minhas jóias, depois de usadas uma vez, se escondiam aqui dentro; enfim a cada prazer que eu gozava, correspondia uma esperança que guardava. Meneses (apontando para a caixa) – E quanto valerá hoje a tua alma? Carolina – Não sei; o que entra aqui dentro é sagrado, não lhe toco nem lhe olho; tenho medo da tentação. Só abro esta caixa à noite, quando me deito. Meneses – Pois deixa dar-te um conselho: põe a tua alma a juro no banco, e esquece-te dela. Há de servir-te na velhice. Ou então diverte-te!... Carolina – Não; vou dá-la. Araújo – A quem? Carolina – A um homem que não me ama; e por causa do qual jurei que havia de ver todos os homens a meus pés, para vingar-me neles do desprezo de um. E sabem se cumpri meu juramento!... Meneses – É talvez isto, Carolina, que faz de tua vida um fenômeno, que eu estudo desses flagelos que a Providência às vezes lança sobre a humanidade para puni-la dos seus erros. Começaste punindo teus pais que te instruíram e te prenderam, mas não se lembraram da tua educação moral; leste muito romance mas nunca leste o teu coração. Puniste depois o Ribeiro que te seduziu, e o Pinheiro que te acabou de perder; ao primeiro que te roubou à tua família, deixaste uma filha sem mãe; ao segundo, que te enriqueceu, empobreceste. Só me resta ver como castigarás a ti mesma; se não me engano, tu acabas de revelar-me. Espero pelo tempo. Vamos, Araújo. Carolina – O senhor veio fazer-me ficar triste. Araújo – Virá depois de nós quem o alegre. Araújo – Arrependeu-se? Carolina – Como está Luís? Araújo – Não sei. Carolina – Não tem visto? Araújo – Ainda ontem. Carolina – Ele lhe fala às vezes em mim? Araújo – Nunca.

CENA VI (Carolina e Helena)

Carolina – Estava pensando em uma coisaEle não virá, Helena!

Carolina – Nunca!... Helena – Estás falando só? Helena – Por que razão? Carolina – Ainda perguntas? w.nead.unama.br

Carolina – O Vieirinha?Não tinhas outra pessoa por quem mandar?...
desempenhar o seu relógioTu vais te rir?... Pois eu não lhe negarei!

Helena – Não creias. Estou quase apostando que não tarda aí. Carolina – Tu não conheces Luís. Helena – Ora é boa! Conheço os homens, Carolina; para eles uma mulher é uma mulher, sobretudo quando é bonita. Carolina –Terá recebido a carta? Helena – O Vieirinha entregou-a em mão própria. Helena – Que tem que fosse ele?... Carolina – Nada: é que me aborrece esse homem. Desejo nem vê-lo... Helena – Tu bem sabes... Carolina – Sei, mas não estou para suportá-lo. Entra na minha casa como se fosse dono dela; ontem fui achá-lo naquela sala a remexer na minha cômoda. Helena – E faltou-te alguma coisa? Carolina – Não; mas para que isso não torne a acontecer, previno-te que se queres continuar a morar consigo, deves descartar-te dele. Helena – Não me animo a dizer-lhe... Carolina – É um homem sem caráter! Helena – Gosto dele, Carolina! Carolina – Tens um gosto bem extravagante! Helena – Confesso! Se tu soubesses o que tenho sofrido!... Carolina – Porque queres. Helena – É verdade; mas não sei que poder tem sobre mim, que não posso resistirlhe! Conheço que é um homem capaz de tudo; e, entretanto, Carolina, se ele vier pedir-me, como já tem feito muitas vezes, que venda um traste meu para Carolina – Não me rio, não, helena; ao contrário, tive uma idéia bem triste. Helena – Que idéia? Carolina – Será esse o fim da nossa vida? A mulher que perverte seu coração estará condenada a amar um dia algum homem ainda mais baixo do que ela? Helena – E quem nos pode amar senão esses, Carolina? Carolina – Mas isso não é amor! (Luís aparece na porta do fundo)

CENA VII (As mesmas e Luís)

