Melhoramento genetico de caprinos e ovinos

Melhoramento genetico de caprinos e ovinos

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MELHORAMENTO GENETICO DE CAPRINOS E OVINOS Théa M. M. Machado 1

Neste trabalho procurou-se abordar novos parâmetros genéticos na seleção de caprinos e ovinos. Os principais aspectos considerados são aqueles relacionados à produção de carne e leite. O melhoramento da produção de lã não foi aqui enfatizado porque o autor não convive com esta realidade, países como Uruguai e Argentina têm trabalhos mais avançados que o Brasil nesta área e, o preço da lã no mercado internacional nos últimos anos não tem favorecido o incremento desta atividade.

Por fim, procurou-se mencionar alguns trabalhos conduzidos na América Latina, sobre o melhoramento ou a conservação destas espécies.

1. MELHORAMENTO GENETICO 1.1. Parâmetros genéticos para a seleção

Como bem observa RICORDEAU (1992), os parâmetros genéticos das principais características de produção e da reprodução, são conhecidos há mais de 40 anos. Estas estimativas pouco variaram (Tabela 1). O que há de novo, é a variabilidade dos caracteres mensurados, dentre eles um número cada vez maior de componentes da reprodução, da eficiência alimentar, da resistência dos animais às doenças e ao parasitismo em particular.

A seleção sobre a fecundidade dos animais domésticos foi revista por BOLET & BODIN (1992), que tecem considerações sobre a fertilidade, o rítmo de parições, a prolificidade, a precocidade reprodutiva e a longevidade das fêmeas. A pressão de seleção poderia, em tese, ser exercida diretamente sobre a prolificidade, ou indiretamente sobre a taxa de ovulação ou a taxa de sobrevida embrionária. Procura-se novos critérios indiretos, como circunferência escrotal para fertilidade do macho ou taxa de FSH em fêmeas antes da puberdade para prolificidade. Considera-se ainda a possibilidade de seleção sobre dois ou mais parâmetros combinados de maneira aritmética ou ponderada - dito ‘critério global’ ou ‘índice econômico’. Para o melhoramento genético, acredita-se contudo que os genes maiores possam ser mais promissores que os parâmetros indiretos. No caso dos ovinos, é conhecido o gene maior Booroola, que determina a taxa de ovulação. São também vistas com reservas as possíveis associações entre fecundidade e os caracteres de produção.

1 Doutora em Genética pela Universidade de Paris. Professora do Departamento de Produção Animal da Universidade Federal de Uberlândia, CP 593, Campus Umuarama, 38400-902 Uberlândia, MG, Brasil thea@ufu.br

Tabela 1. Herdabilidade das principais características dos ovinos e dos caprinos h² Mensurável em 1 dos sexos Mensurável nos 2 sexos

0,0

Reprodução/Produção leite Crescimento e carcaça Sobrevivência e resistência

0,05

Viabilidade dos cordeiros ao nascimento ou desmama

Tamanho da ninhada (CV 40%) Viabilidade embrionária (CV 15%) 0,10 Concentração espermática

0,15 Fertilidade pós-parto na contraestação Intervalo entre partos

Peso ao nascimento

0,20 Conformação Produção anticorpos (gene maior em caprinos?)OIT1

Índice de consumo, em caprinos 0,25 Época do primeiro parto ( à puberdade) Produção leiteira

Gordura sub-cutânea

(Quantidade de volumoso consumido em pastejo) Peso adulto

Resistência a « body stike »

0,30 Época do primerio estro na estação Velocidade de crescimento Resistência ao frio 2

Resistência ao parasitismo 2 e 3 0,35 Diâmetro testicular 2

Peso de velo Resistência ao frio 3 0,40 Taxa de ovulação (CV 25%)

Fibras musculares (h²> 0,4) 0,45 Diâmetro da carcaça

0,50

Nível de FSH das cordeiras de 5 semanas de idade

Comprimento da carcaça TB e TP do leite de cabras

Alpinas 0,5 Diâmetro testicular 3

0,60 Área de « noix de côtelette » (CV 7%)

Finura da lã

Caseina e matérias azotadas totais do leite de cabra 0,65 Débito de leite ao primeiro minuto de ordenha, em caprinos (gene maior hd)

Resposta à produção de anticorpos, em ovinos

Fonte : RICORDEAU (1992) 1. OIT= Oestrogen-induced transdifferentiation : esterilidade devido aos estrógenos do trevo; 2. Herdabilidade estimada; 3. Herdabilidade comprovada em experimentos de seleção

Em bovinos, quase todas as análises concluem que há antagonismo entre caracteres leiteiros e da reprodução, variando segundo os parâmetros avaliados. Este antagonismo seria de natureza genética e independente das condições de meio, assim como pouco dependente do critério leiteiro tomado em consideração (quantidade de leite ou riqueza do leite). Entre o potencial leiteiro e a fertilidade este antagonismo em bovinos é de moderado à forte. Sabe-se que a mobilização corporal exigida na lactação bovina influencia negativamente a fertilidade (RICORDEAU, 1992).

Nos pequenos ruminantes, entretanto, este antagonismo entre produção leiteira e reprodução não deve ser colocado nos mesmos termos que em bovinos, uma vez que as implicações destas duas funções estão desconectadas no tempo para a espécie ovina ou, ocorrem simultaneamente somente no final da lactação para a espécie caprina (BARILET & BONAÏTI, 1992).

