Bioenergia no estado de São Paulo

Bioenergia no estado de São Paulo

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O principal indicador econômico da liderança brasileira em etanol refere-se a seus custos de produção, muito inferiores aos que existem em todos os demais países. Pode-se argumentar, contra essa liderança, que ela se baseia em custos não contabilizados – ambientais (as queimadas) e sociais (trabalho em condições pouco edificantes). A despeito dessas práticas remanescentes, que estão sendo eliminadas, é necessário reconhecer que a sustentação dos custos de produção baixos não depende da prática das queimadas (Lei estadual no 10.547/0, reformulada pela Lei no 1.241 em 202) ou do sobreesforço humano. Com a supressão das queimadas e a eliminação daquele sobreesforço (pela mecanização) ter-se-ia uma redução adicional dos custos de produção médios, além do aumento de receitas gerado pela energia produzida pela queima da palha em caldeiras.

Até meados da década de 1970, o álcool não tinha muita importância econômica no país e sua produção era considerada complementar à produção de açúcar, sendo, portanto, este produto o que impulsionava a expansão canavieira, principalmente para o atendimento da demanda externa.

Após o primeiro choque do petróleo e o problema no mercado internacional de açúcar decorrente de superprodução, em 1975 foi introduzido o Próalcool. A crise subseqüente do petróleo, associada à localização do parque industrial automotivo brasileiro no Estado de São Paulo, deu impulso à produção paulista de etanol e incentivou a modernização e consolidação do setor.

Até o final dos anos 80, os veículos movidos exclusivamente a álcool hidratado representavam 85% dos veículos novos na frota nacional. No entanto nessa época, problemas de logística no abastecimento, redução dos preços do petróleo e recuperação dos preços do açúcar no mercado internacional torna-

2. Cerca de 3,2 milhões de hectares adicionais são usados para produção de açúcar.

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26Bioenergia no Estado de São Paulo ram o etanol pouco competitivo, o que levou à estagnação do Próalcool. Nos anos 1990 ocorreu, ainda, a desregulamentação estatal dos mercados de açúcar e álcool no país, o que aumentou a incerteza sobre o uso do etanol como combustível.

A retomada da importância do etanol na matriz brasileira de combustíveis teve início a partir de 2003 com o lançamento dos veículos flexfuel3, em meio à nova alta do preço do petróleo e ao interesse dos países desenvolvidos em soluções que minimizem o impacto poluidor dos veículos automotores na atmosfera. A ampliação das unidades industriais e construção de novas usinas resultam, especialmente, de decisões da iniciativa privada, a partir da atual visão mundial sobre a importância do combustível verde na matriz energética. Esse impulso na produção de etanol, no entanto, não permite que a análise da oferta desse produto seja desvinculada do mercado de açúcar, visto que ainda prevalece o modelo de usinas de açúcar com destilarias anexas.

A produção de cana-de-açúcar tem crescido sistematicamente no Brasil, alcançando uma produção de 556,8 milhões de toneladas no ano-safra de 2007/08 em 343 usinas (IBGE e Conab, 2008)4 e com uma produtividade de 7.200 kg de cana-de-açúcar por hectare, na área plantada de 7,2 milhões de hectares, sendo aproximadamente 45% destinada para açúcar e 5% para álcool, segundo dados da União da Indústria de Cana-de-Açúcar5.

Se a cana-de-açúcar fosse totalmente destinada à produção de etanol, a produtividade média seria de 6.540 litros por hectare. No período de 2000/01 a 2006/07 a produção de cana cresceu à taxa média de 8,4% ao ano. A análise por região produtora mostra que nesse período houve um aumento de 5,4% na Região Norte-Nordeste, 80,0% na Região Centro-Sul, enquanto que no Estado de São Paulo o acréscimo foi de 78,3%.

A figura 5 apresenta a evolução da produção de cana para indústria neste Estado, onde 4,8 milhões de hectares foram ocupados com cana em 2007, dos quais cerca de 1,4 milhão correspondem a cana produzida por fornecedores.

3. Flex fuel – veículo flexível que opera com gasolina C (gasolina com 20-25% de etanol anidro), álcool etílico hidratado ou qualquer mistura desses combustíveis. 4. Realizado em novembro de 2007, o segundo prognóstico das áreas plantadas contempla as Regiões Sudeste, Sul e Centro-Oeste e os Estados de Rondônia, Maranhão, Piauí e Bahia. As informações da pesquisa do prognóstico representam 85,6% da produção nacional prevista. Disponível em http://www.ibge.gov.br/home/ presidencia/noticias/noticia_visualiza.php?id_noticia=1050&id_pagina=1. Acesso em 19/1/2008. 5. http://www.unica.com.br

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Na safra 2007/2008 foram produzidos 31 milhões de toneladas de açúcar e 2 milhões de m3 de etanol no país (figura 6). O Brasil é o maior produtor mundial de cana e de açúcar, o segundo de etanol e também o maior exportador de açúcar e etanol. Cerca de 40% da produção de açúcar e 85% da de etanol são destinados atualmente ao mercado interno. Em 2008, o volume total de etanol utilizado como combustível da frota de veículos leves no país ultrapassou o volume de gasolina.

Figura 5. Evolução da produção de cana no Estado de São Paulo

Fonte: Canaplan Figura 6. Produção de álcool no Brasil

Fonte: Elaborados pelos autores a partir de dados da Unica (2007) o de ca na (t) M i l h õ e s

P r o d u ç ã o

Ano safra m³ /a

10 milhões d

Ano Safra-

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Como já foi mencionado, o etanol de cana é um produto estratégico para o Estado de São Paulo. Em 2007, foram produzidos quase 12 bilhões de litros desse combustível (figura 7), cerca de 62% do total nacional e 26% do total mundial6. Os produtos da cana-de-açúcar – etanol e bagaço – são responsáveis por mais de um quarto da energia primária total no Estado.

