Praticas de Conservação do Solo e Recuperação de Áreas Degradadas

Praticas de Conservação do Solo e Recuperação de Áreas Degradadas

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Práticas de Conservação do Solo e Recuperação de Áreas Degradadas

ISSN 0104-9046 Dezembro, 2003 90

República Federativa do Brasil

Luiz Inácio Lula da Silva Presidente

Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento

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Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária Embrapa

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Milcíades Heitor de Abreu Pardo Chefe-Adjunto de Administração

Paulo Guilherme Salvador Wadt Editor Técnico

Práticas de Conservação do Solo e Recuperação de Áreas Degradadas

Rio Branco, AC 2003

ISSN 0104-9046

Dezembro, 2003

Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária Centro de Pesquisa Agroflorestal do Acre Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento

Exemplares desta publicação podem ser adquiridos na:

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Presidente: Murilo Fazolin Secretária-Executiva: Suely Moreira de Melo

Membros: Celso Luís Bergo, Claudenor Pinho de Sá, Cleísa Brasil da Cunha Cartaxo, Elias Melo de Miranda, Hélia Alves de Mendonça, Henrique José Borges de Araujo, João Alencar de Sousa, Jonny Everson S. Pereira, José Tadeu de Souza Marinho, Judson Ferreira Valentim, Lúcia Helena de Oliveira Wadt, Luís Cláudio de Oliveira, Marcílio José Thomazini, Maria de Jesus B. Cavalcante, Patrícia Maria Drumond Revisores deste trabalho: João Batista Martiniano Pereira (ad hoc), Luís Cláudio de Oliveira

Supervisão editorial: Claudia Carvalho Sena / Suely Moreira de Melo Revisão de texto: Claudia Carvalho Sena / Suely Moreira de Melo Normalização bibliográfica: Luiza de Marillac Pompeu Braga Gonçalves Tratamento de ilustrações: Fernando Farias Sevá Editoração eletrônica: Fernando Farias Sevá

1ª edição 1ª impressão (2003): 300 exemplares

Todos os direitos reservados. A reprodução não autorizada desta publicação, no todo ou em parte, constitui violação dos direitos autorais (Lei nº 9.610).

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP). Embrapa Acre.

P912pPráticas de conservação do solo e recuperação de áreas degradadas por Paulo

© Embrapa 2003

Guilherme Salvador Wadt e outros. Rio Branco, AC: Embrapa Acre, 2003. 29 p. il. (Embrapa Acre. Documentos, 90)

Mata Ciliar – AcreI. Wadt, Paulo Guilherme Salvador. I. Série.

1.Solo – Acre. 2. Conservação do solo – Acre. 3. Deterioração do solo – Acre. 4. CDD 631.498112 (19.ed)

Autores

Paulo Guilherme Salvador Wadt Eng. agrôn., D.Sc., Embrapa Acre, Caixa Postal 321, 69908-970, Rio Branco, AC, paulo@cpafac.embrapa.br

Jonny Everson Scherwinski Pereira Eng. agrôn., D.Sc., Embrapa Acre, jonny@cpafac.embrapa.br

Rivadalve Coelho Gonçalves Eng. agrôn., D.Sc., Embrapa Acre, riva@cpafac.embrapa.br

Celiana Barbosa da Costa de Souza Estudante de Agronomia, Universidade Federal do Acre.

Luciene da Silva Alves Estudante de Agronomia, Universidade Federal do Acre.

As pesquisas mostram que é possível produzir com sustentabilidade na Amazônia, e o que falta são estratégias e vontade política para desenvolver a região levando em consideração o potencial da floresta, criando incentivos para aproveitamento das áreas já abertas e mecanismos que valorizem os produtos florestais, como por exemplo, a madeira manejada e certificada.

Nesse sentido, este documento é parte do resultado de uma série de iniciativas da Prefeitura Municipal de Acrelândia, AC, junto à Embrapa Acre e ao Ministério do Meio Ambiente, visando conceituar e indicar aos produtores rurais do município um conjunto de técnicas que possa ser adotado para o uso racional das áreas já desmatadas, evitando a perda de sua capacidade produtiva, além de indicar medidas para recuperação de áreas em processo de degradação agrícola ou biológica.

O documento inicialmente aborda a questão da fertilidade dos solos acreanos, alertando para algumas de suas características frente aos solos de outros ecossistemas amazônicos. A seguir, conceitua os processos de degradação para depois definir práticas de conservação de solos, muitas testadas pela Embrapa no Bioma Amazônico.

Finalmente, aborda a importância das matas ciliares, apontando espécies promissoras para o repovoamento dessas áreas e apresenta as principais estratégias de recuperação de áreas degradadas que podem ser adotadas para o Estado do Acre.

Com isso, a presente publicação objetiva prover os técnicos da assistência técnica, estudantes dos cursos de Agronomia e produtores rurais da região de Acrelândia, AC, dos conceitos norteadores e principais recomendações para o uso responsável dos recursos edáficos na Amazônia, em especial, a utilização das áreas já abertas para a agricultura e pecuária.

