Atualização do cuidar

Atualização do cuidar

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Atualização do cuidar Atualização do cuidar

Recibido: 28 de enero de 2008 Aceptado: 3 de abril de 2008

RESUMO O presente artigo tem como objetivo divulgar uma série de idéias acerca do cuidado, a fim de contribuir para uma reflexão sobre a prática do cuidar no cenário da enfermagem. É uma síntese sobre os aspectos que fundamentam a natureza e o conhecimento do cuidar desde uma perspectiva filosófica e propõe algumas definições, como cuidado humano, cuidado na enfermagem, relações de cuidado, entre outras.

PALAVRAS-CHAVE: Enfermagem, cuidado, cuidar.

Nuevas ideas sobre el cuidado

RESUMEN El presente artículo tiene como objetivo difundir una serie de ideas acerca del cuidado, pretendiendo con esto, contribuir para una reflexión sobre la práctica del cuidar en el cotidiano del escenario de la enfermería. Presenta una síntesis sobre los aspectos que fundamentan la naturaleza y el conocimiento del cuidar bajo la perspectiva filosófica y plantea algunas definiciones tales como: cuidado humano, cuidado de enfermería, relaciones de cuidado, entre otras.

PALABRAS CLAVE Enfermería, cuidado, cuidar.

New Ideas about Care

ABSTRACT The aim of this article is to circulate a series of ideas on care in the hope of fostering reflection on care practices in everyday nursing scenarios. It offers a summary of the aspects that substantiate the nature and understanding of care from a philosophical point of view, and proposes definitions of human care, nursing care and care relationships, among others.

KEY WORDS Nursing, attention, care

ISSN 1657-5997 - AÑO 8 - VOL. 8 Nº 1 - CHÍA, COLOMBIA - ABRIL 2008 85-96

Vera Regina Waldow1

1 Profesora jubilada por la Universidad do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, Brasil. Doctora en Educación-Enfermería. waldowvr@portoweb.com.br

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AQUICHAN - ISSN 1657-5997

Introdução

As idéias emitidas no presente texto são de autoria e, portanto, de inteira responsabilidade da autora que, ao longo de quase duas décadas, vem pesquisando e estudando sobre o tema do cuidado. Primeiramente houve uma preocupação em divulgar o tema cuidar/cuidado (1, 2), inspirado em alguns trabalhos de teoristas e estudiosas do tema, como Madeleine Leininger (3), Jean Watson (4) e Sister Simone Roach (5), entre outras. Após algum tempo, a autora iniciou a publicar trabalhos nos quais expunha suas próprias idéias (6), as quais, por sua vez, evoluíram com o passar do tempo. A sua trajetória pode ser constatada nas suas publicações mais recentes (7, 8, 9).

Contribuíram para muitas das idéias, igualmente, discussões com grupos de colegas de pesquisa, seminários e cursos realizados, além de constante investigação sobre a temática. Atualmente seu trabalho é orientado pela linha filosófica, sendo Heidegger (10) seu referencial de partida; assim mesmo com pelas contribuições de outros autores, da mesma linha, como Boff (1); Mayeroff (12); Noddings (13) e Torralba (14, 15).

Neste texto, o cuidar será analisado buscando captar o seu sentido mais amplo: o cuidado como uma forma de ser, de se expressar, de relacionar-se consigo mesmo, com o outro ser e com o mundo (6, 8).

O que se propõe é uma releitura ou uma resignificação do cuidado, visualizando-o como uma ação moral, portanto permeado de valores, e também como um sentimento. Envolve, conforme Griffin (16), além de atividade, o aspecto de atitude em que são expressos os sentimentos. Para a autora, as atividades de cuidar só podem ser realmente cuidado ao serem desempenhadas quando estão acompanhadas de um comportamento emocional.

Como se verá a seguir, o cuidado é um fenômeno existencial, relacional e contextual.

Existencial porque faz parte do ser, lhe confere a condição de humanidade; relacional porque ocorre em relação com outro ser, se revela na co-existência com outros seres; contextual porque assume variações, intensidades, diferenças nas maneiras e expressões de cuidar conforme o meio em que ocorre (8).

Gênese do cuidar

Uma curiosidade em saber como se originou, se desenvolveu e como tem se manifestado o cuidar na humanidade, fez com que se investigasse a respeito. Contudo, o que se conseguiu são apenas aproximações, suposições daquilo que se infere e acredita serem hábitos e comportamentos de cuidar.

