Da idolatria indigena a conversão cristã no Mexico do século XVI

Da idolatria indigena a conversão cristã no Mexico do século XVI

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BIBLIOTECA DO IFCH - UNICAMP
Reis, Anderson Roberti dos
R277dDa idolatria indígena à conversão cristã no México do século

XVI: uma análise da obra de frei Toribio Motolinía / Anderson Roberti dos Reis. - - Campinas, SP : [s.n.], 2007.

Orientador: Leandro Karnal
Dissertação (mestrado ) - Universidade Estadual de Campinas,
Instituto de Filosofia e Ciências Humanas.
1. Motolinía, Toribio, m1568. 2. Franciscanos. 3. Crônicas.
4. Idolatria. 5. México – História – Séc. XVI. I. Karnal, Leandro.
I. Universidade Estadual de Campinas. Instituto de Filosofia e
Ciências Humanas. I.Título.
Título em inglês: From indigenous idolatry to christian conversion in 16th
century Mexico: an analysis of the work of friar Toribio
Motolinía
Palavras – chave em inglês (Keywords): Franciscans
Mexico – History – 16th century
Área de concentração : História Cultural
Titulação : Mestre em História
Banca examinadora : Leandro Karnal, Janice Theodoro, José Alves de Freitas
Neto
Data da defesa : 10-01-2007

Chronicle Idolatry Programa de Pós-Graduação :- História

O objetivo desta pesquisa é relacionar e analisar as concepções de idolatria indígena e conversão cristã no México do século XVI, a partir da Historia de los indios de la Nueva España de frei Toribio Motolinía. Após pouco mais de uma década de trabalhos missionários na Nova Espanha, Motolinía começou a redigir uma “relação dos ritos e idolatrias dos nativos e de sua maravilhosa conversão à religião cristã”. Entretanto, essa “história dos índios” configurou-se, no decorrer da narrativa do frade, em uma “história dos trabalhos franciscanos junto aos indígenas do Novo Mundo”.

A partir dessa observação inicial, nós examinamos como Motolinía representou as noções de idolatria indígena e conversão cristã e, ao mesmo tempo, articulou esses dois conceitos em uma determinada estrutura narrativa com um sentido próprio. De algum modo, nós queremos analisar a relação entre a narrativa elaborada por frei Toribio e os desafios e debates (teológicos, políticos) com os quais o frade esteve envolvido, mesmo que indiretamente. A partir desse exercício, nós pretendemos, também, trazer ao debate uma parte significativa da história das idéias religiosas e políticas no México quinhentista, bem como as bases da fundação de uma memória franciscana na América.

Palavras-chave: Toribio Motolinía; crônicas religiosas; franciscanos; idolatria indígena; cristianização; México século XVI.

The objective of this study is to relate and analyze the conceptions of indigenous idolatry and Christian conversion in the 16th century Mexico, based on the Historia de los indios de la Nueva España of friar Toribio Motolinía. After little more than a decade of missionary work in New Spain, Motolinía started to write a "register of rites and idolatry of the natives and their wonderful conversion to the Christian religion". However, this "indigenous history" became, as the friar's narrative progressed, a "history of Franciscan works with the natives of New World".

From this initial observation, we explored how Motolinía represented the ideas of indigenous idolatry and Christian conversion and, at the same time, organized these two concepts in a given narrative structure, with a specific meaning. Somehow, we want to analyze the relationship between the narrative developed by friar Toribio and the challenges and debates (theological, political) with which he was involved – indirectly, even. From this exercise, we also want to raise the debate about a significant part of the history of religious and political ideas of the 16th century Mexico, as well as the basis of the foundation of a Franciscan memory in America.

Keywords: Toribio Motolinía; religious chronicles; franciscans; indigenous idolatry; christianization; 16th century Mexico.

À Maria, minha mãe e porto seguro, por me lembrar todas as manhãs que a estrada vai além do que se vê.

Ao Carlos, meu pai, por ter (quase sempre calado) muito me ensinado. Hoje ele mora no céu! Salve Santa Clara!

“Somos, portanto, algo cambiante e algo permanente. Somos algo essencialmente misterioso. Que seria de nós sem a memória? [...] Estamos permanentemente nascendo e morrendo. Por isso o problema do tempo nos afeta mais que os outros problemas metafísicos. Porque os outros são abstratos. O do tempo é nosso problema. Quem sou eu? Quem é cada um de nós? Quem somos? Talvez o saibamos algum dia. Talvez, não. Nesse meio tempo, entretanto, como dizia Santo Agostinho, minha alma arde, porque quero saber”.

