A influência da cultura portuguesa em macau

A influência da cultura portuguesa em macau

(Parte 1 de 4)

Biblioteca Breve SÉRIE HISTÓRIA

JOSÉ V. DE PINA MARTINS Prof. da Universidade de Lisboa

JOÃO DE FREITAS BRANCO Historiador e crítico musical

JOSÉ-AUGUSTO FRANÇA Prof. da Universidade Nova de Lisboa

JOSÉ BLANC DE PORTUGAL Escritor e Cientista

HUMBERTO BAQUERO MORENO Prof. da Universidade do Porto

JUSTINO MENDES DE ALMEIDA Doutor em Filologia Clássica pela Univ. de Lisboa

A Influência da Cultura Portuguesa em Macau

Título

A Influência da Cultura Portuguesa em Macau _

Biblioteca Breve /Volume 95 _ 1.ª edição ― 1984 _ Instituto de Cultura e Língua Portuguesa Ministério da Educação _

© Instituto de Cultura e Língua Portuguesa Divisão de Publicações Praça do Príncipe Real, 14-1.º, 1200 Lisboa

Direitos de tradução, reprodução e adaptação, reservados para todos os países _

Tiragem 5000 exemplares _

Coordenação geral Beja Madeira _

Orientação gráfica Luís Correia _

Distribuição comercial Livraria Bertrand, SARL Apartado 37, Amadora ― Portugal _

Composição e impressão

Oficinas Gráficas da Minerva do Comércio de Veiga & Antunes, Lda. Trav. da Oliveira à Estrela, 10.

Novembro de 1984

I / INTRODUÇÃO7

Pág.

DOS JESUÍTAS10
CLARISTAS19
23
V / A PRESENÇA DE CAMÕES EM MACAU30
MACAU34
VII / A LÍNGUA DE MACAU38
VIII / O JORNALISMO EM MACAU64
IX / OS ESCRITORES DO SÉCULO XIX68
XIX E X72

X / O ENSINO DAS CONGREGAÇÕES NOS SÉCULOS XI / O APOSTOLADO DA INSTRUÇÃO..........................76

XII / A ACÇÃO CULTURAL DO LICEU DE MACAU.....79 XIII / A ARQUITECTURA PORTUGUESA EM MACAU..82

SÉCULO X86
ACTUALIDADE98
NOTAS104
EM MACAU109

ANTOLOGIA DE AUTORES MACAENSES E RESIDENTES BIBLIOGRAFIA....................................................................... 127

Os Portugueses, depois de várias aventuras pelos mares e pelas costas da China e, nomeadamente, da sua primeira fixação nas ilhas de Liampó (Nim Pó), solicitaram ao vice-rei e aos mandarins de Cantão que lhes fosse permitido estabelecerem-se numa pequena península, em que terminava a ilha de Shong-Sam. Nesta península erguia-se um templo budista, consagrado à deusa dos marinheiros, A-Má, que ainda hoje subsiste 1. Segundo o sinólogo Gonzaga Gomes, de todos os templos chineses ainda existentes em Macau este é o mais interessante, quer sob o ponto de vista artístico, quer pelas lendas que lhe estão ligadas.

De acordo com a versão mais corrente e mais verosímil o nome de Macau seria derivado de Mâ-Kóng ou Má-Kóng, Baía de Má ou de A-Má 2. De facto, a designação de Macau deve apenas ter sido atribuída à parte onde se encontra o pagode da Barra e, onde, conforme a tradição, desembarcaram os Portugueses. Ainda se acreditarmos nas narrativas que correm sobre a fundação de Macau, os Portugueses, nesta conjuntura, atacaram e destruíram um grande número de piratas desalojando-os da sua fortaleza na península. Além disso, Macau servia de local de habitação a uma reduzida população que laborava nas marinhas e, porventura, a alguns pescadores e agricultores.

No ano de 1557, considerado como a data da chegada dos Portugueses, os mandarins e comerciantes de Macau obtiveram a sanção imperial para que se fixassem no pequeno território. Como sempre acontece nestas circunstâncias, os primeiros anos do estabelecimento dos Portugueses neste ponto da costa da China foram singularmente penosos. Começaram por construir cabanas de junco que, em breve, substituíram por casas de madeira, pedra e tijolo. Alguns anos depois, já se contavam na povoação novecentos portugueses, além de muitos chineses 3. Mas, pouco a pouco, Macau vai-se tornando um grande empório do comércio do Extremo-Oriente, entreposto de mercadorias que provinham e se destinavam à China, Japão, Filipinas e Formosa.

