Como e por que sou Romancista - José de Alencar

Como e por que sou Romancista - José de Alencar

(Parte 2 de 5)

Foi no meio dessas reflexões que tocou a sineta, e as suas badaladas ressoaram em minha alma como o dobre de uma campa.

Mas Januário que era acerca de disciplina colegial de uma pontualidade militar, não deu pelo aviso e amiudou as perguntas, percorrendo apressadamente a classe. Poucos minutos depois eu recobrava meu lugar, e erguia-me trêmulo para tomar a cabeça do banco.

O júbilo, que expandiu a fisionomia sempre carregada do diretor, eu próprio não o tive maior, com o abalo que sofri. Ele não se pôde conter e abraçou-me diante da classe.

Naturalmente a questão proposta e cuja solução deu-me a vitória, era difícil; e pôr isso atribuía-me ele o mérito, que não provinha talvez senão da sorte, para não dizer do acaso.

Momentos depois entrava eu pelo salão à frente da classe, onde me conservei até o exame.

Mais tarde, quando a razão, como o fruto, despontou sob a flor da juventude, muitas vezes cogitei sobre esse episódio de infância, que deixara em meu espírito, uma vaga dúvida a respeito do caráter de Januário.

Então o excessivo rigor que se me tinha afigurado injusto, tomava o seu real aspecto; e me aparecia como o golpe rude, mas necessário que dá têmpera ao aço. Porventura notara o diretor de minha parte uma confiança que deixava em repouso as minhas faculdades, e da qual proviera o meu descuido.

Este episódio escolástico veio aqui pôr demais, trazido pelo fio das reminiscências. Serve entretanto para mostrar-lhe o aproveitamento que deviam tirar os alunos desse método de ensino.

Sabíamos pouco; mas esse pouco sabíamos bem. Aos onze anos não conhecia uma só palavra de língua estrangeira, nem aprendera mais do que as chamadas primeiras letras.

Muitos meninos, porém, que nessa idade tagarelam em várias línguas e já babujam nas ciências, não recitam uma página de Frei Francisco de São Luís, ou uma ode do Padre Caldas, com a correção, nobreza, eloqüência e alma que Januário sabia transmitir a seus alunos.

Essa prenda que a educação deu-me para toma-la pouco depois, valeu-me em casa o honroso cargo de ledor, com que me eu desvanecia, como nunca me sucedeu ao depois no magistério ou no parlamento.

Era eu quem lia para minha boa mãe não somente as cartas e os jornais, como os volumes de uma diminuta livraria romântica formada ao gosto do tempo.

Morávamos, então, na Rua do Conde, nº 5. Aí nessa casa preparou-se a grande revolução parlamentar que entregou ao Sr. D. Pedro I o exercício antecipado de suas prerrogativas constitucionais.

A propósito desse acontecimento histórico, deixe passar aqui nesta confidência inteiramente literária, uma observação que me acode e, se escapa agora, talvez não volte nunca mais.

Uma noite pôr semana, entravam misteriosamente em nossa casa os altos personagens filiados ao Clube Maiorista de que era presidente o Conselheiro Antônio Carlos e Secretário o Senador Alencar.

Celebravam-se os serões em um aposento do fundo, fechando-se nessas ocasiões a casa às visitas habituais, a fim de que nem elas nem os curiosos da rua suspeitassem do plano político, vendo iluminada a sala de frente.

Enquanto deliberavam os membros do Clube, minha boa mãe assistia ao preparo de chocolate com bolinhos, que era costume oferecer aos convidados pôr volta de nove horas, e eu, ao lado com impertinências de filho querido, insistia pôr saber o que ali ia fazer aquela gente.

Conforme o humor em que estava, minha boa mãe às vezes divertia-se logrando com histórias a minha curiosidade infantil; outras deixava-me falar às paredes e não se distraía de suas ocupações de dona de casa.

Até que chegava a hora do chocolate. Vendo partir carregada de tantas gulosinas a bandeja que voltava completamente destroçada, eu que tinha os convidados na conta de cidadãos respeitáveis, preocupados dos mais graves assuntos, indignava-me ante aquela devastação e dizia com a mais profunda convicção:

-O que estes homens vêm fazer aqui é regalarem-se de chocolate.

Essa, a primeira observação do menino em coisas de política, ainda a não desmentiu a experiência do homem. No fundo de todas as evoluções lá está o chocolate embora sob vários aspectos.

Há caracteres íntegros, como o do Senador Alencar, apóstolos sinceros de uma idéia e mártires dela. Mas estes são esquecidos na hora do triunfo, quando não servem de vítimas para aplacar as iras celestes.

Suprima este mau trecho que insinuou-se malgrado e contra todas as usanças em uma palestra, senão au coin du feu, em todo o caso aqui neste cantinho da imprensa.

Afora os dias de sessão, a sala do fundo era a estação habitual da família.

Não havendo visitas de cerimônia sentava-se minha boa mãe e sua irmã D. Florinda com os amigos que pareciam, ao redor de uma mesa redonda de jacarandá, no centro da qual havia um candeeiro.

Minha mãe e minha tia se ocupavam com trabalhos de costuras, e as amigas para não ficarem ociosas as ajudavam. Dados os primeiros momentos à conversação, passava-se à leitura e era eu chamado ao lugar de honra.

