FILOGENESE DA MOTRICIDADE HUMANA Vitor da Fonseca - 1982

FILOGENESE DA MOTRICIDADE HUMANA Vitor da Fonseca - 1982

(Parte 5 de 6)

A mão com cinco dedos, herdada dos anfíbios da Era Silúrica, permite a preensão, dado que representa uma libertação anatómica que tem a ver com a mobilidade da omoplata, do rádio e do cúbito, permitindo a supinação e a pronação. Para se dar esta libertação ao nível da mão é necessário que o esqueleto dos mamíferos preensores seja mais disponível em termos de movimento. O crânio cerebral tende a equilibar-se ao crânio dentário.

Os segundos compreendem os especializados na locomoção e apresentam uma dentadura alongada, adaptada ao tratamento de vegetais e de folhas. As extremidades não têm dedos e são especializadas na sustentação e na locomoção terrestre e não adquirem a postura de sentado. Tudo se concentra no edifício craniano, único campo corporal que estabelece relação com o meio, ocupando a língua e os lábios as funções de preensão, e ocupando os apêndices faciais as funções de defesa. O crânio dentário tende a ser superior ao crânio cerebral.

4.5 O Pitecomorfismo

Resta-nos o pitecomorfismo para concluirmos as etapas da filogénese da motricidade, antes de abordar os primatas. Em termos zoológicos, podemos afirmar, com Leroi—Gourhan, que há um pouco de quadrupedia nos primatas e um pouco de primata no ser humano.

Em termos paleontológicos, o primata assegura, como intermediário morfológico, a ligação entre os seres humanos e os terópodes.

Do ponto de vista da filogénese da motricidade, a quadrumania está entre a quadrupedia e o bipedismo. Quer dizer, os primatas adquirem uma preensão permanente e uma postura de sentado, característica. De uma preensão esporádica e temporária, passamos a uma preensão constante e diversificada. A preensão, como característica motora que mais libertações anatómicas compreende, é a consequência pura e simples de uma maior disponibilidade corporal e de uma maior autonomia postural, adquirida fundamentalmente com a postura de sentado.

A mão, agora como um dispositivo de libertação anatómica, pode realizar: supiniações, pronações, aduções, abduções, sustentações, tracções, rotações, flexões, extensões, oposições, digitações, etc, realizando uma complexa rede de aquisições motoras (braquiação) indispensáveis à adaptação arborial dos primatas.

Como já focámos, a postura de sentado compromete a redução e o parabolismo da dentadura, e esta, por si, vai comprometer um desenvolvimento cada vez mais complexo do cérebro.

O buraco occipital encontra-se articulado com a coluna vertebral, por meio de uma abertura posterior e inferior apta a facilitar a quadrupedia e a posição de sentado.

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A base opistion-basion encontra-se mais horizontalizada, a alavanca basion-inion baixa e liberta-se da sustentação do crânio, mantida pelos músculos fortes da nuca.

Basta agora realizar a expansão do frontal, enrolar o occipital e alargar consideravelmente em leque o parietal e o temporal. Para esta expansão craniana, e depois cerebral, é necessário reduzir a face e o prognatismo, superar a arcada orbital, verticalizando cada vez mais o frontal e reduzindo consideravelmente os molares e os pré-molares.

Só com as transformações anatómicas apontadas, o corpo (aspecto técnico) se estrutura progressivamente, e o cérebro (aspecto organi-zativo) ocupa todo o espaço mecanicamente disponível, dando nascimento a todas as manifestações cerebrais mais avançadas e que são corolário da evolução que vai do primata ao Homem.

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5ANTROPOMORFISMO E ADAPTAÇÕES HOMINÍDEAS

Resta concluir agora os aspectos mais significativos que compreendem o estudo dos primatas e das adaptações hominídeas, que, no seu todo, significam a última e mais importante etapa da filogênese da motricidade — o antropomorfismo.

Antes de avançar nos mecanismos antropomórficos da filogênese da motricidade, convém apresentar o quadro da Ordem dos Primatas:

O termo antropomórfico, como nos surge em Leroi-Gourhan, cria a ligação entre os grandes símios e a Humanidade. Basicamente, compreende todos os antropomorfos que dominam a postura vertical bipede e todas as suas múltiplas conseqüências morfofuncionais.

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Fig. 10 — Arvoredos Primatas (segundo F.H.T. Rhodes) material exclussivo do site http://gagaufera2005.no.sapo.pt/index.html

Fig. 1 — Árvore geneológica dos Hominideos. O Homo Sapiens, tem atrás de si uma evolução histórica.