Como se sabe, o território de Macau é actualmente composto pela península do mesmo nome e pelas duas ilhas de Taipa e Coloane, numa superfície total de dezasseis quilómetros quadrados, menos um quilómetro quadrado do que a mais pequena das nossas ilhas atlânticas, o Corvo. Aquelas ilhas estão hoje integradas no território, ligadas por um aterro entre elas (1968). A Taipa, por sua vez, comunica com a península por uma ponte de 2,56 quilómetros de comprimento que, na sua parte mais elevada, permite a passagem da navegação (1974).

Pela sua longa separação da parte continental, a zona insular ainda mantém um carácter rural, se bem que ultimamente se comece a tornar um subúrbio de Macau. Vários empreendimentos urbanos e turísticos estão a ser construídos ou planeados no que agora se pode chamar a orla da antiga península. Deve ainda assinalar-se que nesta área livre estão projectadas outras obras que vão contribuir para o desenvolvimento de Macau, como um porto de águas profundas na ilha de Coloane e um aeroporto no espaço que seria aterrado entre esta ilha e a Taipa.

Os Jesuítas, com o seu extraordinário ardor missionário, o elevado nível da sua cultura humanística e da sua formação pedagógica, podem ser considerados os pioneiros da expansão da cultura portuguesa em Macau.

Quando aí aportaram (1563) os padres Francisco

Perez e Manuel Teixeira apenas se erguia na feitoria um bairro de casas de palha em volta da ermida de Sto. António, uma igreja «matriz» e o embrião do Bom porto (depois corrompido em Bomparto), junto do local da actual igreja de S. Lourenço. Neste momento já residiam em Macau seiscentos ou setecentos portugueses e cerca de mil serviçais de outras origens, mas já de religião cristã, entre os quais se contavam intérpretes que falavam o português e o chinês.

Como aqueles sacerdotes, a que se juntou o irmão

Pinto, notassem que demorava a sua penetração na China, objectivo essencial da sua missão, decidiram construir em Macau uma casa, não só destinada a exercer o seu apostolado junto dos Portugueses, mas ainda para albergar os padres enquanto esperavam o seu embarque para as outras terras de missão. As obras iniciaram-se em fins de Dezembro de 1565 no local ocupado hoje pelo Largo de Sto. António 4.

Nesta espécie de hospício, ainda rudimentar, logo fundaram uma «escola de ler e de escrever» que seria certamente em língua portuguesa, pois os sacerdotes ainda não dominavam a língua chinesa. Em 1572 tomava o nome de escola elementar: Primum litterarum scholam. Uma escola de «ler, escrever e aritmética» a que acorriam muitos meninos, como informava ao Geral da Companhia o P.e António Vaz, então Superior da residência. Cinco anos depois a frequência já se computava em cento e cinquenta alunos. Em 1584 o P.e Lourenço Mexia, auxiliar do Superior, escrevia ao Geral: «Há mais de duzentos alunos na escola que tem as disciplinas de ler, escrever, contar e música. Agora se explica a alguns alunos maiores a Matemática.» 5 O corpo docente era então constituído por doze jesuítas, na sua maioria portugueses. Não existem, porém, documentos que exprimam os resultados deste ensino, nem os progressos da língua nacional num meio em que já predominavam os idiomas asiáticos.

No entanto, os Jesuítas não se contentaram com estes modestos princípios, tanto mais que Macau se tornara o ponto avançado da irradiação missionária no Extremo-Oriente. De facto, já nos fins do século XVI, em 1593, três décadas após a fundação do primeiro estabelecimento, o Geral da Companhia em Roma, o P.e Cláudio Aquaviva, autorizava a criação de um verdadeiro colégio que se iniciou precisamente no dia primeiro de Dezembro do ano seguinte, já com nível universitário. A primitiva residência foi muito aumentada, dividindo-se em Casa e «Colégio da Madre de Deus» e, mais tarde (1597), unidas novamente sob a direcção de um mesmo Superior. O colégio conferia graus académicos a eclesiásticos e a leigos e continha no seu programa de estudos um tal número de actividades lectivas que o transformaram no maior instituto católico do Extremo-Oriente.

