FILOGENESE DA MOTRICIDADE HUMANA Vitor da Fonseca - 1982

FILOGENESE DA MOTRICIDADE HUMANA Vitor da Fonseca - 1982

(Parte 3 de 6)

Dentro de uma linha filogenética, os metazoários são formados por duas camadas de células, a ectoderme e a endoderme (exterior e interior), que caracterizam um tipo de movimento dependente de uma simetria radial. Tal característica tende a transformar-se, em termos evolutivos, numa simetria bilateral, dado que uma nova estrutura se interpõe no meio das duas camadas acima apontadas, isto é, a mesoderme, implicadora de uma morfologia esquelética e de uma musculatura específica pondo em jogo grupos musculares agonistas e antagonistas, flexores e extensores, esquerdos e direitos, anteriores e posteriores. É evidentemente a partir daqui que as condutas sensório--motoras tendem a uma complexidade crescente. Podemos já dissecar a adaptação progressiva, que vai dos invertebrados aos vertebrados. E é o que nos propomos fazer de momento.

Os vertebrados expandem-se pela água, pelo are pela terra. Como características adaptativas fundamentais, temos a referir: caixa craniana óssea, desenvolvimento do esterno, da cintura pélvica e da escapular, desenvolvimento dos membros, desenvolvimento muscular, alongamento da coluna cervical e independência da cabeça.

Como representantes fósseis que justificam os primeiros vertebrados, temos a referir os placodermes, os crossopterígeos e os actinopte-rígeos.

Dos peixes aos anfíbios dão-se de novo adaptações, tal como dos anfíbios aos répteis. Assim, o peixe, ao levantar a cabeça das águas, inicia a conquista da terra firme, transformando-se num peixe blindado que comporta novas adaptações que o vão levar aos répteis. As características filogenéticas primordiais são a transformação da barbatana em membros, a estrutura material exclussivo do site http://gagaufera2005.no.sapo.pt/index.html pulmonar com narinas, uma circulação sanguínea dependente de um coração, o robustecimento do esqueleto e a aquisição de uma coluna cervical móvel, dado que os problemas de orientação em terra requerem maior número de conexões sensório-motoras.

Fig. 4 — Os crossopterígios elevam a cabeça das águas. A conquista da terra foi primeiro feita pelas plantas e depois pelos vertebrados. Estes iniciam um passo muito importante da evolução. Dos peixes aos répteis surgem novas adaptações: as barbatanas transformam-se em membros; as funções biológicas complexificam-se; a motricidade mais diferenciada origina novas modificações no cérebro. (Segundo F. H. T. Rhodes)

Fig. 5 — Ichthyostega (esqueleto e reconstituição esquemática). (Segundo F. H. T. Rhodes)

Uma das características mais importantes do vertebrado, e que convém desde já assinalar, é a simetria bilateral, em que uma parte do corpo é espelho da outra.

Romer chega mesmo a diferenciar a simetria bilateral morfológica como a condição fundamental de os vertebrados serem considerados animais activos que se deslocam facilmente, daí o seu sucesso de adaptação ao meio exterior.

A simetria bilateral está na base da filogénese da motricidade, é ela que explica a evolução adaptativo-funcional que mais tarde justificará o desenvolvimento do órgão de maior diferenciação do mundo animal — o cérebro humano.

A simetria bilateral depende da coluna vertebral, que suporta a cabeça, o tórax e o abdómen. E é a chave da filogénese da motricidade que evolui da reptação (dos répteis) ao bipedismo (do Homem), passando pela quadrupedia (dos mamíferos) e pela braquiação ou quadrumania (dos primatas).

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A simetria bilateral ajuda-nos a perceber a importância capital da coluna vertebral, não só porque sustenta os órgãos mas também porque constitui o princípio e o fim de todas as condutas sensório-motoras. A coluna contém na sua extremidade anterior a cabeça (cefalização) e na sua extremidade posterior a cauda. É interessante notar que daqui advém uma lei fundamental de desenvolvimento dos vertebrados — a lei cefalocaudal, lei essa que exemplifica o desenvolvimento embrio-lógico e a ontogénese da motricidade no ser humano, que iremos estudar num segundo volume.

É óbvio que as aquisições motoras humanas, que se iniciam primeiro na posição de deitado (maturação neuromuscular dos metâ-meros dorsais e lombares), até à posição de pé (maturação neuromuscular dos metâmeros sagrados), põem em destaque a importância da lei cefalocaudal, característica inerente à motricidade de todos os animais vertebrados.

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Os animais vertebrados dispõem todos de uma coluna e de uma cabeça. A coluna suporta os órgãos responsáveis pelas grandes funções (respiração, circulação, digestão), enquanto a cabeça concentra as estruturas mais sensíveis dos órgãos sensoriais (orientação e adaptação). Estes dois elementos constituem o esqueleto axial, o mais fundamental, ao passo que os membros anteriores (superiores) e os membros posteriores (inferiores) constituem o esqueleto apendicular, unido à coluna por duas cinturas articulares: a escapular e a pélvica.

