Livro - Profae - Saude Mental - Ministerio da Saude

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(Parte 7 de 8)

Ao nascer, o bebê não tem ainda consciência de si mesmo e do mundo à sua volta. Não consegue diferenciar suas sensações internas do mundo externo. Apenas consegue perceber sensações boas (prazerosas) e más (desprazerosas). A fralda molhada dá desprazer e ele chora. O colo da mamãe dá prazer (possivelmente lembra o conhecido aconchego do útero e dá segurança) e ele dorme.

Nessa seqüência, entre chorar e ser confortado, se dá um dos alicerces fundamentais para o restante da vida do bebê (e dificilmente a mãe se dá conta do papel fundamental desses momentos), pois, aos poucos, a criança vai construindo a noção de confiança, que é o ponto de partida para sentimentos como segurança, otimismo e fé na vida adulta. Além disso a formação do vínculo afetivo com a mãe ou pessoa substituta faz com que o bebê ganhe condições para amadurecer e voltar-se para conhecer e experimentar o mundo.

Imagine-se chegando sozinho a um país estranho, onde você não conhece a língua, os costumes, nada (que sufoco, não?). Agora imagine que nesse lugar esteja te esperando alguém que fala a sua língua (que alívio!) e que pode te ensinar tudo quanto você precisa para se adaptar melhor. A mãe e o pai, ou pessoas substitutas, atuam mais ou menos como “guias turísticos” do mundo para o bebê que chega. A grande diferença é que o bebê é um “turista” até mesmo em seu próprio corpo, precisando de alguém para ajudá-lo a se conhecer.

Acontece que quando o bebê não tem suas necessidades atendidas, ele não tem ainda a capacidade de suportar a sensação ruim para aguardar a boa. O bebê não diz para si mesmo: “Ah! Agora estou com fome, mas mamãe não pode me dar de mamar porque está tomando banho. Tudo bem! Quando ela sair do banheiro, eu choro de novo.” Não! Para o bebê recém-nascido, a fome é um desprazer tão intenso que, se não atendida, adquire tons de ameaça de destruição (mais ou menos como nos sentiríamos diante do fim do mundo). Nesses momentos o bebê experimenta profunda sensação de desamparo.

A repetição constante de tais exposições à frustração, por períodos mais prolongados, pode levar o indivíduo, no futuro, a desenvolver uma série de transtornos mentais. Alguns autores identificam aí as raízes emocionais das psicoses e da famosa síndrome do pânico.

À medida que vai estabelecendo trocas positivas com as pessoas que cuidam dele, o bebê vai criando uma diferenciação entre ele e o restante do mundo (que, nesse momento, ainda são as pessoas mais próximas) e vai adquirindo uma certa tolerância à frustração e maior capacidade de espera, pois já consegue “antecipar” (fazendo uso da memória) a satisfação de suas necessidades.

Com a continuidade de seu crescimento e desenvolvimento, a criança vai adquirindo noções de julgamento de si e dos outros, isto é, vai internalizando as regras e proibições de seu ambiente e passando a captar a impressão que ela própria provoca no ambiente.

As experiências posteriores da criança podem aumentar ou diminuir os efeitos das primeiras experiências do bebê.

Saúde Mental

Assim, entramos em contato com o ambiente social mais amplo pelas portas que abrimos nas relações com nossa família nuclear ou com outras figuras de sobrevivência de nossas vidas.

5.2 O que são os tais de id, ego e superego?

Sigmund Freud identificou cada uma das formas de funcionamento da estrutura psíquica com nomes que nos parecem estranhos, pois têm sua origem na língua alemã.

Ao modo de funcionamento mais primitivo, aquele do bebê recém-nascido, onde predominam os impulsos e sensações corporais de forma mais desorganizada, Freud chamou de id. Id seria o ponto de partida de todo ser humano, a fonte básica de energia de nosso ser, que será organizada a partir de nosso contato com o ambiente.