Jorge Luis Borges, O tempo.

Agradeço sinceramente ao Prof. Dr. Leandro Karnal, amigo e orientador desta dissertação. Com o Leandro, professor e pesquisador sério, tive o prazer de travar longas conversas, inclusive ao longo de nossas idas e vindas entre São Paulo e Campinas. Dos assuntos ligados à pesquisa (fundamentais), passando pelas espécies de árvores à beira da estrada, até problemas com “cones voadores” que atacam motoristas na Bandeirantes (“coisas do diabo”, advertiriam alguns), pude partilhar um pouco de sua inteligência, amizade, benevolência, memória brilhante e fina ironia. Por tudo isso, pela confiança, pelos livros emprestados e pelas (muitas) portas abertas durante esses últimos três anos: muito obrigado! Espero ter retribuído, ao menos um pouco, com esforço e trabalho.

Com o Prof. Dr. José Alves de Freitas Neto também tenho uma grande dívida. Pela análise atenta e críticas feitas por ocasião da qualificação; pelas sugestões de leituras e reflexões a respeito de nuestra América; pelo entusiasmo com o qual tem me acompanhado desde o primeiro ano da graduação; pela amizade; pelos batepapos e caronas; pelos livros emprestados e sobretudo pela confiança que depositou em mim! Ao amante da Política, meus mais sinceros agradecimentos.

À Profa. Dra. Leila Mezan Algranti sou muito grato. Suas sugestões e críticas muito me ajudaram a pensar as práticas do historiador. Em tempos de reflexão sobre o nosso ofício, ela tem muito a dizer sobre o trabalho com documentos e eu sou todo ouvidos! Tanto na Linha de Pesquisa como no curso da Pós-graduação e na qualificação suas intervenções muito me instigaram. Muito obrigado.

Durante esses anos de pesquisa também tive o prazer de conhecer a Profa.

Dra. Janice Theodoro, da Universidade de São Paulo. Foram boas as conversas e discussões durante o curso por ela ministrado na USP, onde pude conhecê-la mais de perto e ouvir atentamente suas reflexões sobre a Nova Espanha e as crônicas religiosas. À Profa. Janice, muito obrigado!

Dona Maria, minha mãe, é a responsável por eu ter chegado até aqui: “se alguém perguntar por mim, diga que fui por aí”. Se vai dar certo ou não, “são outros quinhentos”, como ela diz. Mas a base e a estrutura ela sempre bancou de peito aberto, como uma “mulher madrugadeira e batalhadora” que é. “Maria, Maria é um dom, uma certa magia...”!

Ao meu primo Márcio e aos amigos Rafael, Edula, Roberto, Zé Cláudio,

Rodrigo, Will, Piuí, Joel (e “família Ríver”), André, Hormando, Maria Evani, Carlos, Tatsuo, Maria Emília, Dulci e Renato: valeu pela força. “Toquem os sinos bem alto por toda a cidade, festanças e banquetes pelas ruas”. Às “gatas extraordinárias” Luciene e Vivian: obrigado pelas palavras sempre positivas.

“Do muito que li, do pouco que sei, nada me resta. A não ser...”. Patrícia, minha companheira: obrigado pelo apoio, carinho, paciência e amor irrestritos ao longo das nossas idas e vindas nos últimos anos!

Ronaldo, Victor e Adriana: obrigado pela ajuda com os “aspectos operacionais” da dissertação.

Odair, Zezé, Gustavo e Guilherme: vocês foram os responsáveis pelo conforto que tive no primeiro ano da pesquisa. Obrigado por terem-me hospedado, pelo carinho, bate-papos e boas risadas durante um período de adaptação e muito suor!

O Duda e o Marquinhos, companheiros de orientação e pesquisa, são alguns dos amigos – no sentido estrito da palavra – que fiz na Unicamp. Pelos sarros e conversas durante nossos encontros (além das muitas “idéias sérias” e leituras atentas) eu lhes sou muito grato. O Célio (talvez o maior iconoclasta que já conheci, mais impiedoso que muitos franciscanos do século XVI) também muito me ajudou com suas palavras de incentivo. Sua sagacidade, humor e inteligência foram grandes atrativos nas noites frias e filosóficas de Serra Negra e Águas de Lindóia.