Um estudo de anatomia comparada levar-nos-ia muito longe, saindo fora desta introdução, onde se pretende dar uma visão, tanto quanto possível adequada e rigorosa, entre a filogénese e a ontogénese da motricidade; porém, ela é fundamental para a compreensão dos aspectos osteológicos e anatómicos, não só importantes para a leitura dos fósseis como também necessários para a explicação das adaptações mais diferenciadas que se deram nos vertebrados.

A evolução que vai dos seres unicelulares como os protozoários, e que passa, segundo Oparine e tantos outros, pelos colonialismos celulares ou coacervatos, até atingir os metazoários marítimos, seres multicelulares, sem espinha dorsal, também designados por invertebrados, é a mais difícil de determinar, exactamente porque faltam dados fósseis, ou melhor, dados paleontológicos.

Embora a paleontologia, como ciência do passado, segundo nos assegura Piveteau, não nos garanta muitos fragmentos formulativos da história da evolução dos invertebrados, não restam dúvidas de que o estudo dos ossos (osteologia) nos permite mais seguramente redesco-brir a idade relativa dos restos animais, através de um conjunto de conexões (G. St. Hilaire) e de processos adaptativos que nos confirmam uma perspectiva materialista da evolução dos vertebrados.

O esqueleto é um elemento importante para o estudo dos vertebrados; só por ele se podem analisar as espécies extintas. O que resta para além das partes moles é efectivamente o que interessa para o estudo dos fósseis e, mais globalmente, para os estudos dos dados arqueológicos.

Para além das características que já apontámos, importa determinar objectivamente como se deu a evolução dos vertebrados para conhecermos por que é que os animais vertebrados (e portanto o Homem) se transformaram no que são.

A simetria bilateral é, como já vimos, fundamental, daí advirem as seguintes adaptações nos animais vertebrados:

- Maior facilidade de movimentos; - Melhores condições de resistência ao sedentarismo;

- Separação das narinas da cavidade bucal (aparecimento do sistema olfactivo); material exclussivo do site http://gagaufera2005.no.sapo.pt/index.html

- Emergência de um sistema de equilíbrio (sistema vestibular), dado que o equilíbrio e a orientação são mais complexos em terra firme; - Coluna vertebral flexível;

- Cefalização progressiva com assimetria funcional dos dois hemisférios cerebrais.

A transformação de uns seres noutros explica-se, como já vimos, em termos genéticos, por isso fácil se torna agora perceber a evolução que decorre do vertebrado ao Homem, não apenas em termos anatómicos mas também em termos funcionais, ou seja perspectivar toda uma evolução que parte de um aspecto biológico para outro já extrabiológico.

Fig. 6 — Filogénese do SNC (Sistema Nervolo Central). (Segundo Max Ceccatty)

Nesta revolução biológica é evidente que uma das características fundamentais dos vertebrados, quer sejam os peixes, os anfíbios ou os répteis, e a sua actividade. A actividade, melhor, a motricidade no seu sentido biológico total foi e é uma das chaves do sucesso dos animais vertebrados.

A motricidade, por si só, para além de ter permitido ao peixe do

Devónio-Crossopterígio a conquista da terra firme, levou o animal vertebrado às seguintes libertações anatómicas sucessivas, focadas por Leroi-Gourhan: 1.° — do corpo em relação à água (répteis); 2.° — da cabeça em relação ao solo (mamíferos); 3.° — da mão em relação à locomoção (primatas); 4.° — do cérebro em relação ao maciço faciodental (Homem).

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Em termos de evolução, a motricidade é uma condição de adaptação vital Só por ela a nutrição é satisfeita e só em função desta necessidade se justifica o processo de relação com o meio, dado que todos os animais, inclusivamente o Homem, necessitam de obter determinados alimentos a partir do seu envolvimento.

A motricidade, como berço significativo da evolução, deve permitir ver a Adaptação Humana não só pela inteligência mas igualmente pela sua motricidade, que lhe deu a origem e que sucessivamente a determinou.

A motricidade é o complemento da cerebração, isto é, a regulação e o controlo, que a motricidade humana atingiu através dos tempos, é a condição, (em termos ontogenéticos) e foi a condição (em termos filogenéticos) da evolução do cérebro., órgão central de localização cefálica que assume os comportamentos, ou sejam os processos motores materializadores de adaptação, e da relação «inteligível» entre a situação (factores exógenos) e a acção (factores endógenos).

O cérebro beneficiou da filogénese da motricidade, através da conquista locomotora que decorre da reptação, da quadrupedia e especialmente do bipedismo.

No princípio, é a motricidade que explicita a progressiva diferenciação do cérebro. O cérebro não provoca a motricidade como muitas vezes as explicações idealistas quiseram argumentar. A motricidade é o invariante da evolução biológica! e como tal da evolução do sistema, nervoso central. Aqui está outra das chaves da evolução, a qual aponta necessariamente para uma visão científica baseada em factores conhecidos e controlados pela acção e pelo saber humanos, independentemente de muitas teorias acientíficas continuarem a subsistir, exactamente porque não podem ser cientificamente analisadas.