Luís – Creio que entra-se aqui pagando!(Tira da carteira uma cédula que deita

Helena – Sr. Viana!... Carolina – Ah!... sobre o aparador) Carolina – Luís!... Luís – Por este nome só me tratam os meus amigos e as pessoas que estimo. Carolina – Não é preciso recorrer a estes meios para mostrar-me o seu desprezo; eu o sinto mesmo de longe e agora vejo-o mais no seu olhar do que nas suas palavras. Luís – Que quer de mim?... Carolina – Queria fazer-lhe um pedido; mas já não tenho coragem. Luís – Então é inútil a minha presença aqui. Carolina – Não! Espere! Farei um esforço; porém prometa-me ao menos uma coisa. Luís – Não é preciso.

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Carolina – É muito; prometa-me que por mais estranho que lhe pareça o que vou dizer-lhe, deixe-me falar; depois acuse-me e escarneça de mim; é o seu direito; não me queixarei. Luís – A recomendação é escusada; três vezes procurei com as minhas palavras reparar um erro; mas afinal convenci-me que quando tine o ouro, não se ouve a voz da consciência. Pode falar. Carolina – Sente-se. Fecha aquela porta, Helena, e deixa-nos.

CENA VIII (Luís e Carolina)

Carolina – Talvez, LuísSem o despeito dessa repulsa, talvez a filha não fosse
Carolina – Talvez, LuísSem o despeito dessa repulsa, talvez a filha não fosse
Luís – Foi então para dizer-me istoque...

Carolina – Consinta que ao menos agora que ninguém nos ouve eu o chame Luís, como antigamente. Luís – Para quê? Carolina – Este nome me lembra uma intimidade, e me faz esquecer o ano que passou. Luís – Para que esquecê-lo? É o mais feliz da sua vida!... Carolina – Podia ter sido se alguém me tivesse amado; mas ele não quis, ou não julgou que uma moça perdida valesse a pena de uma afeição. Luís – E valia?... surda ao grito de sua mãe e a mulher resistisse à fascinação que a atraía. Luís – E valia?... surda ao grito de sua mãe e a mulher resistisse à fascinação que a atraía. Luís – Ora!... Carolina – Oh! Não me defendo. A culpa é minha: o mal estava aqui (leva a mão à fronte). Tinha sede de prazer e precisava saciar-me; entretanto, creio que também havia alguma coisa aqui (leva a mão ao coração), porque depois das minhas loucuras sentia um remorso do que tinha feito; e me parecia que me afastava cada vez mais daquele de quem desejava aproximar-me. E, coisa singular! Era justamente este remorso que me irritava mais, que me lançava em algum novo escândalo, e me fazia olhar comum soberano desprezo para essa sociedade que me repeliu, e para todas essas mulheres virtuosas que ele podia amar. Carolina – Foi para dizer-lhe que este amor louco me tem sempre acompanhado, que resistiu a tudo, e que hoje se ajoelha a seus pés!... Luís – Carolina! Carolina – Luís, não te peço que me ames, não; sou indigna, eu o sei! Mas eu te suplico, me deixe amar-te!... Luís – Cale-se! Carolina – Que lhe custa isso? Um homem não se mancha com a afeição de uma mulher, por mais desprezível que ela seja; e é sempre doce sentir que se está dando um pouco de felicidade a uma pobre criatura que o mundo condena. Luís – Não sou rico! Carolina – A mulher que ama não vende o seu coração: suplica que o aceitem!... Luís – E o partilhem com os outros!... Carolina – Não me compreende, Luís. Vê esta caixa? Aqui tenho as economias da minha dissipação; guardei-as para um dia poder gozar um momento dessa w.nead.unama.br

Carolina – Pois bem!Antes de partir... porque sei que é a última vez que nos
vemosLuís... (apresenta-lhe a fronte timidamente)

existência doce e tranqüila, que eu não conheço. Não sei em quanto me importam; mas devem chegar para viver um ou dois anos na Tijuca ou em Petrópolis. Venha comigo! Consinta que o ame. Logo que o aborrecer, deixe-me. Assim ao menos quando começar para mim o desengano, quando de meus anos gastos na perdição só restar a velhice prematura, eu terei a recordação desses poucos dias de felicidade para encher o vácuo do passado. Luís – Adeus, Carolina! Carolina – Não me recuse!... Luís – Eu lhe perdôo, porque ignora que isto que me propõe é uma infâmia! Nunca amou, Carolina, senão compreenderia que ninguém se avilta a ponto de aceitar esses sobejos de amor, esses restos de um luxo pago por tantos outros. Seus primeiros amantes, a quem arruinou, diriam que eu vivia da sua miséria. Carolina – Oh! não... Luís – É inútil! Luís – O quê?...

