Parasitas manipuladores

Em geral, os parasitas prejudicam seus hospedeiros, mas não os levam à morte, pois dependem dos hospedeiros para sua sobrevivência. Há, porém, exceções, e uma das mais interessantes é a bactéria Wolbachia (parente próxima da Escherichia coli). Esse microrganismo espalhado pelo globo é um parasita com um interesse de longo prazo no seu anfitrião invertebrado. Essa bactéria vive dentro de células e é transmitida para a geração seguinte, invadindo os óvulos do seu hospedeiro. Dentre as táticas de manipulação que usa estão o assassinato da prole masculina e a conversão de machos em fêmeas. A Wolbachia é transmitida pelos óvulos, e não pelo espermatozóide. Esse tipo de propagação implica um alto interesse em hospedeiras femininas. Como não-transmissores, os machos podem ser considerados prisões celulares para a bactéria.

Estima-se que mais de 20 milhões de espécies podem abrigar a Wolbachia. A bactéria está presente não apenas nos insetos; mas também em crustáceos, ácaros e nematódeos.

Uma das formas de manipulação exercidas pela Wolbachia é a distorção das proporções de machos e fêmeas – normalmente de um para um – das populações de seus hospedeiros. Os machos são raríssimos, como, por exemplo, em alguns grupos da borboleta-africana Acraea encedon e do tatuzinho-de-quintal Armadillidium vulgare. No primeiro caso, mais de 90% das fêmeas dessa borboleta contêm o parasita. Supõe-se que o microrganismo mata os machos em prol de seus semelhantes, que estão infectando as irmãs dos hospedeiros. Como não é transmitida pelo espermatozóide, a Wolbachia num macho está condenada a morrer, exterminando também seu hospedeiro. Isso não só ajuda na multiplicação de sua própria espécie, como também proporciona alimento para as borboletas fêmeas que estão nascendo: como o assassinato acontece antes de os hospedeiros chocarem seus ovos, toda uma prole de machos não-chocados serve de refeição para o resto da ninhada. Nos tatuzinhos, a Wolbachia muda o sexo de machos — que não transmitem a bactéria —, convertendo-os em fêmeas. Com isso, a bactéria transforma o hospedeiro em transmissor capaz de repassar a infecção à sua prole. Como o tatuzinho macho contém todos os genes necessários para se tornar fêmea, a Wolbachia simplesmente bloqueia em seu hospedeiro o desenvolvimento da glândula produtora do hormônio que induz as características masculinas, levando o inseto a desenvolver-se como fêmea. Outra forma de manipulação exercida pela Wolbachia acontece quando há interferência nos cruzamentos de seus hospedeiros, denominada incompatibilidade citoplásmica. Para alcançar esse objetivo, a bactéria libera toxinas no citoplasma do espermatozóide dos machos infectados que estão cruzando com fêmeas não-infectadas, esterilizando-o. As barreiras que impedem o livre fluxo de genes entre populações são importantes na especiação. O exemplo clássico desse caso é a separação física, como o surgimento de uma cadeia de montanhas, que pode dividir uma população antes homogênea em duas diferentes. Mas alguns biólogos questionam se os obstáculos ao fluxo de genes provocados por microrganismos como a Wolbachia seriam suficientes para permitir que uma população se bifurcasse geneticamente sem a existência de uma barreira física. A Wolbachia poderia ser um agente chamado de especiação infecciosa? A resposta a essa pergunta ainda vai demorar, pois um processo de bifurcação de espécies leva muito tempo para se completar. Mas duas espécies de vespa nas quais a bactéria está presente, a Nasonia vitripennis e a N. giraulti (ambas encontradas no leste da América do Norte), podem ser as primeiras a comprovar a influência da Wolbachia nesse sentido. Pesquisadores das universidades de

Amsterdã (Holanda) e de Rochester (EUA) descobriram que as barreiras para um cruzamento bem-sucedido entre essas espécies não são determinadas apenas por diferenças entre as vespas em si. Quando as duas espécies são tratadas com antibióticos, os cruzamentos entre ambas produzem insetos férteis; sem os medicamentos, cada espécie de vespa contém uma cepa diferente do parasita, o que resulta numa prole inviável e aponta para uma incompatibilidade citoplásmica bidirecional entre os hospedeiros.

Traduzido e adaptado por Sônia Lopes e Eduardo Araia com base no artigo “Parasitic sex puppeteers”, escrito por Laurence D. Hurst e James P. Randerson e publicado na revista Scientific American, Abril 2002, p. 42-47.

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