A função e a utilização constante do aparelho locomotor justifica em parte a Hominizacjio, que resume uma evolução anatómica, essencialmente associada a uma revolução reflexiva ou cerebral. O problema tem ainda uma justificação lamarckiana: as características adaptativas, explicadas em termos genéticos, verificam-se em termos de uso ou desuso, isto é, a função faz o órgão. Assim, explicamos o pescoço comprido da girafa, a ausência de membros da cobra, o bipedismo humano. Trata-se, como diz Romer, de uma teoria simples, razoável e natural, à qual devemos juntar as mutações, quer sejam vantajosas ou não, e o mecanismo de selecção natural explicado inicialmente por Charles Darwin.

No caso dos vertebrados, e é isso que importa agora abordar, a adaptação à vida terrestre levou à transformação dos peixes em anfíbios, que, como sabemos, têm um duplo habitat. Afirma Sanides, que as larvas destes anfíbios conservam ainda a vida aquática, como aliás, se pode observar no processo de maturação da rã.

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Os primeiros peixes a «tirarem a cabeça fora de água» surgiram na segunda metade do Silúrico, e durante o Devónio atingiram maior variabilidade e adaptabilidade. São considerados peixes pulmonados (ou dipnóicos) e também designados por peixes blindados, dada a estrutura extremamente rígida da sua ectoderme, exactamente porque só assim se protegiam das radiações muito intensas da época. Nesta transição, a bexiga natatória transforma-se em pulmão; as barbatanas em membros; as extremidades em cinco dedos; a coluna cervical rígida num pivot móvel para permitir à cabeça uma maior independência de movimentos (pescoço) e, consequentemente, uma orientação visual e auditiva mais ampla; as fossas nasais diferenciam-se da cavidade bucal e adquirem uma comunicação com a faringe, o que permite desenvolver um telerreceptor químico, isto é, o olfacto, de grande significado adaptativo para todos os mamíferos terrestres.

Todas estas adaptações funcionais podiam ser rejeitadas dum ponto de vista explicativo. Porém, em 1936, na Gronelândia, surge um fóssil que permite ligar a adaptação aquática à adaptação terrestre e atmosférica. Tratava-se de um peixe de quatro pernas, o Ichthyostega, apresentando já um conjunto de condutas, que podemos caracterizar como inerentes aos anfíbios. Convém reprecisar que este exemplar encontra um testemunho actual num peixe da ordem dos crossopterigeos que ainda hoje habita as ilhas Comores, perto de Madagáscar.

É evidente que as exigências da vida na terra são diferentes das exigências da vida na água, e mais uma vez essas diferenças têm a ver essencialmente com a motricidade. Para se movimentar em terra firme, o animal necessita de quatro extremidades que permitam sustentar o corpo e garantir o equilíbrio à extremidade cefálica, dado que esta precisa de responder a um maior número de estímulos do meio exterior.

A libertação do crânio da primeira vértebra, atlas, obedece à necessidade de o animal vertebrado desenvolver vários sentidos, quer à distância (visão, audição, etc.) quer ao nível do corpo e da pele (gosto, tacto, movimento, etc), sendo uns denominados telerreceptores e outros proprioceptores.

A aquisição de uma extremidade cefálica independente e móvel, sustentada pelas massas musculares do pescoço, dotou, como evoca Sanides, o animal de um sistema silencioso de orientação e de sobrevivência, permitindo uma observação dirigida quer para uma presa quer para um predador.

O animal vertebrado tem de responder mais adequada e rapidamente aos estímulos e às situações, dado que as modificações das condições de vida são mais bruscas na terra do que na água. Os seus sistemas de orientação e de acção são mais aperfeiçoados e mais organizados, justificando portanto um sistema nervoso mais complexo. Para a complexidade do sistema nervoso contribui um novo sistema proprioceptivo, adquirido a partir dos fusos neuromusculares e dos corpúsculos de Golgi, que informam permanentemente o cérebro das condições em que a acção decorre.

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Só com estes dispositivos táctilo-quinestésicos, que advêm, uma vez mais, de uma motricidade cada vez mais diferenciada, os animais vertebrados obtiveram um sistema sensorial mais complexo e interligado.

É fácil perceber agora o papel do cérebro, que tem como função fundamental organizar os dados de vários órgãos receptores, antes de programar um sistema de acções que concretizam propriamente a adaptação do animal ao seu meio.

Do Anfioxo ao Homem verifica-se, podemos dizer, uma paleontologia funcional, evidenciada pela prioridade dos dispositivos esquelético-corporais, em comparação com os dispositivos sensório--cerebrais. Aqui se encontra a confirmação da importância dos aspectos funcionais e adaptativos, que só poderiam ser satisfeitos pelos aspectos anatómicos e osteológicos antecedentes, necessariamente dependentes da motricidade.

Como dados filogenéticos indispensáveis à compreensão da ontogénese da motricidade dos vertebrados, temos:

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