(Parte 2 de 4)

1.3.2.1 Principais efeitos

1°. Aumento do crescimento corporal, devido à sua ação sobre a cartilagem epifisária: muitos dos efeitos sobre o crescimento são mediados indiretamente, já que se operam somente após a produção hepática GH induzida de somatomedinas.

2°. Ação anabólica, que aumenta a incorporação de aminoácidos pelas células com aumento da síntese de RNA e proteínas tanto pelo fígado quanto por tecido periférico.

3°. Efeito hiperglicemiante, um efeito antiinsulínico (pró-diabético) que envolve a redução na captação periférica de glicose (resistência periférica à ação da insulina) além de aumento na produção hepática de glicose, por estímulo à gliconeogênese.

4°. Aumento no teor de glicogênio, nos músculos esqueléticos e cardíaco.

5°. Efeito cetogênico, a administração contínua de GH produz a hipercetonemia, cetonúria e hipercetonemia, cetonúria e acúmulo de gordura no fígado (aumento na mobilização de gorduras).

1.3.3 Somatostatina:

O responsável pela inibição de secreção do GH, a somatostatina, é um tetradecapeptídeo. TSH ou Hormônio Estimulante da Tireóide, também conhecido pelo nome de tireotropina e tireotrofina, esta substância atua sobre receptores de membrana de célula folicular da tireóide induzindo elevação na formação de tireoglobulina, elevação na velocidade de captação e digestão do colóide e estímulo à divisão celular folicular. Com isso, pode-se verificar aumento no tamanho da glândula e da produção do hormônio pela mesma. O segundo mensageiro da tirotropina, o qual medeia a ação intracelular do TSH, é o AMP cíclico.

1.3.4 Prolactina

A prolactina executa pelo menos três diferentes efeitos:

1°- Anabólico: semelhante ao do GH, porém de muito menor intensidade biológica.

2°. Mamotrófico e Lactogênico: o tecido mamário não cresce adequadamente se além de estrógenos, glicocorticóides e GH também existir níveis adequados de prolactina. A lactogênese depende da indução de síntese, na célula da glândula mamária, da caseína (proteína do leite) e da alfalactoalbumina (uma substância envolvida na síntese do açúcar específico do leite, a lactose).

3°. Antigonadotrópico: em condições de hiperprolactinemia; como a que ocorre durante a lactação pós-parto, é freqüente a ocorrência de amenorréia; a prolactina atua inibindo a esteroidogênese induzida pela gonadotropina sobre os ovários, além de reduzir a sensibilidade hipotalâmica aos sinais habitualmente envolvidos na produção do GnRH (liberador de gonadotropina).

1.3.5 ACTH (hormônio adrenocorticotrófico)

Sua ação principal consiste em elevar a velocidade de conversão de colesterol em pregnenolona, reação limitante da síntese de esteróides, razão porque seu efeito é aumento da síntese e secreção de esteróides supra-renais.

1.3.6 Gonadotrofinas: FSH, LH:

Serão abordados quando do estudo do Ciclo Menstrual, Hormônios Neurohipofisários.

1.3.7 Vasopressina (ADH)

A vasopressina acelera a reabsorção de água ao nível dos túbulos distais renais, resultando na eliminação de urina mais concentrada. A este efeito deu-se o nome de Hormônio Antidiurético. No homem, 0,1 mg produz efeito antidiurético máximo. Devido ao rápido metabolismo hepático, a meia vida do ADH é de apenas 12 minutos. Em elevadas concentrações, o ADH induz constricção de arteríolas. Nas células hipotalâmicas que sintetizam ADH existem osmorreceptores altamente sensíveis, capazes de detectar alterações de apenas 2% na osmolalidade.