Devo agradecer também à CAPES pelo financiamento dos últimos dois anos desta pesquisa.

É importante lembrar, por uma questão de protocolo, que as possíveis incorreções ou imprecisões deste estudo são de minha inteira responsabilidade. A impetuosidade e certa imaturidade às vezes nos levam por caminhos pouco imaginados.

INTRODUÇÃO001
Historia de los indios de la Nueva España: trajetos e leituras
1.1 Trajetos011
1.2 Leituras019
Las Casas e Mendieta019
1.2.2 A Historia de los indios (re)descoberta: José Fernando Ramírez027
1.2.3 Uma incógnita historiográfica: a percepção de Edmundo O'Gorman031
1.2.4 A leitura milenarista: Georges Baudot039

CAPÍTULO 1 1.2.1 O período colonial e a Historia de los indios como fonte para outras crônicas:

A escrita da Historia: estrutura, narrativa e memórias
2.1 Estrutura geral da obra047
2.2 A escrita da Historia: formas de contar054
2.3 A escrita do Outro: estratégias de tradução065
2.4 Memórias franciscanas e o modelo hagiográfico070
2.4.1 Quatro preceptivas da narrativa hagiográfica072

CAPÍTULO 2 2.4.2 Martín de Valência, a hagiografia e a memória franciscana 076

CAPÍTULO 3 “De muchos ídolos que tenían”: a construção da idolatria indígena

3.1 A idolatria e o problema das imagens087
3.2 Nova Espanha, reino da idolatria096
3.2.1 A elaboração de um conceito096

3.2.2 Os missionários em ação: destruição material e construção conceitual 100 3.3 A percepção de Motolinía: a idolatria na Historia de los indios 110

3.3.1 Aspectos gerais: o erro, a descrição e “los muchos ídolos”110
3.3.2 Da idolatria à conversão118
3.3.3 A atuação do demônio120
3.3.4 A dimensão política da idolatria123

3.3.5 Idolatrias noturnas: práticas persistentes na Historia de los indios 131

CAPÍTULO 4 Narrativas da Conversão

4.1 Patientia necesaria est: o projeto catequético franciscano137
4.2 Interpretações da evangelização na Nova Espanha152
4.3 Narrativas da conversão: variações e descontinuidades159
4.4 “De la prisa que los indios tienen”: a vontade indígena173
4.5.1 Indígenas contra indígenas: a leitura moral e política196
4.5.3 O conflito sobrenatural entre Deus e o diabo200
4.5.4 As divergências missionárias202
CONSIDERAÇÕES FINAIS211

4.5 A primazia da catequese franciscana: conflitos e negociações 195 4.5.2 Lobos e cordeiros: colonos contra indígenas e a Providência divina 198 BIBLIOGRAFIA 221

“Como eu irei dizer agora, esta história será o resultado de uma visão gradual – há dois anos e meio venho aos poucos descobrindo os porquês. É a visão da iminência de. De quê? Quem sabe se mais tarde saberei. Como que estou escrevendo na hora mesma em que sou lido. Só não inicio pelo fim que justificaria o começo – como a morte parece dizer sobre a vida – porque preciso registrar os fatos antecedentes.”

Clarice Lispector, A hora da estrela

Esta pesquisa tem por objetivo discutir e analisar as concepções de idolatria indígena e conversão cristã na Historia de los indios de la Nueva España, do franciscano Toríbio Benavente de Motolinía1. Nascido em 1491, em Benavente, província de Zamora, na Espanha, Toríbio entrou para a Ordem dos franciscanos ainda na juventude2. Pouco se sabe de sua vida antes do ingresso no Convento de São Gabriel, na segunda década do século XVI. Essa passagem por São Gabriel (1517-1523) é significativa para a compreensão de seus escritos e projetos missionários décadas mais tarde na Nova Espanha. Esse convento, sob o comando de Juan de Guadalupe, expressou um dos resultados da reforma feita na Ordem franciscana, em finais do século XV3. O ano em que ela foi terminada coincidiu com o ano da conquista do México: 1519. Sob essa atmosfera, Motolinía foi escolhido, junto a outros confrades, para compor a famosa “missão dos doze” que veio à América com o objetivo de converter os indígenas à religião cristã.