Ivandir Soares Campos Chefe-Geral da Embrapa Acre

Apresentação

Introdução9
Os Solos do Acre são Naturalmente Produtivos?10
Degradação dos Solos12
Práticas de Conservação dos Solos13
Matas Ciliares19
Recuperação de Áreas Degradadas20
Estratégias em Longo Prazo21
Estratégias em Médio Prazo24
Estratégias em Curto Prazo25
Conclusões28

Práticas de Conservação do Solo e Recuperação de Áreas Degradadas

Paulo Guilherme Salvador Wadt Jonny Everson Scherwinski Pereira Rivadalve Coelho Gonçalves Celiana Barbosa da Costa de Souza Luciene da Silva Alves

Introdução

O solo é um dos recursos naturais mais importantes para a qualidade de vida do homem. Possui múltiplas funções nos ciclos dos nutrientes, no ciclo da água e também é importante para a sustentabilidade dos sistemas naturais, como as florestas primárias e campos, sendo um dos fatores mais relevantes na determinação da tipologia florestal.

Além disso, é fundamental na produção de alimentos e foi muito importante na evolução da espécie humana e no sucesso desta frente às demais espécies.

A modificação dos sistemas naturais pela atividade humana origina as “áreas alteradas”, que podem ter sua capacidade de produção melhorada, conservada ou diminuída em relação ao sistema. Assim sendo, a alteração de uma área não significa necessariamente sua degradação. Contudo, se essa alteração ocorre juntamente com processos que levam à perda da capacidade produtiva do sistema, diz-se que as áreas estão degradadas. Normalmente, o processo de degradação das terras está relacionado à própria degradação dos solos, embora, outros fatores, como a prática de manejo inadequada, também possam ocasioná-la.

A degradação dos solos constitui um prejuízo socioeconômico para as gerações atuais e representa um enorme risco para as gerações futuras. Assim, o objetivo deste documento é apresentar os processos que levam à degradação das áreas produtivas e indicar medidas de conservação do solo e estratégias para recuperá-las.

10Práticas de Conservação do Solo e Recuperação de Áreas Degradadas Os Solos do Acre São Naturalmente Produtivos?

Existe muito misticismo sobre os solos da Região Amazônica e, em relação aos solos do Estado do Acre, a situação não é diferente. É comum leigos afirmarem que os solos acreanos são inférteis, ácidos e impróprios para a agricultura, quando na realidade suportam pastagens vigorosas e lavouras produtivas, mesmo com baixo uso de insumos. Um solo é de alta fertilidade quando apresenta grandes quantidades dos nutrientes necessários para o desenvolvimento das plantas cultivadas, sejam estas pastagens, lavouras ou florestas.

Unindo essa condição de fertilidade às excelentes condições de chuvas e temperatura, pode-se então dizer que esta é uma das regiões com grande potencial produtivo.

Mesmo a elevada acidez que ocorre em muitos solos, associada simultaneamente com altos teores de cálcio e magnésio, não é prejudicial às plantas como em outras regiões do País (Wadt, 2002). Em geral, a principal limitação de uso está na drenagem imperfeita dos solos, o que causa deficiência de oxigênio ao sistema radicular da maior parte das plantas cultivadas.

Algumas das características predominantes nos solos acreanos são:

a) Solos ácidos com alta saturação de bases: possuem acidez relativamente elevada (baixos valores de pH e altos valores de alumínio trocável), embora com altos teores de cálcio, magnésio e de saturação de bases (Fig. 1A).

b) Solos com altas reservas de potássio: são ricos em potássio trocável, possuem extrema acidez (valor muito baixo de pH) e condições de baixa saturação de bases (Fig. 1B).

Geralmente no Estado do Acre, as pastagens, lavouras e, principalmente, a vegetação nativa apresentam bom desenvolvimento vegetativo mesmo quando crescem em solos de elevada acidez, desde que estes solos também apresentem elevada capacidade de troca catiônica (Gama & Kiehl, 1999), sendo essa situação incomum nas outras regiões brasileiras.

Complexo sortivo Cátions trocáveis (c /kg)molc+

Fósforo (em mg/dm ) Acidez ativa Carbono orgânico (em dag/kg) 3

5,5 5,6 1,4 2,4 Mehlich -1 em água Teor carbono Teor Mat. orgânica

Fósforo (em mg/dm ) Acidez ativa Carbono orgânico (em dag/kg) 3

Complexo sortivo Cátions trocáveis (c /kg)molc+

Mehlich -1 em água Teor carbono Teor Mat. orgânica Fig. 1. Exemplos típicos de duas análises (A e B) de solos do Estado do Acre.

11Práticas de Conservação do Solo e Recuperação de Áreas Degradadas

Em geral, todos esses solos apresentam baixa reserva de fósforo, sendo este um elemento muito importante para todas as plantas cultivadas, desde as pastagens até as culturas agrícolas e florestais.