1.3.8 Oxitocina

Palavra derivada do grego (oxytos, "nascimento rápido"), este hormônio determina a contração da musculatura lisa do útero, além da contração de células mioepiteliais da mama, determinando desse modo e expulsão de leite previamente formado por atuação da prolactina (este efeito é chamado "ejeção de leite"). O principal estímulo para a liberação da oxitocina é a sucção da mama. O controle da secreção de ADH e oxitocina são independentes, de modo que a sucção do mamilo não resulta em secreção aumentada de arginina-vasopressina, ou vice-versa. Outros neurônios geram axônios que se dirigem à região da eminência média, liberando suas secreções nos capilares que existem em grande escala nessa região. Esses capilares formam a primeira região capilar do sistema porta hipofisário; eles se agrupam em vênulas e veias portais, as quais atravessam toda a região tuberosa da adeno-hipófise. Praticamente todo o sangue que atinge a adeno-hipófise passou previamente pela eminência média, de forma que pequenas quantidades de hormônios aí lançados pelo hipotálamo resultam em grande efeito sobre as células alvo adenohipofisárias, uma vez que elevadas concentrações são aí encontradas, pois o volume de distribuição dos mesmo é muito pequeno (= há muito pouco sangue contido aí). Os Hormônios Hipotalâmicos que regulam a hipófise são denominados hipofisiotrópicos. Até o momento, foram identificados 5 (cinco) diferentes moléculas hipofisiotrópicas:

  • CRH (hormônio Estimulante da Liberação de ACTH)

  • TRH (hormônio Estimulante da Liberação de TSH)

  • GnRH (hormônio Estimulante da Liberação de Gonadotropinas -FSH e LH)

  • GHRH (hormônio Estimulante da Liberação de GH)

  • GHRIH (hormônio Inibidor da Liberação de GH - que é a somatostatina)

  • PRIH (hormônio Inibidor da Liberação de Prolactina - que é a Dopamina)

1.3.9 Mecanismo de ação do GH

Os efeitos lipolíticos e antiinsulina se devem à sua ação direta, enquanto que sobre o crescimento, como já exposto, se dá diretamente por elevar o teor de somatomedinas no plasma. Denominam-se somatomedina as substâncias que possuem a capacidade de elevar a captação de sulfato marcado no ácido condroitin-sulfúrico da cartilagem. Pelo menos seis somatomedinas já foram até o momento identificado, a saber:

  • somatomedina A

  • somatomedina B

  • somatomedina C

  • IGF-I (fator I do crescimento, semelhante à insulina)

  • IGF-II (fator II do crescimento, semelhante à insulina)

Atividade estimulante de multiplicação (estimula cultura de células hepáticas). Como as somatomedinas são diretamente controladas pelos níveis de GH, seus níveis plasmáticos são muito baixos após hipofisectomia e estão extremamente elevados na acromeglia.

1.3.9.1 Mecanismo de secreção do GH

Diversos estímulos geram aumento no teor plasmático de GH: sono, exercícios, hipoglicemia, inanição, depleção protéica e estresse são os mais importantes. A secreção do hormônio do crescimento ocorre de modo pulsátil, com muitos surtos pequenos ao longo do dia. Níveis elevados de GH inibem a secreção de GH-RH pelo hipotálamo, fenômeno conhecido pelo nome de retroalimentação negativa de alça-curta.

1.3.10 Mecanismo de ação da Prolactina

É curioso salientar que a prolactina exerce sobre seus receptores na célula-alvo uma ação absoluta célula-alvo uma ação absoluta oposta àquela exercida normalmente pelos demais hormônios: a prolactina eleva a quantidade de receptores na célula alvo. Isto é conhecido como "upregulation": quanto mais hormônio, maior o número de receptores na célula-alvo e, portanto, maior a sensibilidade tecidual á sua ação. É desconhecido o mecanismo pelo qual a prolactina induz seus efeitos após a interação com seu receptor.

1.3.11 ACTH

É, além de trópico, um hormônio trófico: o uso crônico de glicocorticóides como antiinflamatório é comum, e leva à supressão da produção de ACTH hipofisário. Após corticoterapia de longa duração a córtex adrenal pode estar atrofiada por falta do estímulo trófico do ACTH, podendo o paciente morrer de crise addisoniana (insuficiência suprarenal aguda) se ocorre suspensão abrupta da corticoterapia.

1.3.12 Biossíntese e secreção

Os hormônios neuro-hipofisários são formados nos núcleos supraóptico e paraventricular do hipotálamo, por células distintas. Uma vez formados, são transportados como complexos ligados às neurofisinas (neurofisina I: liga-se à oxitocina; neurofisina II: liga-se ao ADH), sendo armazenados para posterior liberação no lado posterior (neurohipófise).

