Livro - Profae - Saude Mental - Ministerio da Saude

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Também neste modelo surge, pela primeira vez, a descrição da histeria, que curiosamente era atribuída ao deslocamento do útero (histero), por falta de atividades sexuais.

Pode parecer engraçado, mas acreditava-se que movendo-se pelo corpo, o útero poderia atingir o cérebro, causando dispnéia, palpitação e até desmaios. Recomendava-se então, como terapêutica, o casamento para viúvas e moças, além de banhos vaginais com ervas para atrair o útero de volta ao seu local de origem.

Voltemos agora às imagens dos filmes aos quais já assistimos.

Qualquer filme que trate da vida de Jesus apresenta soldados armados com escudos e lanças e que são os responsáveis pela crucificação. Estes soldados pertenciam ao Império Romano. Pois bem! No Império Romano, o tratamento dos transtornos mentais adquiriu novas idéias, que defendiam uma maior relação individual entre o médico e o portador de transtornos mentais, e se diferenciava as alucinações das ilusões, recomendando-se que o tratamento da primeira doença fosse realizado em salas iluminadas, devido ao medo que o portador de alucinações tinha da escuridão.

Ao contrário da concepção grega, que atribuía à migração do útero a causa da histeria, Galeno, em Roma, afirmava que a retenção do líquido feminino pela abstinência sexual causava envenenamento do sangue, originando as convulsões. Assim, a histeria não tinha uma causa sexual-mecânica, como afirmava o paradigma grego, mas uma causa sexual-bioquímica.

Entretanto, para o eminente médico romano, não apenas a retenção do líquido feminino era a causa dos distúrbios psíquicos. Para o alívio das mulheres da época, e das de hoje, o homem também tinha as suas alterações mentais oriundas da retenção do esperma. Desta forma, as relações sexuais e a masturbação, para Galeno, serviriam de alívio para as tensões.

O tratamento era um conjunto de métodos que variavam de rituais mágicos, exorcismo e até supliciação (tortura) dos doentes, empregados por homens a quem se atribuía a capacidade de manter um inter-relacionamento com o sobrenatural, criando explicações dentro de suas respectivas crenças. Ainda hoje, esses tratamentos são utilizados por algumas pessoas ou grupos no Brasil. Você já ouviu falar, viu ou vivenciou algum caso desse?

Ainda hoje não é raro, quando uma mulher mostra-se irritada ou mal humorada, dizerem que “é falta de casamento”. Isto acontece na sua cidade?

Ambígua – É toda situação em que se apresenta duas faces ou versões, neste caso como enviado de Deus ou do demônio.

Causas somáticas – É todo distúrbio cuja origem é orgânica.

Humores - Substância orgânica líquida ou semilíquida, como por exemplo: bile, sangue, esperma.

Deixando de lado a questão das flutuações dos líquidos seminais, a verdade é que foi graças aos romanos que, pela primeira vez, surgiu uma concepção diferente com relação aos doentes mentais. Foram criadas leis em que se detalhava as várias condições, tais como insanidade e embriaguez, que, se presentes no ato do crime, poderiam diminuir o grau de responsabilidade do criminoso. Outras definiam a capacidade do doente mental para contratar casamento, divorciar-se, dispor de seus bens, fazer testamento e até testemunhar.

Com o fim do Império Romano, em 476 d.C., iniciou-se um período que a História denominou de Idade Média. Foi também o período em que o cristianismo expandiu-se. Muitos chamam a Idade Média de “Idade das Trevas”, mas não é pela falta de energia elétrica, que ainda não havia sido descoberta, e sim devido ao fato de todo pensamento cultural estar ligado às idéias religiosas. Isso fez com que todas as descobertas no campo científico e nos outros campos do conhecimento humano progredissem muito lentamente.

Neste período, o conceito de doença mental que surgiu foi a de uma doutrina dos temperamentos, isto é, do estado de humor do paciente. “Melancolia” era o termo utilizado com freqüência para descrever todos os tipos de enfermidades mentais.

Mas afinal, o que eles chamavam de melancolia?

Constantino Africano, fundador da Escola de Salermo, descreveu os sintomas de melancolia como sendo a tristeza - devido à perda do objeto amado -, o medo - do desconhecido -, o alheamento - fitar o vazio - e a culpa e temor intenso nos indivíduos religiosos. São Tomás de Aquino descreveu a mania - fúria patológica -, a psicose orgânica - perda de memória - e a epilepsia, além de comentar também sobre a melancolia. Mas Aquino acreditava que a causa e o tratamento da doença mental dependiam fortemente da influência dos astros sobre a psique e do poder maléfico dos demônios.

Apesar de todas essas concepções científicas, seguindo o pensamento religioso da época, a possessão da mente de uma pessoa por um espírito maligno, e suas alterações verbais e de comportamento, retornou como a principal causa dos distúrbios mentais, como havia sido em épocas anteriores.

