Guia de Estudo de Análise Real

Guia de Estudo de Análise Real

Guia de Estudo de Análise Real

Marco Cabral Agosto de 2008

Introdução

O objetivo deste texto é orientar o estudo da aluna(o) em análise real. Ele é baseado no livro Curso de Análise Real (2a edição) de Cassio Neri e Marco Cabral.

Começo colocando princípios gerais:

(a) o professor não ensina , é o aluno que aprende: é fundamental o envolvimento ativo do aluno com a disciplina. (b) espero dos alunos dedicação à matéria toda semana: procure montar um grupo de estudo (com um ou dois colegas) com horário determinado toda semana. (c) estudar análise significa: entender os enunciados e definições, compreender demonstrações de teoremas apresentados no livro e saber fazer os exercícios. Matemática não é literatura, é necessário fazer (e/ou tentar fazer) os exercícios.

Aprendemos a provar resultados, assim como aprendemos tantas coisas na vida, inicialmente, através de imitação. Depois aprendemos fazendo um mutatis mutandis nas demonstrações, i.e., repetindo, com pequenas modificações, provas já feitas para situações semelhantes. Um livro clássico sobre demonstrações que recomendo a leitura é A arte de resolver problemas de George Pólya (na UFRJ o código é 51.3 P781, tem na biblioteca central do CCRN 3 exemplares, na do CT 1 exemplares, no COPPEAD 1 exemplar e na do IM 1 exemplar).

Noções de Teoria dos Conjuntos (cap. 1)

Ideias importantes Conjunto das partes P(A), função injetiva, sobrejetiva e bijetiva. Veja com cuidado o que é função característica (ou indicadora) e restrição e extensão de função.

Dificuldades (a) diferença entre a função e a imagem direta da função. (b) diferença entre a função inversa e a imagem inversa da função. (c) para provar que dois conjuntos A e B são iguais: deve-se provar que A ⊂ B e B ⊂ A.

(d) entender o que é ⋃

(e) os exercícios de funções entre conjuntos de funções.

Números Naturais, Inteiros e Racionais (cap. 2)

Ideias importantes Prova por indução (todos tem que aprender a fazer isto). Definição de enumerável e saber provar que conjuntos são enumeráveis e não-enumeráveis. O que é cardinalidade?

Entender a dificuldade e a demonstração do teorema de Cantor-Bernstein-Schröder. As proposições Proposição 37, p. 20 (#N = #(N × N)) e Proposição 38, p. 20 (#N < #P(N)) são muito importantes pois mostram que a cardinalidade de conjuntos infinitos pode ser distinta. Veja exercício 10, p. 27.

Leia sobre a hipótese do contínuo na página 2.2. O Hotel de Hilbert mostra as dificuldades com infinito e a diferença radical entre R e N. Na Seção 2.4 sobre os Racionais é importante somente a enumerabilidade de Q. O resto apresenta a definição de corpo (no sentido de álgebra): conjunto munido de duas operações comutativa, distributiva, etc.. Com relação a isto (omita em primeira leitura) veja exercício 45, p. 32, que todo corpo possui um conjunto tipo Z contido no corpo.

Dificuldades (a) Cuidado com prova por indução: provar que algo é verdade para todo n ∈ N não é o mesmo que provar para n = ∞! Veja exercício 2, p. 26. (b) saber provar que os conjuntos são enumeráveis (basta estabelecer injeção, não precisa ser bijeção, com N). Deve-se saber provar porque: Z,Q,N × N,Z × Z,Q × Q são enumeráveis (entre outros).

Números Reais (cap. 3)

Ideias importantes A seção 3.1 discute as dificuldades com os irracionais. A seção 3.2 (cortes de Dedekind) pode ser omitida: trata-se de construir os reais com ideias geométricas simples. O difícil é definir as operações de soma e produto. Vamos simplesmente (neste momento) axiomatizar os reais. Mais adiante vamos construir os reais como classes de equivalência de sequências de Cauchy.

A seção 3.3 apresenta a definição muito importante de sup e inf e assume que R é um corpo ordenado completo (único pelo exercício 31, p. 52).

Na definição de intervalos, observe os que serão chamados de abertos e fechados. Leia a comparação de intervalos com portas (:-)). Termina com o teorema dos intervalos encaixantes: todos devem saber fazer esta demonstração. A prova da não-enumerabilidade de R dada pela Proposição 80, p. 48 é um exercício de abstração: vale a pena tentar entender o argumento (não é fácil).

Dificuldades (a) trabalhar com sup e inf em exercícios, que envolve entender bem a definição. (b) provar a irracionalidade de raízes não inteiras.

Sequências (cap. 4)

Ideias importantes Seção 4.1 define sequências e subsequências. Note que numa subsequência os índices escolhidos tem que crescer de forma estrita. Define-se convergência e prova-se a unicidade do limite (que você deve saber demonstrar!). Estude a relação entre a convergência da sequência e de uma subsequência: verifique se sabe, de fato, o que é uma subsequência. Estude porque 1,0,1,0,1,0 é divergente. Todos devem saber demonstrar que toda sequência convergente é limitada.