De facto, achavam-se ali encorporados dois seminários para seculares, uma Universidade, dotada de Faculdades de Letras, Filosofia e Teologia, uma escola elementar e uma escola de Música e Artes Plásticas. Assim, ensinavam-se no Colégio de Macau as primeiras letras, do A B C até aos mais altos pontos e ápices da sagrada teologia; tinha um mestre de ler, escrever e contar; dois mestres de latim e um de filosofia; dois de sagrada teologia, um de moral e casos de consciência e um prefeito de estudos. Na igreja do Colégio conferia-se o grau em artes aos que o mereciam, chegando das suas terras os doutorandos acompanhados pelos amigos e padrinhos, com charamelas na dianteira do cortejo como se usava na Europa 6. Além disso, o Colégio dispunha de outras dependências como uma farmácia ou «botica», a melhor de Macau, da Procura ou Procuração do Japão e até de uma tipografia de caracteres móveis, a primeira que os Jesuítas trouxeram para Macau e para o Japão (1588). A primeira obra impressa nesta oficina foi o relato de uma embaixada que os Japoneses enviaram ao Papa Gregório XIII (1572-1585). No Colégio também se guardava o Arquivo da Província Jesuíta e instalara-se uma biblioteca com mais de 5 0 volumes 7. Luís XIV brindou esta livraria com um relógio que ali permaneceu durante muito tempo.

Ainda junto do estabelecimento jesuítico destinavase aos crentes chineses a igreja de Nossa Senhora do

Amparo e, como veremos adiante, também o edifício do Colégio de S. José (depois seminário), casa-mãe da viceprovíncia da China 8.

Apesar da distância dos centros de direcção da

Companhia de Jesus, o Colégio de Macau acompanhava os progressos dos estabelecimentos de ensino similares. Ora, entre as actividades circum-escolares da iniciativa dos Jesuítas, salientavam-se as representações teatrais que constituíram um género literário de que nos ficou um vasto espólio. O Colégio de Macau não fugiu a esta regra: há, pelo menos, notícia de uma festa teatral com uma peça em que se reconstituía a vida de S. Francisco Xavier e outros números coreográficos e folclóricos. Os pequenos actores foram naturalmente ensaiados pelos padres da Companhia com diálogos pronunciados em português. Como acontecia em todas as outras sociedades em que os Jesuítas exerciam acção docente, os figurantes eram escolhidos entre os filhos das melhores famílias da cidade 9. O teatro tornava-se assim um outro meio de atracção e de difusão da cultura portuguesa.

Graças ao espírito de missionação que animava os

Jesuítas, Macau tornara-se o fulcro da expansão do Cristianismo em todo o Extremo-Oriente. Por isso, logo no ano de 1575, o Papa Gregório XIII (1572-1585), pela sua bula Super Specula Militantis Ecclesiae, fundava a diocese de Macau, a instâncias de D. Sebastião, com jurisdição sobre a China, a Coreia e o Japão 10. O proselitismo cristão procurou então adaptar a mentalidade religiosa dos Chineses à doutrina da revelação cristã, aproveitando os preceitos de Confúcio, que viveu no século V a. C. De facto, as honras prestadas ao filósofo, desde o século I a. C., representavam uma «visão oriental da devoção cristã às almas do purgatório e da crença na comunhão dos santos». Assim o entenderam, com um perfeito sentido de adaptação às práticas religiosas dos Chineses, os argutos Jesuítas que levaram muito longe a sua missão apostólica. Todavia, a Cúria Romana opôs obstáculos invencíveis a esta judiciosa interpretação. Tanto o Supremo Tribunal dos Ritos (30-XI-1700) como os papas Inocêncio XII (1691-1700), Clemente XI (1700- 1721) e Inocêncio XIII (1721-1724) não a consentiram. O último destes papas proibiu mesmo que fossem enviados mais padres jesuítas para o Extremo-Oriente. Por fim, Bento XIV obrigou pela bula Ex-aequo (1743) que todos os missionários se sujeitassem à probição pontifícia por um voto.

Mas o pleito entre o Papado e os Jesuítas, pelo motivo da aceitação dos ritos de Confúcio, produziu outras consequências que são referidas por todos os historiadores de Macau. Clemente XI, que já tinha rejeitado a interpretação jesuítica, ligou uma tal importância à questão que enviou para o Celeste Império o cardeal Charles Thomas Maillard de Tournon, patriarca de Antioquia, como legado a latere. Logo que passou pela Índia e pelas Filipinas revelou a sua antipatia pelos Jesuítas. Chegado à carte de Pequim o imperador Kange-he mandou-o abandonar a cidade. De Tournon fixou então residência em Macau, onde o esperavam, porém, os maiores dissabores. De facto, pelas disposições do Padroado Português do Oriente, os padres que para aqui se destinavam tinham de transitar por Lisboa, colocando-se sob as ordens da Coroa portuguesa. Além disso, por um mandado promulgado em Cantão, De Tournon quis igualmente revogar na diocese de Macau a prática da liturgia confuciana instituída na China. Nestas circunstâncias, o bispo de Macau, D. João de Casal, não só o acusou de não cumprir as prerrogativas do Padroado, mas ainda por ter imposto a sua vontade na questão dos ritos. Apesar destas contrariedades, o legado papal continuou a persistir na sua intenção. Levantou-se então uma disputa entre ele e o bispo, tanto mais que os Dominicanos e Agostinhos, adversários dos Jesuítas, tomaram o partido do cardeal. Diogo de Pinho Teixeira, então capitãogeneral de Macau, aprovou a sanção episcopal. Os monges dominicanos e agostinhos, bem como o legado papal, acabaram por ser presos. Depois de três anos de detenção, De Tournon morreu subitamente (9-VII- 1710). E, desta maneira, terminou um conflito que tanta perturbação causou em Macau 1.