1.4 A Glândula Tireóide

Esta glândula deriva seu nome da raiz grega que significa "escudo" (tyros, escudo; óides, semelhante a). Enquanto glândula endócrina, a tireóide não possui quaisquer ductos por onde possa liberar sua produção; tem dois lobos ligados por um ístmo que descansa na porção anterior da traquéia, logo abaixo da cartilagem cricóide. A tireóide destingue-se das demais glândulas endócrinas por uma série de razões, sendo a mais curiosa o fato de armazenar um estoque de hormônio tireoidiano numa quantidade suficiente para satisfazer o consumo de até 130 dias! Tal característica representa verdadeira temeridade, pois implica potencial perigo de vida caso quantidades elevadas desse hormônio estocado seja eventualmente liberado de modo agudo para a corrente sangüínea. Embora seja uma condição cada vez mais rara, essa alteração endócrina de graves repercussões metabólicas eventualmente ocorre, determinando o fenômeno descrito como "tempestade tiroidiana". A explicação para a existência desse extraordinário estoque de hormônios foi encontrado através de estudos conduzidos em animais inferiores, nos quais a glândula tireóide se apresenta não como glândula endócrina, e sim como glândula exócrina. Nesse caso, existem túbulos que confluem para ductos de secreção que permitem a liberação da tireoglobulina para o tubo digestivo, onde sofre digestão pelas proteases gastrintestinais; assim os hormônios tireoidianos passam para a corrente sangüínea por absorção a partir da luz intestinal. A tireóide desempenha, então, seu papel hormonal sem que o animal corra risco de vida pelo acúmulo do hormônio tiroidiano potencialmente fatal no interior do organismo.

O estudo da glândula tireóide é relativamente antigo, dada a facilidade de acesso para estudo. A condição mais freqüentemente relacionada à tireóide é o bócio endêmico. Bócio é o nome dado a qualquer aumento da glândula tireóide além de seus 40g. No passado, o bócio era uma condição tão freqüente que era considerado deselegante não possuí-lo!

1.4.1 Aspectos filogênicos

Tirosina iodada, como MIT (monoiodotirosina) e DIT (diiodotirosina) são encontrados já nos invertebrados, tais como moluscos, crustáceos, anelídeos e mesmo insetos. Apesar disso, nenhum tecido tiroidiano foi encontrado nestes animais; de fato, somente nos vertebrados pode ser encontrado tecido reconhecível como tiroidiano. Existem outras provas filogênicas de que a tireóide era originalmente uma glândula exócrina anexa ao tubo gastrintestinal. As glândulas salivares e as gástricas são, do mesmo modo que a tireóide, capazes de concentrar iodeto, pois possuem uma bomba de iodeto semelhante à encontrada na tireóide. Ao longo do demorado processo de seleção natural, o homem e demais vertebrados perderam a capacidade de gerar os sistemas caniculares que drenavam a tireoglobulina para o trato gastrintestinal. Isso impede que a tireoglobulina passe a se acumular na própria glândula tireóide (como ocorre no homem), sob a forma de colóide cercado pelas células produtoras do hormônio foliculares. O armazenamento do colóide pode ser uma adaptação evolutiva, evitando os efeitos de períodos de carência com pouca captação de iodo. A glândula tireóide está localizada na frente da traquéia, na porção anterior do pescoço. Ela atua primariamente sobre a taxa do metabolismo, segregando para o sangue os hormônios tiroxina (T4 um pró-hormônio) e triiodotironina (T3 o hormônio ativo) produzidos nas células epiteliais de seus folículos, a partir da tirosina e do iodo inorgânico (iodeto inorgânico, I-). A glândula tireóide armazena seus hormônios, T3 e T4, ligados a uma glicoproteína, a tireoglobulina, mantendo- a fora da célula folicular, numa secreção viscosa, o colóide, contido no lúmem dos folículos. O iodo necessário à síntese hormonal é obtido a partir de pequenas quantidades presentes nos alimentos e nas bebidas. No estágio larval da lampréia, o tecido capaz de iodinar aminoácidos mantém comunicação com a faringe, mas durante a metamorfose, adquire a condição de tecido endócrino, ao perder a referida comunicação com o tubo digestivo. Tal tireóide produz tanto T3 (3,5,3’ triiodo-tironina) quanto T4 (3,5,3’,5’ tetraiodo-tironina ou tiroxina).