A seção 4.2 relaciona monotonicidade e convergência. Aprenda a provar que toda sequência monótona limitada é convergente. Teorema MUITO importante é o Bolzano-Weierstrass: todos devem conhecê-lo e saber demonstrá-lo como no exercício 26, p. 73.

O conceito de sequências de Cauchy é MUITO importante. Deve-se saber provar que uma sequência é convergente se, e somente se, é de Cauchy.

As seções 4.3 e 4.4 são burocráticas. A seção 4.3 adapta definições para limites infinitos e a seção 4.4 verifica que o limite se comporta bem com relação a soma, produto e divisão. O argumento do limite do produto fazendo uma triangulação deve ser entendido e estudado por todos. Este tipo de argumento se repetirá muitos vezes (somar e subtrair o mesmo termo e utilizar desigualdade triangular).

A seção 4.5 define limsup e liminf de três modos distintos: veja inicialmente somente o 4.5.1. O 4.5.2 e 4.5.3 são de leitura opcional. Nem toda sequência tem limite, mas toda sequência tem liminf e limsup. Eles delimitam o menor e maior valor possíveis para limites de subsequências. Se eles forem iguais, a sequência é convergente (para este valor comum).

Dificuldades (a) aprender a fazer as demonstrações que indiquei anteriormente; (b) utilizar a definição de limite corretamente.

Séries (cap. 4)

Ideias importantes A teoria de séries é baseada na teoria de sequências. Aprenda a demonstração dos três critérios: comparação, razão e raiz. Eles estão em ordem de facilidade para serem aplicados. A PG é a série mais importante pois é utilizada para comparar com outras e provar convergência e divergência. Note que o critério da raiz é mais forte que o critério da razão. No entanto, por ser mais simples, continuamos apresentando o da razão.

Observe que a técnica para demonstrar divergência da série harmônica é a mesma para de- monstrar convergência de ∑ 1/np com p > 1. Note que não adianta teste da razão (nem raiz) para decidir convergência ou divergência neste caso.

Para estudar convergência de séries cujos termos são razão de polinômios (o grau máximo dominará o numerador e o denominador) TEMOS que utilizar comparação, pois o critério da razão (e o da raiz) vai falhar sempre, conforme exercício 49, p. 78.

Além disso tenha em mente que logn < nq < n < np < expn < n! (p > 1 > q) para n grande (hierarquia dos infinitos) para estudar séries por comparação. Todos os teoremas desta parte (séries) são fáceis e passíveis de serem cobrados em prova.

Dificuldades Se uma série converge o termo geral vai para zero. O converso NÃO é verdade: o termo geral pode ir para zero sem que a série convirja (vide série harmônica).

Classes de equivalência (cap. 5)

Ideias importantes Construção de Cauchy-Cantor de R como classes de equivalência de sequências de Cauchy. Conexão com representação decimal. Q e R − Q são densos em R.

Dificuldades Enxergar cada classe de equivalência como um novo elemento.

Topologia de R (cap. 6)

Ideias importantes É um capítulo mais abstrato. Topologia é uma generalização da geometria onde o que importa é a relação de proximidade e não a distância. Também conhecida como geometria das superfícies de borracha. Para topologia um cubo e uma esfera são o mesmo objeto, assim como qualquer polígono fechado ou círculo ou elipse são o mesmo objeto.

Na seção 6.2 e 6.3 são definidos os conceitos básicos de topologia: conjunto aberto e fechado.

Além disso definimos conexos e discretos. Deve-se saber provar propriedades básicas de abertos e fechados com relação a união e interseção. Deve-se saber provar que fechados são complementares de abertos.

Na seção 6.4 é definido o que é conjunto compacto, caracterizado pelo Teorema de Heine-Borel, cuja demonstração é fácil. Esta seção encerra com o Teorema, bastante difícil mas superelegante, que caracteriza compactos em termos de coberturas de abertos. Vamos nos concentrar em entender o enunciado e provar o caso particular, o Teorema de Borel-Lebesgue.

A seção 6.5 é para introduzir o conceito de densidade. Temos que concluir que tanto Q quanto

R − Q são densos em R.

No final do capítulo fazemos um resumo, observando que com abertos podemos definir TODOS os conceitos de topologia.

Dificuldades A seção 6.4: Entender o que é cobertura aberta e o significado de existir subcobertura finita.

Limite e Continuidade (cap. 7)

Ideias importantes As seções 7.1 e 7.2 tratam de limites de funções. Note bem que somente definimos limites para pontos de acumulação do domínio da função, pois caso contrário não fará sentido ver o que ocorre com valores da função para pontos próximos ao ponto onde queremos calcular o limite. Para o cálculo do limite o valor da função no ponto não interessa.