Antes, porém, de avançar nas adaptações hominídeas, é urgente que se definam as características dos primatas resultantes da adaptação arborial.

A vida nas árvores oferece outro tipo de exigências, e de novo, como atesta Szalay no seu estudo sobre a paleobiologia dos primatas primitivos, a motricidade ocupa uma função capital.

Em termos esquemáticos, e segundo o mesmo autor, a motricidade arborial é responsável pelas seguintes tendências adaptativas alargamento do cérebro; recessão do prognatismo; convergência dos olhos; ossificação das paredes orbitais; atrofia do aparelho olfativo; especialização preensiva das material exclussivo do site http://gagaufera2005.no.sapo.pt/index.html extremidades; desenvolvimento dos receptores tácteis; desenvolvimento neurobiológico oculomotor; agilidade excepcional, pondo em jogo um alto nível de controlo cerebelos e o desenvolvimento da associação pré-frontal; desenvolvimento da função motora; integração interneurossensorial; visão estereoscópica; desenvolvimento do anel timpânico, de grande importância para o desenvolvimento da acuidade e da discriminação auditiva; etc..

A adaptação arborial é, por definição, a penúltima etapa da filogênese da motricidade, justificando posteriormente a verticalização a braquiação, a manipulação e a dentição hominídea.

Wasburn e Jay, no seu trabalho intitulado Perspectivas da Evolução

Humana, procuram abordar uma chave biológica da adaptação arborial e hominídea, característica de todos os primatas e antropóides, diferenciando nomeadamente as seguintes:

1ª - Desenvolvimento dos membros como órgãos de preensão; 2ª - Desenvolvimento dos membros anteriores como órgãos de exploração; 3ª - Desenvolvimento dos sistemas herbívoro e carnívoro de digestão e conseqüente estrutura craniodental; 4ª - Redução do sentido olfativo; 5ª - Desenvolvimento da atividade visual; 6ª - Mudanças no esqueleto pós-craniano; 7ª - Desenvolvimento do cérebro: aprendizagem, linguagem e fabricação de instrumentos; 8ª - Redução do número de descendentes por nascimento, dependência maternal e organização social.

Vejamos agora, na companhia de outros autores, como Tobias,

Montagu, Simons, Simpson, Le Gros Clark, Leakey, Napier e outros, cada uma destas características antropomórficas.

5.1 O Desenvolvimento dos Membros como Órgãos de Preensão

A vida na árvore exige, objetivamente, que os animais que nela habitam se possam manter e sustentar. Uns com unhas, outros, como os primatas, com mãos e pés preensivos.

A preensão ao nível da mão, outra das aquisições filogenéticas da motricidade, implica a libertação da cintura escapular, a rotação do rádio e do cúbito, a mobilidade independente dos dedos, originando consequentemente uma maior dissociação entre as falanges e os metacarpos e entre este e os ossos do carpo.

A mão primata, e igualmente a mão humana, é constituída por vinte e sete ossos (oito no carpo; cinco metacarpos, dois no polegar e doze nos restantes quatro dedos), enquanto o resto do membro superior tem só três material exclussivo do site http://gagaufera2005.no.sapo.pt/index.html ossos unidos por inúmeros tendões e músculos, que se encontram inseridos na unidade motora mais complexa do mundo animal - a mão.

A preensão é garantida através da oponibilidade do polegar em relação aos restantes dígitos. A característica pentadáctila do primata vem já dos répteis; porém, a oponibilidade é só possível nos primatas. O polegar pode oferecer a sua superfície palmar às superfícies palmares dos outros dedos, e por via dessa unidade de coordenação o primata está apto a suspender-se nos ramos e a saltar de uns para outros, mantendo vertical, o seu corpo.

A coordenação motora dos primatas que é necessária para a preensão de ramos é a mais complexa de todos os mamíferos placentários. De fato, a agilidade e a disponibilidade motora que são exigidas para saltar de um ramo para outro e a seqüência de balanços aéreos que compreendem põem em destaque um diferenciado controlo cerebeloso, extrapiramidal e piramidal.

Fig. 12 — Adaptação arboreal. A coordenação perfeita é necessária a um meio, onde o equilíbrio é precário. A preensão é simultaneamente uma função de suspensão e de propulsão. (Segundo E. L. Simons)

Alguns dos primatas, nomeadamente os prossímios, acusam especializações preensivas, como nos lémures, onde o anelar é o maior dedo, ou como nos lóris, onde o indicador e o médio são reduzidos, porque não interferem na preensão.

