Os adubos e a eficiência das adubações

Os adubos e a eficiência das adubações

(Parte 3 de 15)

Deve-se notar que o produto resultante da mistura de dois fertilizantes simples apresenta menor umidade relativa crítica, isto é, maior higroscopicidade. Numerosos são os inconvenientes de um fertilizante úmido ou que apresente forte tendência para tal: queda no teor de nutrientes, dificuldade de manuseio e de distribuição, diminuição da resistência das partículas, aderência nos condicionadores, além da umidade ser a principal responsável pelo empedramento dos fertilizantes, o que será visto a seguir.

3.3. Empedramento: é a cimentação das partículas do fertilizante formando uma massa de dimensões muito maiores que a das partículas originais.

Resulta da recristalização do material dissolvido na superfície das partículas umidecidas, o que ocorre através da perda da umidade absorvida, quando diminui a umidade relativa do ar ou a temperatura se eleva.

Diversos são os fatores que influem no empedramento: natureza do material, higroscopicidade, pressão (devida ao empilhamento), tempo de armazenamento, tamanho e forma das partículas. Vários, também, são os métodos que podem ser empregados para prevenir ou minimizar o empedramento: granulação, revestimento dos grânulos com material anti-empedrante, secagem do produto, etc. Um fertilizante empedrado acarreta dificuldades na sua distribuição mecânica e na uniformidade das adubações.

Quadro 1. Índice salino de diversos fertilizantes, determinado em relação ao nitrato de sódio tomado como índice 100.

Fertilizantes Índice salino

Nitrato de sódio Nitrato de amônio Sulfato de amônio Fosfato monoamônico Fosfato diamônico Nitrocálcio Uréia Amônia anidra Superfosfato simples Superfosfato triplo Cloreto de potássio Sulfato de potássio Sulfato de potássio e magnésio

3.4. Índice salino: é o aumento da pressão osmótica da solução do solo provocada pela salinidade do adubo (Quadro 1). Osmose é o caminha-mento de solvente (água) através de membranas semi-permeáveis, no sem-tido da solução de menor pressão osmótica para a de maior pressão osmó-tica. Assim, se a pressão osmótica da solução do solo tornar-se superior à da solução celular das raízes, temse o caminhamento da água da célula para o solo, com o conseqüente murchamento e, normalmente, a morte da planta. As plantas novas são as que mais sentem os efeitos da salinidade.

O sucesso de uma adubação depende de uma série de fatores, direta e indiretamente ligados a essa prática.

1. Fatores diretos

Dentre os fatores diretos, destacam-se:

1.1. Qualidade dos fertilizantes: conforme visto no capítulo anterior, são numerosas as características apresentadas pelos fertilizantes que têm relação com a sua qualidade. Algumas características são de âmbito geral, isto é, dizem respeito à qualidade de qualquer produto, como, por exemplo, consistência dos grânulos, segregação, fluidez, higroscopicidade, empedramento. Outras, porém, dependem da situação agrícola em que o produto vai ser utilizado, como por exemplo, estado físico, número, forma química e concentração de nutrientes e solubilidade.

Assim, não se podem definir as características-padrão de qualidade. As melhores características de qualidade devem ser eleitas em função das condições em que o produto vai ser usado, eleição essa que deve ser feita através de um criterioso estudo técnico. O engenheiro agrônomo deve estar capacitado para isso.

1.2. Solo: as características físicas, químicas, físico-químicas e orgânicas do solo influem de maneira decisiva na eficiência dos adubos.

As características físicas como textura, estrutura e porosidade são fatores determinantes para o armazenamento, mobilidade e, principalmente, perdas de fertilizantes adicionados pelas adubações, perdas essas que podem ser por lixiviação ou lavagem dos nutrientes, ou erosão.

As características químicas estão relacionadas com a natureza dos minerais do solo e a disponibilidade de nutrientes presentes no solo, subsi-dio esse fundamental para a recomendação da dose de adubação, assim como as transformações a que os nutrientes adicionados ao solo estarão sujeitos.

As características físico-químicas dizem respeito, principalmente, à capacidade de troca ou retenção de cátions e ao pH. A primeira reflete a capacidade de armazenamento de nutrientes catiônicos pelo solo, além da qual esses nutrientes ficam mais sujeitos à lixiviação.

O pH, que é um índice que indica o grau de acidez do solo, é de ex-trema importância, porque determina a disponibilidade dos nutrientes contidos no solo ou a ele adicionados (Figura 2) e também a assimilação dos nutrientes pelas plantas (Quadros 2 e 3). Considerando-se que a maioria dos solos brasileiros apresentam acidez média a alta, a sua correção, ou seja, a calagem, é um fator decisivo na eficiência das adubações, conforme mostram os dados do Quadro 4. Adubar o solo ácido é desperdiçar férti-lizante.

As características orgânicas são de inestimável valor, uma vez que melhoram as características físico-químicas e biológicas principalmente e, com isso, possibilitam um desempenho muito melhor dos fertilizantes minerais.

O conhecimento de todas essas características de um determinado solo é obtido através da análise física e química.

Figura 2. Efeito do pH na disponibilidade dos nutrientes e do alumínio no solo (Malavolta, 1979).