De modo informal e rudimentar, o cuidar inicia-se de duas formas: como um modo de sobrevivência e como uma expressão de interesse e carinho em relação com outro ser; portanto, relacional (6, 8).

A história das civilizações nos brinda alguns registros. Nos diferentes períodos imprimiram, em forma de arte, muitos dos seus hábitos e rituais de seu cotidiano, de sua

Atualização do cuidar cultura. Através de algumas disciplinas, como a Arqueologia e a Antropologia, consegue-se deduzir algumas evidências de como os povos se desenvolveram através dos tempos, se movimentando entre hábitos, ações e comportamentos de cuidado e não-cuidado.

O ser humano é um ser de cuidado; o ser nasce com este potencial, portanto, todas as pessoas são capazes de cuidar (5) e necessitam, igualmente, de serem cuidadas. Porém, esta capacidade será mais ou menos desenvolvida de acordo com as circunstâncias, dependerá da forma como as pessoas foram cuidadas durante as etapas da vida. Vários fatores intervêm neste processo: ambiente, cultura, economia, política, religião, entre outros.

Ao pinçar alguns momentos da evolução humana e os sucessivos eventos através dos séculos não se consegue caracterizar, de forma fidedigna, o comportamento das pessoas nas suas culturas, em termos de cuidado. Atualmente já é possível resgatar muitas informações através da tecnologia, das descobertas e métodos exploratórios, assim como de estudos e investigações utilizando metodologias variadas. No entanto, o que ficou no passado permanece um mistério e é fonte de suposições e especulações. Muitos segredos, ainda sobre antigas civilizações, estão sendo descobertos.

A autora do presente trabalho oferece uma visão histórica sobre o cuidado, buscando resgatar informações sobre esta categoria, desde o início da humanidade, as primeiras civilizações, antes e após o cristianismo e nos tempos mais modernos (6, 8).

Pode-se considerar que o ser humano foi progredindo nas suas necessidades, através dos tempos, as quais lhe exigiram o desenvolvimento de habilidades e capacidades não só físicas e biológicas para a adaptação ao meio e às circunstâncias, mas também mentais, emocionais e sociais. Os recursos e os comportamentos de cuidado à sobrevivência assumem assim características estéticas, pois os seres humanos imprimem cultura e história nas suas pinturas e esculturas de figuras e objetos de uso doméstico, os quais descrevem eventos do dia-a-dia, crenças, devoções, etc. Além da expressão artística, o ser humano tenta comunicar experiência, conhecimento e sentimentos. Dessa maneira, a arte como forma de expressão cultural, de comunicação e de expressão de sentimentos, registra a história, a cultura de um povo e as formas e rituais de cuidado.

O que se pode concluir é que o ser humano, infelizmente, em sua história, apresenta paradoxos e ambigüidades entre comportamentos de cuidado e não-cuidado: as guerras, os progressivos e cada vez mais sofisticados arsenais para uso militar, verdadeira obsessão dos homens, são responsáveis pela dizimação de milhares e milhares de pessoas. As descobertas científicas e o avanço industrial e tecnológico, de um lado, têm beneficiado populações no mundo inteiro, e de outro, acarretam tragédias em função do prazer do ser humano em exercitar seu poder.

Foley (17) recorda que, desde o final do Pleistoceno, há cerca de 10.0 anos, o meio ambiente tem sido transformado pela atividade humana. Ele menciona a destruição de florestas; a modificação do curso ou o desaparecimento de rios em função das necessidades humanas; o incrível aumento da população e a alteração de tamanho e forma das plantas e animais; a criação, inclusive de novas espécies. A engenharia genética e a biotecnologia têm acelerado esse processo e possibili-

O ser humano é um ser de cuidado; o ser nasce com este potencial, portanto, todas as pessoas são capazes de cuidar (5) e necessitam, igualmente, de serem cuidadas.

88AÑO 8 - VOL. 8 Nº 1 - CHÍA, COLOMBIA - ABRIL 2008

AQUICHAN - ISSN 1657-5997 tado coisas inimagináveis até certo tempo atrás, como clonagem, entre outras técnicas. Em outro sentido, observa Foley, o desaparecimento crescente de muitas espécies e a redução da biodiversidade parece não só uma ameaça, mas sim uma realidade. Em contrapartida, doenças têm sido erradicadas, a mortalidade tem sido reduzida, o trabalho se tornado simplificado, e as oportunidades de realização parecem ter-se ampliado. A violência, contudo permanece ou aumenta, ou ainda simplesmente assume nova cara; novas doenças surgem, outras reaparecem. A população envelhece e os jovens morrem vítimas de acidente, de homicídio e de drogas. Os governos tornam-se cada vez mais corruptos, a ética torna-se questionável.