Entretanto, foi graças à influência das ordens religiosas portuguesas que o Papa Alexandre XIII criou a primeira diocese na China, abrangendo Pequim e Nanquim, a que se seguiram outras com bispos recrutados entre sacerdotes em Macau 12. Macau era assim uma guarda avançada no Oriente, não só da influência da cultura portuguesa, mas ainda da propagação do Cristianismo entre povos que se mostraram depois tão relutantes à conversão.

É durante o interregno filipino, em que Macau conservou sempre a sua autonomia em face do predomínio da coroa castelhana e mais liberto das imposições chinesas, que os Jesuítas ergueram em estilo barroco uma das magnificentes igrejas no Extremo- Oriente. Arquitectada segundo o templo-modelo de Jesus, em Roma, por Fr. Carlos Spínola, foi iniciada em 1595 e só terminada em 1602 13. Concorreram para a sua construção os donativos dos negociantes que auferiam vultuosos lucros no seu comércio com o Japão. Embora o interior da igreja já fosse digno de nota, com um tecto esculpido em madeira e pintado a ouro e de outras cores brilhantes como vermelhão e azul, a fachada que ainda hoje subsiste só foi acrescentada entre 1620 e 1627. O templo foi dedicado à Anunciação de Nossa Senhora, a Mãe de Deus, também para impressionar os Chineses que adoram a deusa Ma ou Mãe. A fachada oferece uma impressão de extraordinária riqueza arquitectónica e escultórica na sua combinação entre influências artísticas orientais e ocidentais. O irmão Finn deisgnou-a como um «sermão em pedra», uma expressão visual da doutrina religiosa e da fé.

A igreja divide-se em ordens, numa harmonia perfeita, cada uma delas apoiada em colunas dóricas, com a sua decoração própria. Entre os diversos elementos da simbologia que a ornam destacam-se no segundo plano, aberto por três largas janelas, as estátuas de S. Francisco de Borja, Sto. Inácio de Loiola, S. Francisco Xavier e S. Luís de Gonzaga. Na terceira ordem, à esquerda, lê-se em caracteres chineses a seguinte inscrição: «Lembra-te da morte e que não deverás pecar». O templo, pelo seu valor histórico e pelo seu valor arquitectónico, é um símbolo da expansão da cultura portuguesa no Extremo-Oriente.

O Seminário de S. José, inaugurado em 1728 e construído «sobre pedra viva» na eminência de Macau que tomou o nome de Nossa Senhora da Penha, com a sua igreja anexa construída em 1758, foi até à expulsão dos Jesuítas em 1762 mantido sob a sua direcção, tornando-se igualmente um foco de cultura portuguesa, porque a maior parte do seu professorado provinha da Província de Portugal da Companhia de Jesus. Evidentemente que depois da exautoração dos Jesuítas pela medida discriminatória do marquês de Pombal, o Seminário, que foi um viveiro de formação e de retiro de sacerdotes, entrou em declínio como todos as outras instituições mantidas pelos irmãos de Santo Inácio 14.

Depois da expulsão dos Jesuítas o Seminário de S.

José tem uma existência bastante movimentada, com períodos de prosperidade e de decadência que se prolongam até meados do século XIX. Em 1784 passou para a direcção dos padres Lazaristas, denominando-se então Seminário Régio e Episcopal de Pequim. Mas, por carta régia de 1800, tomou a designação de Casa da Congregação da Missão. Voltou a desempenhar um papel relevante na educação dos macaenses, não só formando sacerdotes mas ainda abrindo as suas portas aos leigos que nele encontravam o único estabelecimento de ensino digno desse nome em Macau. As despesas com a manutenção do estabelecimento recaíram sobre o Leal Senado. No princípio do século passado os sacerdotes que ministravam o ensino eram todos portugueses. O currículo incluía a gramática latina, a gramática portuguesa, a aritmética, a retórica, a teologia e outros conhecimentos. Além dos alunos que se destinavam ao sacerdócio frequentavam o Seminário, em 1815, dezasseis rapazes, e treze em 1831 15.

(Parte 1 de 4)

Comentários