Desta forma, muitos dos portadores de alienações mentais encontraram a “cura” para seus males nas fogueiras e nos patíbulos de suplícios. Aos doentes mentais que escapavam a essa “terapêutica” imposta pelas idéias religiosas da época, o abandono à própria sorte foi o que restou. Assim, os poucos esforços como os empreendidos durante o governo do imperador romano Justiniano, para que os portadores de transtornos mentais tivessem direito a tratamento juntamente com outros enfermos em instituições próprias, foi abandonado.

Durante todo o período da Idade Média, as epidemias como a “peste negra” aliadas à “lepra” causavam grande medo na população. Quando

Ainda hoje é comum dizer que alguém é “de lua” quando queremos nos referir a uma pessoa que muda constantemente de humor. Por mais estranhas que essas teorias possam parecer, ainda na atualidade ouvimos falar que o esperma acumulado sobe ao cérebro, transformando-se em algo semelhante ao queijo, ou que a menstruação pode “subir à cabeça”, ocasionado alterações de comportamento.

Psique – Palavra de origem grega que, neste contexto, significa “mente”.

Patíbulos de suplícios – É a denominação figurada dos locais em que se realizam manobras de tortura e castigo, como surras, banhos gelados, sangrias e tantas outras.

Saúde Mental estes “flagelos” começaram a se dissipar, achava-se que uma nova ameaça pairava sobre a população: os “loucos”, criminosos e mendigos.

Se por um lado, realmente liberta de muitos preceitos religiosos a ciência pode caminhar um pouco mais livremente, para os portadores de enfermidades mentais novas nuvens tempestuosas se aproximavam.

Para uma sociedade que iniciava um processo de produção capitalista, a existência de indivíduos portadores de transtornos mentais, ou de alguma forma “inúteis” à nova ordem econômica (tais como os “loucos”, os criminosos e os mendigos), andando livres de cidade em cidade tornava-se uma ameaça.

Os antigos “depósitos de leprosos”, cuja ameaça já não se fazia tão presente, abriram suas portas para a recepção destes novos “inquilinos”. Sem preocupar-se em resolver esses problemas sociais, a nova ordem político-social decidiu pelo isolamento destes seres considerados “improdutivos”.

Excluídos do mundo, os enfermos mentais foram trancafiados nos porões das prisões juntamente com todos aqueles que por algum motivo não participavam da nova ordem mundial. A semente dos manicômios havia sido plantada.

Ainda que vozes se levantassem clamando por um tratamento mais digno aos alienados, e por conseguinte se fizesse uma seleção mais nítida das “anomalias mentais”, a idéia de que “os loucos” eram perigosos e inúteis permaneceu na sociedade até os fins do século XVIII. A internação destes tornou-se caso de polícia, e a sociedade não se preocupava com as causas, manifestando insensibilidade ao seu caráter patológico. É verdade que em determinados hospitais os doentes portadores de distúrbios mentais tinham lugar reservado, o que lhes dava uma imagem de tratamento médico, sendo uma exceção; a maioria residia em casas de internamento, levando uma vida de prisioneiro.

Em 1789 (século XVIII), novos ventos sopraram na Europa

Ocidental. A ordem absolutista, onde o Rei mandava sozinho à revelia dos anseios do povo, entrou em falência, e idéias mais liberais e libertadoras passaram a ser discurso constante, principalmente na França, onde a revolução vitoriosa levou grande parte daqueles que não se importavam com os problemas das cabeças alheias a perderem as suas.

É neste clima de luta pelos direitos de cidadania e da valorização do “homem” que um jovem médico, chamado Phillipe Pinel, libertará dos porões destes hospitais aqueles cuja alienação mental, e principalmente a ignorância social, haviam condenado ao isolamento.

Descendo aos subterrâneos da incompreensão humana, representados por esses porões, Pinel encontrou acorrentados às paredes fétidas e sombrias seres “humanos”, que ali jaziam há quase meio

O período que se seguiu à Idade Média foi batizado de “Renascimento”, pois toda manifestação cultural, impedida de se desenvolver pela concepção das idéias religiosas da Idade Média, “renascia” neste “Século das Luzes”.

A situação em que profissionais buscavam outra forma de atendimento ao “louco” é retratada em vários filmes. Um deles é “O outro lado da nobreza”.

Phillipe Pinel, médico francês, foi responsável pela direção do hospital de Bicêtre, e posteriormente também do de Salpêtrière. Sua influência, atuação e grau de envolvimento com a Saúde Mental foi tão significativa que até hoje, vulgarmente se usa o termo “pinel” para denominar qualquer indivíduo que aparente um transtorno mental.

século, condenados pelo “crime” de serem portadores de transtornos mentais.

Com uma proposta de tratamento humanitário para os doentes, aliados à prática de docência, Pinel desenvolveu uma corrente de pensamento de médicos especialistas em doenças mentais, aprimorando as descrições detalhadas dos transtornos mentais através de longas observações.