A calcitonina formada nas células C ou parafoliculares da tireóide influencia a taxa de metabolismo do osso e é secretada por quatro glândulas paratireóides mergulhadas no interior da tireóide.

1.4.2 Aspectos Embriológicos

A tireóide origina-se da faringe primitiva. Surge como uma invaginação da parede ventrocentral da faringe, entre o primeiro e o segundo arcos braquiais, na quarta semana da vida fetal. O esboço tireoidiano, na sua descida, fica unido à faringe por uma haste oca, denominada conduto tireoglosso, o qual se atrofia completamente antes do nascimento. Quando isto não ocorre podem-se formar cistos tireoglossos em seu trajeto, os quais se podem manifestar muitos anos após. A persistência dessa união embrionária entre a tiróide e a faringe, o canal tireoglosso, constitui a anomalia de desenvolvimento mais comum e clinicamente importante. O conduto tireoglosso pode terminar um fundo cego, próximo do osso hióide ou pode comunicar-se com a faringe através do forâmen cego na base da língua. Apresenta-se geralmente sob a forma de uma massa simétrica e lisa, na parte mediana do pescoço e em posição acima da tireóide, deslocando-se durante a deglutição. Freqüentemente, pode ser infectado e raramente dá origem a um carcinoma da tireóide; por essas razões, aconselha-se retirar todo e qualquer remanescente do conduto tireoglosso tão logo seja descoberto. Em casos de anomalia na descida do esboço tireoidiano, pode ser encontrado no adulto um tecido tireoidiano desde a base da língua até a parte inferior do pescoço e parte superior do mediastino. Os mais comuns são os bócios linguais, na base da língua, que podem existir como tireóide normal ou constituir o único tecido tireoidiano funcionante. No embrião humano, a tireóide se forma à custa de um esboço mediano na parede ventral da faringe primitiva (tubérculo tireoidiano), entre as extremidades abertas do segundo arco braquial. Recebe dois esboços laterais provenientes da quinta bolsa braquial, que trazem as células produtoras da calcitonina (células ultimobranquiais ou células C). Cresce caudalmente até se colocar em contato com os grandes vasos do pescoço. A evolução da glândula tireóide no feto compreende o início de sua função ao fim das primeiras 10 a 11 semanas de vida, quando surgem definitivamente T3 e T4. Como a placenta é totalmente impermeável aos hormônios tiroidianos, o feto depende de sua própria tireóide para obter estes hormônios. O TRH (mas não o TSH) materno atravessa livremente a placenta, tendo importante papel na manutenção do eixo hipófise-tiroidiano do feto.

1.4.3 Aspectos Anatômicos

Quando a glândula alcança a maturidade, está localizada em rente à quinta, sexta e sétima vértebras cervicais. Como ela repousa em relação à traquéia e está envolvida pela aponeurose cervical, que é ligada à cartilagem tireóide, a glândula move-se juntamente com elas, para cima, durante a deglutição. A tireóide possui dois lobos laterais conectados, ao nível do terceiro ao quinto anéis traqueais, por um istmo formado por fina camada de tecido tireoidiano, do qual pode surgir um lobo piramidal.

1.4.3.1 Aspecto Anatômico da Glândula

O istmo tem aproximadamente 0,5 cm de espessura, 2 cm de altura e 2 cm de largura. Cada lobo mede em média 2,0 cm de espessura, 2,5 de largura e 4,0 cm de altura. A glândula é circundada por cápsula fibrosa a partir da qual trabéculas de tecido conectivo se invaginam na substância da glândula, dividindo-a, assim, em numerosos lóbulos. A tireóide normal pesa cerca de 20 a 40 g, no adulto, variando o peso com o sexo, a idade e fatores endêmicos, como o bócio. O tamanho adulto da glândula (de 20 a 35 g) é alcançado na idade de 15 anos. Cada lobo tiroidiano é formado por estruturas esféricas denominadas folículos, que consistem de colóide arrodeado por uma camada única de células epiteliais dotadas de membrana basal. A composição do colóide é essencialmente protéica (tiroglobulina), que contém o estoque de T3 e T4.