ATO QUARTO (Em casa de Carolina. Sala pobre e miserável. É noite)

CENA I (Helena e Meneses)

Meneses – Conta-me!Recebi a tua carta: mas tu não aproveitas muito as lições
febreEsteve à morte. Com a moléstia gastamos o que tínhamos; vendemos tudo,
Helena – Que remédio?mas o pior é que não temos nem o que comer! Se ao

Helena – Quem é? Meneses – Abre, Helena. Helena – Ah! Sr. Meneses! Meneses – Que significa isto? Helena – Uma desgraça! do teu mestre de gramática; pouco entendi. Helena – O senhor nada sabia? Meneses – Nada absolutamente. Voltando à tua casa disseram-me que se haviam mudado. Perguntei notícias ao Ribeiro, a quem encontrei há dias. Não me soube dizer. Helena – É que foi uma coisa tão repentina! Naquele mesmo dia em que o senhor lá esteve com o Araújo, fazem dois meses pouco mais ou menos, que Carolina descobriu que estava roubada. Meneses – Ah! Aquela caixinha de charão... Helena – O Vieirinha com uma chave falsa abria e tirava as jóias que Carolina guardava, deixando as caixas vazias, para que ela não desconfiasse. Meneses – Que miserável! Helena – Ela coitadinha, a princípio fingiu não se importar; mas depois veio-lhe uma e alugamos este cochicholo onde mal cabemos. Meneses – Com efeito não parece habitação de gente. menos ela já estivesse boa... Neste desespero lembrei-me de escrever àqueles que w.nead.unama.br

ter necessidades de algum dinheiro(batem)

tínhamos conhecido em outros tempos, ao senhor, ao Araújo, ao Ribeiro, ao Viana...Escrevi até ao próprio Vieirinha! Meneses – Depois do que ele fez? Helena – Talvez esteja arrependido, e restitua uma parte do que roubou. Meneses – Duvido muito; mas fica descansada. Falarei aos outros. Entretanto deve Helena – Há de ser algum deles! Meneses – É natural.

CENA I (Os mesmos, Luís e Araújo)

Helena – Uma rua tão esquisita!Quando pensaria eu morar no Saco do Alferes!...

Luís – Onde está Carolina? Helena – Dorme; não a acorde. É o único momento de alívio que tem. Luís – Está muito doente? Helena – Agora vai um pouco melhor; mas ainda sofre bastante. Araújo (a Meneses) – Foi depois daquele dia que estivemos juntos em casa dela. Meneses – É verdade. Araújo – Soubeste hoje. Meneses – Porque Helena me escreveu! Luís – Eu já sabia há dias; porém não me foi possível descobrir a casa. Meneses – Não se acaba por onde se começa, Helena. Luís – Que é feito do homem que praticou esse roubo infame? Meneses – Anda por aí muito satisfeito; vai casar-se... Helena – Que feliz mulher!... Araújo – E deixa-se que um indivíduo desses goze tranqüilamente do fruto do seu crime? Não havia meio de levá-lo à polícia? Helena – Com o vexame da doença de Carolina, nem me lembrei de semelhante coisa. Demais, que lucrávamos nós com isso? Faltavam as provas; e quem se prestaria a ir jurar a nosso favor contra um homem conhecido?... Araújo – Conhecido como um tratante! Helena – Mas sempre tem amigos; ninguém acreditaria... Araújo – Não estou por isso. Meneses – Helena tem razão. Araújo; ninguém lhe daria crédito, ninguém juraria a seu favor; e eu estimo bem que ela tenha consciência de quanto desceu, que a sociedade nem ouve as suas queixas. Helena – Não falemos nestas coisas agora, Sr. Meneses; já não têm volta... Araújo – O arrependimento nunca vem tarde. Helena– Por isso eu vou passando muito bem sem ele. Araújo – Que mulherzinha! Meneses – Quantas não existem assim.