Quadro 2. Estimativa de variação porcentual na assimilação dos principais nutrientes pelas plantas, em função do pH do solo (PNFCA, 1974; EMBRAPA, 1980).

PH

Elementos 4,5 5,0 5,5 6,0 6,5 7,0

Nitrogênio Fósforo Potássio Enxofre Cálcio Magnésio

Médias 26,7 46,2 64,2 79,5 93,8 100

Quadro 3. Produção relativa de algumas culturas, no Brasil, em função do pH (produção máxima obtida = 100) (Malavolta, 1983).

Aumento de produtividade devido à calagem(*)

Quadro 4. Ganhos de produtividade devido à calagem (Malavolta, 1986). (*) Em relação ao tratamento sem calagem e com adubo.

1.3. Recomendação equilibrada, qualitativa e quantitativa: na prática da adubação é amplamente conhecida a famosa “lei do mínimo” de Liebig, isto é, a produção fica limitada pelo nutriente que se encontra em menor disponibilidade. Essa lei pode ser entendida representando-a por um recipiente de bordas irregulares na altura (Figura 3): a capacidade do recipiente fica limitada à menor altura da borda.

Cultura 4,7 5,0 5,7 6,8 7,5

Milho Trigo Aveia Centeio Alfafa Trevo doce Trevo vermelho Soja

Médias 32,3 47,0 71,9 97,5 97,1

Cultura Esta Kg/ha %

Arroz Batata Feijao Milho Soja Trigo Algodão Cacau Café Cana (2 safras)

850 14.0 400 2.400 1.100 300 2.500 250 720 53.0

Figura 3. Representação da “lei do mínimo” de Liebig.

Portanto, a recomendação da adubação deve contemplar as espécies de nutrientes necessárias e a sua quantidade. Quanto à quantidade ou dose deve-se considerar uma outra lei, a “lei dos acréscimos decrescentes”, e também o aspecto econômico: as adubações não devem visar à produtividade máxima, mas à produtividade que proporcione o maior lucro, isto é, a produtividade máxima econômica, o que será comentado no Capítulo VII.

1.4. Época de aplicação: produtos de baixa solubilidade devem ser aplicados com antecedência para que tenham oportunidade de se dissolverem. Produtos solúveis deveriam ser aplicados nas fases de sua maior exigência pela cultura, uma vez que, no solo, podem ficar sujeitos a perdas. É óbvia a dificuldade desse procedimento: porém, algumas práticas como a do parcelamento, principalmente dos nitrogenados, é um fator importante na eficiência.

1.5. Forma de aplicação ou localização: os adubos de baixa solubilidade devem ser aplicados em área total e bem incorporados ao solo, a fim de que os fatores solubilizantes possam melhor agir. Os adubos solúveis devem ser aplicados mais localizados, próximos às raízes, para diminuir as perdas.

1.6. Uniformidade da distribuição: a dose de adubo recomendada deve ser distribuída uniformemente por toda a área, observada a forma de aplicação indicada. Isso depende da qualidade dos equipamentos aplicadores, da sua regulagem e operacionalidade corretas, mas depende também de alguns aspectos de qualidade do fertilizante, como segregação, higroscopicidade, empedramento e fluidez.

2. Fatores indiretos

Dentre os fatores indiretos, dos quais depende o sucesso das adubações, estariam todos aqueles que influem na produção agrícola:

2.1. Umidade do solo: as plantas só absorvem os nutrientes que estão na solução do solo. Portanto, a presença de água é fundamental, quer proveniente de chuvas ou de irrigação. Em solo seco a eficiência dos fertilizantes é altamente prejudicada. Por outro lado, o excesso de água também é maléfico, porque acentua a perda por lixiviação.

2.2. Planta: as diferentes espécies de plantas respondem diferentemente ao efeito dos fertilizantes. Mas dentro de uma mesma espécie há variedades com maior capacidade de aproveitamento dos fertilizantes, sendo portanto mais responsivas ao efeito dos adubos e, conseqüentemente, mais produtivas.

2.3. Outros: a eficiência dos fertilizantes está também sujeita a uma serie de outros fatores indiretos, como preparo adequado do solo, espaçamento, combate às ervas daninhas, pragas e moléstias, fatores esses que dificultam ou impedem a plenitude da ação dos fertilizantes e, conseqüentemente, o seu aproveitamento pelas plantas.

Os nutrientes adicionados ao solo pelos adubos podem sofrer perdas. O conhecimento das causas das perdas é importante, pois evitando-as ou minimizando-as pode-se melhorar a eficiência dos adubos.

As principais possibilidades de perdas de nutrientes no solo são: 1. Erosão

É o desagregamento e arraste de solo provocado principalmente pela água.

Estima-se que o Brasil perde, por erosão laminar (água que corre sobre a superfície do solo), cerca de 500 milhões de toneladas de terra anualmente. Portanto, no estabelecimento de uma cultura é imprescindível um planejamento técnico de conservação do solo.

2. Lixiviação ou percolação

É a perda de nutrientes pela lavagem do solo no sentido vertical. A esse tipo de perda estão sujeitos os fertilizantes solúveis e principalmente os ânions

(Parte 3 de 15)

Comentários