Muitas vezes, confesso, essa honra me arrancava bem a contragosto de um sono começado ou de um folguedo querido; já naquela idade a reputação é um fardo e bem pesado.

Lia-se até a hora do chá, e tópicos havia tão interessantes que eu era obrigado à repetição. Compensavam esse excesso, as pausas para dar lugar às expansões do auditório, o qual desfazia-se em recriminações contra algum mau personagem, ou acompanhava de seus votos e simpatias o herói perseguido.

Uma noite, daquelas em que eu estava mais possuído do livro, lia com expressão uma das páginas mais comoventes da nossa biblioteca. As senhoras, de cabeça baixa, levavam o lenço ao rosto, e poucos momentos depois não puderam conter os soluços que rompiam-lhes o seio.

Com a voz afogada pela comoção e a vista empanada pelas lágrimas, eu também cerrando ao peito o livro aberto, disparei em pranto e respondia com palavras de consolo às lamentações de minha mãe e suas amigas.

Nesse instante assomava à porta um parente nosso, o Revd.º Padre Carlos Peixoto de Alencar, já assustado com o choro que ouvira ao entrar – Vendo-nos a todos naquele estado de aflição, ainda mais perturbou-se:

-Que aconteceu? Alguma desgraça? Perguntou arrebatadamente.

As senhoras, escondendo o rosto no lenço para ocultar do Padre Carlos o pranto e evitar seus remoques, não proferiram palavra. Tomei eu a mim responder:

-Foi o pai de Amanda que morreu! Disse, mostrando-lhe o livro aberto.

Compreendeu o Padre Carlos e soltou uma gargalhada, como ele as sabia dar, verdadeira gargalhada homérica, que mais parecia uma salva de sinos a repicarem do que riso humano. E após esta, outra e outra, que era ele inesgotável, quando ria de abundância de coração, com o gênio prazenteiro de que a natureza o dotara.

Foi essa leitura contínua e repetida de novelas e romances que primeiro imprimiu em meu espírito a tendência para essa forma literária que é entre todas a de minha predileção?

Não me animo a resolver esta questão psicológica, mas creio que ninguém contestará a influência das primeiras impressões.

Já vi atribuir o gênio de Mozart e sua precoce revelação à circunstância de ter ele sido acalentado no berço e criado com música.

Nosso repertório romântico era pequeno; compunha-se de uma dúzia de obras entre as quais primavam a Amanda e Oscar, Saint-Clair das Ilhas, Celestina e outras de que já não me recordo.

Esta mesma escassez, e a necessidade de reler uma e muitas vezes o mesmo romance, quiçá contribuiu para mais gravar em meu espírito os moldes dessa estrutura literária, que mais tarde deviam servir aos informes esboços do novel escritor.

O primeiro broto da semente que minha boa mãe lançara em meu espírito infantil, ignara dos desgostos que preparava a seu filho querido, veio dois anos depois.

Entretanto é preciso que lhe diga. Se a novela foi a minha primeira lição de literatura, não foi ela que me estreou na carreira de escritor. Este título cabe a outra composição, modesta e ligeira, e pôr isso mesmo mais própria para exercitar um espírito infantil.

O dom de produzir a faculdade criadora, se a tenho, foi a charada que a desenvolveu em mim, e eu teria prazer em referir-lhe esse episódio psicológico, se não fosse o receio de alongar-me demasiado, fazendo novas excursões fora do assunto que me produz.

Já então havíamos deixado a casa da Rua do Conde e morávamos na Chácara da Rua Maruí, nº 7, donde também saíram importantes acontecimentos de nossa história política. E todavia ninguém se lembrou ainda de memorar o nome do Senador Alencar, nem mesmo pôr esse meio econômico de uma esquina de rua.

Não vai nisso mais que um reparo, pois sou avesso a semelhante modo de honrar a memória de beneméritos; além de que ainda não perdi a esperança de escrever esse nome de minha veneração no frontispício de um livro que lhe sirva de monumento. O seu vulto histórico, não o atingem pôr certo as calúnias póstumas que, sem reflexão, foram acolhidas em umas páginas ditas de história constitucional; mas quantos dentre vós estudam conscienciosamente o passado?

Como a revolução parlamentar da maioridade, a revolução popular de 1842 também saiu de nossa casa, embora o plano definitivo fosse adotado em casa do Senador José Bento, à Rua do Conde, 39

Nos paroxismos, quando a abortada revolução já não tinha glórias, mas só perigos para os seus adeptos, foi na Chácara do Senador Alencar que os perseguidos acharam asilo, em 1842 como em 1848.

Entre os nossos hóspedes da primeira revolução, estava o meu excelente amigo Joaquim Sombra, que tomara parte no movimento sedicioso do Exu e sertões de Pernambuco.

Contava ele então os seus vinte e poucos anos: estava na flor da mocidade, cheio de ilusões e entusiasmos. Meus versos arrebentados à força de os esticar, agradavam-lhe ainda assim, porque no fim de contas eram um arremedo de poesia; e porventura levavam um perfume da primavera da alma.

Vendo-me ele essa mania de rabiscar, certo dia propôs-me que aproveitasse para uma novela o interessante episódio da sedição, do qual era ele o protagonista.

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