FILOGENESE DA MOTRICIDADE HUMANA Vitor da Fonseca - 1982

FILOGENESE DA MOTRICIDADE HUMANA Vitor da Fonseca - 1982

(Parte 6 de 6)

Como Shultz evoca, as transformações dos membros resultam, em termos comparativos entre o primata e o Homem, na grande diferença dos índices intermembros, ou seja a percentagem de relação entre os membros superiores e os membros inferiores, que oscila entre 136 e 178 nos primatas e que é de 8 no Homem.

Por outras palavras, as transformações nos membros estão, quer nos primatas quer nos seres humanos, dependentes das suas atitudes e movimentos característicos. Do lado dos primatas a quadrumania e a braquiação, do lado dos seres humanos o bipedismo e a preensão práxica.

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5.2 O Desenvolvimento dos Membros Anteriores como Órgãos de Exploração

É evidente que avancei algo neste aspecto na primeira adaptação arborial e hominídea; no entanto, o enfoque foi essencialmente anatómico, pelo que passarei agora a abordar o funcional, o neurológico e o integrativo.

O envolvimento arborial, para além de ser intrincado em termos de equilíbrio, é irregular, e, como consequência, os primatas tiveram de desenvolver formas extremamente complexas de agilidade (Le Gros Clark chama aos primatas «os acrobatas arboriais»), coordenação e regulação motoras, e por isso são os mamíferos placentários mais disponíveis em termos de aquisições motoras (motor skills).

É evidente que a locomoção aérea põe mais problemas de equilibração e coordenação que a locomoção terrestre, na medida em que os estímulos proprioceptivos tendem a multiplicar-se, até porque se encontram conjugados com os estímulos exteroceptivos visuais, razão pela qual as conexões corticais e cerebelosas se inter-relacionam cada vez mais, favorecendo um desenvolvimento cerebeloso que tem por função coordenar as informações que vêm dos músculos, dos tendões e das articulações e submetê-las à apreciação da motricidade, responsável pela equilibração (sistema extrapiramidal-teleocinético) e pela coordenação (sistema piramidalideocinético).

É interessante apontar, só como curiosidade, que as aves e os primatas, uns dominadores do ar, outros de um envolvimento muito similar — a árvore, são os animais em que o cerebelo ocupa funções muito importantes, daí o seu desenvolvimento privilegiado em comparação com as restantes estruturas cerebrais.

Recordemos para este efeito Sanides, que nos diz: «Ao grau mais elevado da diferenciação da representação motora neocortical, com o aperfeiçoamento progressivo dos movimentos unilaterais das extremidades, corresponde um aperfeiçoamento cerebeloso que assegura a harmonia dos movimentos (o sublinhado é meu) mais complicados através de sistemas cerebelosos proprioceptivos. Recordemos aqui a gravidade das perturbações da coordenação, a ataxia e a assinergia que as lesões cerebelosas provocam no Homem.»

Já vimos na adaptação anterior que duas das aquisições filogenéticas da motricidade mais relevantes são a pronação e a supinação, que por si sós implicam uma rotação do rádio e do cúbito, dependentes de uma articulação mais flexível e resistente que é garantida pelo processo olecrânico, o qual vai por sua vez originar uma alteração radical ao nível da omoplata e da clavícula, ossos importantes que ligam o esqueleto axial ao esqueleto apendicular superior.

A omoplata, por exemplo, passa para a zona posterior do tórax, aproximando-se da coluna, as clavículas alongam-se e robustecem-se, o tórax material exclussivo do site http://gagaufera2005.no.sapo.pt/index.html reduz a sua amplitude ântero-posterior e os membros superiores desenvolvemse em comprimento, tudo contribuindo para a libertação progressiva dos membros anteriores e par i uma elevação e recuo do centro de gravidade, que favorece naturalmente a locomoção arborial.

Fig. 14 — A caixa toráxica do Homem oferece um achatamento no plano frontal (M, > H|), ao contrário da maior amplitude lateral (M2 < H2), ambas consequência da postura bícepede.

A libertação dos membros superiores acarreta igualmente o desenvolvimento da musculatura peitoral e deltóide, que subsequentemente introduz uma compressão ântero-posterior do tórax, com hiper-morfose do esterno e necessariamente com alterações nas funções cardiorrespiratórias, à base de uma maior mobilização do diafragma.

Torna-se necessário abordar todos estes aspectos para nos apercebermos de que a libertação da mão tem um mecanismo de causa e efeito morfológico que é indispensável equacionar, a fim de vermos a unidade da osteologia, da anatomia e da fisiologia que está contida na filogénese da motricidade.

Regressando de novo à adaptação arborial, é óbvio que a libertação dos membros superiores, o desenvolvimento da preensão e a dissociação palmidigital são a resposta a um envolvimento tão precário e irregular, onde a vigilância e a agilidade motora acusam um grande valor de sobrevivência.

A emancipação da mão, necessária às funções de locomoção arborial, produz consequentemente novas funções, agora de ordem exteroceptora e exterofectora, que naturalmente a vão caracterizar como um dispositivo exploratório do meio.

A mão passa a ser utilizada para a preparação alimentar, apanhando e separando a comida antes de a introduzir na boca, diminuindo consequentemente a função do prognatismo.