O aparecimento da consciência eu/outro, da capacidade de espera, mostra o surgimento do ego (de acordo com as idéias de Freud). Ego é a parte de nós que lida com a realidade e negocia com ela as satisfações das necessidades geradas no id. Por exemplo, quando sentimos fome estamos detectando o surgimento de uma necessidade. Sabemos que para satisfazermos esta necessidade precisamos comer algo porque lembramos de outras vezes em que isto aconteceu (memória já é uma atuação do ego). Podemos decidir se vamos para a cozinha, a uma lanchonete ou a um restaurante de luxo através da avaliação de quanto dinheiro temos para gastar com esta refeição (estamos buscando, na realidade, meios adequados para a satisfação de nossa necessidade).

O ego tem três tarefas básicas: a nossa auto-preservação, nosso auto-controle (não é porque sentimos atração sexual por alguém que vamos “atacar” tal pessoa) e nossa adaptação ao meio ambiente.

Quando o indivíduo sofre de transtornos mentais, as funções adaptativas do ego geralmente são afetadas, especialmente nos transtornos psicóticos que se caracterizam por um vínculo precário com a realidade externa.

À capacidade de julgamento moral (noção de certo e errado) que passamos a adquirir com o passar da infância, Freud chamou superego. Esta seria a parte de nós mesmos que se liga aos códigos morais de nosso ambiente e de nossa espécie. Ter essa noção de certo e errado

Id não pode ser comparado ao “diabinho” que nos leva a fazer coisas erradas. Por si só não é bom nem mau, é apenas nossa fonte de necessidades.

muitas vezes não chega a nos impedir de realizar determinadas ações, mas nos sinaliza que fizemos algo inadequado.

Estas três instâncias de nossa mente vivem, assim como o nosso corpo, em busca de um nível de equilíbrio que nos permita ter o máximo possível de experiências boas e o mínimo de experiências ruins. Mas nem sempre isso é fácil. Muitas vezes nos encontramos dentro de situações das quais não gostaríamos de participar, mas não vemos outra saída. Outras vezes, ainda, nos percebemos querendo e não querendo alguma coisa ao mesmo tempo. Nessas situações se estabelecem conflitos dentro de nós.

Os conflitos podem ser extremamente desgastantes do ponto de vista emocional. Sempre em busca do equilíbrio, lançamos mão de “estratégias” que nos tirem pelo menos temporariamente daquela situação. A essas “respostas de proteção”, que são, em geral, inconscientes e automáticas, chamamos mecanismos de defesa.

Os mecanismos de defesa não são, por eles mesmos, patológicos nem saudáveis. É o uso que fazemos deles e o grau de rigidez que estabelecemos internamente para seu uso que faz com que sejam mais ou menos favoráveis ao nosso ajustamento. Por exemplo, sair para caminhar pode ser uma excelente solução quando estamos prestes a “explodir” com alguém em determinada situação, mas se só soubermos fazer isso para lidar com nossos conflitos, em breve estaremos em apuros.

5.3 Mesclando os três tipos de fatores

A partir de agora veremos alguns conceitos muito usados em Psiquiatria, sendo muitas vezes apontados como constitutivos ou provocadores do transtorno mental, nos quais percebemos que há uma mescla dos fatores físicos, ambientais e emocionais.

5.3.1 Ansiedade é doença?

Em nosso contato com a realidade, é comum desenvolvermos sentimentos de felicidade e gratificação diante de sucessos e sentimentos de decepção e sofrimento diante de nossos insucessos. Diante de nossos sofrimentos passamos a detectar como “perigo” tudo aquilo que ameace nossa segurança e tranqüilidade, seja real ou imaginário. Costumamos também desenvolver uma série de reações diante das situações que julgamos ameaçadoras, reações às quais chamamos ansiedade.

Geralmente o que chamamos de “doer a consciência” tem a ver com a atuação do superego.