CENA I (Os mesmos e Ribeiro)

Meneses – Oh!Ribeiro...

Ribeiro – Também vieste?...

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Meneses – O mesmo motivo nos trouxe a todos. Ribeiro – Ah! Mas não se incomodem; eu me encarrego do que for preciso. Luís – Perdão, Sr. Ribeiro; aprecio a sua delicadeza; mas ela não me dispensa de cumprir o meu dever. Ribeiro – Creio que é a mim que pertence como pai de sua filha... Luís – Não senhor: a obrigação de ampará-la é minha e ninguém ma pode contestar. Sou seu parente; e represento aqui sua família. Meneses – Não há dúvida, Sr. Viana; mas permita-me que lhe diga também que quando se trata de uma boa ação não reconheço em ninguém o direito de excluir-me dela. Sou pobre... Ribeiro – Não se trata de fortuna, Sr. Meneses: nem um de nós é rico. Araújo – Pois então façamos uma coisa: associemo-nos, e partilhemos todos o prazer de fazer o bem. Luís – Não é necessário. Ribeiro – É ser egoísta, Sr. Viana. Luís– Desculpe: se estivesse no meu lugar faria o mesmo. Ribeiro – Estão batendo. Helena – Vou ver. Meneses – Pois advirto-lhe que não me sujeito. Luís – Se o senhor tivesse prometido a uma mãe quase moribunda restituir-lhe sua filha, consentiria que outros a ajudassem a cumprir essa promessa? Meneses – Por que não? Seria orgulho... Luís – Talvez, Sr. Meneses; mas um orgulho legítimo. O que sofri por ela dá-me esse direito. Meneses – Compreendo e respeito essa dor.

CENA IV (Os mesmos e Vieirinha)

Helena – Que quer de mim? Vem restituir o que roubou?Quanto ao que lhe dei

Ribeiro – Que vem fazer aqui? Vieirinha – O meu negócio não é com o senhor. Helena – É comigo. Vieirinha – Justamente. Saiba que fez muito mal em escrever-me. Meneses – Já eu o tinha dito. Vieirinha – Ah! Está por aqui, Meneses? Meneses – Peço-lhe que esqueça do meu nome. Vieirinha – Que quer dizer isto? Araújo – Quer dizer que há certos conhecimentos que desonram um homem honesto. Vieirinha – Não entendo. Luís – Eu lhe explico. Tenha a bondade de retirar-se. Vieirinha – Depois de dizer algumas palavras a esta mulher. Helena – Já não sabe como me chamo? Ribeiro – De que te admiras? Já não tens dinheiro para dar-lhe. não é necessário. Vieirinha – Não quero que me escreva. Suas cartas podem comprometer-me; estou em vésperas de casar-me. Helena – Que tem isso?...

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como o senhor é bem desprezível!(Vieirinha quer sair)

Vieirinha – Podem suspeitar que tenho relações com gente de tal qualidade. Helena – E o senhor envergonha-se?... Vieirinha – Não lhe parece que é uma honra... Helena – Não se envergonha, porém, do que praticou; não se lembra que, por mais de um ano, foi sustentado por uma mulher da minha qualidade. Vieirinha– Não dou peso ao que diz. Helena – E não deve dar mesmo: porque a mulher que chega a amar um homem

CENA V (Os mesmos e Carolina)

Carolina – PoucoMas os senhores aqui... Luís... Sr. Ribeiro...
Carolina – Não!Mas por que não a trouxe?
Ribeiro – NossaSua filha?...
Ribeiro – Espere!Voltarei antes de uma hora com ela.
Helena – Por que te levantaste, Carolina? Estás tão fraca!
Helena – É este sujeitinhoTu o conheces bem! Fez-me exasperar!... diz que se
envergonha de conhecer-meporque vai casar-se.
Carolina – Casar-se?Ele!... Com quem, meu Deus?