Outra limitação importante é de ordem física e está relacionada à baixa capacidade de infiltração de água, o que os torna menos adaptados à mecanização convencional. Outra desvantagem desses solos tem sido sua associação com problemas de morte de pastagens cultivadas com gramíneas pouco tolerantes ao excesso de água (Brachiaria brizantha cv. Marandu) (Valentim et al., 2000), embora, nesses casos, a presença de fungos fitopatogênicos (Rhizoctonia, Fusarium, Pythium) também possa estar associada à morte das plantas.

Apesar disso, os solos do Estado estão sujeitos a diferentes pressões de degradação e, para evitá-las, a principal medida é o seu manejo racional, fazendo-se uso de práticas conservacionistas que permitam obter máximas produtividades econômicas na exploração agrícola sem que isso comprometa sua capacidade produtiva ao longo do tempo.

Essas medidas são fundamentais para diminuir a pressão por novos desmatamentos, mantendo-se intacta a maior parte das florestas, o que pode garantir a estabilidade dos fatores climáticos (temperaturas estáveis e precipitações abundantes), necessários para aproveitar o alto potencial produtivo das terras do Estado.

12Práticas de Conservação do Solo e Recuperação de Áreas Degradadas

Degradação dos Solos

São muitos e variados os processos que levam à degradação dos sistemas de produção. Em geral, ocorrem em duas fases: a primeira denominada degradação agrícola e, a segunda, degradação biológica.

A degradação agrícola é o processo inicial no qual o sistema apresenta perda da produtividade econômica, com desequilíbrio pela ausência de ações no sentido de mantê-lo no ponto ideal de controle das ervas daninhas e de agentes bióticos adversos (fitopatógenos, pragas), resultando em menor produção da cultura principal. Nessa situação, não há necessariamente uma perda da capacidade do solo em sustentar o acúmulo de biomassa, porém, haverá perdas devido à redução do potencial de produção das plantas cultivadas. Nos sistemas de pastagens do Estado do Acre, principalmente naquelas formadas em sucessão à floresta primária, a degradação agrícola é a forma mais comum e a porcentagem de ervas daninhas é um indicativo do grau de degradação da pastagem (Fig. 2).

No Estado do Acre a degradação agrícola das pastagens tem sido um dos maiores problemas da pecuária, causando queda na capacidade de suporte, elevação dos custos de produção de carne e leite, descapitalização dos produtores e aumento da pressão por novos desmatamentos. Estima-se que atualmente cerca de 60% das pastagens do Estado estejam degradadas ou em processo de degradação (Acre, 2002).

A degradação biológica consiste no processo final no qual há uma intensa diminuição da capacidade de produção de biomassa vegetal e é provocada, primariamente, pela degradação dos solos, ocasionada por diferentes processos que conduzem à perda de nutrientes e de matéria orgânica, e ao aumento da acidez ou da compactação. É nessa fase que os processos erosivos tornam-se evidentes. Provavelmente, para as condições de solo e clima do Estado do Acre, o processo mais importante seja a erosão hídrica, que consiste na perda da camada superficial do solo pelo escorrimento superficial da água.

Há evidências de que os processos erosivos sejam fortes mesmo em áreas de pastagens, o que pode ser constatado pela formação de sulcos e, principalmente, pela alteração da textura do solo nas camadas mais superficiais, em relação às áreas próximas cobertas com vegetação natural (Salimon, 2003).

Fig. 2. Pastagem em estágio avançado de degradação agrícola, onde se observa forte presença de plantas invasoras.

Foto: Paulo Wadt.

13Práticas de Conservação do Solo e Recuperação de Áreas Degradadas

A degradação biológica é o processo mais comum de degradação de pastagens nas Regiões Centro-Oeste e Sul do Brasil (Fig. 3), sendo especialmente importante nos solos menos férteis do Estado do Acre. Nas áreas sob exploração com culturas anuais, a degradação biológica é a principal responsável pela perda de sua capacidade produtiva.

Fig. 3. Pastagem na Região Centro-Oeste do Brasil com sinais de degradação biológica (perda da capacidade de produção de biomassa).

Práticas de Conservação dos Solos

A erosão é o principal processo que remove os nutrientes depositados no solo logo após a queima da floresta, conduzindo-o à degradação biológica em poucos anos. As perdas de solo e água pela erosão são especialmente intensas nas condições de alta pluviosidade que predomina em toda a Região Amazônica.

Os processos erosivos são intensificados pela exposição direta do solo ao contato com a água das chuvas e pela mineralização da biomassa vegetal logo após o uso do fogo para a limpeza das áreas. Por esse motivo, evitar o uso do fogo no manejo de pastagens e áreas cultivadas é fundamental para diminuir a intensidade dos processos erosivos.

A perda de nutrientes é especialmente crítica para o fósforo, um elemento importante para as plantas e que se encontra em baixas reservas nos solos. Nos sistemas naturais, a maior parte do fósforo mais rapidamente disponível para as plantas está retida na biomassa vegetal e, no processo de derrubada e queima, esse nutriente é incorporado às cinzas, atuando como o principal responsável pelos melhores índices de produtividade nos primeiros anos após a derrubada.

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