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A ansiedade apresenta reações emocionais e fisiológicas. As reações emocionais são ligadas ao medo e se apresentam como desconforto, intranqüilidade, apreensão. As reações fisiológicas são ligadas à tensão e aparecem como sudorese, taquicardia, opressão no tórax ou epigastro, dores musculares, cefaléia, boca seca, queimação no estômago, ou ainda diarréia, náuseas, vômito, tonturas, turvação na vista.

Ansiedade está intimamente ligada às situações de mudança, uma vez que teremos de sair do ritmo com o qual estamos acostumados, o que mexe com nossa segurança. Por isso, todos nós experimentamos ansiedade em vários momentos de nossas vidas. Ansiedade é uma emoção normal, como a tristeza ou a alegria, e até um certo ponto desejável, visto que pode estimular a inteligência e a criatividade, além de nos impulsionar para mudanças necessárias.

Podemos dizer que a ansiedade torna-se um transtorno quando mantém seu grau elevado por um período mais prolongado do que, por exemplo, alguma situação de crise que estejamos passando, e/ou quando se torna incapacitante, dificultando ou impossibilitando nossas atividades cotidianas.

5.3.2 Por falar em crise...

Crise é uma palavra das mais usadas atualmente. O país está em crise, a saúde está em crise, o local onde trabalhamos geralmente está passando por uma crise, o paciente “teve uma crise”, nós estamos em crise.

Mas o que quer dizer crise dentro da Saúde Mental?

Existem coisas que acontecem uma vez ou outra em nossas vidas, e que podem nos parecer agradáveis ou desagradáveis, tais como ter um filho, ficar doente, perder o emprego etc. Essas situações muitas vezes nos pegam de surpresa e exigem que a gente busque uma forma de se adaptar. Costumamos chamá-las de crise, um conceito muito importante para quem procura compreender a pessoa com transtorno mental.

O termo crise foi inicialmente empregado em Psiquiatria em 1963, por Caplan e Lindemann, para descrever as reações de uma pessoa a situações traumáticas, tais como uma guerra, desemprego, morte de alguém querido.

Eric Erikson usou o mesmo termo para descrever as diversas etapas normais do desenvolvimento de uma pessoa, momentos nos quais ela teria que passar por mudanças. Ele identificou essas crises que ocorrem na vida de todos nós desde o nascimento até a morte (passando pela infância, adolescência, idade adulta e velhice) como crises evolutivas. Ele também nomeou as crises imprevisíveis, anteriormente descritas, como crises acidentais.

Em geral, na ansiedade também podem ser observadas reações comportamentais como irritabilidade, dificuldades em conciliar o sono, dificuldades em ficar parado, roer unhas, alterações de apetite, aumento no uso de álcool, cigarros e outras drogas ansiolíticas.

E qual é a importância de saber esse conceitos para quem vai trabalhar com Saúde Mental?

Acontece que verificou-se que muitos pacientes com transtornos mentais haviam tido seus sintomas intensificados após atravessarem um período de crise. Outros tiveram seu primeiro episódio relativo ao transtorno mental em questão durante ou após o período de crise. E outros ainda sofreram alterações importantes de personalidade ao entrar em um período de crise, fosse ela evolutiva ou acidental.

Isso quer dizer que devemos estar atentos não só ao que já aconteceu ao paciente (história da doença atual), mas também ao que vem acontecendo, que possa estar gerando um nível maior de tensão. Muitas vezes o auxiliar de enfermagem é sentido como mais próximo pelo paciente do que os “doutores”, e este sente-se mais à vontade em contarlhe das dificuldades atuais que possam estar gerando alterações em seu quadro mental.

Outro ponto importante é procurarmos não “minimizar” a crise alheia, com palavras como: “Ah! É só um período de crise, isso logo passa.” Crise é crise e, para cada pessoa, tem um peso diferente. Se ficarmos usando os nossos parâmetros para medir o sofrimento do outro, perderemos o que há de mais importante no atendimento em Saúde Mental (e em geral): o contato com o paciente e a percepção real do transtorno em sua vida.