1.4.3.2 Vascularização

A glândula tireóide é um órgão muito vascularizado, sangrando abundantemente durante cirurgias tipo tireoidectomia. A tireóide recebe sua irrigação sangüínea das artérias tireoidiana superiores e inferior, e freqüentemente a artéria tireóidea nasce da aorta ou da artéria inominada. Há uma quantidade considerável de anastomoses vasculares ente os vasos tiroidianos. As artérias tireoidianas superiores e inferior comunicam-se através de um tronco anastomótico, atrás dos lobos laterais. Este tronco é uma espécie de guia para as glândulas paratireóides.

1.4.3.3 Circulação linfática

A drenagem linfática é muito intensa e tem um significado especial quando existe um carcinoma. Os vasos linfáticos intraglandulares conectam livremente um lobo a outro, através do istmo. A drenagem externa é feita para os gânglios pré-traqueais, freqüentemente em associação com o nervo recorrente da laringe, para os gânglios da cadeia jugular profunda e triângulos secundários vizinhos e também para gânglios do mediastino superior. Tais devem sempre ser pesquisados à procura de características patológicas, que podem ocorrer quanto há metástase de neoplasia tireoidiana.

1.4.3.4 Inervação

A inervação da tireóide vem dos gânglios cervicais médios e inferiores da cadeira simpática, e acompanha os vasos sangüíneos. Além desses, o laríngeo superior e o recorrente da laringe, ambos sendo ramos do vago, estão tão estreitamente próximos que podem ser vistos constantemente durante uma tireoidectomia. A tireóide é considerada uma das maiores glândulas endócrinas, pesando em média 25g, mas dotada de enorme potencial para crescimento, compondo o bócio. Há casos de bócio em que a glândula pesa várias centenas de gramas. Eventualmente, um lobo piramidal pode surgir próximo ao istmo, sobretudo em glândula hipertrofiada. O lobo piramidal, quando existe, aparece como uma delgada massa de tecido que emerge do istmo e que se dirige para cima e para um dos lados da linha média; corresponde à última porção do duto tireoglosso. Existem três pares de veias que drenam glândula além de outras veias acessórias. As veias tireoidianas superiores e média desembocam na jugular interna, enquanto que a inferior conflui como um tronco que desemboca na inominada esquerda. As veias cobrem a superfície da glândula, anteriormente e sobre a traquéia, e se anastomosam livremente cruzando o istmo.

1.4.4 Aspectos Histológicos

Microscopicamente, a tireóide é composta por muitos pequenos folículos esféricos. A unidade funcional básica da tireóide é o folículo tiroidiano, uma formação esferóide com diâmetro variado entre 50 a 500 mm, com média ao redor de 180 mm. Uma única camada de células reveste a vesícula folicular, cheia de fluido viscoso, denominado colóide. O epitélio folicular é constituído por dois tipos celulares: células foliculares dotadas de microvilosidades e que são produtoras dos hormônios tireoidianos, e células claras (ou parafoliculares), em muito menor número, responsáveis pela produção de calcitonina. As células epiteliais que circundam o colóide são cubóides. Uma membrana basal circunda o folículo e está estreitamente relacionado ou mesmo, amoldado a uma rica rede de capilares que a circunda. Em repouso, o núcleo da célula folicular é central e ao microscópio eletrônico, somente uma pequena microvilosidade ocasional pode ser vista se projetando do citoplasma da célula para dentro do colóide. Os folículos tiroidianos estão ligados um ao outro, em grupos de vinte a quarenta, formando o que se denomina lóbulo, grupos de lóbulos estão agrupados em um lobo. As células foliculares não possuem características estruturais específicos, apenas as usuais em células especializadas na produção de proteínas para exportação. O citoplasma contém retículo endoplasmático extenso, com complexo de Golgi amplo, rico em vesículas contendo principalmente tiroglobulina em vários estágios de amadurecimento. Há grande quantidade de mitocôndrias, refletindo o elevado nível de atividade metabólica. Sob estímulo do TSH hipofisário, o complexo de golgi aumenta adicionalmente, formam-se pseudópodes aumentando a superfície apical da célula e invadindo o colóide, com intensa atividade de pinocitose (ou rofeocitose, "rofeo= colóide). Os núcleos podem estar no centro das células, e verificam-se numerosas mitoses. Nestas circunstâncias, o colóide existe em pequena quantidade, a vascularização da glândula aumenta e encontram-se, no estroma, infiltrados linfocíticos. A hiperatividade leva à hipertrofia do aparelho de golgi e ao aumento da quantidade de mitocôndrias. Eleva-se a quantidade de microvilosidades que se estendem para dentro do colóide, aumentando a área de superfície da célula; isso facilita os mecanismos de transporte através da membrana celular, em qualquer direção, ou seja, tanto para colocar tiroglobulina recém-sintetizada no colóide como para englobar o colóide presente no interior do folículo. Quando a atividade glandular diminui com o tratamento bem conduzido, segue-se à hiperplasia um processo de involução no qual as células acinosas tendem a achatar-se, e o colóide acumula-se novamente. Este acúmulo de colóide dentro dos folículos, acompanhando pelas alterações fibróticas no estroma, confere à glândula um aspecto globular. No folículo em repouso, o epitélio está achatado e há grande quantidade de colóide. Este epitélio torna-se pregueado e as células aumentam de tamanho, tornando-se colunares quando ocorrem hiperplasia e hipertrofia no curso de um quadro de hipertiroidismo. As células parafoliculares, um conjunto de células engajadas no controle da calcemia, difusas pelo tecido tiroidiano, produzemcalcitonina . Elas diferem das células foliculares principalmente porque nunca fazem fronteira com o colóide e têm menor quantidade de mitocôndrias e retículo endoplasmático rugoso.