Helena – Pois não! Agora há de ouvir-me! Araújo (à Carolina) – Sente-se melhor? Ribeiro – Incomoda-lhe a minha presença? Carolina – Tinha tanta vontade de vê-la!... Carolina – Falavas tão alto!... Meneses – Com a filha de um homem de bem. Araújo – Que não o conhece certamente.

CENA VI (Carolina, Luís, Meneses, Araújo, Helena e Vieirinha)

Helena – Hei de contar-lhe uma história. Ah! As minhas cartas o comprometem!... Veremos as suas... Vieirinha – As minhas?... Helena – Os bilhetinhos que me escrevia pedindo-me que lhe valesse, que fosse desempenhar o seu relógio. Araújo – Serão um bom presente para o futuro sogro do senhor. Helena – Está dito; vou mandá-las amanhã! Tenho-as aqui. Vieirinha – Helena!... Meneses (a Araújo) – Como lhe avivou a memória. Já sabe o nome. Vieirinha – Escuta! Helena – Não me comprometa, meu senhor! Carolina – Vem cá, Helena. Helena – O que queres? Carolina – Nunca te pedi nada. Dá-me estas cartas. Helena – Para quê? Carolina – Dá-me! Luís – Que vai fazer? w.nead.unama.br

Carolina – Vingar-me!Aí tem!... rasgue essas provas que o podem denunciar;
uma palavra, ninguém lhe estenderia a mão(Vieirinha sai, deixando aberta a

50 case-se com a filha desse homem de bem; entre no seio de uma família honrada; adquira amigos!...É a minha vingança contra essa gente orgulhosa que se julga superior às fraquezas humanas. Luís – Não fale assim, Carolina; a sociedade perdoa muitas vezes. Carolina – Perdoa a um homem como este; recebe-o sem indagar do seu passado, sem perguntar-lhe o que foi; contanto que tenha dinheiro, ninguém se importa que a origem dessa riqueza seja um crime ou uma infâmia. Mas, para a pobre moça que cometeu uma falta, para o ente fraco que se deixou iludir, a sociedade é inexorável! Por que razão? Pois a mulher que se perde é mais culpada do que o homem que furta e rouba? Meneses – Não, decerto! Carolina – Entretanto, ele tem um lugar nessa sociedade, pode possuir família! E a nós, negam-nos até o direito de amar! A nossa afeição é uma injúria! Se alguma se arrependesse, se procurasse reabilitar-se, seria repelida; ninguém a animaria com rótula)

CENA VII (Carolina, Luís, Meneses, Araújo e Helena)

Meneses – Talvez seja uma injustiça, Carolina; mas não sabes a causa?É o
apenas a alma. A alma purifica-se porque é espírito, o corpo não!Eis por que o

grande respeito, a espécie de culto, que o homem civilizado consagra à mulher. Entre os povos bárbaros ela é apenas escrava ou amante; o seu valor está na sua beleza. Para nós, é a tríplice imagem da maternidade, do amor e da inocência. Estamos habituados a venerar nela a virtude na sua forma a mais perfeita. Por isso na mulher a menor falta mancha também o corpo, enquanto que no homem mancha arrependimento apaga a nódoa do homem, e nunca a da mulher; eis por que a sociedade recebe o homem que se regenera, e repele sempre aquela que traz em sua pessoa os traços indeléveis do seu erro. Carolina – É um triste privilégio!... Meneses – Compensado pelo orgulho de haver inspirado ao homem as coisas mais sublimes que ele tem criado. Luís – Penso diversamente, Sr. Meneses. Por mais injusto que seja o mundo, há sempre nele perdão e esquecimento para aqueles que se arrependem sinceramente: onde não o há é na consciência. Mas não se preocupe com isto agora, Carolina; vê que não lhe faltam amigos, e essa mão que deseja, aqui a tem! Carolina – Deixa-me beijá-la! Luís – Não se beija a mão de um irmão; aperta-se!

CENA VIII (Os mesmos e Pinheiro)

Pinheiro – Um moço que veio no meu tílburi entrou aquiNão posso esperar mais

Helena – Quem é o senhor? tempo; são nove horas. Helena – Como se chama?

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