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A dextralidade manual (só possível ao primata na posição de sentado, enquanto o Homem a pode realizar na posição erecta), enriquecida com a sensibilidade táctil, vai introduzir a função manipu-latória, de grande significado mais tarde, na evolução humana, quando a mão se torna a grande obreira da civilização.

A mão dispõe agora de funções de palpação, discriminação táctil e de uma complexidade de funções preensivas, como por exemplo: apanhar, segurar, bater, riscar, catar, lançar, puxar, empurrar, etc.

A mão, como órgão de apropriação e relação com o real, vai ser um dispositivo fundamental ao desenvolvimento psicológico da criança, como vamos ver na ontogénese da motricidade. No Homem a mão assume a função de construção, de transformação e de fabricação, surgindo como o instrumento corporal privilegiado e materializado da evolução cerebral.

Fig. 15 — O instrumento corporal surgiu antes da evolução do cérebro. A dextralidade corresponde à especialização de cada uma das mãos. Um passo importante para a especialização hemisfério.

A mão humana, com os seus dedos reduzidos, com um polegar relativamente comprido, evidenciando a capacidade de rotação sobre o seu próprio eixo, podendo opor-se aos restantes dedos, permitiu ao Homem a capacidade de fabricar instrumentos, razão fundamental do fenómeno humano. Cuénnot e Bergson definem o fenómeno humano como um fenómeno instrumental; para eles, antes do Homem o instrumento não era conhecido, dado que, como diz Piveteau, no primata o intrumento encontra-se confundido com o organismo que o utiliza.

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Com o Homem, o instrumento não é intracorporal mas sim extracorporal, e as conseqüências que daí advêm, como sabemos, são fundamentais em termos de Hominização.

Reforçando este aspecto fundamental do antropomorfismo, o

Homem pôde fabricar inúmeros intrumentos e objectos utilitários, variar infinitamente as suas formas e funções, modificar a sua utilização, apropriandose, como é evidente, de um pensamento reflexivo, antecipado e programado.

A confirmar este corolário da filogenese da motricidade, bastados recorrer aos neurologistas, nomeadamente a Pienfield, e reconhecer que as partes do cérebro humano que controlam a motricidade voluntária da mão se encontram mais desenvolvidas no Homem do que no primata.

A área do córtex motor que representa a mão, particularmente o polegar e o indicador, isto é, os dedos que mais relações estabelecem com o exterior, expandiu-se na mesma dimensão que o cerebelo, justificando a importância das aquisições manipulativas, resultantes necessariamente de aspectos periféricos (proporções da mão, morfologia articular, organização muscular), mas também, fundamentalmente, de aspectos centrais-cerebrais (reconhecimento lateral e corporal da mão, gnosia digital, gnosias táctiloquinestésicas, exterognosias, programação de práxias ideatórias, ideomotoras e construtivas).

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Fig. 16 — O anão invertido. Área de representação cortical do corpo. A mão c a face porque tem mais relações com o meio, são mais importantes. Com uma produz-se trabalho, com a outra produz-se comunicação. (Segundo D. Pilbeam)

Dois quartos da superfície do córtex motor (que representam o corpo) estão ocupados com a mão, daí a sua importância no aumento das aferências táctilo-visuoquinestésicas e no alargamento das zonas associativas.

5.3 O Desenvolvimento do Sistema Herbívoro e Omnívoro de Digestão e Conseqüente Estrutura Cranio-dental

A nutrição, como sabemos, é uma condição vital de sobrevivência animal, e, por conseguinte, ela põe-se como problema ao nível do meio arborial.

Se considerarmos os primatas, a maioria são herbívoros, tendo em atenção os alimentos disponíveis na árvore. No entanto, a tendência evolutiva é frugívora e omnívora, independentemente de alguns prossímios evidenciarem uma dieta insectívora.

A estrutura do sistema digestivo nos primatas não é diferente da dos insectívoros, porém ao nível da estrutura dental dão-se algumas transformações de grande significado morfológico, principalmente ao nível do crânio e do maxilar inferior, ao nível das cúspides (protuberâncias na superfície de mastigação de um dente) e ao nível da fórmula dentária:

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Fig. 17 — Arcada dentária em U invertido dos primatas com diastema, em comparação com a arcada parabólica do Homem, levando a uma redução significativa da mandíbula e do crânio dentário.

A diferenciação dentária mais característica entre os primatas e o

Homem é evidentemente a ausência de caninos robustos e projectados, bem como a ausência de diastema.

O Homem, em comparação com os primatas, reduziu a maioria dos dentes e transformou a arcada dental. Da forma em U invertido passa-se à forma parabólica, que aumenta os efeitos mecânicos da mastigação, reduzindo consideravelmente a estrutura do maxilar inferior e levando, consequentemente, à expansão do crânio cerebral, nitidamente maior no Homem que no primata, onde subsiste o crânio dental.

A mandíbula humana apresenta aspectos evolutivos adaptativos e não adaptativos, adquirindo maior funcionalidade mecânica com menor estrutura óssea. Se pusermos em causa factores evolutivos convergentes e paralelos, entre o primata e o Homem, vamos verificar que, em termos filogenéticos, a dieta introduziu grandes transformações morfológicas no crânio, e estas, por efeito, grandes modificações neurobiológicas, dado que o cérebro encontrou mais espaço e volume de expansão, seguido posteriormente de maior organização e complexificação.

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