Seção 7.1. A proposição que relaciona limite de função com limite de sequência: deve ser vista com cuidado. As propriedades usuais do limite de funções são burocráticas, mas você sabe provar o limite do produto por exemplo? O princípio de permanência do sinal é importante: se o limite num ponto é positivo, numa vizinhança deste ponto a função é positiva (tirando o valor no ponto).

Você tem que saber definir qualquer um dos 15 limites de funções. A seção 7.2 define função contínua, um conceito FUNDAMENTAL em análise. Compare com a definição de limite e observe a semelhança. Note que definimos continuidade em um ponto. Dizemos que a função é contínua em um conjunto se for contínua em cada ponto. É importante o conceito de oscilação e sua relação com função contínua. Além disso deve-se saber que funções contínuas trazem abertos.

Duas propriedades importantes de função contínua são: levam conexos (intervalos) em conexos (seção 7.3) e compactos em compactos (seção 7.4). O primeiro é consequência do TVI (teorema do valor intermediário). Uma consequência do segundo é o Teorema de Weierstrass. Assim devem ser lembrados. Saber usar estes teoremas no exercícios e na teoria é o desafio. Introduz-se ainda na seção 7.4 o conceito de continuidade uniforme e o teorema: funções contínuas em compactos são uniformemente contínuas, outro resultado poderoso e importante. Veja o exemplo de não continuidade uniformidade.

Dificuldades A principal dificuldade está nos exercícios, que trabalham os conceitos com funções pouco intuitivas. O conceito de oscilação de uma função em um ponto: w(f;x).

Derivada (cap. 8)

Ideias importantes Esta seção será vista rapidamente. Na seção 8.1 é dada uma definição da derivada ligeiramente diferente da do cálculo I: f é derivável no ponto x0 se existe uma função afim (ou polinomial de grau máximo 1) m (função afim é da forma constante mais transformação linear, em dimensão 1 isto significa que m(x) = ax + b

numa vizinhança de x0. Uma proposição mostra que a nova definição e a do cálculo I são idênticas. A nova definição permite duas generalizações:

(a) ainda em R, conforme veremos mais adiante, ao invés de função polinomial de grau máximo 1 podemos considerar qual polinômio de grau máximo k melhor aproxima a função numa vizinhança de um ponto: o polinômio de Taylor;

(b) em Rn , dada uma função f : Rn → Rm

, qual a função afim, isto é, a função m : Rn → Rm um vetor fixo, vai para zero quando ‖x − x0‖ vai para zero. As propriedades operatórias são burocráticas, sem maior importância.

A seção 8.2 contém o teorema do valor médio e o teorema de Rolle, cujas demonstrações são iguais a do cálculo I. Deve-se saber demonstrá-los. Eles são aplicados para caracterizar crescimento/decrescimento (estrito) local da função e determinar máximos e mínimos locais. O teorema de Cauchy é leitura extra.

A seção 8.3 apresenta a fórmula de Taylor, que veremos rapidamente. Taylor é aplicado para demonstrar proposição que caracteriza máximos e mínimos locais degenerados.

A seção 8.4 do método de Newton é leitura extra, bem como as regras de l'Hospital da seção 8.5.

Dificuldades A conceituação da seção 8.1 e a prova do TVM/Rolle.

Integral de Riemann (cap. 9)

Ideias importantes Seção 9.1 apresenta definição de soma inferior e superior, conceito básico e fundamental na definição da integral de Riemann.

A seção 9.2 apresenta a definição da integral de Riemann e Lema que caracteriza funções integráveis. Este resultado será usado diversas vezes ao longo do capítulo: deve ser memorizado.

É apresentado primeiro teorema de integrabilidade: toda função contínua em intervalo fechado é integrável.

A proposição que mostra que o conjunto das funções integráveis forma um espaço vetorial é burocrática. A proposição da integral do módulo e a proposição que funções integráveis formam um álgebra são técnicas (não precisa saber a demonstração).

Note como definir a integral para intervalos orientados negativamente (escrevemos intervalos [1,0] por exemplo, cuja integral será menos a integral em [0,1]).

A seção 9.3 é dos TFC's. A seção 9.4 sobre pi é opcional e a 9.5, de mudança de variáveis é burocrática (vou omitir). A seção 9.6 do teorema de Lebesgue é delicada. Nela define-se o que é um conjunto de medida nula (desprezível do ponto de vista da integral) e com isso se prova o teorema (bem difícil) de Lebesgue que caracteriza as funções integráveis. Veja a definição de diâmetro de um conjunto e sua relação com a definição de soma superior e inferior.

Dificuldades Logo na seção 9.1 aprender o que é partição e soma superior e inferior. Na seção 9.6 o que é conjunto de medida nula (conhecer exemplos não triviais) e saber determinar o conjunto dos pontos de descontinuidade de funções patológicas (já vimos várias, por exemplo função característica dos racionais, etc).

Sequências de Funções (cap. 10)

Ideias importantes Na seção 10.1 aprender diferença entre convergência simples e uniforme. Na seção 10.2 a relação entre operação de derivação e integração e estas convergências O resto é cultural.

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