FILOGENESE DA MOTRICIDADE HUMANA Vitor da Fonseca - 1982

FILOGENESE DA MOTRICIDADE HUMANA Vitor da Fonseca - 1982

(Parte 4 de 6)

1.° — Organização mecânica da coluna e dos membros, entendidos não só como órgãos de locomoção mas também, e fundamentalmente, como órgãos de relação com o meio; 2.° — Suspensão craniana, onde subsiste a colocação da cabeça, como dispositivo funcional de orientação no meio; 3.° — Estruturação da dentadura como órgão de relação com funções de captura de presas, defesa de predadores e preparação alimentar; 4.° — Evolução neuromotora da mão, a qual, estando colocada na extremidade dos membros superiores, justifica a evolução técnicoinstrumental; 5.° — Expansão associativa e interneurossensorial do cérebro, que permitiu no Homem a manipulação simbólica (linguagem) e a evolução sociocultural.

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4 PALEONTOLOGIA FUNCIONAL

Para situarmos objectivamente este ramo da filogénese, vamos recorrer às obras de Leroi-Gourhan e de David Pilbeam, que nos apresentam simultaneamente uma hierarquização morfologico-motora dentro dos vertebrados e segundo o seguinte quadro esquemático: • Ictiomorfismo — equilíbrio no meio aquático;

• Anfibiomorfismo — libertação do meio aquático;

• Sauromorfismo — libertação da cabeça;

• Teromorfismo — locomoção quadrúpede;

• Pitecomorfismo — postura sentada;

• Antropomorfismo — bipedismo.

Fig. 7 — Hierarquização morfológico-motora (segundo Leroi-Gourhan). material exclussivo do site http://gagaufera2005.no.sapo.pt/index.html

É dentro desta hierarquização filogenética que passaremos a abordar a progressiva diferenciação funcional da motricidade, sem no entanto deixar de recorrer ao quadro de Pilbeam, que se segue e onde estão assinalados, em termos de evolução, os acontecimentos mais significativos que nos levam até ao aparecimento do Homo Sapiens.

Numa breve síntese, e respeitando a hierarquização morfológico-- motora dos vertebrados, vamos agora dissecar cada um dos estádios evolutivos.

4.1 O Ictiomorfismo

Trata fundamentalmente da evolução do peixe, na qual se observa uma locomoção no meio aquático assegurada por batimentos laterais e rítmicos, pela acção de músculos antagónicos suportados pelo esqueleto interno. É efectivamente este mecanismo motor elementar que propulsiona o material exclussivo do site http://gagaufera2005.no.sapo.pt/index.html eixo do corpo do peixe, com a acção dinâmica da cauda, equilibradora das barbatanas e direccional da cabeça.

A extremidade cefálica assegura a inserção das mandíbulas e pode conter dentes elementares em forma de cone e com superfícies cortantes.

A cabeça não apresenta liberdade de movimentos com o eixo corporal: encontra-se solidamente unida à primeira vértebra, recebendo já um minúsculo cérebro, composto de tubo neural e vestibular.

4.2 O Anfibiomorfismo

Compreende a passagem da vida aquática à vida terrestre, englobando novas aquisições respiratórias e motoras. As guelras transformaram-se em bexigas natatórias e as mandíbulas acusam já um certo grau de libertação anatómica.

É evidente que se dá uma adaptação exclusiva à água e uma adaptação relativa à terra, como, aliás, prova a sua reprodução, quase toda desenrolada no meio aquático.

A locomoção terrestre é feita com os quatro membros, e a cintura escapular ainda está articulada com o crânio, de forma que a liberdade da cabeça é quase nula. A bacia faz já suporte à marcha, os braços e as pernas têm os mesmos ossos que o ser humano, e a mão e o pé acusam a pentadáctila.

São óptimos nadadores, com movimentos simétricos e propulsi-vos coordenados entre os membros anteriores e os membros posteriores.

