Livro - Profae - Saude Mental - Ministerio da Saude

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(Parte 5 de 8)

Mental pode e deve atuar como prevenção, e não só como tratamento nos surtos, vem fazendo com que a população busque assistência antes de apresentar sintomas de maior complexidade. Assim, a dona de casa que não tinha vontade de sair e que era considerada excelente, hoje se vê deprimida. O pai de família que chegava em casa exaltado e achava que era cansaço, hoje se acha nervoso. Observa-se, desta forma, uma mudança de padrões de normalidade.

5A veiculação de informações sobre transtornos mentais através dos meios de comunicação (jornais, revistas, televisão, rádio etc), vem fazendo com que as pessoas identifiquem-se com os sintomas e busquem ajuda por valorizarem o que sentem. Passam a perceber que não estão sozinhas e que muitas vezes podem até estar na “moda”.

Com todos estes fatores atuando na demanda de Saúde Mental, é possível perceber que a alteração que ela vem sofrendo não é apenas numérica. Embora em números venha alcançando índices consideráveis, a sua caracterização é surpreendentemente diferente da observada há alguns anos.

4.2 Quem é o paciente que procura o setor de saúde mental?

Você já esteve em contato com alguém que sofria de transtorno mental? Qual era sua aparência? Estava desorientado? Ele agrediu você?

Sua resposta provavelmente será positiva para a primeira pergunta. Com o atual índice de usuários do setor de Saúde Mental, é muito difícil encontrar alguém que ainda não tenha tido este tipo de contato, mesmo que não atue na área de saúde. No entanto, procure as respostas para as perguntas subseqüentes.

Saúde Mental

Havia algo de estranho em sua aparência? A aparência do indivíduo que procura este setor pode ser um sinal muito importante na detecção de determinados quadros mentais e o auxiliar de enfermagem deve saber percebê-los. Mas o que desejamos ressaltar neste momento é que a menos que o paciente estivesse em franco surto, dificilmente haveria nele algo que o classificasse como um paciente com transtorno mental.

É verdade que com as variações da “moda”, muitas vezes encontramos pessoas de aparência estranha, não somente no que se refere ao vestuário, mas também com auto-mutilações, como tatuagens ou piercings. No entanto, estas pessoas nem sempre freqüentam um setor de Saúde Mental, embora algumas vezes precisem de ajuda pela razão com que justificam tais procedimentos.

O nível de orientação de uma pessoa é variável com a situação que está experimentando. As atribulações do dia-a-dia e as preocupações podem nos deixar “desligados”, o que não quer dizer, necessariamente, que devamos nos inscrever num setor de Saúde Mental. O inverso também é verdadeiro. Nem todo o usuário deste setor encontra-se desorientado e suas colocações devem sempre ser ouvidas com atenção.

Em relação à agressão, embora este pareça ser o maior ponto de receio para os profissionais quando se trata de lidar com o paciente com transtorno mental, o índice de profissionais de saúde agredidos neste setor não é maior que em muitos outros setores. Isso se deve a dois fatores: violência não tem que estar necessariamente presente no transtorno mental, e nem todos os usuários do setor apresentam um transtorno mental de maior gravidade.

O grau de dificuldade em lidar com todas estas questões pode variar. No entanto, pessoas consideradas saudáveis conseguem perceber suas dificuldades e procurar ajuda. Estas constituem grande parte da demanda do setor de Saúde Mental, sem que sejam portadoras de transtornos mentais mais graves, como as psicoses.

Também fazem parte dessa demanda indivíduos que buscam laudos para conseguirem uma aposentadoria por invalidez ou mesmo um período de licença. A maioria destes não pretende ficar em casa, e sim conseguir um ganho monetário extra que permita satisfazer as necessidades básicas suas e de sua família.

O transtorno mental pode causar um profundo sofrimento ao portador, à sua família e amigos. Freqüentemente, ele abate o ânimo e leva à autodestruição, que se reflete, em parte, na elevada taxa de tentativas de suicídio entre esses pacientes.

Muitas vezes tais pacientes encontram-se abandonados pela família, que ou se afasta por medo de sofrer ou por não acreditar, de fato, que as alterações de comportamento que os indivíduos apresentam sejam derivadas de uma patologia, e sim de uma deficiência de caráter.

Lidar com nossas emoções é sempre algo muito difícil. Enfrentar os desafios e as mudanças que a vida nos oferece todos os dias, assim como lidar com traumas e transições importantes, como a perda de pessoas queridas, dificuldades conjugais, problemas escolares e profissionais ou a perspectiva de uma aposentadoria, por exemplo, pode não ser muito fácil.

Num setor de Saúde Mental você deve estar atento aos sinais e sintomas que os usuários apresentam e não aos diagnósticos que “carregam”. Por exemplo: tendemos a só considerar em risco de suicídio os pacientes com transtornos. No entanto, um indivíduo passando por períodos críticos, ou ainda usuário de drogas, pode apresentar riscos reais de autodestruição, mesmo que seu transtorno ainda não tenha sido identificado.