Considerando-se a idéia de caracterizar o cuidar como um modo de sobrevivência, a humanidade ainda demonstra essa forma de cuidado, agora bastante mais exigente e sofisticada. Por vezes não mede conseqüências, pois a luta agora é bem mais competitiva, e o ser humano é mais individualista. O bem-estar passou a significar ter, possuir coisas, adquirir bens e, por vezes, não importa a que custo.

Quanto ao cuidar como uma forma de se relacionar, parece que vivemos um paradoxo. A hostilidade, o ódio, a violência, a desonestidade e o medo convivem com a solidariedade, a afetividade, o amor, a luta pela paz, pelo respeito, pela esperança. No final quem vence?

Pensa-se que o cuidado “humano” é “uma atitude ética em que seres humanos percebem e reconhecem os direitos uns dos outros”. As pessoas se relacionam numa forma a promover o crescimento e o bem-estar dos outros (6: 43). Considerando-se dessa forma, pode se questionar qual é a ética que impera atualmente.

O cuidar sob a perspectiva filosófica

O ser humano, além de atuar no mundo, sente a necessidade de explicar o porquê de suas ações, a razão de seus atos, e pensar as razões de cuidar, assim como justificar tal atividade. Isso constitui uma tarefa básica não somente para compreender-se a si próprio, mas também para exigir de si mesmo e de seus semelhantes uma ação compatível com sua dignidade moral.

A interpretação filosófica do cuidar tem sua fundamentação em Martin Heidegger. Para entender sua interpretação, é necessário falar brevemente antes do ser que habita o cuidar.

Ser implica que alguém está em vias de tornar-se algo, um “vir a ser”. O homem é entendido como um projeto inacabado, um “sendo” que se interroga acerca do ser, entidade que está em condições de refletir sobre seu próprio ser. A presença é o ente do ser, e o sentido existencial da presença é a cura ou cuidado. O ser é uma realidade difícil de definir; por exemplo, é mais fácil compreender que não se é um outro.

“Sendo-com-os outros” é a característica fundamental que Heidegger (10) descobre no existir do ser humano. O ser humano só pode definir-se a partir do seu existir, de sua possibilidade de ser ou não ser o que ele é.

Dasein, que significa o ser-aí, quer dizer o modo de existir do homem, único entre os existentes. É a compreensão de ser e a sua revelação. Dasein está em relação básica com o ser, cuja filosofia é a explicitação da compreensão do existir

Considerando-se a idéia de caracterizar o cuidar como um modo de sobrevivência, a humanidade ainda demonstra essa forma de cuidado, agora bastante mais exigente e sofisticada.

Atualização do cuidar pelo existente. Na análise do Dasein, verifica-se que ele é essencialmente estar no mundo. O mundo e o Dasein estão em relação interna, não havendo sentido em conceber Dasein fora do mundo. Dasein está sempre criando, cuidando, preocupado e em desassossego com o mundo num estado de busca constante e jamais alcança a totalidade. A existência autêntica é sempre uma inquietude de ser, uma luta com o não-ser (10).

Ser-no-mundo é essencialmente zelar, cuidar, existir ao lado das coisas e dos seres, ter interesse, ser-com-os-outros que encontramos no mundo, o que corresponde ao que Heidegger denomina de “solicitude”. A relação de ser com os outros se caracteriza pela maneira como age, sente e pensa no convívio com seus semelhantes. O cuidar, o relacionar-se com outro é a estrutura fundamental do ser-aí.

Cuidar se expressa pela relação com o outro dentro do mundo. Existencialmente falando, significa “zelar”; é o desvelar do outro, orientado pela consideração e paciência. O cuidar põe em evidência o serlivre. O ser humano sem “cuidado” não pode ser livre.

As duas partes envolvidas na relação, ser cuidado e cuidador, contribuem para ele; existe responsabilidade, compromisso. O cuidado deve ser, de alguma forma, completado no outro para assim ser descrita como uma relação de cuidado. A relação é o reconhecimento do encontro humano que implica uma resposta afetiva.

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