1.4.5 Biossíntese dos Hormônios Tireoidianos

A glândula tireóide tem como precípua função produzir, armazenar e liberar para o consumo periférico, dois derivados de aminoácidos iodados (tironinas): um tetrasubstituído, a tetraiodotironina, ou tiroxina (T4) e outro trissubstituído, a triiodotitonina (T3).

1.4.5.1 Metabolismo do iodo

A absorção intestinal de iodeto é praticamente total, e as duas principais fontes de depuração plasmática são a tireóide e o rim. A ingesta diária de iodo varia de acordo com a região geográfica do mundo, numa faixa que vai de até menos de 20 µg a até 700 µg, em certas regiões dos EUA; não há dados seguros a respeito de Brasil. É muito provável que os adeptos da chamada cozinha baiana tradicional, em função de freqüente abuso de sal (que é iodado), faça ingesta de iodo ainda maior que 700 µg/dia. A captação ideal de iodeto para adultos é calculada como sendo de 150 a 300 µg/dia. Uma ingesta abaixo dessa faixa leva invariavelmente à condição conhecida como bócio endêmico. Um consumo diário de 150 µg é normalmente suficiente para salvaguardar contra o desenvolvimento do bócio. O elemento entra no organismo através do alimento ou da água, como iodeto iônico (I-), iodo (I2) ou como iodo em combinação orgânica. A maioria das formas é reduzida durante a digestão, sendo absorvida como iodeto inorgânico, mas alguns compostos iodados orgânicos, incluindo a tiroxina, podem ser absorvidos intactos do trato gastrintestinal. Todo o iodeto absorvido distribui-se em um espaço de aproximadamente 25 litros de líquido, atingindo uma concentração plasmática no adulto normal entre 1 e 3 µg/dl. O organismo perde o iodo principalmente através do rim e, em menor quantidade, nas fezes. A quantidade de iodo eliminada diariamente na urina depende da ingesta e é maior numa área onde o sal de mesa é o iodado ou onde se consome muito peixe marinho e/ou os achados frutos do mar. A maior parte dos hormônios circulantes é desiodinada e o iodo assim liberado retorna à reserva de iodo do plasma. O corpo humano contém um pool de 20 a 50 mg de iodo e a maior parte dele se encontra na tireóide. No adulto, são movimentados 60 a 120 µg de iodo hormonal por dia e o estoque de hormônio tireóideo constitui uma reserva para 7 a 15 semanas.