A cabeça, em terra, assume uma posição semi-horizontal e semivertical, exactamente para facilitar a orientação, o que vai permitir o aparecimento do pescoço, separando anátomo-funcionalmente a cabeça do resto do corpo por uma musculatura da nuca. A dentadura apresenta uma relação osteológica determinada em relação à postura, o que introduz tracções motoras que favorecem a mobilidade da cabeça em relação ao tronco, com concomitante separação da cintura escapular.

4.3 O Sauromorfismo

Traduz definitivamente a adaptação ao meio terrestre. A locomoção é obtida sob a forma de ondulação do eixo corporal ou por movimentos inconstantes tipo atetótico, o que introduz novas libertações articulares, como as da cintura escapular, e as transformações anatómicas do crânio.

A cabeça encontra-se definitivamente separada do eixo corporal e ocupa a extremidade do pescoço. Surge a musculatura das mandíbulas e o osso hióide, que mobiliza o maxilar inferior e a língua. A faringe especializa-se material exclussivo do site http://gagaufera2005.no.sapo.pt/index.html fundamentalmente na deglutição e a boca na captura e na pré-mastigação dos alimentos, dadas as características conedontes e homodontes da dentadura.

Os membros encontram-se individualizados do esqueleto axial, as extremidades são pentadáctilas e o crânio está suspenso sobre o basion, obedecendo a relações alométricas e adaptativas que se estabelecem dialecticamente entre a evolução corporal e a evolução cerebral.

O sauromorfismo compreende efectivamente o estudo dos répteis, considerados os primeiros habitantes da terra firme, onde a locomoção pode apresentar em primeiro lugar uma reptação e posteriormente uma locomoção quadrúpede em cima do solo. O estudo dos répteis explica a evolução dos vertebrados, daí a sua importância. Na linha de evolução dos répteis vamos encontrar os pterossauros, que originam as aves e os morcegos, e os dinossauros, que originam os teropsídeos (répteis gigantes), os quais, por sua vez, vão originar duas classes de mamíferos: os herbívoros e os carnívoros.

Em qualquer dos casos, o sauromorfismo é caracterizado por um equilíbrio entre o crânio dentário e o crânio cerebral, ao contrário dos ruminantes, em que o crânio dentário é nitidamente superior ao crânio cerebral.

No aspecto corporal, muitas aquisições filogenéticas se encontram desvendadas: o eixo vertebral é o centro do edifício corporal, e o esqueleto apresenta já algumas características humanas, isto é, os membros estão individualizados, as extremidades têm cinco dedos, o crânio está suspenso da coluna, a dentadura condiciona o complexo do crânio, etc. Temos aqui outro parâmetro fundamental da filogénese da motricidade: a evolução triunfante do cérebro encontra-se, como foca Leroi-Gourhan, imperiosamente dependente das libertações anatómicas do corpo.

A cada libertação anatómica do corpo corresponde uma libertação funcional do cérebro, ou seja uma complexificação e estruturação neurobiológica. A evolução do corpo determina a evolução do cérebro, e esta realidade da evolução é invariante do Anfioxo ao Homem. Em nenhum vertebrado o sistema nervoso precedeu a evolução da motricidade, daí a importância desta evolução naquela.

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Fig. 8 — A redução do crânio dentário implicou um aumento do crânio cerebral. Veja-se o encurtamento progressivo da base PCB, desde o mamífero (Herbívoro) até ao Homo sapiens, passando pelo chimpazé (Leroi-Gourhan)

4.4 O Teromorfismo

Compreende a transformação dos répteis em mamíferos. Os répteis ascendem a uma locomoção quadrúpede, similar à do elefante e do cão. Os membros encontram-se articulados perpendicularmente ao eixo vertebral, permitindo uma elevação do corpo em relação ao solo, o que vai dar origem a melhores condições de locomoção, isto é, a uma motricidade mais coordenada, económica, veloz e adequada ao meio e às suas circunstâncias, como resultado de um controlo estriado, cerebeloso e piramidal, mais eficaz.