Só para encerrar a crise, ou melhor, o assunto, é interessante saber que, no vocabulário chinês, crise aparece como a fusão de duas palavras: perigo e oportunidade. Vale pensar sobre isto, pois se as crises nos trazem sofrimentos por vezes profundos, também nos trazem as melhores oportunidades de mudança e crescimento pessoal.

5.3.3 Ansiedadecrise... e estresse são a

mesma coisa?

Hoje em dia, todo mundo se diz estressado. Estresse virou sinônimo de irritação, cansaço, nervosismo, ansiedade, raiva e as mais diversas sensações e emoções.

Na verdade o estresse foi conceituado, em princípio, como um conjunto de reações fisiológicas, comandadas pelo sistema nervoso autônomo, possivelmente desenvolvidas em nossa longa história de adaptação ao mundo. Tais reações têm o objetivo de preparar nosso organismo para lutar ou fugir diante de uma situação de perigo, que, na época das cavernas, poderia ser, por exemplo, o ataque de algum animal.

Através dos tempos, o tipo de “perigos” aos quais podemos ser submetidos foram se modificando (e multiplicando), mas as reações

Saúde Mental fisiológicas permaneceram as mesmas. O estresse é uma resposta de adaptação do organismo ao meio.

sangramento, caso soframos algum ferimento), enfim, que nosso or-

É normal, por exemplo, que ao passarmos à noite por um lugar escuro e deserto e vendo dois sujeitos estranhos vindo em nossa direção, nosso coração dispare (para enviar mais sangue aos músculos), nossas mãos fiquem frias (pois maior aporte sangüíneo está nos grandes músculos), nossa pele fique pálida (assim evitamos maior ganismo, com sua “sabedoria” milenar, se prepare para uma emergência, na qual ele vai precisar reunir energias para lutar ou fugir.

No entanto, não é normal nem desejável que estejamos em constante estado de alerta, sempre prontos para respostas de emergência, pois o nosso organismo tem gastos excessivos de energia nesses momentos e precisa de um tempo para se recuperar.

O problema é que, hoje em dia, multiplicaram-se em milhões as situações sentidas como perigosas, causadoras de ansiedade e deflagradoras da resposta de estresse. O que antes era o medo de um animal feroz, hoje é o trânsito, o chefe difícil, a ameaça de desemprego, o resultado de algum exame importante, enfim tudo pode concorrer para nos manter em estado quase constante de estresse.

Tanto o estresse crônico quanto o agudo podem ser precipitadores de quadros de sofrimento mental, não só pelas inúmeras reações fisiológicas, como também pelas emocionais que provocam.

A crise pode ser entendida como um agente estressor, ou seja, que leva a respostas de estresse. Como já dito antes, precisamos estar atentos para os fatores de estresse na vida atual das pessoas a quem atendemos e também estar atentos para que não imponhamos a eles mais situações estressantes desnecessárias.

Um indivíduo chega a um centro de saúde ansioso por sua consulta com o psiquiatra, que havia sido marcada há algumas semanas. Após alguns minutos é informado pela auxiliar de enfermagem que havia um engano na marcação, pois aquele não era mais o dia do médico na instituição. O paciente, apresentando evidentes sinais de estresse, reafirma em voz alta a sua necessidade de atendimento, ao que a auxiliar de enfermagem responde, com certa irritação, que nada tem a fazer (ignorando os sinais apresentados). O paciente então perde o controle, começando a atirar objetos e virar móveis. Enquanto é chamado o reforço da segurança, outro profissional de enfermagem consegue conversar com Seu João e este, sentindo-se ouvido, informa que possui epilepsia, faz uso de anticonvulsivantes, os quais acabaram há duas semanas, expondo sua necessidade urgente de nova receita,

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