1 Para facilitar a leitura, nós nos referiremos à obra apenas pelo título Historia de los indios, sempre em itálico, e ao autor por “frei Toríbio” ou somente “Motolinía”. 2 Apesar de algumas divergências, a hipótese mais plausível é a de que ele nasceu em 1491. 3 Entre os anos finais do século XV e as primeiras décadas do XVI, efetuou‐se a reforma na Ordem franciscana. Retomando as bases do pensamento de São Francisco de Assis e algumas idéias milenaristas de Joaquín de Fiore, e obtendo de Alexandre VI duas bulas que legitimavam o retorno a um “franciscanismo mais absoluto” (ideal de pobreza, pregação, humildade) e a abertura de novas casas conventuais, Juan de Guadalupe empreendeu profundas mudanças na formação dos irmãos menores (BAUDOT: 1983, pp. 85‐90).

Logo ao chegarem à América, por volta de maio de 1524 – aportando em San

ao luxo de outros religiosos. Porém, deixemos de lado por ora as imagens feitas

Juan de Ulúa – os seráficos foram teatralmente recebidos por Cortés. Por ocasião dessa recepção feita pelos conquistadores e alguns colonos, Toríbio passou a ser conhecido como Motolinía (derivação de motolinea), que em náuatle significava “o pobre”. Isso porque logo ao colocar os pés em terras americanas, os irmãos menores foram identificados como “pobres” por conta de suas vestes e os pés descalços. Ao saber o que significava aquele grito dos indígenas, o jovem frade resolveu que daquele dia em diante usaria o “apelido” Motolinía, junto a seu nome cristão e ao sobrenome de sua vila natal. O frade passou a assinar suas cartas e escritos como “Toríbio de Benavente Motolinía”, ou, às vezes, como Toríbio Paredes de Benavente, o Motolinía”. Esse relato, além de compor um quadro cênico valioso, foi recuperado inúmeras vezes pelos franciscanos para eles se contraporem à cobiça dos colonos ou

A partir de então os franciscanos, sob a batuta de Martín de Valência, disseminaram-se pelo território mexicano e fundaram os primeiros conventos4. Motolinía, já na década de 1520, tornou-se guardião do convento de São Francisco de Assis, no México (1524-26), e do convento de Santo Antonio, em Texcoco (1527-29). De 1529 a 1536, ficou responsável pelo convento franciscano de Huexotzinco, período em que foi acusado de participar de um “complô” contra as autoridades civis, em 1529. Nesse desentendimento, os seráficos foram acusados, sobretudo, de quererem se apoderar da Nova Espanha. A insistência dos franciscanos em “proteger” os indígenas diante das autoridades civis, o isolamento e a hostilidade que mantinham em relação às hierarquias da Igreja e a pretensão de formar comunidades cristãs separadas do “mundo laico” no México, acentuaram as dissidências. Em 1531, Motolinía fundou a cidade de Puebla de los Ángeles. De 1536 a 1542, esteve em Tlaxcala – completando o ciclo dos quatro grandes centros religiosos da Mesoamérica – onde escreveu grande parte da Historia de los indios. Depois de Tlaxcala, regressou ao convento do México e circulou algumas outras vezes por conventos menores, até

4 É preciso lembrar que quando os franciscanos chegaram à Nova Espanha, Pedro de Gante já se encontrava em terras americanas com mais dois irmãos flamengos, Juan de Aora e Juan de Tecto, realizando trabalhos missionários. morrer em 1569. Em síntese, o frade franciscano foi um dos fundadores da ação missionária no México.

Paralelamente às atividades missionárias, Motolinía mostrou-se um escritor diligente. Produziu várias cartas, textos, doutrinas e, até mesmo, uma peça de teatro em náuatle. Boa parte desses escritos ficou perdida no século XVI, e as poucas referências que hoje se tem foram feitas por outros cronistas. Os textos mais comentados de Motolinía são a Historia de los indios, os Memoriales e a Carta al Emperador, de 15555. Há, também, um ensaio de reconstrução do “Libro Perdido”, de Motolinía (1989), levado a cabo pelo historiador mexicano Edmundo O’Gorman. Nesse ensaio, O’Gorman pretendeu reunir materiais dispersos atribuídos a Motolinía e, assim, organizar o que seria a “grande obra” do frade, perdida desde o século XVI. A maioria desses escritos (inclusive os Memoriales e parte do Libro Perdido) funde-se na composição da Historia de los indios. Esta foi a primeira obra editada de frei Toríbio – ainda no século XIX – e, também, aquela que mais vezes foi impressa e traduzida para outros idiomas. Por esse motivo e por ela ter certa unidade semântica e uma premissa, optamos por estudá-la. As comparações ou observações a respeito de outros textos do frade serão feitas de acordo com as circunstâncias. Contudo, não faremos um trabalho de cotejamento entre as próprias obras de Motolinía, sobretudo por entendermos que a grande maioria dos pressupostos, das formas e conteúdos se repete em todas elas, inclusive a sua percepção da idolatria indígena e da conversão cristã, tema que nos interessa diretamente. Quando houver alguma distância ou contrapontos, nós os realçaremos.