1.4.5.2 Biossíntese de Hormônio Tiroidiano

São descritas quatro fases seqüenciais:

1. Captação do iodeto

2. Síntese da tiroglobulina

3. Digestão da tiroglobulina

4. Liberação do hormônio.

1.4.5.3 Captação de iodeto pela tireóide

Exceto na vigência de intoxicação por iodeto, em que os níveis plasmáticos deste halogênio estão enormemente elevados, a síntese adequada dos hormônios tiroidianos requer que o iodeto penetre na tireóide mais rapidamente que o possibilitado por difusão passiva a partir do líquido extracelular. Por este motivo, a glândula tireóide é dotada de um mecanismo altamente sofisticado para captar iodeto ou, simplesmente, bomba de iodeto, que se responsabiliza por fornecer todo o iodeto necessário à intensa síntese hormonal. A tireóide concentra iodeto contra um gradiente eletroquímico:

  • Elétrico, porque o iodeto é negativo e o interior da célula onde penetra também;

  • Químico, porque a concentração intracelular é 25 a 40 vezes maior que o externo.

Normalmente a tireóide contém cerca de 10 µg de iodeto livre ou permutável, em comparação com 5000 a 7000 µg de iodo organicamente ligado. O iodeto passa do capilar para o interstício tiroidiano por simples difusão, mas do líquido intersticial para o interior da célula folicular há transporte ativo, mediante operação da bomba de iodeto ATP-dependente . Este iodeto bombeado mescle-se com o originado por desiodinação de aminoácidos iodados da própria tireóide. A captação do iodeto pela tireóide é estimulada pelo TSH, que aumenta a quantidade (hiperplasia) e o tamanho (hipertrofia) de cada célula. Assim, a captação de iodeto está diminuída pela hipofisectomia ou quando a produção do TSH é deprimida por uso de hormônio tireóideo exógeno. Os íons perclorato e o tiocianato inibem o mecanismo de transporte de iodeto, reduzindo deste modo a síntese de hormônio por falta de matéria-prima. Carbonato de litium, administrado em pacientes com psicose maníaco depressiva, interfere com várias etapas do metabolismo tiroidiano do iodo, podendo inibir a liberação do hormônio. A dexametazona, um glicocorticóide sintético, também é capaz de interferir no metabolismo do iodo pela tireóide. O tecido tireoidiano não é o único capaz de concentrar iodo, já que isso também ocorre com as glândulas salivares, a mucosa gástrica e intestinal, as glândulas mamárias, o colo uterino e a placenta. Estes órgãos possuem bombas extra tireoidianas de iodetos. O iodeto incorporado pelas tireóides é logo organificado, isto é, fixado em aminoácidos para usa utilização na síntese da tiroxina e da triiodotironina. Ao contrário, as glândulas salivares, a mucosa gástrica e intestinal e a placenta não são capazes de organificar o iodeto captado, isto é, não o fixam em substâncias orgânicas. A glândula mamária, por sua vez, seria capaz de produzir diiodotirosina em vez de tiroxina ou triiodotironina.

1.4.5.4 A formação da tiroglobulina

A tireoglobulina é uma glicoproteína contendo cerca de 5 000 aminoácidos (PM 660 000); de conteúdo em carboidrato não muito grande (aproximadamente 10%), e que inclui glucosina, fucose, galactose, manose e ácido siálico. Os aminoácidos que farão parte da tireoglobulina compõem o pool extracelular, sendo transferidos do plasma para as células foliculares; os mesmos são reunidos numa seqüência específica ditada pelo RNAm transcrito do gene para tiroglobulina, mediante tradução citoplasmática ribossômica. O produto que sai do retículo é a préprotireoglobulina. A pré-pró-tireoglobulina é armazenada no complexo de golgi, onde sofre reação com os carboidratos (processo de glicosilação), convertendo-se em prétireoglobulina. A passagem do retículo endoplasmático rugoso, onde é sintetizada, para o complexo de Golgi ocorre através migração por canais específicos. A pré-tireoglobulina é transformada em tireoglobulina madura mediante as reações de iodinação (organização do iodeto inorgânico), quando surgem MIT (em pequena proporção), DIT (grande quantidade), T3 e T4. De uma maneira geral, cada tireoglobulina contém uma ou duas moléculas de T3, algumas moléculas de T4 e várias moléculas de MIT e DIT.

(Parte 2 de 4)

Comentários