Para a família é difícil caracterizar um transtorno mental como patologia, pois esse nem sempre pode ser comprovado por exames laboratoriais.

O importante é lembrar que, num setor como este, você vai encontrar pessoas que buscam ajuda para seus transtornos. O fato de reconhecerem que precisam de ajuda para resolver suas questões emocionais pode ser a única linha que o diferencia dos pacientes dos demais setores.

4.3 Quem é o profissional que trabalha no setor de Saúde Mental?

Por sua vez, o profissional que recebe este tipo de clientela é muitas vezes encarado por seus colegas como corajoso, ou masoquista, quando não afirmam que também é “doente”. Comumente ouvimos este tipo de afirmação: “Trabalhou tanto tempo com malucos que ficou maluco também”. Esse tipo de preconceito abrange todos os níveis de escolaridade e não é raro escalar-se os profissionais “problemas” para este setor, como uma forma de castigo.

Quando uma mulher vai trabalhar no setor de Ginecologia, torna-se muito mais atenta aos possíveis problemas ginecológicos que venha a ter; quando o profissional insere-se no setor de Tuberculose, passa a prestar mais atenção em possíveis sintomas respiratórios que venha a apresentar; o funcionário do setor de DST/AIDS preocupa-se demasiadamente com seu emagrecimento. Por que seria diferente com a Saúde Mental?

O medo de vir a apresentar um transtorno mental passa muitas vezes pela mente deste indivíduo. Porém, o medo de buscar as respostas pode ser maior, pois a própria dúvida pode ser relacionada à patologia. O desconhecimento do transtorno mental associado à diversidade de fatores e sintomas pode gerar uma grande insegurança no profissional, provocando reações e posturas lamentáveis para com os pacientes e colegas. Como exemplo, certa vez, uma psicóloga foi mantida presa durante duas horas numa enfermaria com uma paciente agressiva por ter interferido quando os auxiliares de enfermagem se negavam a alimenta-la por ter se “comportado mal”.

O despreparo dificulta o funcionamento de todos os setores, mas o preconceito vem atrapalhando o preparo dos profissionais para o setor em questão. Afirmar que sente prazer em atuar na Saúde Mental pode muitas vezes custar ao profissional o rótulo de “maluco” e diminuir seu status e valor de representatividade diante do grupo.

O preconceito é o fruto da árvore da ignorância. É imprescindível a busca de conhecimentos por parte dos profissionais de saúde quanto aos fatores geradores do processo saúde-doença na área de Saúde Mental para que ele possa elaborar estratégias no lidar com este tipo de clientela contraditoriamente tão comum, mas tão especial.

Masoquista – No sentido real da palavra, é a pessoa que sofre de um tipo de perversão sexual em que procura alguém que o maltrate. No contexto aqui descrito, seria uma pessoa que gosta de sofrer.

Saúde Mental

4.4 Integração da equipe de saúde mental

Certa vez, num encontro para integrantes da equipe de Saúde

Mental, uma profissional contou um fato que trazia uma questão interessante, que era mais ou menos assim:

Sendo atuante em um Centro de Atenção Psicossocial

(CAPS), afirmava que sempre sentiu-se feliz com a maneira integrada com que sua equipe atuava. Era uma equipe composta por psiquiatras, psicólogos, assistentes sociais, terapeutas ocupacionais, um enfermeiro e uma auxiliar de enfermagem. Porém, na prática não havia qualquer linha hierárquica que demarcasse as profissões. O paciente que chegasse poderia ter seu prontuário preenchido por qualquer um dos profissionais, só dependendo de quem estivesse disponível no momento. Assim também as participações nas oficinas ou outras atividades terapêuticas eram obrigação de todos, pois todos, igualmente, eram capazes de estabelecer relações terapêuticas com o paciente.

Até mesmo na cozinha algumas psicólogas foram atuar para que a cozinheira tivesse férias. “Éramos uma família!” – dizia nossa narradora. Todos eram igualmente importantes e indispensáveis; embora suas profissões fossem diferentes, suas funções se confundiam num único objetivo: atender o usuário.

Foi então que apareceu Carlos. Ele era um paciente com dependência total que fora encaminhado àquela unidade por acharem que poderia beneficiar-se deste tipo de assistência. Na primeira vez que sujou as fraldas, surgiu a pergunta: quem vai trocar as fraldas de Carlos?

Uma pergunta que se repetiria inúmeras vezes. E nunca a função da auxiliar de enfermagem fora tão lembrada. Esta, por sua vez, argumentava que como fazia parte de uma equipe integrada, todos teriam que executar a troca de fraldas. Os outros se negavam, afirmando que sua função não era essa.

Carlos não continuou na unidade. Seu grau de dependência não era compatível com os recursos do local. No entanto, uma dúvida passou a dificultar a aparente integração da equipe, que até aquele momento se perguntava: quem vai trocar as fraldas de Carlos?

Quando se fala de uma integração de equipe de saúde, é natural que surjam as distorções e confusões que muitas vezes tendem a minar esse processo de trabalho. A equipe de saúde vem de uma história de relação de poder em que o médico está sempre no topo da escala. E o auxiliar de enfermagem na base.