Em termos filogenéticos, as garras dos carnívoros, já portadores de um simples dispositivo de flexão-extensão, ou dos insectívoros, são nos primatas substituídas por unhas, conferindo aos dedos uma morfologia arredondada e achatada e possibilitando uma pluriarticulação entre as pontas dos dedos e a palma da mão, unidade de coordenação indispensável às funções de sustentação, suporte, preensão, pronação e supinação.

A extensão e a flexão metacarpofalângica, característica de todos os primatas, permite a divergência e a convergência manodigital, condição resultante das inúmeras libertações anatômicas que se operam nos membros superiores e principalmente nas suas extremidades (mais um corolário da adaptação arborial de grande interesse para a filogénese da motricidade). As unhas, ao contrário das garras, são uma conseqüência da adaptação ao envolvimento arborial.

Por acumulação funcional, a mão sofre ainda outras transformações.

A palma da mão expande-se e tende a uma superfície quadrangular, abandonando a sua forma retangular, dado que em termos de coordenação motora, como na preensibilidade ou na oponibilidade, tal forma facilita a especialização do polegar.

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A expansão da mão como caráter anatômico arrasta consigo um caráter funcional, isto é, a cobertura das superfícies plantares, dos dedos e da palma da mão, por uma pele rugosa e áspera, que está na base do desenvolvimento, em termos filogenéticos, do sentido táctilo-quinestésico (o «haptic system»). Este sentido interneurossensorial, já desenvolvido nos primatas, dada a sua adaptação ao movimento, combina dois tipos de informação, um ao nível dos contactos da pele, ou seja, do tacto, outro ao nível do movimento. De um lado as informações da textura, pressão, dor, temperatura e consistências (tacto). Do outro a informação da tensão muscular, do ângulo das articulações, da sensibilidade das diferentes partes do corpo e da relação com os objetos (movimento).

Veremos mais à frente, no estudo da filogênese do cérebro, a importância deste sentido em todos os aspectos da aprendizagem humana. Aqui, num sentido mais biológico, se encontra a transformação da «almofada» ou do «estofo» das extremidades que se encontram nas espécies plantígradas em superfícies de fricção, onde o sentido táctil tende a enraizar-se.

A indispensabilidade da preensão nas árvores é de tal ordem que alguns primatas, como os platirríneos, chegam a desenvolver uma cauda preênsil, capaz de agarrar um ramo e manter o corpo suspenso, como um membro e uma mão extra (Titiev).

Para que ao nível da mão se tivessem dado as transformações que assinalei, convém referir que se deram transformações na omoplata e na clavícula, no úmero, no processo olecrânico, no rádio e no cúbito, exactamente resultantes da braquiação e da quadrumania dos primatas, que no Homem já não se observam pelo abandono do comportamento sustentatório.

A preensão no Homem, é bom que se note, não serve para sustentações nas árvores, mas sim para a função de manipulação de objectos e para a fabricação de instrumentos, daí as suas mais recentes adaptações, que têm a sua origem filogenética na transição do teromorfismo para o pitecomorfismo e deste para o antropomorfismo, isto é, na alteração radical da locomoção terrestre horizontal para a locomoção arborial vertical (Le Gros Clark).

É evidente que uma das grandes diferenças que separam os primatas do Homem é o pé. Nos primatas acusa um alto grau de preensão, com oponibilidade do polegar e com uma mobilidade interna muito característica. No Homem, o pé assume uma especialização hierárquica que tem a ver com a postura bípede e a marcha. O pé humano tem um arco longitudinal idêntico ao dos primatas, mas é único quanto ao arco transversal, devido aos ligamentos e aos ossos do tarso que suportam antigraviticamente o peso do corpo, pois só assim pode criar o grau de tensão muscular adequado e necessário ao desequilíbrio, à propulsão e ao momento corporal que está envolvido na marcha (sinal de Trendelenburg).

No Homem, e por motivos da marcha bípede, os metatarsos são curtos e direitos. O primeiro e o quinto são os mais robustos, reflectindo o material exclussivo do site http://gagaufera2005.no.sapo.pt/index.html modo como o peso do corpo na marcha é transferido desde o calcanhar ao bordo externo do pé e, por último, ao terço ântero-interior e ao dedo grande do pé. Todos os dedos são reduzidos e o dedo grande é particularmente robusto, perdendo a sua função preênsil e juntando-se paralelamente aos restantes para efeitos de especialização na função de sustentação. O pé abandona progressivamente as funções de preensão para desenvolver funções de locomoção.

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