O Estado de São Paulo respondeu por 69% da cana moída na safra 07/08, na Região Centro/Sul. Mesmo com o crescimento dos outros Estados, SP deverá responder por 67% a 68% da safra 08/09, em curso no Centro/Sul. Em termos dos produtos obtidos, São Paulo respondeu por 73% do açúcar produzido na região; a produção de etanol paulista correspondeu a 6% do total do Centro/ Sul, sendo diferente a proporção entre os tipos: o anidro respondeu por 69% do obtido na região, e o hidratado por 63%. Da área total ocupada com cana, 3,9 milhões de hectares foram colhidos para a produção de açúcar e álcool.

Na verdade, justificam-se as preocupações com a expansão da cultura da cana-de-açúcar no Estado. O aumento da área cultivada foi de 7% ao ano em média nos últimos seis anos.

6. UNICA (http://w.portalunica.com.br/portalunica/?Secao=referência) e US RFA (http://w.ethanolrfa. org/industry/statistics/#E)

Fonte: Elaborado pelos autores a partir de dados da UNICA (2008)

Figura 7. Evolução da oferta de álcool em São Paulo es de

4 6milhõ

Ano - safra

Etanol Anidro Etanol Hidratado

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Panorama Geral da Bioenergia29 Figura 8a. Cana plantada no país

Figura 8b. Localização das usinas na Região Centro-Sul Fonte: IBGE/Sidra (2005)

Fonte: TR 2 29170003 miolo.indd 2910/29/08 6:02:37 PM

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A figura 8a ilustra a área da cana plantada no território nacional. A figura 8b ilustra a expansão de cana na Região Centro-Sul, em particular a localização das usinas.

A expansão da cana-de-açúcar no Estado de São Paulo tem-se dado, em maior proporção, sobre as áreas de pastagem. São Paulo tem cerca de 8,5 milhões de hectares de pastagem plantada e 1,5 milhão de hectares de pastagem nativa. O rebanho paulista, de acordo com o IBGE (2005), era de 13 milhões de cabeças, o que corresponde a uma lotação média de 1,3 cabeça por hectare, que é um índice baixo, apesar de maior que a média brasileira (menor que 1 cabeça por hectare).

Do ponto de vista da agroenergia é possível notar que o sistema paulista é bastante interessante. De um lado, o Estado é o maior produtor de etanol de cana-de-açúcar do Brasil. Ou seja, a maior parte da agroenergia gerada em SP é oriunda de cana, e não de grãos como ocorre nos Estados Unidos. Além disso, há um potencial a ser explorado na produção de biodiesel que se origina no plantio de soja na rotação de cana-de-açúcar. É interessante notar que a expansão da área de cana oferece a oportunidade de aumento da área de grãos, quando considerado este processo de rotação.

Observa-se que o padrão climático de boa parte do Estado, em especial no novo pólo de expansão do setor sucroalcooleiro que é a Alta Paulista, é marcado por forte presença de veranicos, o que eleva sobremaneira o risco da produção de lavouras anuais e é responsável pela boa competitividade da cana. Por essa razão, o plantio dessas lavouras nunca apresentou grande densidade geográfica, como ocorre no Paraná e Mato Grosso.

O avanço da cana permite mudar esse cenário por carregar consigo o capital necessário para a recuperação das economias de municípios, os quais perderam o dinamismo econômico, e por reduzir o risco climático de plantar grãos em área dedicada exclusivamente a esses cereais ou plantá-los em área de reforma de cana-de-açúcar.

Por outro lado, a fabricação de equipamentos para a indústria sucroalcooleira reúne uma centena de empresas, tanto na parte industrial quanto na agrícola. Mas, se uma característica deve ser ressaltada nesse universo empresarial é precisamente a sua heterogeneidade.

A indústria está estruturada em torno de dois pólos principais: Piracicaba e Sertãozinho, mas existem fábricas e empresas em outras cidades. A expansão da atividade para o oeste de São Paulo, e em direção a Minas Gerais e ao Centro-Oeste, deverá contribuir para o nascimento de novas empresas nessas regiões, bem como para a criação de novas unidades das empresas existentes.

A crise do setor industrial produziu oscilações no nível de emprego, inclusive no corpo técnico das principais empresas (Dedini, Zanini, Renk-Zanini,

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DZ e outras), e ensejou inúmeras tentativas de estabelecimento de novos empreendimentos para o setor ou para atividades complementares. Foi assim que surgiram empresas como, num caso muito bem-sucedido, a TGM, fabricante de turbinas a vapor. Como resultado das características do próprio setor, sujeito a oscilações pronunciadas, e das próprias atividades de fabricação de equipamentos, cujos produtos podem ser destinados a outros segmentos industriais (mesmo que com projetos específicos ou adaptações), muitas dessas empresas são, desde a sua origem, diversificadas com relação aos mercados de destino dos seus produtos. Por isso, a consolidação dos resultados econômicos do setor de fabricação de equipamentos para o setor sucroalcooleiro é impraticável.

Tal como outros equipamentos para essa cadeia industrial, também as colheitadeiras são produzidas principalmente nos pólos tradicionais dessa indústria. A fabricação das colheitadeiras está situada em unidades localizadas em Piracicaba (Case) e Ribeirão Preto (Santal), além de Catalão, em Goiás (John Deere).

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