Admite-se, em geral, que a Historia de los indios foi escrita entre os anos de 1536 e 1541. Ela é composta por três tratados, que incorporam 45 capítulos, e de uma Epístola Proeminal escrita a dom Antonio Pimentel, sexto Conde de Benavente. Como iremos sugerir ao longo desta pesquisa, a obra foi organizada seguindo uma estrutura

5 Os outros textos de Motolinía podem ser resumidos na seguinte lista: Doctrina Cristiana en lengua mexicana; Tratado del Camino del Espíritu; Autos o Comedias en lengua mexicana; Venida de los doce; Vida y Martírio de Tres niños de Tlaxcala; Relación del viaje a Guatemala; Guerra de los indios de la Nueva España; Calendario Mexicano; Memoriales; De Moribus Indorum; Libro de los ritos, costumbres y conversión de los indios; Relación de las cosas, idolatrías, ritos y ceremonias de la Nueva España e Historia de los indios de la Nueva España. De acordo com o capítulo IV de Baudot (1983). teleológica dada desde as primeiras linhas do texto: narrar uma história dos índios, dos tempos que eram idólatras até chegar à maravilhosa conversão cristã. Ou melhor, o relato não sugere uma “história dos índios” – conforme anuncia o título (que é posterior à confecção do manuscrito, possivelmente do século XVII), mas sim uma história dos trabalhos pastorais dos franciscanos junto aos indígenas, possibilitando a passagem da idolatria à conversão cristã. Daí o nosso interesse em estudar esses dois conceitos: como Motolinía os concebeu? De um lado, o que era a idolatria indígena para o frade? Quais eram suas características, causas e efeitos? Qual era a história da idolatria no Novo Mundo? De outro lado, como frei Toríbio compreendeu a conversão cristã? Quais as relações entre as práticas idolátricas e as possibilidades da evangelização? Houve uma cristianização do México, segundo Motolinía? Quais as feições da catequese franciscana? São essas as inquietações que nos moverão ao longo das próximas páginas.

A opção por estudar esses dois conceitos exclui, naturalmente, outras possibilidades, igualmente ricas. Poderíamos nos debruçar, por exemplo, sobre a compreensão que Motolinía tem do “indígena”, ou analisar como o frade narrou a história da conquista do México e compará-la a outros cronistas, ou ainda discutir a leitura que o frei Toríbio fez dos deuses mexicas. Os caminhos viáveis e possíveis são muitos. De nossa parte, a escolha por refletir a respeito da noção de idolatria e conversão foi impulsionada por três motivos que se tornaram mais nítidos conforme avançávamos na pesquisa e compreendíamos processos que não estavam claros desde o início. O primeiro, digamos “o motor da pesquisa”, relacionou-se à experiência de Motolinía na Nova Espanha, 45 anos no total, e à importância que seu texto adquirira ao ser usado constantemente como fonte para outros religiosos. Então a primeira questão a resolver era: por que não estudam esse cronista e sim os demais, que o utilizam como fonte? Por que não ir à origem e estudá-la? Em geral, esse é um dos pressupostos dos estudantes recém-saídos da graduação: escolher uma fonte que ainda não foi analisada por ninguém. Como no Brasil, segundo uma frase cotidiana do historiador Leandro Karnal, “quase tudo em América está por ser estudado”, não foi difícil entender parte da resposta ao silêncio em relação à Historia de los indios. O segundo motivo, relacionado a um debate historiográfico, referia-se à discussão em torno da cristianização da América. Então, alguns juízos, como “houve uma cristianização imperfeita”, traziam à tona o problema da compreensão que se tinha da conversão cristã na América, mais especificamente no México do século XVI. Daí a necessidade de mergulhar nesse debate; e talvez um bom começo fosse aprofundar a discussão partindo de um cronista que tinha vivenciado os anos iniciais daquele projeto. Nesse caso, os relatos de Motolinía nos serviram um prato cheio de possibilidades, pois o frade não só tinha vivenciado, como tinha dedicado alguns anos a narrar e avaliar o processo da conversão. Para discutir esse processo, foi inevitável recorrer ao problema da idolatria, uma espécie de filtro, intrínseco à compreensão da cristianização.