A escola francesa, inaugurada com Pinel, trouxe muitas inovações neste campo, como por exemplo, a influência de tóxicos nas alterações do comportamento, a conceituação de esquizofrenia e a divisão dos portadores de doenças mentais em duas classes: os degenerados, que apresentariam estigmas morais e físicos, sendo propensos a apresentar acessos delirantes; e os não-degenerados, que eram indivíduos normais, porém predispostos ao transtorno mental.

Esta “Escola” desenvolveu o conceito de inconsciente, paralelamente à aplicação da hipnose como método terapêutico. Nesse período, Jean Martin Charcot, que descreveu diversos sintomas histéricos, reconhecia que um trauma, em geral de natureza sexual, estava relacionado a idéias e sentimentos que se tornaram inconscientes. Como os sintomas da histeria podiam ser reproduzidos através da hipnose, sua cura também poderia advir desta prática.

Enquanto os alienistas franceses desenvolviam suas observações clínicas, na Alemanha uma nova corrente com relação aos transtornos mentais surgia: a psiquiatria. Essa corrente seguiu os caminhos da medicina, recebendo um reconhecimento internacional, e o estabelecimento de um sistema moderno de estudo dos transtornos mentais.

Nesta nova corrente de pensamento do campo dos transtornos mentais, estava um médico de origem austríaca chamado Sigmund Freud.

Formado em um ambiente científico fervoroso, Freud, um neurologista com um grande censo de rigor experimental, conservou a idéia da importância de um método científico para compreender o psiquismo e sua estreita relação com os processos físicos e fisiológicos.

Rompeu com a terapêutica da hipnose, quando influenciado por

Josef Breuer, outro médico austríaco. Ele havia curado uma paciente com sintomas histéricos usando um novo método: a catarse. Durante a hipnose, a paciente relatou um acontecimento do passado relegado a um segundo plano em sua mente/memória, como se o estivesse vivenciando no momento. O fez com violenta expressão de suas emoções (catarse), e depois experimentou alívio substancial dos seus sintomas.

Através dessas observações, Freud desenvolveu os conceitos de “inconsciente e repressão”, nos quais a emoção ligada às idéias reprimidas podia afetar o comportamento nos eventos do presente.

Embora a utilização de substâncias como terapêutica no campo das doenças mentais já ocorresse desde a Antigüidade, é a partir do século XIX que o uso de substâncias (Haldol R )que agem diretamente no

Esses médicos especialistas em doenças mentais eram conhecidos como alienistas, que tratavam as alienações mentais.

Você por certo já ouviu falar de Freud. Ele é considerado o Pai da Psicanálise.

Psiquismo – É tudo aquilo originado da compreensão da mente.

Saúde Mental

Psicocirurgia – Cirurgias mutiladoras do sistema nervoso central que separavam as fibras que unem uma parte do cérebro com a outra, com o objetivo de destruir ou estimular o tecido cerebral, reduzindo as perturbações de comportamento e/ou alterando o conteúdo do pensamento ou humor.

Toxicômanos – Termo anteriormente utilizado para denominar indivíduos viciados no uso de drogas que causam dependência.

Interdição civil – É quando o indivíduo perde os seus diretos civis através de ordem judicial a pedido de alguém, não podendo se casar, negociar seus bens ou administrar suas finanças, entre outras ações.

Curatela – É a indicação judicial de alguém (curador) para administrar e fiscalizar os bens de outro indivíduo.

sistema nervoso central passaram a ser amplamente difundidas, sendo várias delas sintetizadas na segunda metade do século.

Mas foi no final dos anos de 1930, que para os casos de transtornos mentais graves houve a introdução do tratamento de choque e da psicocirurgia, sendo esta última introduzida somente baseada nos resultados da experimentação animal, sem qualquer base teórica, anatômica ou fisiológica. Após expectativas ilusórias, estas práticas foram limitadas a condições clínicas específicas. Ao término da Segunda Guerra Mundial, iniciou-se a terapia medicamentosa, com bastante sucesso.

No Brasil, paralelamente a todo este processo, a política com relação ao tratamento dos transtornos mentais permaneceu sempre “atrelada” ao modelo europeu do século XIX, centrado no isolamento dos psicopatas ou indivíduos suspeitos, toxicômanos e intoxicados habituais em instituições fechadas, mesmo quando tal modelo tornou-se ultrapassado em muitos outros países.

Já em 1916, o Código Civil prescrevia a interdição civil e a conseguinte curatela aos “loucos” de todo os gêneros. Até recentemente, a Saúde Mental brasileira estava ligada à legislação de 1934, que legalizava o seqüestro de indivíduos e a subseqüente cassação de seus direitos civis, submetendo-os à curatela do Estado.

No fim da década de 1980, a partir das transformações sociais e políticas que vinham acontecendo no campo da psiquiatria, em países da Europa (Inglaterra, França e principalmente Itália) e nos Estados Unidos da América, inicia-se no Brasil o movimento da Reforma Psiquiátrica. Este movimento recebeu esta denominação por apresentar e desencadear mudanças que vão muito além da mera assistência em saúde mental. Estas vêm ocorrendo nas dimensões jurídicas, políticas, sócio-culturais e teóricas.

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