Muitas vezes fazemos parte de uma equipe sem que estejamos integrados a ela. Assim, se você trabalha numa equipe onde cada um tem seu papel isolado, sem nenhuma relação entre si, onde cada um preocupa-se em realizar a sua tarefa independente da do outro, você faz parte desta equipe, mas não está, por certo, integrado a ela.

Integrar-se a uma equipe é antes de mais nada entregar-se ao que ela representa. Não é cumprir tarefas, mas realizar trabalhos. Numa equipe integrada, não existe o bom funcionário, só a boa equipe. É estar ciente de que o outro precisa de você e que você precisa do outro. É ainda romper as linhas divisórias que o separa do outro e o distância do objeto a ser atingido – no caso de uma equipe de assistência em saúde, quase sempre a recuperação do paciente.

As funções do auxiliar de enfermagem não são diferentes porque eles atuam numa equipe de Saúde Mental. Promover o conforto do paciente, atender suas necessidades básicas, prevenir agravos são questões sempre presentes em sua atuação, seja lá em que setor esteja. No entanto, ele deve ter consciência de que, muitas vezes, pode estar percebendo detalhes relativos ao paciente que os outros membros da equipe, mesmo tendo uma formação mais aprofundada, podem não ter captado. Sensibilidade não se aprende na escola, faz parte das vivências de cada um.

Assim, são indispensáveis as observações do auxiliar de enfermagem, como a de qualquer outro profissional.

Posso citar, como exemplo, o caso de uma paciente que havia sido internada em um hospital psiquiátrico com um diagnóstico de esquizofrenia. O interessante, no entanto, tinha sido a forma como ela surgira. Ao término de uma festa de integração entre família, paciente e equipe de saúde, depois de todos terem ido embora, ficando apenas os internos, lá estava ela! Comodamente sentada, assistindo televisão. Ao indagar-se quem era e onde morava, respondeu apenas: Quem eu sou não sei, mas moro aqui!

E morou mesmo! Por três meses, Norma, como mais tarde se identificou, morou no hospital e por mais que se tentasse descobrir sua origem ou família, nada havia sido obtido. Até que um dia, enquanto a auxiliar de enfermagem lia para ela um gibi do Mickey, (atividade prazerosa para ambas) ela, identificando-se com o personagem que dava o endereço para a namorada Minnie,

Saúde Mental também começou a fornecer o seu endereço. O momento era aquele! Uma pequena cortina se abriu! Não havia tempo de se chamar uma psicóloga, assistente social ou enfermeira. Mais que depressa, a profissional, valorizando a informação, tratou de anotá-la em prontuário e de notificar a equipe.

Duas semanas depois, a equipe presenciava, emocionada, o reencontro de Norma (este não era o seu nome) com sua família, que a procurava há dois anos. Hoje ela encontra-se reintegrada a uma sociedade, porque uma profissional não se deteve em realizar tarefas limitadas, foi além.

Integrar-se à equipe, modificando esse papel tão comum de “cumpridor de tarefas”, é necessário; e, em Saúde Mental, poderia se dizer que é essencial. Conscientizar-se de seu grau de importância numa equipe, não como cumpridor de tarefas, mas como membro atuante e indispensável na recuperação do paciente e prevenção de surtos ou desenvolvimento de transtornos, é, para o auxiliar de enfermagem, a maneira de humanizar-se.

Retornando à questão das fraldas de Carlos, qualquer membro da equipe poderia e deveria trocá-la, se a necessidade surgisse enquanto ele estivesse com o paciente. Porém o auxiliar de enfermagem não pode esquecer-se que esta atividade faz parte de seu preparo e não da de outro profissional. Uma dobra na roupa de cama é capaz de produzir bem mais que desconforto num paciente acamado, não é?

Mesmo que entenda isso, os demais profissionais podem não ter a destreza e habilidade desenvolvida pelo auxiliar de enfermagem em seu curso. Neste caso a especificidade era outra.

Assim, todos podem participar das oficinas, porém o terapeuta ou psicólogo não podem estar alheios ou distantes a isso, para que o processo não seja prejudicado. Todos poderiam trocar as “fraldas de Carlos”, mais o auxiliar de enfermagem deve estar sempre atento quanto à maneira como este cuidado vem sendo realizado. Não se trata apenas de trocar fraldas, mas de prevenir desconforto, transtornos e agravos ao paciente.

5 - PROCESSO SAÚDE - TRANSTORNO MENTAL

5.1 Fatores de influência

Você já enfileirou peças de dominó uma após a outra? Ou quem sabe já tentou fazer um castelinho de blocos de madeira? O que acontece se derrubarmos a primeira peça da fila, ou se puxarmos uma das peças que formam a base do castelo? As outras caem em seguida, não é verdade? E, ao vermos todas as peças derrubadas, muitas vezes não somos capazes de identificar qual foi a causadora do desastre, até porque uma foi causando a queda da outra.

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