Já o terceiro motivo esteve ligado a uma preocupação teórico-metodológica.

Como trabalhar com as crônicas religiosas? Como abordar esses documentos?6 Qual o valor que eles têm para a compreensão da história do México, ou mesmo da história das idéias no Novo Mundo? Ao tentar responder a essas inquietações, chegamos à primeira conclusão: não queríamos e não estávamos propondo uma história dos indígenas. O que isso quer dizer? Quer dizer que não pretendemos pensar, analisando as crônicas, a história dos nativos ou como eles eram, suas sociedades e formas políticas. Há trabalhos que caminham nessa direção e, certamente, têm o seu mérito. Entretanto, nossa proposta não tem esse cunho “antropológico”, pois não queremos saber a respeito dos indígenas, especificamente, mas sim sobre o que e como foi escrito sobre os nativos. Em outras palavras: o que Motolinía escreveu sobre a idolatria indígena e a conversão cristã, e como ele o fez. Para tanto optamos, e isso ficará claro ao leitor durante este estudo, por cruzar dois conceitos que consideramos centrais para a nossa proposta. Porém, é importante e honesto explicitar as linhas gerais de nossa perspectiva teórica desde já.

A primeira é a noção de que ao escrever seu texto, Motolinía produzia representações a respeito dos nativos. E são justamente essas representações que

6 Há um artigo que escrevemos, Luiz Estevam O. Fernandes e eu, sobre a crônica religiosa na América. Nesse texto, recuperamos o trajeto da crônica e, ao mesmo tempo, propomos uma abordagem teórica que se assemelha a essa que aqui vamos explicitar. Ver: REIS & FERNANDES (2006). procuramos analisar. Estamos usando esse conceito em consonância com os estudos de Roger Chartier sobre o tema, no qual encontramos que a idéia de representação “permite articular três modalidades da relação com o mundo social: em primeiro lugar, o trabalho de classificação e de delimitação que produz as configurações intelectuais múltiplas, através dos quais a realidade é contraditoriamente constituída pelos diferentes grupos; seguidamente, as práticas que visam fazer reconhecer uma identidade social, exibir uma maneira própria de estar no mundo, significar simbolicamente um estatuto e uma posição; por fim, as formas institucionalizadas e objectivadas graças às quais uns representantes (instâncias colectivas ou pessoas singulares) marcam de forma visível e perpetuada a existência do grupo, da classe ou da comunidade” (CHARTIER: 1988, p. 23).

Esse trecho de Roger Chartier é lapidar, pois passa pelo segundo conceito que gostaríamos de ressaltar: as práticas que se relacionam às representações construídas. Porém, aqui queremos tomar emprestado a formulação de Michel De Certeau sobre os “lugares de produção”, noção esta que se assemelha à idéia das práticas, sublinhada posteriormente por Chartier. Ao refletir sobre a elaboração de um discurso historiográfico, De Certeau enfatizou que não é possível, ou pelo menos não é prudente, analisar os discursos como “corpos flutuantes”, pois, nesse caso, eles seriam a-históricos. Para torná-los históricos e, por conseguinte, objetos de estudo do historiador7, é necessário pensar que eles só têm valor à medida que são entrecruzados com as práticas sociais (daí a necessidade de se examinar o “lugar de produção da fala” e as relações de poder envolvidas) das quais eles resultam (DE CERTEAU: 2002, p. 32). Com isso, nosso estudo indica uma dupla recusa: de um lado, não vamos analisar a obra de Motolinía isoladamente, pois tenderíamos a uma análise mais literária e menos histórica; de outro, não entenderemos os relatos do frade como “reflexos”, “espelhos” ou “determinados” pela realidade. Os conceitos de representação e de lugares de produção nos permitem percorrer um outro caminho: como

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