Por motivos de adaptação biomecânica e alométrica, as vértebras cervicais alongam-se e o pescoço move a cabeça num campo consideravelmente mais amplo, advindo daí novas adaptações e novas capacidades de orientação. Em acumulação, surgem outras adaptações, não só ao nível dos dentes (heterodontes), em virtude de uma dieta mais rica e variada, como ao nível da pelagem isolante (homeo-termia) como ao nível do aparecimento definitivo do diafragma, que permite melhor ventilação pulmonar; do palatino secundário, com consequente desenvolvimento do sistema olfactivo, permitindo pela primeira vez a operação conjunta da mastigação e da respiração; dos membros verticais, em vez de membros oblíquos e projectados lateralmente como nos répteis; da arcada temporal espessa, da arcada zigomática, da mandíbula, etc.

No teromorfismo encontramos outros tipos de diferenciação biológica, que compreendem o desenvolvimento de uma motricidade de captura e de preparação alimentar, e também uma mastigação elaborada, material exclussivo do site http://gagaufera2005.no.sapo.pt/index.html naturalmente dependente da heterodontia, a qual, por si só, introduziu modificações posturais consideráveis.

A cabeça adquire uma independência motora muito complexa, que apresenta um desequilíbrio entre o crânio cerebral e o crânio dentário nos herbívoros e uma tendência para o equilíbrio dos mesmos índices nos carnívoros.

Os mamíferos quadrúpedes dividem-se em monotrématos ovípa-ros, marsupiais e placentários, e, dentro destes, temos a diferenciar: insectívoros, morcegos, cetáceos, focas, roedores, herbívoros, carnívoros e primatas.

Em todos os mamíferos se desenvolve predominantemente o campo anterior, que envolve dois aspectos morfomotores complementares: - O primeiro: acção da cabeça;

- O segundo: acção do membro anterior.

Estes dois pólos, o facial por um lado e o manual por outro, constituem, provavelmente, as aquisições motoras mais significativas em termos de controlo e coordenação cerebral, isto é, são dois aspectos da evolução que materializam o êxito biológico que culmina no ser humano nas funções de aprendizagem e de trabalho.

Em termos de evolução, a parte cefálica está ligada à parte motora, através dos membros que intervêm na captura e na preparação alimentar. Por exemplo, no caranguejo as primeiras patas servem de pinças para a preensão e esmagamento das presas, nos vertebrados essa função surge no membro anterior,* ora com funções de locomoção ora com funções de relação, preensão, defesa ou preparação alimentar. No peixe, as barbatanas anteriores servem necessidades motoras elementares, como a equilibração e a locomoção aquática. No anfíbio e no réptil a intervenção do membro anterior serve para manutenção da comida no solo. Nas aves, os membros anteriores estão adaptados ao voo e os posteriores têm a função de preensão alimentar e de construção do ninho.

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Fig. 9 — Importância do campo anterior, que põe em relação a face com as extremidades da mão (FACE/MÃO). (Segundo Leroi- Gourhan)

Nos mamíferos surgem inúmeras adaptações preensivas, como a língua da girafa, a tromba do elefante, a garra nos carnívoros ou a mão nos insectívoros e nos primatas. Esta adaptação, de grande importância filogenética e ontogenética, explica a importância da motricidade nos mecanismos locomotores que permitem satisfazer as necessidades e os tipos de nutrição: carnívoros, herbívoros, frugíveros e omnívoros.

No ser humano, a relação pólo facial - pólo manual não é feita pelo membro anterior da locomoção, dado que a mão não acumula duas funções: a da preparação de alimento e a de locomoção. Trata-se de um novo teorema da filogénese da motricidade — a libertação da mão.

No Homo Sapiens, a mão opera as funções de defesa e de preensão, bem como se libertou da locomoção, permitindo a partir daqui a disponibilidade para o trabalho, ao mesmo tempo que, dialecticamente, permitiu a libertação dos órgãos faciais para a linguagem. Em resumo:

Do mamífero ao macaco, duas grandes divisões nos surgem: os que utilizam os membros anteriores na relação com o meio (mamíferos preensores); os que utilizam só a cabeça nessa relação (mamíferos locomotores).

Os primeiros compreendem os que são especializados na preensão e apresentam uma relação entre o cérebro e os caninos, e a aquisição postural de sentado, muito importante, como vamos ver, em termos de ontogénese da motricidade.

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