Admite-se que a seleção direta sobre o crescimento testicular não melhora a taxa de ovulação, mas este tipo de seleção produziria ovelhas precoces (com um menor peso à idade adulta), mais férteis e mais produtivas em termos de cordeiros vivos aos 7 meses de idade/ovelha coberta (RICORDEAU, 1992).

Sabe-se que o fenótipo branco dos ovinos é devido a um alelo dominante sobre aqueles das demais cores, que tem um efeito favorável sobre o peso aos 70 dias (+2%) e um efeito desfavorável sobre a prolificidade (-5 a -6%). São contraditórios os dados sobre fertilidade comparada de ovelhas brancas e de ovelhas coloridas na contra-estação reprodutiva (RICORDEAU et al., 1992a).

O crescimento até a desmama depende de ‘efeitos genéticos diretos’ ou capacidade de crescimento do jovem e de ‘efeitos genéticos maternos’ também dito valor leiteiro da mãe ou aptidão ao aleitamento. Estes parâmetros permitem supôr uma seleção eficaz em ovinos para corte, um vez que apresentam elevada herdabilidade (Tabela 2). A existência, contudo, de uma relação genética negativa entre efeitos diretos e maternos levam a correlações fracas entre efeito paterno (variações entre pais) e efeito materno (variações entre mães ou avós maternas).

Tabela 2. Parâmetros genéticos de crescimento antes da desmama, em ovinos Île-de-France

Característica Peso aos 10 dias Ganho 10-30 dias Peso aos 30 dias h2 direta ou paterna 0,37 0,42 0,41 h2 maternal +0,30 +0,29 +0,3 rg (direta/maternal) -0,62 -0,70 -0,61

(+) (+)
rg Crescimento (mãe/aptidão carne) (+) (+)

rg Produção leiteira (direta/ caracter maternal)

(+) (+)

rg Peso total carne (mãe/aptidão carne) Fonte : POIVEY et al., 1987 apud MÉNISSIER et al., 1992

As perspectivas do emprego de novos critérios no melhoramento genético da produção leiteira dos ruminantes foram cuidadosamente abordadas por BARILLET & BONAÏTI (1992). Os pesos atribuidos aos diversos parâmetros na seleção são considerados em função de suas variabilidades, herdabilidades e correlações, mas também em função dos objetivos da seleção para cada espécie e do contexto econômico (Tabela 3).

Tabela 3. Progressos Genéticos realizáveis em dez anos segundo o critério de seleção em ovinos leiteiros

Caracter

Critério de seleção LEITE QMG QMP QMSU TB TP TMSU TB/TP

LEITE +40,0 +2,07 +1,76 +3,83 -3,58 -2,46 -6,04 -0,01 QMG +34,6 +2,54 +1,83 +4,37 +2,24 +0,2 +2,46 +0,04 QMP +37,1 +2,26 +1,90 +4,16 -0,56 -0,45 -1,01 -0,01 QMG + 1,85QMP +37,0 +2,24 +1,90 +4,36 +0,56 -0,45 +0,1 +0,02 QMP + 1,85QMP + 0,1 TP +3,9 +2,45 +1,89 +4,34 +1,90 +0,45 +2,35 +0,02

LEITE = Quantidade de Leite, QMG = Quantidade de Matéria Gorda, QMP = Quantidade de Matéria Protéica, QMSU ou Quantidade de Matéria Seca Útil = QMG + QMP, TMSU ou Teor de Matéria Seca Útil = TB + TP Fonte : BARILLET & BOÏNATI (1992).

Em caprinos, as taxas protéicas ou de matérias azotadas no leite dependem de genes maiores. As proteínas ‘verdadeiras’ do leite de cabra seriam a soma das proteínas solúveis e das quatro caseínas. Entre estas, a caseina αS1 que possui pelo menos sete alelos, correspondentes a taxas variáveis de síntese desta caseína (RICORDEAU, 1992).

As cabras portadoras de um a lelo ‘forte’ para Caseína αS1 têm uma taxa protéica mais elevada que as demais. A diferença de TP entre animais portadores do genótipo forte (A) ou não

(F) é de cerca de 4g/kg leite. Esta diferença é bem maior que aquela observada entre as duas principais raças caprinas francesas (0,5 g/kg) e que o desvio padrão genético intra-raça (1,3g). Quando o principal destino do leite é a transformação em queijo, a idéia de utilização preferencial de animais portadores de um alelo ‘forte’ é tentadora e a seleção destes pode ser feita desde o nascimento, uma vez que a informaçéao é ‘lida’ diretamente sobre o genoma. Ela permitiria aumentar a taxa protéica do leite de maneira mais rápida que a seleção tradicional, onde TP ocupa a segunda prioridade. A caseína do leite de cabra é por hora o modelo empregado no estudo das dúvidas e da problemática que trazem as relações entre polimorfismo das proteínas do leite e sua aptidão à transformação (PIACÈRE & ELSEN, 1992).

Tabela 4. Variabilidade das correlações genéticas e fenotípicas de caracteres leiteiros de ovinos e caprinos

Espécie e Matéria protêica, kg e % Matéria Butírica, kg e % Fonte raça Genética Fenotípica Genética Fenotípica

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